Escritores, jornalistas e políticos de Portugal e da África celebram Prêmio Camões pra Chico Buarque

Talvez seja possível dizer que a grande intervenção do compositor e escritor no Brasil é sua arte e que ela supera qualquer apoio a Lula da Silva, ao petismo, à esquerda

O escritor e compositor Chico Buarque de Holanda ganhou o Prêmio Camões (100 mil euros) — o Nobel da Língua Portuguesa.

Em Portugal, ao menos nos jornais e revistas consultados, não houve contestação à premiação, pois o brasileiro, criador cultural de obra muito ouvida e lida, é bem-visto pelos lusos. Críticos, escritores e políticos enalteceram suas qualidades artísticas. No Brasil, a recepção no geral foi positiva, mas nas redes sociais, dado o momento de conflagração política, o autor dos romances “Estorvo” (que mereceu análise de Roberto Schwarz, um dos mais importantes críticos brasileiros), “Benjamin”, “Leite Derramado” e “O Irmão Alemão” recebeu várias críticas (uma delas é recorrente: sua música superaria sua literatura). Prevalece, entre os detratores, uma interpretação política de sua obra, ou melhor, julga-se o escritor-compositor a partir de suas posições políticas pró-PT e Lula da Silva. A se aceitar a “tese” de que autores engajados não produzem boa literatura, a obra de Knut Hamsun, Louis-Ferdinand Céline, Erza Pound e Pierre Drieu la Rochelle deveria ser esquecida. Mas quem, com o mínimo de bom senso e conhecimento, há de olvidá-la?

Recolhe-se, a partir de agora, os comentários feitos em Portugal a respeito de Chico Buarque e sua obra complexa e variegada.

O presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, sublinha que, “ao premiar Chico Buarque, o júri do Prêmio Camões reconheceu ‘naturalmente também o extraordinário escritor de canções, um dos maiores da Língua Portuguesa’”. O político ressalta que a canção, “gênero ancestralmente ligado à poesia”, tem “estatuto de dignidade literária”. “Premiar ‘letristas’ pode ser sujeito a discussão, mas premiar Chico Buarque só pode ser unânime, porque, tal como Bob Dylan para a língua inglesa, as canções de Chico traduzem um profundo conhecimento da tradição poética e um alargamento das fronteiras da linguagem musicada, trazendo um grau de sofisticação inédito à música que se diz, e bem, popular”, anota o líder da terra de Padre Antônio Vieira, Camões, Fernando Pessoa e Agustina Bessa-Luís.

O primeiro-ministro de Portugal, António Costa, corrobora: “Saiba que estamos em festa, pá”. O político afirma que os portugueses conhecem de cor os poemas e canções de Chico Buarque. Elogiou o escritor por sua preocupação com a linguagem. “Junto-me à alegria de ver Chico Buarque ganhar o Prêmio Camões 2019.”

A ministra da Cultura de Portugal, Graça Fonseca, comemorou: “Chico Buarque é o vencedor do Prêmio Camões 2019. A decisão foi tomada pelo júri da 31ª edição do prêmio, no Rio de Janeiro. Esta é a distinção de maior prestígio da Língua Portuguesa. Parabéns!”

(Portugal é um país pequeno — menor do que o Estado de Goiás — e com uma população similar — pouco mais de 10 milhões de habitantes — à da capital de São Paulo. Mas persiste um grande país. No campo cultural, tem escritores, poetas, intelectuais, cantores, compositores, artistas plásticos, editoras e livrarias de alta qualidade. Por vezes, sai na frente do Brasil, com seus quase 210 milhões de habitantes, em termos dos melhores lançamentos culturais transnacionais.)

O presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, destaca que a premiação coroa “uma obra literária de inestimável valor” e ressalta “o caráter e o profundo humanismo do premiado”. O político é o presidente da Conferência dos Chefes de Estados dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). “Nós todos, habitantes deste espaço multicontinental, herdeiro, useiro e fazedor desta língua que nos une — na dor, no sonho, na esperança e na alegria — vimos usufruindo um pouco desse universo criado, há várias décadas, por sua obra e arte”.

