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“Imbilino em Cartaz: um caipira no cinema”, embora seja fruto de um trabalho acadêmico, é de leitura simples e fluída. É um desses raros livros feitos para serem realmente lidos, não para enfeitar estante de primo
Svetlana Aleksiévitch trouxe à luz as dores e as intimidades das mulheres soviéticas que estiveram nos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial
Contos do prudentino Rubens Shirassu Júnior constituem uma obra psicológica que perscruta o subterrâneo da desordem
Livro ganha edição comemorativa e mostra que a poesia de Nei Duclós permanece atual, mesmo após quatro décadas de seu lançamento
Com uma escrita leve, Nicholas Wapshott esmiúça detalhada e cronologicamente o debate entre os economistas Keynes e Hayek
Maurício de Almeida prova ser um autor marcante, ao examinar os efeitos contundentes do retorno inesperado de um pai à família a qual abandonou
No recém-lançado longa, a atriz vive uma roqueira cinquentona que, após ter largado a família para viver o sonho de estrela de rock, tenta salvá-la
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Reprodução[/caption]
Tacilda Aquino
Especial para o Jornal Opção
Quem acompanha a carreira de Meryl Streep sabe que não é exagero chamar a atriz de Super Meryl. Afinal, ela já fez de tudo no cinema: uma bruxa e uma primeira ministra e, até mesmo, mães às voltas com os problemas familiares em filmes, como no recente “Álbum de Família” (com Julia Roberts) e em “Um Amor Verdadeiro” (de 1998), no qual contracena com Renee Zellweger.
Com 66 anos, mais de setenta filmes, três Oscar e outras dezesseis indicações como Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, ela bem que poderia ficar em casa, colhendo os frutos de seu trabalho, vivendo de renda ou ajudando a alavancar a carreira de duas filhas atrizes, uma executiva de marketing e um filho músico. Ou, ainda, curtindo o marido Don Gummer, com quem é casada há mais de 35 anos.
Pensando assim, por que ver “Ricki and the Flash – De Volta Para Casa”? Para ver mais do mesmo? Não mesmo. Porque Super Meryl gosta de ir além e vê-la em ação é sempre gratificante. É como comprar toda a discografia de um cantor do qual se é fã. O disco pode nem ser grande coisa, mas a gente curte ouvir a voz do dito cujo, independentemente do que ele esteja cantando.
No caso do mais recente filme da Super Meryl, há outros aspectos que merecem atenção. Um deles é a reunião do diretor Jonathan Demme e da roteirista Diablo Cody, que têm suas carreiras associadas a histórias agridoces sobre personagens fora do padrão social que tentam se adaptar, ou ao menos conviver, com o mundo careta ao redor.
Parecia natural, portanto, que um dia os caminhos do veterano diretor de “Totalmente Selvagem” (1986) e da jovem autora da história de “Juno” (2007) e “Jovens Adultos” (2011) um dia se cruzassem em Hollywood. Este encontro aconteceu em “Ricki and the Flash – De Volta pra Casa”.
Aqui, Meryl é a roqueira cinquentona Ricki Rendazzo que, à noite, toca com a banda The Flash em um bar de uma cidadezinha do vale de São Fernando, na Califórnia, e, de dia, trabalha como caixa de mercado. Os fãs são alguns gatos pingados que – como eu –, curtem clássicos do rock e artistas como Bruce Springsteen, Tom Petty e outros nem tão clássicos assim, como Pink e Lady Gaga.
Assim, só para ouvir Meryl cantando “American Girl”, de Tom Petty; “My Love Will Not Let You Down”; de Bruce Springsteen; “I Still Haven't Found What I'm Looking”, do U2; “Get The Party Started”, de Pink – além de uma versão super cool de “Bad Romance”, de Lady Gaga já valeu a pena ter assistido “Ricki and the Flashes”.
Além das músicas interpretada pela banda, ainda se pode ouvir na trilha sonora artistas como Lucinda Williams, com “Walk On”, Emmylou Harris, em “Here I Am”, Henry Wolfe, com “For The Turnstiles” e The Feelies, em “Paint It Black”. A parte boa do filme é essa. Fora dos palcos, o filme não anda tão bem assim. O roteiro é muito pobre.
A líder do grupo mantém um romance meio enrolado com seu guitarrista Greg, o roqueiro Rick Springfield. Um telefonema vai revelar que a protagonista tem uma família: o ex-marido e também executivo bem-sucedido Pete, interpretado por Kevin Kline, liga para avisar que a filha do casal está em depressão porque seu casamento desmoronou. Ao cruzar o país para rever Julie, interpretada por Mamie Gummer (filha de verdade de Meryl), Ricki será confrontada pelo passado e pela opção de ter largado o lar e os três filhos para ir atrás do sonho de virar uma estrela do rock.
Ainda que coloque em discussão o senso comum a respeito do papel feminino dentro da família e provoque ao mostrar como a sociedade tolera os excessos dos roqueiros homens e condena essas mesmas atitudes das mulheres, falta ao filme a densidade dramática de “O Casamento de Rachel” (2008), outro longa em que Jonathan Demme mostra o reencontro de uma família disfuncional.
Fora dos palcos, um dos pontos altos de “Ricki and the Flash” é a química entre Meryl Streep e Kevin Kline. Eles já trabalharam juntos em “A Escolha de Sophia” (1982). Mamie Gummer, como a filha problemática, é uma boa surpresa do filme. Filha de Streep na vida real, a atriz não se permite ofuscar pela presença da mãe e conquista seu próprio espaço na tela, trazendo uma personagem desequilibrada, sarcástica e muito divertida.
Assista o trailer do filme.
O longa relembra os 25 mil soldados anônimos que atravessaram o Atlântico para lutar contra o exército nazista na Itália
A Segunda Pátria, novo livro do professor universitário e crítico literário paranaense, mostra a realidade do Brasil de Getúlio Vargas, caso o regime do totalitarista Adolf Hitler tivesse se alastrado até a América Latina
O ator Bradley Cooper, conhecido por suas atuações em comédias românticas ou pastelões como da série “Se beber não Case”, dá vida a este contraditório Chris Kyle, chamado na tropa pelo codinome “a lenda”, ou seja, um verdadeiro herói de guerra americano. E Eastwood não perdeu a oportunidade de explorar esta faceta do personagem.
