Livro de jornalista inglês revela detalhes do maior duelo econômico da história

Com uma escrita leve, Nicholas Wapshott esmiúça detalhada e cronologicamente o debate entre os economistas Keynes e Hayek

O economista inglês John Maynard Keynes, segundo Bertrand Russel, tinha o “mais agudo e claro” intelecto que jamais havia conhecido | Foto: Wikipédia Commons

O economista inglês John Maynard Keynes, segundo Bertrand Russel, tinha o “mais agudo e claro” intelecto que jamais havia conhecido | Foto: Wikipédia Commons

Everaldo Leite*
Especial para o Jornal Opção

Nos tempos de Aristóteles, a economia mais fazia parte da ética que da política, como o próprio filósofo a identificava. A economia, então, tinha um teor exclusivamente privado, pois o seu sentido era de provimento do que seria necessário para a sobrevivência e, evidentemente, para muitos, como modo natural de se enriquecer.

Não havia política econômica na Grécia antiga, nem controle de inflação ou apelo da nação para que houvesse crescimento do seu PIB. A economia era uma ordem espontânea da vida na cidade, onde ocorria a produção via escravos e o comércio, com vistas à construção de uma base importante que liberasse os cidadãos para o que mais gostavam de fazer: a política.

A inflação foi uma criação dos romanos; a ideia de crescimento da produção, uma obsessão dos ingleses; e a política econômica se viabilizou assim que o Estado se apossou dos destinos da economia. Entretanto, foi somente no século 20, aquele século que Eric Ho­bs­bawm chamou de “era dos extremos”, que o mundo vivenciou realmente os maiores desafios em termos de inflação, crescimento e política econômica.

Foi no século 20 que pudemos observar em ação as melhores e as piores ideias para superação dos nossos males econômicos. O susto gerado pelos ciclos, o espanto face à hiperinflação de Alemanha e Áustria, o receio quanto ao avanço do socialismo soviético; tudo isso sobreveio num curto espaço de tempo, enquanto a academia ainda tratava a ciência com certo distanciamento do mundo real.

Não por acaso, aquele estado de coisas, que incluiu os efeitos da primeira e da segunda grandes guerras, os desdobramentos do crash de 1929, o surgimento do nazi-fascismo, a implementação do New Deal e as políticas de reconstrução, resultou também na emergência de novos temas a serem melhor conhecidos, debatidos e deliberados.

De fato, as teorias econômicas do mainstream não deram conta da avalanche de questões efetivas advindas de um mundo colapsado. Não foi difícil para alguns verificar que, na prática, os comportamentos dos agentes econômicos não tendiam ao reequilíbrio do mercado e que a sociedade e os governos estavam pagando um preço muito alto por suas escolhas passadas.

Ainda, juntamente a isso, ficava claro que as transformações violentas que ocorriam no mundo eram novidades não compreendidas pelo universo político e que as eventuais resoluções unilaterais poderiam derivar em danos imprevisíveis. Ora, como o entendimento dominante era o de que a economia e a política formavam a infraestrutura do processo social e determinavam o curso da história, deveria ser por ali que qualquer pensador da época precisaria operar, fosse teoricamente, fosse na experiência concreta.

Não obstante, foi o que empreenderam John Maynard Keynes e Friedrich von Hayek, como bem expõe o jornalista Nicholas Wapshott, no livro “Keynes x Hayek: as origens e a herança do maior duelo econômico da história”, que revela o intenso teor opositivo entre as ideias dos dois economistas.

Lado K

Bertrand Russell, um dos mais extraordinários filósofos ingleses do século 20, quem elogiava o intelecto com entusiasmo de Keynes; dizia que o economista inglês tinha o “mais agudo e claro” intelecto que ele jamais tinha conhecido: “Quando discutia com ele, eu sentia como se tomasse a minha vida nas minhas mãos, e raramente emergia sem me sentir um pouco tolo”.

Na verdade, Keynes, se nunca foi uma unanimidade, foi certamente um dos maiores intelectuais do seu século e, quem sabe, um dos maiores economistas de todos os tempos. Participou de vários debates importantes, cuidou das finanças de guerra de seu país, esteve à frente nas negociações do tratado de Versalhes representando os ingleses, inaugurou a macroeconomia como disciplina acadêmica, defendeu decisões importantes, como a criação do FMI, após a segunda guerra, em Bretton Woods, etc.

Sua vida foi rica em ações efetivas, obras e também no âmbito das relações humanas, tendo participado de círculos intelectuais e artísticos completamente diversos ideologicamente, e deixado um legado que até hoje possui seus adeptos. Wapshott não é um biógrafo de Keynes, mas ressalta suas habilidades em vários campos, desde o grande impacto de seu escrito “As Consequências Econômicas da Paz”, que valeu a admiração do jovem Hayek, até as suas relevantes contribuições para o futuro da economia política.

Os argumentos de Friedrich von Hayek foram apreciados a partir da década de 1960 e, por eles, ele recebeu o Nobel de Economia, em 1974 | Foto: Wikipedia Commons

Os argumentos de Friedrich von Hayek foram apreciados a partir da década de 1960 e, por eles, ele recebeu o Nobel de Economia, em 1974 | Foto: Wikipedia Commons

Lado H

Se Hayek, por sua vez, não deve sua importância para as aplicações de suas teorias na economia real — isto pelo menos até antes da segunda metade da década de 1970 — sua contribuição para o pensamento econômico, desde o seu texto seminal “O Caminho da Servidão”, sempre foi inquestionável.