Manuel Alegre e Germano Almeida

O “Jornal de Notícias” publicou que o escritor Manuel Alegre disse “que o músico Chico Buarque tem contribuído para a difusão da língua e da cultura portuguesas, considerando-o das pessoas mais conhecidas no mundo artístico da Língua Portuguesa”.

À agência Lusa, Manuel Alegre — vencedor do Prêmio Camões 2017 — destaca que Chico Buarque “tem qualidade como artista, como compositor, como cantor, mas, sobretudo, como autor com características variadas múltiplas, todas elas ricas e enriquecedoras da Língua Portuguesa e da difusão da Língua Portuguesa. É provavelmente uma das pessoas mais conhecidas hoje no mundo artístico de Língua Portuguesa”. O autor de “Bairro Ocidental” diz que ficou “muito satisfeito” com a premiação do brasileiro. “De muitas formas, tem contribuído para a difusão da língua e da cultura portuguesa: como músico, como poeta, como autor teatral e como romancista.”

Ganhador do Prêmio Camões 2018, Germano Almeida, de Cabo Verde, realça a “singularidade” das músicas de Chico Buarque. As canções são, postula, “literatura”. “Chico Buarque é um músico, mas muito particular. A sua música tem mensagem, tem poesia. Não é um cantor vulgar”, disse Germano Almeida à agência Lusa. “Tudo está relacionado. Não há uma grande diferença nas diferentes formas de expressão. Romance, poesia e música contribuem para o mesmo desenvolvimento da humanidade, maior alerta das situações”, acrescenta o escritor cabo-verdiano.

O “Jornal de Notícias” comparou o prêmio concedido a Chico Buarque ao Nobel de Literatura dado ao compositor e poeta americano Bob Dylan. “Os dois compositores são vultos da arte e da música mundiais e não foram apenas distinguidos pelos percursos artísticos expressados através da música. Dylan é também poeta e Buarque juntou a dramaturgia e o romance à extensa e notável obra poética e musical, formando um percurso marcadamente literário.”

O poeta, ensaísta e filósofo brasileiro Antônio Cícero (irmão da cantora Marina), integrante do júri do Prêmio Camões 2019, pontua que “é evidente que este prêmio é um reconhecimento pela poesia dele nas letras de música, que também são literárias, não só pelos livros. São poemas. Grandes poemas. A música ‘Construção’, por exemplo, é um poema até raro de se fazer”. Compuseram o júri: Clara Rowland e Manuel Frias Martins, de Portugal, Antônio Carlos Hohlfeldt e Antônio Cícero Correia Lima, do Brasil, Ana Paula Tavares, de Angola, e Nataniel Ngomane, de Moçambique.

Chico Buarque com o pai, Sérgio Buarque de Holanda

O “Jornal de Notícias” acrescenta: “O mesmo se poderia dizer de muitos outros poemas escritos para música por Chico Buarque, reflexões densas sobre o prosaico, sobre vidas que se vivem nas ruas, trágicas e mágicas, tão perto do céu e do chão, tão junto do corpo e do coração. Como ‘Samba e Amor’, em que Chico tão bem se define: ‘No colo da bem-vinda companheira/No corpo do bendito violão/Eu faço samba e amor a noite inteira/Não tenho a quem prestar satisfação’”.

Aos 74 anos, Chico Buarque divulgou uma nota: “Fiquei muito feliz e honrado de seguir os passos de Raduan Nassar” (que ganhou o Prêmio Camões 2016). Ele já recebeu o Prêmio Roger Caillois, da França, “pelo conjunto da sua obra literária”. Por sinal, o crítico Wilson Martins percebeu ecos do nouveau roman francês na prosa do autor patropi.

Tão moderno quanto eterno

O crítico João Céu e Silva, do “Diário de Notícias”, publicou um artigo com o título de “Poeta de canções, dramaturgo e romancista: Chico Buarque é mais do que Bob Dylan”.