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Reprodução[/caption]
Frederico Vitor
Atirar contra uma criança iraquiana, que está prestes a arremessar uma granada de fabricação soviética contra uma patrulha de fuzileiros navais americanos, é um drama cuja decisão se divide entre o dever patriótico e o senso de piedade de qualquer ser humano de boa alma.
Este é o dilema central de “Sniper Americano”, do premiado e bajulado diretor Clint Eastwood, que filmou a adaptação do livro American Sniper: The Autobiography of the Most Lethal Sniper in U.S. Military History, escrito pelo atirador de elite da Marinha americana, Chris Kyle.
Morto em circunstâncias trágicas, em fevereiro de 2013, aos 38 anos — foi assassinado por um ex-militar em um campo de tiros —, Chris Kyle nasceu e foi criado no Texas. Integrante da tropa de elite da Marinha dos Estados Unidos, Navy Seals — a unidade mais prestigiada do elenco das forças especiais estadunidenses —, Kyle teve sua vida marcada por idas e vindas ao campo de batalha no Iraque.
Seu maior drama é o protesto de sua mulher, Taya, vivida no filme com grande qualidade por Sienna Miller, que usa seus dois filhos para pressioná-lo a dar baixa do serviço ativo. Ela não suporta a ideia do marido dividir a vida entre a família e o rifle de precisão, seu instrumento de trabalho, com o qual obteve, entre 1999 e 2009, o maior número de tiros bem-sucedidos da história militar norte-americana, confirmado oficialmente pelo Pentágono: 160.
O ator Bradley Cooper, conhecido por suas atuações em comédias românticas ou pastelões como da série “Se beber não Case”, dá vida a este contraditório Chris Kyle, chamado na tropa pelo codinome “a lenda”, ou seja, um verdadeiro herói de guerra americano. E Eastwood não perdeu a oportunidade de explorar esta faceta do personagem, que é imerso nos valores da América do Norte: a caça, os rodeios, o chapéu, a fivela de cowboy e a conservadora formação cristã de uma típica família patriarcal sulista cujo lema é “defender uns aos outros.”
Motivado a entrar na Marinha após assistir duas embaixadas americanas na África serem explodidas por terroristas, Kyle é submetido ao duro treinamento no estágio de admissão no Navy Seals. O filme explora: seus primeiros tiros no campo de provas, onde seu dom de acertar alvos a longas distâncias e com precisão é revelado a seus superiores; o início do relacionamento com sua esposa; e a primeira missão no Iraque invadido por tropas americanas em 2003, dois anos após os atentados de 11 de setembro. Todos esses são elementos importantes do desenrolar da trama.
Taya é a testemunha mais próxima das transformações do marido de um simples cowboy texano numa verdadeira lenda militar. Entretanto, juntamente com a áurea de herói americano, surgem os efeitos colaterais da guerra, como surtos psicóticos e delírios paranoicos. A guerra, a qual Kyle conseguia dominar no início, passou a dominá-lo. Os sons de tiros, gritos desesperados e explosões tomam conta de sua mente.
Os horrores e as brutalidades de um conflito que é travado de casa em casa, de quarteirão a quarteirão, o obceca. Eastwood lança sobre as telas a carnificina de uma guerra perdida. A imoralidade de um extremista islâmico, que mata o filho de um colaborador iraquiano das tropas americanas, perfurando seu crânio com uma furadeira, atesta que a guerra ao terror é justificável, porém uma luta tão suja que, ao final, não poderá ser comemorada por ninguém.
Duelo
O duelo entre Kyle e Mustafá, um radical sírio que ganhou uma medalha olímpica por suas habilidades no tiro, foi outro “lance” do filme, servindo de prato cheio para um diretor que sabe, como poucos em Hollywood, massagear o ego da alma americana. Nada mais excitante do que retratar o confronto entre um cowboy texano e um atirador árabe. Ambos são, para seus respectivos povos, ícones de heroísmo, a personificação da coragem e tenacidade, símbolos de resistência e força.
Na medida em que Mustafá se move como um espectro pelos telhados de Fallujah, Iraque, liquidando um a um os colegas de Kyle, mais o herói americano se deixa sucumbir pela guerra. Para ele, cada morte de um irmão de farda é um motivo a mais para permanecer no Iraque. Afinal, quanto mais estende sua permanência nas areias do deserto, sua casa e a família ficam mais distantes. Nesta altura, o Texas é apenas uma miragem representada pela bandeira da estrela solitária pendurada na parede de seu alojamento no acampamento dos marines — os fuzileiros navais americanos.
A qualidade técnica do filme salta os olhos pela riqueza de detalhes ao ambientar a guerra e o universo militar americano. Os cenários, fotografia e efeitos são praticamente impecáveis; a cena da batalha em meio à tempestade de areia tem uma qualidade magnífica. A atuação de Cooper não chega a ser excepcional, mas dá para notar que o ator cresceu ao se entregar completamente ao personagem, como ter ganhado 18 kg de massa muscular para se assemelhar fisicamente ao corpulento Chris Kyle. Tanto que a interpretação lhe valeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator.
“Sniper Americano” não é a obra prima de Eastwood, não está no mesmo patamar de “Gran Torino” tampouco de “Menina de Ouro”. Porém, o filme que leva sua assinatura teve seis indicações ao Oscar (Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição, Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som), embora tenha recebido apenas uma estatueta por Edição de Som.
Talvez “Sniper Americano” tenha sido aclamado pelo público por reforçar o já surrado enredo de conflitos morais envoltos a um personagem viril, mas ao mesmo tempo de psicológico frágil. Ou pode ser uma provável justificativa de que os americanos precisam agradecer a Deus por seus soldados combaterem a ameaça real e latente do extremismo, nas montanhas do Afeganistão ou no deserto cercado pelos rios Tigre e Eufrates, mesmo que o saldo da aparente paz doméstica custe a vida de milhares de jovens. Seja lá qual for a interpretação, o longa é um “tiro” preciso de Eastwood nos dilemas americanos das primeiras décadas deste século.