O austríaco sofreu a angústia da hiperinflação em seu país natal e, não menos, a violência das guerras, que dilacerou a sociedade europeia e criou perspectivas socialistas em todo canto da Terra. Seu intelecto também era invejável, tendo sido recomendado em carta pelo professor Wieser ao economista Ludwig von Mises, um dos mais brilhantes pensadores da economia, autor da grande obra “Ação Humana”.

Os argumentos de Hayek serão prestigiados a partir do final da década de 1960, quando se começa a identificar em seus escritos a lógica dos preços e da poupança como fundamento da economia de mercado, um dos motivos pelos quais irá receber o Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel em 1974.

Duelo

No início de sua carreira, Wapshott apresenta certa afinidade de Hayek pela visão de Keynes, especialmente quanto ao comportamento da moeda e da inflação, mas mostra que isto não durou muito tempo. As bases e premissas do ideário austríaco já estavam muito bem estabelecidas desde a década de 1870, quando o economista Carl Menger deu início a essa tradição, e não foi difícil que Keynes, um inovador da política, e Hayek, um apologista do mercado, seguissem caminhos lógicos e ideológicos muito diversos, até se separarem irremediavelmente.

Aliás, de tão notórias eram suas divergências, o debate se tornou roteiro de um clipe bastante acessado no YouTube, onde Keynes e Hayek, como cantores de rap, se desafiam. O vídeo é pequeno, bem feito e vale a pena assistir para captar, com certo humor, o ambiente do duelo. O jornalista faz o mesmo em seu livro, mas com maior riqueza de detalhes e explanando melhor os dois pontos de vista.

As ideias de Keynes valorizavam o hoje em detrimento do amanhã, enquanto que o contrário era defendido por Hayek. Para o inglês, a sociedade não poderia aguardar um porvir dourado à custa da fome de hoje e dizia que, se seguíssemos o receituário conservador que acreditava numa reversão futura das péssimas condições de hoje, assistiríamos, antes, uma calamidade humana. Ora, “no longo prazo estaremos todos mortos”, afirmava Keynes. A visão keynesiana, um tanto por isso mesmo, dá início e legitimidade teórica para o Estado se apoderar das rédeas invisíveis do mercado, gerando intervenções governamentais segundo o gosto do freguês, sempre ao custo de déficits públicos não raramente imorais.

Hayek, por outro lado, acreditava na economia de mercado como ordem espontânea, como dimensão do processo social que deveria ter seu dinamismo próprio estabelecido pelas informações que os preços transmitem para os agentes. Não se poderia, portanto, permitir que as ingerências do governo levassem incongruências para o sistema, fosse para resguardar a sociedade no curto prazo, ou para manter seja lá qual equilíbrio no longo. Igualmente, se Hayek estava certo, inconsequentes déficits públicos levariam à inflação e, consequentemente, ao desemprego.

Keynes declarava que, obviamente, “uma sociedade individualista deixada a si mesma não trabalha bem ou mesmo toleravelmente”, e que, “quanto mais problemático os tempos, pior funciona o sistema de laissez-faire”. Absolutamente, o economista inglês não defendia o protecionismo, muito menos o socialismo marxista; seus argumentos — mais políticos que econômicos, é evidente — apresentavam as ações go­vernamentais como apoiadoras do livre comércio.

Keynes escreveu que “a coisa importante para o governo não é fazer coisas que os indivíduos já estejam fazendo, e fazê-las um pouco melhor ou um pouco pior, mas fazer coisas que, no presente, não são feitas de maneira alguma”. Hayek, avesso, desde as desventuras econômicas austríacas, às intervenções de governos na vida produtiva, e, como todo membro da Escola Austríaca o faria, acreditava que Keynes “havia maculado seu princípio-guia, de que o livre mercado era bom e que todas as tentativas de subjugá-lo eram más ou fúteis, ou ambas”, como lembra Wapshott.

Fora do economês, o livro do jornalista inglês Nicholas Wapshott explana os dois pontos de vista de forma rica, mostrando os detalhes do debate entre Keynes e Kayek | Foto: Divulgação

Ponto de partida

A visão conflitante do chamado ciclo de negócios, ou ciclo econômico, é o ponto de partida do duelo intelectual entre Hayek e Keynes. Os ciclos, resumidamente, são fenômenos por meio dos quais os booms econômicos (período de rápido crescimento econômico) se seguem às recessões (períodos de contração da atividade econômica). Enquanto que, para Keynes, a solução prática contra o impacto dos ciclos seria um governo ativo, para Hayek, nada deveria ser feito, já que o mercado se reequilibraria em algum momento.

Wapshott é feliz ao apresentar os detalhes do debate, configurando uma cronologia que nos situa melhor cada momento em que as ideias são colocadas em campo. A narrativa do jornalista é leve e pacientemente explicativa acerca dos fatos econômicos em discussão, revelando-se uma emocionante novela no lugar de uma análise que já foi realizada várias vezes aos modos do frio economês. Ainda, serve aos economistas que buscam adequar o discurso à prática, e àqueles que simplesmente querem ler uma boa história.

*Everaldo Leite é economista.

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