Imbilino em Cena, Salu nos bastidores

“Imbilino em Cartaz: um caipira no cinema”, embora seja fruto de um trabalho acadêmico, é de leitura simples e fluída. É um desses raros livros feitos para serem realmente lidos, não para enfeitar estante de primo

Hugo Caiaponia, caracterizado como Imbilino

Ademir Luiz
Especial para o Jornal Opção

Antonio Candido, um dos maiores e mais importantes intelectuais brasileiros de todos os tempos, costuma se definir orgulhosamente como sendo um caipira. Toda erudição e sofisticação que adquiriu ao longo da vida, fazendo dele um homem cosmopolita, um cidadão do mundo, não apagaram suas raízes rurais. Embora tenha nascido na cidade do Rio de Janeiro, em 1918, Antonio Candido passou a infância em pequenas cidades mineiras e paulistas, tais como Cássia, Poços de Caldas e São João da Boa Vista. Não deixa de ser simbólico que um de seus livros mais importantes, adaptado de sua tese de doutorado, é o clássico “Os Parceiros do Rio Bonito”, um tratado sobre os costumes dos caipiras paulistas e as transformações que sofriam na década de 1960.

Assim como Antonio Candido, o autor desse livro também é um caipira. Não por nascimento, mas por adesão. Assim como os caipiras paulistas pesquisados por Antonio Candido, o autor desse livro também teve seus costumes transformados pelas pressões da modernidade. Arnaldo Salu nasceu em São Paulo capital e viveu como um paulistano típico (ou de estereótipo) durante toda juventude e começo da vida adulta. A existência era frenética, sem tempo para respirar, e quando respirava o ar era denso de poluição. Por uma oferta de trabalho (coisa que nenhum paulista de estereótipo recusa) radicou-se em Goiás, na cidade de Anápolis, na década de 1980. Veio como vendedor e acabou vendido pelas águas do aquém Paranaíba. Deveria retornar para o Sul Ma­ravilha, e de fato retornou, mas não por muito tempo e acabou voltando para o cerrado como quem canta “quando eu quero paz, eu vou prá Goiás”.

Veio, viu e venceu. Tornou-se figurinha carimbada das rodas culturais anapolinas. São múltiplas suas atividades: dono de bares dos mais bens freqüentados (o atual empreendimento e o pitoresco “Mistura Caipira” na praça da igreja de Joanapolis), cineasta intuitivo e premiado (ganhou o festival de cinema de Anápolis com o curta “O Giro da Capelinha”), foi diretor cultural do Centro de Tradições Caipiras, coordenador de grupo de catira e pai de violeiro de mão cheia (o menino fez pacto com o Capiroto, só pode!). Da prática foi para a teoria. Primeiro graduou-se em História pela UEG, depois tornou-se mestre em Ciências Sociais e Humanidades pelo Mestrado Interdisciplinar em Territórios e Expressões Culturais no Cerrado (TECCER), também da UEG. Esse livro é resultado de suas pesquisas de pós-graduação, que tive a honra e o prazer de orientar. É o seu “Os Parceiros do Rio Bonito”.

Considerando a temática, o livro “Imbilino em Cartaz: um caipira no cinema”, não poderia ser mais atual. O caipira Imbilino é o maior fenômeno popular da atual safra da produção audiovisual goiana. Talvez seja o maior de todos os tempos. O personagem é criação de Hugo Caiapô­nia, nome artístico de Hugo Ba­tista da Luz, que ao receber a visita do primo Aroldo de Andrade Fi­lho, dono de certa experiência como auxiliar de câmera, manifestou seu desejo de fazer um filme, e lhe perguntou se poderia ajudá-lo. O primo aceitou e, dessa for­ma improvisada, nasceram dois cineastas. Juntos fundaram a produtora Gigante Filmes. O começo foi humilde, mas o Gigante só deu passos de sete léguas.

O primeiro longa-metragem, de 2005, “Meu rádio, minha vida”, feito com poucos recursos, equipamento simples, pouca técnica de captação e edição de imagens e som, elenco de atores amadores, composto por amigos da comunidade, caiu no gosto popular. Primeiro entre os amigos da cidade de Caiapônia e Palestina de Goiás e depois por todo estado de Goiás. Como dizem que a “voz do povo é a voz de Deus”, por aclamação, veio uma segunda produção, “A lua e o dente”, de 2006. “Arrependida” demorou, mas saiu em 2009. Em 2011 foi a vez de “O galo e a mega da virada: uma comédia caipira” e em 2013 “Bi­cho de Pé”. Espera-se um novo lançamento para breve. Depois que o Gigante fazedor de filmes “acordou”, não parou de produzir.

Têm santos que fazem milagres tanto em casa quanto fora dela. Não demorou para que o reconhecimento nacional viesse. Em 2008, Hugo e Aroldo se inscreveram na Mostra do Filme Livre do Rio de Janeiro. Entre mais de seiscentos inscritos obtiveram a décima terceira colocação. Em 2011, Hugo Caiapônia foi homenageado no Festival de Humor de Fortaleza, sendo aclamado como “o Mazzaropi de Goiás” no Teatro Chico Anysio. Recebeu por isso uma homenagem de Marconi Perillo, Governador de Goiás, que lhe entregou o prêmio de Destaque Cultural do ano de 2012. Em Goiânia foi realizado no Cine Ouro uma mostra de sua produção cinematográfica. Em 2015 o Festival de Cinema de Anápolis fez o mesmo. Sessões lotadas, tanto de caipiras, quanto de cinéfilos e muitos curiosos. O interesse é gerado às vezes pela nostalgia, às vezes pelo estranhamento. Mesmo quem sai falando mal, não sai alheio. O fato é que Imbilino virou Cult. Pode ser feio, mas tá na moda!

A universidade não poderia ignorar esse fenômeno. O livro de Arnaldo Salu surgiu para discuti-lo, colocá-lo em perspectiva. Tentar entender qual lugar Imbilino ocupa nesse rico universo imaginário dominado por Mazzaropi, Chico Bento, Jeca Tatu, Geraldinho e outros imortais da roça.

A boa notícia é que “Imbilino em Cartaz: um caipira no cinema”, embora seja fruto de um trabalho acadêmico, é de leitura simples e fluída. É um desses raros livros feitos para serem realmente lidos, não para enfeitar estante de primo de anel no dedo da cidade, servir de calço de porta ou equilibrar mesa manca. Não tem contra indicações. Serve para àqueles que pretendem conhecer um pouco da vasta e complexa cultura caipira, assim como para quem deseja saber mais sobre o cinema que se faz fora dos grandes circuitos de produção e exibição e, principalmente, aos fãs de Imbilino. Sejam caipiras ou não.

Mas quem disse que caipira não pode gosta de ler? Olha aí o doutor Antonio Candido que não me deixa mentir. Olha aí o mestre Salu que não me deixa mentir.

Ah, antes que me esqueça, eu também sou caipira, uai!

Ademir Luiz é escritor, doutor em História pela Universidade Federal de Goiás e professor na Universidade Estadual de Goiás, nos cursos de História e Arquitetura e Urbanismo

Uma resposta para “Imbilino em Cena, Salu nos bastidores”

  1. Avatar Douglas dalto Messora disse:

    Hugo Caiapônia possui um talento genuíno e traz lembranças de um Brasil melhor, onde a figura do caipira foi magistralmente interpretada por Mazzaropi,
    Sem nenhuma dúvida e por ser ele talentoso e criativo, tornou-se legítimo herdeiro do caipira paulista. Salve Hugo que traz a alegria ingênua e pura para alegrar as nossas famílias.

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