Os contos de “Petaluma”, de Tiago Velasco, centram-se em momentos de transições absurdas e irreversíveis
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Em seus contos, Tiago Velasco conduz a realidade e a ficção a um efeito transformador Foto: Guilherme Lima[/caption]
Sérgio Tavares
Especial para o Jornal Opção
Há uma desnaturação recorrente nos contos de “Petaluma”, de Tiago Velasco. Personagens e lugares que se divorciam de suas características originais, transfazendo-se, coisificando-se. A única exceção fica por conta da narrativa que fecha e dá nome ao livro. Nela, o autor remonta um curto período de angústias e de incertezas, oferecendo ao leitor um relato cortante, no qual a realidade se impregna de ficção para ocultar nomes e traduzir sentimentos.
Tiago, o narrador-personagem em intercâmbio num país de língua inglesa, vai trabalhar como busboy no restaurante Petaluma. Atacado pelo desterro, pela condição de latino em meio a outros latinos que extraem de subempregos uma chance de redirecionar a vida, ele se vê escudado pela ideia redentora de ser jornalista e escritor. Chega a colaborar com sites e revistas sobre música, porém, gradualmente, a experiência se torna um trauma, cujo efeito irá ruir o relacionamento com uma namorada que viajou consigo e, ao contrário dele, não fraquejou e foi “engolida pela cidade”.
Ainda assim, o fato de o conto existir mostra que, a despeito do ressaibo, o autor-personagem cumpriu seu objetivo. Talvez, ele tenha diluído sua identidade por um momento, mas, logo à frente, a reconsolidou –– diferentemente dos demais textos em que a transformação é fatal e irreversível. Se em “Petaluma”, o conto, o autor lida com a verdade, o restante da antologia flerta com o absurdo. Um estranhamento penetrante, um não pertencimento que anula.
“A morta de São José”, cuja premissa se aparenta a do conto “A cabeça”, de Luiz Vilela, situa-se neste terreno movediço. Ali, igualmente estão “Em pedaços”, sobre um homem que acorda desmemoriado num hospital e sai pelas ruas à cata de si, e “Reflexo”, um retrato hedonista de como quebrar o ócio pode ser aterrador.
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Os contos de “Petaluma” guardam o compromisso de defender uma proposta e se saem tão bem quanto o autor, seguro na construção e na condução de sua prosa Foto: Reprodução[/caption]
Velasco adiciona doses sutis de um tipo rascante de humor em seus textos. É o que pode ser conferido no surreal “... a dois”, sobre um casal que, ao completar 40 anos de matrimônio, desperta com as pontas dos dedos da mão de um coladas nas do outro. O final é surpreendente e divertido, num estilo Monty Python de diversão.
“Estrangeiro” e “Ernesto/Andrezza” são os pontos altos, sobretudo se o leitor morar ou conhecer bem o Rio de Janeiro. O primeiro satiriza os roteiros turísticos pela cidade na pele de um carioca que, sem perceber, começa a estrangeirar. Já o segundo segue a rotina de um travesti que sonha em encontrar, entre os clientes, um “Brad Pitt para lhe sustentar”. Quando o acha, porém, o amor confronta-se à condição de ser uma mulher no corpo de um homem.
Apesar de não estabelecerem uma unidade temática, os contos de “Petaluma” guardam o compromisso de defender uma proposta e se saem tão bem quanto o autor, seguro na construção e na condução de sua prosa.
Leia um trecho de “Petaluma”, conto presente no livro de mesmo nome, do escritor Tiago Velasco:
"Hoje, nove ou dez anos depois, vejo Petaluma como a reunião das minhas neuroses. Não percebia naquele período. Não percebi durante esse tempo todo. Agora enxergo. Estou mais claro. Concreto. Não mais um fantasma. Aquele ser que passou por Petaluma.
*
1.
Acordei com o alarme polifônico do celular pré-pago compartilhado com Ela. Oito da manhã. Dormi já era mais de uma. Dois períodos de trabalho no dia anterior. Normal em Petaluma. Motivo de satisfação pra maior parte dos colegas de trabalho: money, plata, grana.
Enrolar mais um pouco na cama era impensável. Após despertar, uma energia dolorida e incômoda perpassava o corpo inteiro. Joelhos, cotovelos, calcanhares, nódulos dos dedos, as articulações existentes em mim concentravam a dor e a replicava. Ossos e veias, highways. A consciência do corpo, traumática e premonitória.
Uma hora para o banho, o café da manhã — uma fatia de pão integral com margarina I can’t believe it’s not butter e queijo, um copo de leite com chocolate em pó —, a roupa mais quente que tivesse no armário azul claro, a caminhada até o metrô suburbano, a espera pela composição da linha R, as três estações, o ônibus, uns quarteirões a pé. Menos quinze graus Celsius lá fora. E aqui, nos seis metros quadrados que divido com Ela, dentro de um apartamento de dois quartos de paredes de papel, o heater tornava o ambiente menos hostil.
A culpa, o medo, o fracasso iminente, a distância da pátria, a ausência eram reforçados toda vez que adentrava a porta de vidro de Petaluma. Ser um vencedor, como a cultura local solicitava, estava a léguas de mim, ali, no salão, rodeado de mesas e recém-colegas que dividiam tips, propinas, gorjetas.
Good morning, busboy. An expresso, please, dizia a manager russa quando não havia sonhado com Stalin e acordava de bom humor.
Good morning.
2.
Ao deixar todos pra trás, ainda no aeroporto, qualquer sensação de acolhimento se foi. O sujeito punk, ao encontro da terra punk, perdeu o moicano na apresentação da passagem à funcionária da companhia aérea. As primeiras lágrimas apareceram logo que eu e Ela saímos da vista dos nossos familiares. Não teria forças praqueles quatro ou cinco meses. A certeza veio antes de sacar o passaporte. E me apoiei n’Ela como gostaria de me apoiar agora. Deve ter visto o medo. Ainda não a sobrecarregava. Questão de tempo. Ela não suspeitava que ia cuidar de mim. Eu tinha certeza. Calei-me.