João Céu e Silva começa citando o verso inicial da peça “Calabar — O Elogio da Traição”: “Quero ficar no teu corpo feito tatuagem”. Chico Buarque escreveu o drama em parceria com o diretor de cinema moçambicano Ruy Guerra. “Pode-se dizer que só ‘Calabar’ justificaria o Prêmio Camões que Chico Buarque recebeu ontem [segunda-feira, 20] após a escolha do júri porque reúne nessa canção — e outras como ‘Anna de Amsterdam’ — a sedução capaz de pôr milhões a cantar enquanto pensam na condição humana da protagonista.”

João Céu e Silva, crítico literário, apoia prêmio apoia Chico Buarque

O jornalista pondera que “‘Calabar’ não é só música porque nessa peça já estava tudo o que faz de Chico Buarque um dos maiores criadores da Língua Portuguesa, a razão pela qual Portugal e Brasil instituíram este prêmio: além de compositor musical, é poeta e escritor de letras, autor de teatro e com meia dúzia de narrativas de ficção de fòlego”.

A premiação de Chico Buarque, sugere João Céu e Silva, “implode pela primeira vez com a norma de atribuir o Camões a ‘especialistas’ do clube da literatura, ficcionistas e poetas, uma orientação que vem desde a primeira escolha, Miguel Torga (1989), passou por Jorge Amado (1994), e no ano passado calhou a Germano Almeida”.

Tese do júri para premiar Chico Buarque com o Camões: “A contribuição para a formação cultural de diferentes gerações em todos os países onde se fala a Língua Portuguesa”. “Tal como o poeta/letrista/músico americano [Bob Dylan], também Chico Buarque é conhecido da maioria pelo que canta. Mas ambos têm uma outra faceta, sendo que aí Chico Buarque ainda leva mais vantagem. Não escreveu apenas ‘Calabar’ e não teve parceria só com Ruy Guerra, a dramaturgia do brasileiro tinha gerado antes a peça ‘Roda Viva’ e depois ‘Gota d’Água’, ‘A Ópera do Malandro’ e ‘O Grande Circo Místico’”, anota João Céu e Silva.

Chico Buarque se tornou “escritor de verdade”, na avaliação de João Céu e Silva, “com um romance inesperado, ‘Estorvo’, seguido de ‘Benjamin’, ‘Budapeste’, ‘Leite Derramado’ e o mais recente, ‘O Irmão Alemão’. Nem sempre conseguiu escapar às críticas de ter a vida facilitada por ser famoso mas a obra vai confirmando que não é apenas capaz de escrever canções. Prova disso é ter recebido já três Prêmios Jabuti, o mais importante do seu país, entre muitos outros”.

A tradição reza que só se torna escritor “de verdade” quando se publica romance, conto e poesia. Mas a música — e as letras — de Chico Buarque tem um refinamento que em geral escapa à criação artística de outros autores (poucos podem ser comparados; dois deles são Caetano Veloso e Milton Nascimento). É arte, é literatura, é poesia. “Construção” é quase um poema em prosa e é prosa em poema. A música é “prosiada” ou “proseada”.

As letras de Chico Buarque, admite João Céu e Silva, são poesia. O crítico nota que o escritor e compositor tem “grandes detratores” no Brasil. O motivo é o mais prosaico possível: confundem, propositadamente, o artista, o criador genial, com o militante político que apoia o PT e Lula da Silva. São uma coisa só? Na verdade, sua arte é pluridimensional, por isso sobrevive à circunstância, e sua posição política é unidimensional e ele, como qualquer outro cidadão, tem o direito de tê-la.

