Superman comunista vigia o mundo do céu e impõe a paz

“Entre a Foice e o Martelo” é uma das obras mais queridas pelos fãs do herói, mas mantém o espírito da Guerra Fria, com clichês ianques

Francisco Costa

O Superman, dentre outras coisas, representa os valores dos Estados Unidos. O herói é conhecido por seus pares como o escoteiro, de tão certinho que é. Criado por Jerry Siegel e Joe Shuster há 81 anos, o último filho do planeta moribundo Krypton aterrissou ainda bebê em Smallville, no Kansas. Mas e se tivesse sido em outro lugar?

Mark Millar, em 2003, imaginou a nave do símbolo estadunidense caindo em uma fazenda coletiva na União Soviética e deu origem a uma das mais cultuadas histórias do personagem: “Superman — Entre a Foice e o Martelo”. A arte fica por conta de Dave Johnson, Kilian Plunkett, Andrew Robinson e Walden Wong.

Desde seu lançamento, em 2003, os fãs aguardam ansiosos por uma nova impressão, visto que a original (que foi dividido em várias edições) estava esgotada há anos. Eis que, no segundo semestre de 2017, a Panini atendeu aos leitores e lançou a obra em um encadernado completo.

São 172 páginas em cores, no formato 26,4 x 17,2 e capa dura. E vale dizer: a HQ é a número 69 em vendas de livros na Amazon e a número 20 em Graphic Novels.

História

A trama começa com Perry White, do “Planeta Diário”, acordando a repórter Louis Luthor (Louis é casada com Lex Luthor) para avisá-la de um pronunciamento de Washington: Dwight “Ike” Eisenhower (1890-1969) anuncia que a União Soviética possui a arma definitiva: um Superman comprometido com os valores comunistas.

Inclusive, enquanto Luthor é o maior gênio do mundo a serviço dos Laboratórios Stars e do governo dos EUA, Jimmy Olsen é um agente do FBI. A história também traz outros personagens importantes do universo DC, como uma Mulher Maravilha deslumbrada, um Batman anarquista, um Brainiac, bem, vilão (e crucial para a trama), além de uma tropa dos lanternas verdes liderada por Hal Jordan e mais.

Superman, logo no começo, se torna o sucessor do ditador líder regime, Ióssif Stálin — que não é retratado de forma tão tirânica quanto deveria. O herói se via como proletário a serviço do homem comum. Sem interesse por política. Mas tudo muda após ver uma velha amiga passando fome por conta do regime e ele decide, então, salvar a todos.

Outros pontos

A história se desenrola durante 40 anos com embates entre Superman e os planos de Luthor — se ameaça a hegemonia dos EUA, é inimigo a ser combatido. Mas não há mocinhos aqui. Lex Luthor não tem escrúpulos e o agora símbolo do comunismo é reduzido a um ditador que vigia o mundo dos céus e lobotomiza quem não concordar com ele — e consegue fazer uma utopia mundial, com exceção dos Estados Unidos.

Superman, de fato, força o mundo a aceitar a paz. Millar começou a escrever a história em 1995 (o Muro de Berlim caiu em 1989 e a União Soviética soçobrou em 1991), mas o sentimento de Guerra Fria está ali, bem como os clichês. “Se perdemos o controle, hoje no fim do dia essa gente vai estar em Washington bebendo vodca”, diz um soldado durante uma luta com o herói reimaginado.

Se é comunista, o protagonista não seria o mocinho acima de tudo — não sem os valores da América. Fora isso, a arte é boa. O final, este sim, tem algumas reviravoltas interessantes e uma ligação com o passado que realmente foi uma sacada de mestre.

Apesar das críticas, é preciso dizer que, sim, a história é boa. Acima da média — em alguns pontos há um sentimento de simplicidade e outros de complexidade. Se você está pronto para engolir cegamente que “os vermelhos são maus” e os “americanos são os mocinhos”, fica melhor ainda. De qualquer forma, ponto para originalidade de Millar.

Mark Millar: um criador múltiplo | Foto: Divulgação

Mark Millar

A história de Mark Millar, vale citar, foi indicada ao Oscar dos Quadrinhos, em 2004, o Prêmio Eisner. Mas não levou. Ele é escocês, nascido em Coatbridge, e autor de outras obras de sucesso no mundo dos quadrinhos, como Os Supremos, Velho Logan, Authority, Kick-Ass, Kingsman.

Em 2004 ele criou a Millarworld, uma empresa para assegurar o direito de suas criações. Esta foi adquirida, em 2017, pela Netflix.

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