OBS 1:
Cheguei quase tão cedo quanto àquele dia, nove ou dez anos atrás. Sol fraco. Frio menos repulsivo. Em meio ao monóxido de carbono que saía dos escapamentos de táxis
e ônibus, um cheiro de não-sei-de-quê me trouxe aquele tempo de neuroses. Diferente. Os anos. Eu. O momento. Onde estará Ela?"
Título: Petaluma
Autor: Tiago Velasco
Editora: Oito e Meio
Valor: R$ 35,00
No estupendo “Enquanto Deus não está olhando”, Débora Ferraz retrata a busca de uma jovem pelo pai, que acaba por desvendar os anseios e os vazios de uma geração
“Livro dos Ex-Líbris”, organizado por Alberto da Costa e Silva e Anselmo Maciel, traz a história do ex-líbris, sua origem, os grandes colecionadores e o papel que desempenhou em vários períodos, além de ex-líbris selecionados de cinco grandes coleções nacionais
Iúri Rincon Godinho
Las Vegas é o paraíso dos antiquários nos Estados Unidos. Mas não qualquer um. A deliciosa e decadente região central da cidade abriga lojas com raridades ligadas à cultura pop, tipo bonecos do Elvis, revistas antigas, fichas de cassinos e caixinhas de fósforo. Uma delícia para encher a casa de coisas que a gente nunca vai precisar mas que são bacanas mesmo assim. Os antiquários nos Estados Unidos também emprestam dinheiro a juros, uma agiotagem consentida e bastante usada, vendem ouro e joias.
De todas essas lojas, chamadas de pawn shops, a mais famosa fica no início da Sunset Boulevard — praticamente a única rua de Vegas, onde está maioria dos cassinos —, dirigida por Rick Harrison. Seria apenas um antiquário descolado se não virasse seriado no excelente The History Channel, no Brasil com o nome de Trato Feito. A fórmula é simples: pessoas que compram as mais malucas quinquilharias, como um mapa do exército norte-americano da Segunda Guerra e anéis dos jogadores da liga de futebol dos EUA.
Este livro conta história da loja, a primeira a funcionar 24 horas na cidade, e, embora não seja dito, muito provavelmente para salvar com empréstimos na madrugada os viciados em jogo. O pai de Rick, chamado de Velho (sem sentido pejorativo) ou Old Man, serviu a Marinha na Segunda Guerra e abriu sem pretensão o negócio que o filho depois expandiria. Rick é um cara que a leitura e o conhecimento salvaram. Nunca gostou de estudar, mas ama ler. Adquiriu informações vastas, de tudo um pouco, que utiliza no negócio. Ao contrário de seu filho, que também trabalha no local e acabará herdando tudo.
No programa Trato Feito, a grande sensação não é da família Harrison, mas um funcionário gordo, pancada, apelidado Chum Lee. É o saco de pancada da turma, o cara que sabe que beira a imbecilidade e convive bem com isso, o que fica até mais tarde e o mais carismático. Ele pouco aparece no livro, tratado por Rick como uma obra sobre sua família e a pawn shop.
Agora os Harrison têm um show em Las Vegas e quase nunca aparecem na loja, que ficou fácil de ser achada pelas longas filas na porta. Quando vão gravar o Trato Feito, que é bem ensaiado antes e não tão natural quando aparenta, fecham as portas. Nas duas últimas vezes que fui a Vegas passei diariamente no local, o que dá aí umas 10 visitas. A única pessoa da família que vi foi o próprio Rick, que estava na porta. No que estacionei o carro ele já desaparecera.
Agora aqui em casa tem caneco do Trato Feito, camisa do Chum Lee e outras tranqueiras, mas o que eu queria mesmo, o autógrafo do Rick no livro, ainda terei de voltar lá pra conseguir.
Iúri Rincon Godinho é jornalista e publisher da Contato Comunicação.
Serviço:
Livro: “License to Pawn — Deals, Steals, and My Life at the Gold & Silver”
Autor: Rick Harrison
Editora: HYPERION
Páginas: 272
Gerald Martin realizou centenas de entrevistas, em 17 anos de pesquisa, para mergulhar na trajetória de Gabriel García Márquez e revelar os labirintos da vida do autor de “Cem Anos de Solidão”
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Gabriel García Márquez: um dos mais aclamados escritores da história. Ganhador do Nobel de Literatura, seus livros venderam mais de 50 milhões de cópias em todo o mundo | Foto: Edgard Garrido/Reuters[/caption]
Salatiel Soares Correia Especial para o Jornal Opção
O incidente aconteceu num cinema na Cidade do México, em 1976. Lá estava prevista para ocorrer a première do filme “Os Sobreviventes dos Andes”, do qual um importante escritor da América Latina era o autor do roteiro. De repente, um velho amigo desse escritor que estava presente abriu os braços para ele e fez uma calorosa saudação: “irmão”!
A resposta ao cumprimento não poderia ser mais inesperada. O cumprimentado, praticante de boxe amador, deferiu um potente soco no olho direito de quem o cumprimentou e disse: “Isso é pelo que disse a Patrícia”. Alguns afirmam que o nocauteador proferiu a seguinte frase: “Isso é pelo que fez à Patrícia”. Pouco importa o motivo, o estrago já estava feito. A potência do soco foi tamanha que o nocauteado caiu, bateu a cabeça no chão e ficou de fato tonto. Os dois protagonistas da lamentável contenda nunca mais se encontrariam. Nunca mais se falariam.
A verdade nunca, de fato, saberemos qual foi. O fato é que aquele soco encerrou uma amizade de 10 anos entre dois dos mais importantes escritores da América Latina: o peruano Mario Vargas Llosa e o colombiano Gabriel García Márquez.