A conclusão de João Céu e Silva (que tem um excelente livro de entrevistas com António Lobo Antunes) é uma direta nos tempos atuais do Brasil: “Quem for reler a peça ‘Calabar’ vai rever os tempos atuais no Brasil, substituídos que foram os ocupantes portugueses e holandeses por uma estrutura política que continua a fazer o ‘elogio da traição’, o subtítulo da peça ‘Calabar’. Talvez se questione sobre a atualidade dos versos de uma outra canção da peça e considere que este Prêmio Câmões acertou mesmo no escritor/poeta/compositor que o júri escolheu: ‘Não existe pecado do lado de baixo do Equador’”.

Manuel Bandeira, Chico Buarque, Tom Jobim e Vinicius de Morais

Fica-se com a impressão de que Portugal felicitou mais Chico Buarque — espécie de João de Cabral de Melo Neto da música popular brasileira — do que o próprio Brasil. O contencioso político, o Fla X Flu, não permite que sua arte seja avaliada independentemente de suas posições políticas. Sua arte não é, claro, autônoma, mas não é um reflexo direto (talvez seja indireto) de sua intervenção política no país. Talvez seja possível dizer que, na verdade, sua grande intervenção no Brasil é sua arte e que ela supera qualquer apoio a Lula da Silva, ao petismo, à esquerda. A circunstância vai passar — como a ditadura —, mas sua arte continuará sólida, reverberante. O artista soube dotar sua criação artística de um apurado revestimento formal, com inventividade e imaginação. E, se retrata bem uma época, vai além dela. Extrapolou-a. Quanto ao engajamento político (que, por vezes, “camufla” a beleza de seu lirismo), o que se pode dizer é que não há nada que prove que tenha piorado sua arte. E se tiver aguçado sua mente, portanto sua arte?

A múltipla obra de Chico Buarque

1966 — “Ulisses” (primeiro conto, publicado no “Estadão”. Saiu depois no livro “A Banda”).

1974 — “Fazenda Modelo” (uma novela).

1978 — “A Ópera do Malandro” (teatro)

1981 — “Chapeuzinho Amarelho” e “A Bordo do Rui Barbosa”.

1991 — “Estorvo” (romance)

1995 — “Benjamin” (romance)

2003 — “Budapeste” (romance)

2009 — “Leite Derramado” (romance)

2015 — “O Irmão Alemão” (romance)

Lista dos que receberam o Prêmio Camões

1989 – Miguel Torga, Portugal,

1990 – João Cabral de Melo Neto, Brasil

1991 – José Craveirinha, Moçambique

1992 – Vergílio Ferreira, Portugal

1993 – Rachel de Queiroz, Brasil

1994 – Jorge Amado, Brasil

1995 – José Saramago, Portugal

1996 – Eduardo Lourenço, Portugal

1997 – Pepetela, Angola

1998 – António Cândido de Mello e Sousa, Brasil

1999 – Sophia de Mello Breyner Andresen, Portugal

2000 – Autran Dourado, Brasil

2001 – Eugénio de Andrade, Portugal

2002 – Maria Velho da Costa, Portugal

2003 – Rubem Fonseca, Brasil

2004 – Agustina Bessa-Luís, Portugal

2005 – Lygia Fagundes Telles, Brasil

2006 – José Luandino Vieira, Portugal/Angola (só o poeta se recusou a receber o Prêmio Camões).

2007 – António Lobo Antunes, Portugal

2008 – João Ubaldo Ribeiro, Brasil

2009 – Arménio Vieira, Cabo Verde

2010 – Ferreira Gullar, Brasil

2011 – Manuel António Pina, Portugal

2012 – Dalton Trevisan, Brasil

2013 – Mia Couto, Moçambique

2014 – Alberto da Costa e Silva, Brasil

2015 – Hélia Correia, Portugal

2016 – Raduan Nassar, Brasil

2017 – Manuel Alegre, Portugal

2018 – Germano Almeida, Cabo Verde

2019 – Chico Buarque, Brasil

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AGUINALDO DUTRA BRANDÃO

Prêmio muito merecido. Chico nos encanta, há muito tempo, com seu lirismo e seu conhecimento da vida. Parabéns. Eterno Chico. Viva Chico!