“Sombras da Teia” mostra como um livro pode percorrer o mundo e o submundo dos seres humanos

Contos do prudentino Rubens Shirassu Júnior constituem uma obra psicológica que perscruta o subterrâneo da desordem

Textos de Rubens Shissaru Júnior lembra os escritores Plínio Marcos e Ítalo Svevo. O primeiro pelo linguajar; o segundo pelo aspecto psicológico

Textos de Rubens Shissaru Júnior lembra os escritores Plínio Marcos e Ítalo Svevo. O primeiro pelo linguajar; o segundo pelo aspecto psicológico | Foto: Divulgação

José Caetano Silva
Especial para o Jornal Opção

Do escritor prudentino Rubens Shirassu Júnior, o livro de contos “Sombras da Teia” se faz romance ao entremear um todo que envolve o mundo, o submundo e o real dos seres humanos suscetíveis de se imiscuir nos mesmos de forma inesperada ou consentida. O trabalho, pelo que se vislumbra na leitura, é fruto de pesquisa elaborada no cotidiano quase imperceptível da cidade de Presidente Prudente, encoberto pelo visual urbano de cidade limpa e bela, com povo ordeiro, pacífico, trabalhador, religioso, ético, honesto.

A obra viaja pelos becos sem saída e escuros, por esquinas inquietas e desertas, por ruas em madrugadas quentes ou frias, por galerias, redes de esgoto, cheiros, fedores e suores, sangue e lágrima, cinzas e fumaças, cerveja barata e pontos de drogas, botecos de ponta de vila, trabalhadores insones, gente rica hipócrita, por sanduíches de carne moída, coxas, cadeias, centros de recuperação, por tatuagens, pistolas, facas, batons, sexo e gozo, gosto e desgosto numa espécie sem fim de violência, onde em meio ao ódio o amor se manifesta como passos para a chantagem, para se levar vantagem.

O seu texto lembra muito Plínio Marcos, sobretudo em “Dois Per­didos numa Noite Suja”, por conta do domínio do linguajar dos protagonistas excluídos, incluídos no mundo/submundo do “crime” e da “lei e da ordem”. Lembra também Ítalo Svevo, em “A Consciência de Zeno”, obra que inaugura o chamado “romance psicológico”, em que o narrador se situa na posição horizontal e deixa o cérebro fruir com suas narrativas de idas e voltas, sem dimensão de tempo, onde ainda, muitas vezes, os lugares se confundem em função de suas semelhanças.

A obra mostra também que, em meio aos “condenados da terra” e aos “transgressores” da lei e da ordem, vicejam elos de identidade, de solidariedade, de afetividade, como um contraponto ao que se espera que eles mesmos se matem entre si para o alívio de uma sociedade hipócrita que é a gênese de tudo o que acontece, na superfície falsa e no subterrâneo concreto, real.
“Sombras da Teia” é, enfim, uma obra que orgulha Presidente Pru­dente e a todos que prezam pela ex­celente literatura. Vale a leitura. l

José Caetano Silva é sociólogo, educador e autor paulista.

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