Passados quase 40 anos do episódio, as especulações a respeito do fato persistem até hoje. Ciúme da mulher, inveja pelo sucesso que o colombiano vinha obtendo como escritor. O recente falecimento de Gabriel García Márquez levou com o ele o segredo para o túmulo. Mario Vargas Llosa, ao ser recentemente indagado a respeito do episódio, foi de uma elegância que reflete o respeito que possui pela obra de seu então opositor. “É um pacto [a razão do atrito] entre García Márquez e eu. Ele respeitou isso até sua morte e vou fazer o mesmo [...] vamos deixar a nossos biógrafos, se merecemos isso, investigar o assunto.”
Gabriel Garcia Márquez se foi deste mundo, mas sua obra certamente vencerá as areias do tempo. O episódio relatado se encontra na obra de seu biógrafo inglês. Só mesmo a paciência de um inglês, evidenciada em 17 anos de pesquisa, foi capaz de mergulhar nas entranhas da vida do autor de “Cem Anos de Solidão” e revelar os labirintos de sua vida. Este inglês se chama Gerald Martin. Falemos um pouco dele para, em seguida, mergulharmos no esplendor de sua obra.
Professor emérito de línguas modernas na Universidade de Pittsburgh é ele, também, pesquisador sênior de Estudos do Caribe na London Metropolitan University. Mais conceituado biógrafo de Gabriel García Márquez, Gerald Martin é um profundo conhecedor da América Latina. Para produzir seus escritos, viajou pelos lugares onde viveu o autor de “O Amor nos Tempos do Cólera”. Conheceu seus hábitos, as histórias contadas por gente próxima do escritor, pesquisou documentos para, enfim, pacientemente, compor as 814 páginas do mais importante mergulho que já se fez na vida de um dos maiores escritores do século 20.
Fonte da imaginação
O fluxo da vida se passa como num filme cujas imagens vão se desencadeando e explicando o âmago de nossa existência. Se existe uma etapa na vida de Gabo que irrigou sua obra literária esta se passou ao lado daquele que seria a maior influência em seus escritos: os avós. O coronel Nicolás Márquez e a avó Tranquilina Igurán foram os verdadeiros pais do menino Gabito.
Criado distante dos irmãos e da influência paterna e materna, o autor de “Crônica de uma Morte Anunciada” passou a infância em Aracataca; e os pais, noutra cidade da Colômbia (o pai de García Márquez era farmacêutico e viveu nas cidades colombianas de Sucre, Cartagena e Barranquilla). Gabo e o avô eram, na verdade, os únicos homens numa casa repleta de mulheres, por onde transitavam a avó, tias, empregadas.
Certamente, a companhia feminina e a dependência delas exerceram influências decisivas na vida do futuro escritor. Nessa ambiência é que se destacava a figura masculina do avô Nicolás. Quem já conhece a história de vida desse grande autor colombiano, não terá dúvidas de que toda consciência política de Gabito foi moldada no imaginário do escritor, sob a influência do coronel Nicolás Márquez, este foi um ativo participante da Guerra Civil colombiana. Quanto a isso, conta-nos seu biógrafo que “seria ele [Gabriel] quem herdaria as memórias do velho coronel, sua filosofia de vida e sua moralidade política, além da visão de mundo; o coronel viveria através dele. Foi o avô quem lhe contou sobre a Guerra dos mil dias sobre os próprios feitos e os de seus amigos, todos liberais heroicos; foi o coronel quem explicou a presença das plantações de bananas, da United Fruit Company, com suas casas, lojas, quadras de tênis e piscina da companhia e os horrores da greve de 1928. Batalhas, cicatrizes e lutas. Violência e morte”.
United Fruit, a luta entre conservadores e liberais, a greve de 1928, as revoluções de um continente fadado a revoluções. Todos os ingredientes estavam ali para tomar forma e tornarem-se, anos mais tarde, um dos mais celebrados romances que levariam Gabriel García Márquez ao patamar ao qual se encontrou durante toda sua vida e, certamente, transcenderá a sua morte. O romance de que falo é o célebre “Cem Anos de Solidão”, o mais importante livro escrito em língua hispânica depois de “Dom Quixote”.
Outra fonte dos personagens encontrados nos romances do futuro escritor foi coletada nas cidades que a família García Márquez viveu. Nesse sentido, relata-nos seu biógrafo: “Ali [em Sucre, uma das cidades que os pais de Gabo viveram] ou em outras cidades vizinhas, Gabito conheceria muitos de seus personagens mais conhecidos, entre eles, a inocente Erêndira, de ‘A Incrível e Triste História de Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada’, e a prostituta que ele chamaria de Maria Alejandrina Cervantes em ‘Crônica de uma Morte Anunciada’”.
A história de amor entre os pais foi outra fonte inspiradora que a mente criativa de Gabriel García Márquez imortalizaria naquele considerado, por muitos (incluo-me nesta opinião), como um dos mais belos romances de amor produzido pela literatura universal. Falo de “O Amor nos Tempos do Cólera”. Em vida, o neto do coronel Nicolás sempre afirmou que esse belíssimo romance — e não “Cem Anos de Solidão” — de fato será seu passaporte para a imortalidade.
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Por ciúme de sua mulher, Vargas Llosa nocauteou García Márquez. Nunca mais se falaram | Foto: David Levenson[/caption]
O gosto pelo cinema foi outra influência que o garoto Gabito aprendeu a apreciar convivendo com o avô na sua primeira infância. Era costume do coronel Nicolás levar o neto para assistir os filmes que passavam na pequena Aracataca. Seu biógrafo assim descreve os primeiros contatos do menino Gabito com o cinema: “Ele [o avô] costumava me levar para ver todo tipo de filme, ele me fazia contar-lhe a história, para ver se eu tinha prestado atenção. Assim, não somente preservei com muita clareza os filmes na minha mente, mas também me preocupava em saber como poderia narrá-los, porque sabia que meu avô me faria contar a história, passo a passo, a fim de ver se eu tinha compreendido”.
O amor pela sétima arte se propagou no viver do futuro escritor. Anos mais tarde, passando um tempo em Roma, tornou-se, o jovem Gabriel, um frequentador dos famosos estúdios da Cinecittà. Creio ser do conhecimento de todos qual foi o destino do dinheiro ganho por Gabriel García Márquez quando do prêmio Nobel: fundar uma escola de cinema em Cuba. Além disso, certamente, a influência paterna foi decisiva para a profissão que um de seus dois filhos — Rodrigo — viria a abraçar, nos Estados Unidos: a de diretor de cinema.
Assim, as cenas do filme da infância do autor de “Crônica de uma Morte Anunciada” passam como tudo na vida passa, só permaneceram vivas na sua alma as lembranças de uma cidade solitária, repleta de personagens solitários que o mundo conheceria anos mais tarde como sendo a Macondo de “Cem Anos de Solidão”. O gênio do escritor daria universalidade à terra dos avós e mostraria ao mundo que, na América Latina, pratica-se uma literatura de alta qualidade. Certamente, o sucesso absoluto de “Cem Anos de Solidão” consagrou, anos mais tarde, a brilhante carreira literária de seu autor. Isso todo mundo sabe. O que pouca gente sabe é o que ele passou para chegar lá. “Todo mundo é meu amigo desde ‘Cem anos de Solidão’, mas ninguém sabe o que me custou chegar até aqui. Ninguém sabe que fiquei reduzido a comer lixo em Paris”, disse ele a seu biógrafo, explicando-se, em seguida, a respeito da espantosa afirmação: “Uma vez, estava numa festa, na casa de alguns amigos que me ajudaram um pouco. Depois da festa, a dona da casa me pediu que colocasse o lixo na rua para ela. Eu estava com tanta fome que peguei tudo que pude do lixo e comi, ali e depois”. Pois é. A maioria de nós gosta de quem chega ao cume da montanha. O que pouca gente avalia é o que se passou na vida para chegar lá.
Jornalismo e literatura
Vejamos mais uma cena do filme da vida do neto do coronel Nicolás Márquez: a de estudante de direito em Bogotá. O jovem Gabriel foi estudar direito não por vocação, mas para satisfazer a vontade dos pais: “Não, ele não era um bom aluno”. Assim relatou a Gerald Martin, um de seus professores na faculdade. O professor estava certo. Decididamente, o direito não morava no sangue do futuro escritor. Sua verdadeira vocação estava em outra seara: o jornalismo.
A respeito do talento literário de Gabo, um dos mais respeitados colunistas do prestigiado jornal colombiano “El Espectador”, Zalamea Borda, profetizou algo que o futuro mostraria ser uma verdade: “Em Gabriel García Márquez, estamos vendo o nascimento de um extraordinário escritor”. Ciente de sua vocação, Gabriel García Márquez não pensou duas vezes na decisão que tomaria a respeito de sua vida: paulatinamente, foi abandonando o curso de direito sem nunca o ter concluído. Seguiu para Cartagena consciente do que gostaria de fazer na vida: um aprendiz, segundo ele mesmo dizia, daquela que, para ele, era “a melhor profissão do mundo”.
Levava consigo a experiência de ter sido testemunha dos famosos protestos e desordens que ocorreram no centro de Bogotá, protestos ocasionados pelo assassinato do candidato a presidente Jorge Eliécer Gaitán. Também, levava consigo uma vida de boemias vivenciadas nos prostíbulos da capital colombiana e, lógico: uma considerável bagagem de leituras de autores que, certamente, anos mais tarde, influenciaram o gênio literário a elaborar um estilo próprio de narrar suas histórias, que ficou conhecido pelo mundo afora como Realismo Mágico.
Gabriel García Márquez foi um jornalista de excepcionais qualidades. Sua incansável maneira de apurar os fatos, abordando ângulos inovadores da notícia, logo, fez a diferença para que se tornasse o que veio a ser para a imprensa de seu país: um nome de respeito. Quem conhece seus escritos sabe o quanto foi importante na formação do futuro escritor ter sido, antes, um jornalista. Veja-se pelo próprio título de suas obras. “Cem Anos de Solidão”, “Crônica de uma Morte Anunciada”, “O Amor nos Tempos do Cólera”, “Notícias de um Sequestro”, “Ninguém Escreve ao Coronel”, “O General em seu Labirinto”, “A Incrível e Triste História da Cândida Eréndira e da Sua Avó Desalmada”, “A Má Hora: o Veneno da Madrugada”. Reparem bem: todos os títulos de livros mais se parecem com chamamento de manchetes de jornais. Em quase todas as suas obras literárias, faz-se notar a presença do jornalista. Certamente, fazer literatura-arte como se fosse reportagens muito contribuiu para cativar o enorme público leitor de seus escritos: “Minha escrita é sempre uma espécie de literatura jornalística”, reconhecia o próprio Gabo.
Como jornalista, o neto do coronel Nicolás Márquez foi enviado para ser correspondente na Europa. Sua estada na França, embora repleta de privações financeiras, possibilitou-lhe descobrir o mundo, até então, desconhecido, anterior à queda do muro de Berlim: o da cortina de ferro. Na Europa, pôde solidificar suas convicções políticas que abraçou durante toda sua vida: à esquerda sem excessos.
Gabo pôde avaliar, numa Alemanha divida pela ideologia, as contradições existentes entre o capitalismo e o socialismo. Quanto a isso, nada mais proveitoso do que avaliar in loco os contrastes de uma Berlim dividida pela Guerra Fria. “Berlim ocidental é uma enorme agência de propaganda capitalista”, disse ele ao conhecer a cidade. Trafegando por Berlim oriental, veio a comprovação de uma cidade, ao mesmo tempo, sombria e desencantada, onde a competição entre o ocidente e o oriente se tornava visível e clara num mesmo espaço geográfico. A conclusão do neto do coronel Nicolás não poderia ser mais apropriada para aquele mundo que, a ele, apresentava-se: “Berlim era um espaço humano aterrorizado, imprevisível e indecifrável, onde nada era o que parecia, onde tudo era manipulado, um lugar em que todos estavam envolvidos em fraudes diárias e ninguém tinha a consciência limpa”.
Na União Soviética, Gabriel García Márquez não só se impressionou com o tamanho de seu território, mas, sobretudo, com o paradoxo de uma sociedade que era capaz de construir e lançar o Sputnik (foguete) na órbita da terra, mas era incapaz de dotar seu povo de padrões razoáveis de vida, expressos por bens de consumo.
Outro fato curioso que não passou despercebido aos olhos do jornalista escritor se refere à inexistência de algo muito presente na América Latina e praticamente inexistente na União Soviética da Guerra Fria: o ódio aos Estados Unidos. A rivalidade se dava muito mais no campo das invenções do que propriamente no tocante ao sentimento de rejeição, como se manifestou no nosso continente contra o ianque invasor ou pelo imperialismo tanto propagado pela esquerda radical latino-americana.
A visão do autor de “O Outono do Patriarca” a respeito da União Soviética que conheceu foi “favorável e solidária”. Prova disso foi a maneira como apoiou Cuba e Fidel na década de 1970. Entretanto, embora simpático à causa socialista, o senso crítico de Gabo não deixou de apontar as fragilidades do regime.
Viver na Europa deu universalidade às futuras obras que o escritor iria produzir. Pari passu, a essa universalidade estava sendo sedimentada a influência de grandes autores, como refino de sua prodigiosa imaginação. O caminho estava, assim, sendo construído para que as lentes do neto do coronel Nicolás voltassem como, anos depois, voltaram-se: para a pequena Aracataca e seus solitários habitantes que o mundo, tempos mais tarde, conheceria como a Macondo de “Cem Anos de Solidão”. Gabo seria capaz de dar universalidade àquele torrão de mundo eternamente condenado à solidão. Uma solidão que se confunde com a própria história da América Latina.
Imaginação prodigiosa
Gabriel García Márquez costumava simplificar as coisas quando fazia referência às suas prestigiosas obras. “Tudo que fiz foi recontar o que vivi”, costumava dizer. Não é bem assim. Sem respirar os ares do mundo e sem o enfrentamento de grandes autores, não se constrói grandes escritores. Sem essas duas qualidades, a escrita cai na vala comum dos escritores de província que nunca conseguem dar universalidade ao que é meramente regional. Escritores regionais não conseguem construir o necessário elo de suas províncias com os ares do mundo. Decididamente, este não foi o caso de Gabo, pois ele leu e recebeu influência de autores do primeiro time da literatura mundial. O tcheco Franz Kafka foi um deles.
Os escritos contidos na “Metamorfose”, de Kafka, em que um homem se transforma numa barata, mostraram a Gabo que era possível narrar coisas surreais em literatura. O autor de “Cartas ao Pai” influenciou decisivamente na confiança que o neto do coronel Nicolás Márquez passou a ter em si mesmo. E percebe-se essa influência em romances como “Cem Anos de Solidão”. A ação de seus personagens, como é o caso da previsão do cigano Melquíades, que profere que, caso casamentos consanguíneos se repetissem na árvore genealógica da família Buendía, a criança originada desse incesto nasceria com alguma deformidade, não poderia ser mais kafkiana: a criança, tal qual o homem que se metamorfoseou em barata, nasceu com um rabo de porco. A repetição do casamento consanguíneo condenou ao desaparecimento todas futuras gerações dos Buendía “porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra”.
Tanto Kafka como o colombiano Gabriel García Márquez sofreram com o autoritarismo da figura paterna. A figura opressora de seus progenitores muito influenciou nos “demônios” que ambos os escritores carregaram para a vida e, como escritores de si mesmos, transportaram para seus escritos tal peso. Aliás não apenas Kafka e Gabo padeceram desse mal. O peruano Vargas Llosa também tratou de exorcizar a figura paterna na sua literatura.
O americano William Faulkner foi outro autor de fundamental importância na formação literária do neto do coronel Nicolás. Gabo nutria pelo autor de “O Som e a Fúria” não só uma relação professoral (chamava Faulkner de “mestre”), mas, sobretudo, nutria absoluto respeito pelo seu talento literário. “É um escritor muito bom.” Bom demais para o prêmio Nobel que o autor de “Palmeiras Selvagens” não ganhou em 1949, embora tenha ele recebido o prêmio em 1950. Quando, finalmente, Faulkner foi laureado com o Nobel, Gabo não deixou de apontar o deslize ocorrido em 1949. Para ele, o prêmio estava atrasado porque Faulkner era “o maior escritor do mundo contemporâneo e um dos maiores de todos os tempos”. Com o prêmio ganho, teria ele de aceitar “o privilégio desconfortável de se tornar moda”.
Assim como Faulkner criou o condado imaginário de Yoknapatawpha, Gabriel, talvez inspirado no mestre, teve a ideia de fazer sua pequena Aracataca se transformar na imaginária Macondo. Não restam dúvidas de que a literatura de Faulkner teve influência decisiva na formação do grande escritor, que viria a tornar-se Gabriel García Márquez. O autor de “O Som e a Fúria” alimentou a alma literária de alguém que tinha um destino certo: tornar-se, como o mestre, um dos maiores escritores do século 20.Ernest Hemingway foi outro autor pelo qual Gabo nutriu enorme admiração. Hemingway, jornalista como Gabo, teve influência direta em algo que o autor de “O Velho e Mar” sabia fazer como poucos: escrever. Conhecer a obra de Hemingway fez de Gabo o que ele mesmo refere a respeito dessa influência: “Aprendi a ser escritor”.
Muitos estudiosos de suas obras atribuem à inglesa Virginia Woolf um papel menos relevante do que o recebido por Gabo dos três autores acima citados. Outros, entretanto, comungam da ideia de que o grande escritor argentino Jorge Luis Borges tenha influenciado demasiadamente na literatura de Gabo, ao ponto de “‘Cem Anos de Solidão’, quando aparecesse, seria um livro distintamente borgiano”.
Sem intencionar esgotar o leque de grandes autores que influenciaram direta ou indiretamente nos escritos de Gabriel García Márquez, penso estarmos aptos para dizer que não é nada fácil chegar ao cume da montanha como chegou Gabo depois da publicação de “Cem Anos de Solidão” e o que disso resultou: ganhar o prêmio Nobel e transformar-se numa celebridade mundial. Este é o cume da montanha. Todo mundo vê o cume, mas não enxerga a escalada de subida dessa montanha. Na trajetória de subida, o neto do coronel Nicolás teve muitas privações financeiras na Colômbia e fora dela, muita leitura de grandes escritores, muitas viagens pelo mundo afora. Basta disser que, após os 18 meses que Gabriel García Márquez hibernou no México para escrever sua obra-prima, faltou dinheiro até para enviar os originais pelo correio para um editor na Argentina. Depois do sucesso, todo mundo quis ser amigo de Gabo e, como ele mesmo disse, porém “poucos sabem o que é que eu passei para chegar lá”.
Amizade com Fidel
Gabriel García Márquez poderia muito bem adotar uma atitude típica de outros autores que, como ele, foram laureados com o prêmio Nobel de literatura: a acomodação. Já era um escritor mundialmente consagrado, com uma respeitável produção literária e uma obra-prima incluída entre os cânones da literatura universal. Mas não foi isso que veio a acontecer.
Não se passaram mais que três anos e veio outra obra-prima que representou a metamorfose do talento literário de Gabo. Falo de “O Amor nos Tempos do Cólera”. Vejamos o que nos diz Gerald Martin a respeito do sucesso dessa obra: “O livro impressionou leitores e críticos, porque representava um novo García Márquez, um escritor que havia se metamorfoseado, de algum modo, numa espécie de romancista do século 19 para os tempos modernos, um homem que escrevia sobre o poder e sobre o amor, e o poder do amor”.
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A amizade com Fidel Castro amordaçou o poder da crítica. García Márquez foi chamado de lacaio do ditador cubano | Foto: El Tiempo[/caption]
O trio amoroso que protagoniza o romance, composto de Florentino Ariza e seu amor de juventude Firmina Daza, que acaba se casando com o médico Juvenal Urbino, mostra o quanto o poder do amor pode ser represado e florescer em tempos tão adversos como foram aqueles presentes numa Colômbia impregnada pela epidemia do cólera. O reencontro amoroso entre Firmina Daza e Florentino Ariza já na velhice, após a morte do marido dela, é, sem dúvida, um dos pontos altos de uma literatura da mais alta qualidade.
Gerald Martin revela, em seus escritos, que “‘O Amor nos Tempos do Cólera’ pode ser interpretado como um reencontro com seu pai [de Gabriel] e com o passado da Colômbia, mas também como uma investigação do conflito entre o casamento e as aventuras sexuais; é, acima de tudo, um livro sobre o subúrbio de Manga, onde seus pais viveram”.
O prestígio de escritor mundialmente reconhecido concedeu a Gabriel García Márquez considerável peso em outro campo que não o da literatura: na política. Nessa área, seu perfil ideologicamente mais à esquerda, aliado a sua sincera simpatia por Cuba, foram ingredientes suficientes para aproximá-lo de uma figura que sempre suscitou polêmicas no mundo intelectual: Fidel Castro.
Gabo foi um amigo muito próximo do líder da Revolução Cubana. Pessoalmente, sou daqueles que pensam que o intelectual, quando se torna íntimo de governantes, acaba ficando privado da maior arma que dispõe para exercer seu nobre ofício: a liberdade de criticar.
Aconteceu isso com Gabo. Sua amizade com poderosos refletiu, muitas vezes, num incômodo silêncio. Vargas Llosa, seu ex-amigo e ideologicamente identificado com os liberais, não deixou por menos: “Lacaio de Fidel Castro” e “oportunista político”.
Certamente, oportunista político Gabriel García Márquez não demonstrou ser, pois se existe alguém que se dispôs a investir muito de seu dinheiro em Cuba, este alguém foi Gabo. Entretanto muito do seu silêncio em relação às polêmicas (até os erros cometidos pelo regime) evidencia aquilo que anteriormente mencionamos: a proximidade com o poder amordaça o poder da crítica, tão necessário aos intelectuais que privam pela sua liberdade de expressão.
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Gerald Martin, autor do mais importante estudo sobre a vida e a obra de Gabriel García Márquez | Foto: Mario Guzm‘n[/caption]
O novo Cervantes
A última cena do filme da vida do autor de “Ninguém Escreve ao Coronel” acabou de ser rodada. Gabriel García Márquez deixou órfãos não só sua família, mas, também, milhões de admiradores que tem pelo mundo afora. Na sua vida privada, teve uma família harmoniosa e uma esposa que o acompanhou por cerca de 60 anos. Mercedes foi uma “companheira cheia de qualidades”, que sempre primou pela perspicácia, discrição e apoio incondicional ao marido. O mesmo se pode dizer dos seus filhos. Com os quais, declarou ele, certa vez, à revista “Paris Match” ter “excelentes relações. Eles [os dois filhos] são o que querem ser e aquilo que eu queria que eles fossem”.
Ao contrário de Miguel de Cervantes, que, em vida, não foi reconhecido, Gabriel García Márquez conheceu a glória em vida. Prova de sua importância foi a enorme repercussão que teve sua morte pelo mundo afora. Não tenho dúvidas de que neste e no outro mundo o neto do coronel Nicolás Márquez será sempre eterno.
Para saber mais sobre García Márquez
Para uma leitura perspicaz da prosa e do próprio García Márquez, recomenda-se o ensaio “Gabriel García Márquez — À Sombra do Patriarca”, inserto no livro “Os Redentores — Ideias e Poder na América Latina” (Benvirá, 606 páginas, tradução de Magda Lopes, Cecília Gouvêa Dourado e Gabriel Federicci), do jornalista, ensaísta e historiador mexicano Enrique Krauze, parceiro de Octavio Paz na criação da revista “Vuelta” e professor convidado de Oxford. Leia breve comentário sobre o livro no link: http://bit.ly/1gOJb6S. Sobre o conflito com Mario Vargas Llosa pode-se ler no link: http://bit.ly/1h8O0Ta.
Salatiel Soares Correia é crítico literário e mestre em Planejamento Energético pela Unicamp.


