“Outubro”, livro à la Walt Whitman, é reeditado após 40 anos e mostra que a poesia não envelhece

Livro ganha edição comemorativa e mostra que a poesia de Nei Duclós permanece atual, mesmo após quatro décadas de seu lançamento

Nei Duclós, poeta vivo e produtivo, mostra porque sua obra veio para ficar: “Outubro” completa quatro décadas, mas permanece com muita energia poética | Foto: Naná Monteiro

Nei Duclós, poeta vivo e produtivo, mostra porque sua obra veio para ficar: “Outubro” completa quatro décadas, mas permanece com muita energia poética | Foto: Naná Monteiro

Adalberto de Queiroz
Especial para o Jornal Opção

Me pergunto: a resenha da reedição de um livro depois de 40 anos ainda interessa ao leitor esmagado pela pletora de lançamentos que domina o mercado editorial brasileiro (livros no supor digital e celulose – livro-livro, como se diz entre aqueles que têm mais de 60)? Em 2015, no evento que organizei para lembrar os 50 anos da morte de Augusto Frederico Schmidt e do lançamento de seu livro, “Sonetos”, uma pessoa até bem informada, leitor e que também se aventura na arte da escrita, saiu-me com essa pergunta: “Por que homenagear um poeta tão velho?”.

Fiquei irado e depois reflexivo. Poetas não têm idade. A poesia não envelhece. Em 40 anos, mudaram a forma de editar e surgiram outras levas de poetas, mas o poeta Nei Duclós, vivo e produtivo, mostra porque seu livro veio para ficar e completa quatro décadas com muita energia poética. Para Nei, outros outubros virão. Fosse dar ouvido ao colega que posara de (mau) crítico, não teria celebrado Schmidt e você não estaria lendo este artigo.

Relembrar é celebrar e no caso da Poesia, se bem o fazemos ao poeta morto, melhor ainda ao poeta vivo. Eis o caso a justificar a celebração plenamente devida aos 40 anos de “Outono”, de Nei Duclós. Vencida essa primeira barreira, deixemo-nos levar pela bela história do livro e do autor.

A 1ª edição de “Outubro” é assinada pelo Instituto Estadual do Livro (IEL) e pela Editora A Nação. Num trabalho editorial de Lígia Averbuck, a professora de Letras e diretora do IEL à época. Ela é relembrada por Juarez Fonseca nesta edição comemorativa (“Outubro veio para ficar”), no exercício de um papel fundamental para a história deste e de outros tantos livros na movimentada vida cultural da Porto Alegre de meados dos anos 1970. Além de revelar novos autores inéditos, a professora Lígia Averbuck criou o regime de coedição com editoras locais, num exercício digno de ser copiado ainda hoje em todo o país, que é carente de livros e de animadores da atividade cultural que não sejam reféns apenas das iniciativas governamentais.

O livro de Nei foi fruto do cruzamento desta política cultural inovadora do IEL/RS com a tradição da Editora A Nação. Da mesma forma, estão ligados umbilicalmente à história de “Outubro” o escritor Caio Fernando Abreu, um dos avaliadores do IEL, Cláudio Levitan, o idealizador do livro e ilustrador, e Juarez Fonseca, diagramador e difusor do movimento cultural na condição de jornalista cultural da profícua Porto Alegre da época.

Os versos de “Outubro” são de um jovem poeta, escritos entre os 20 e os 28 anos de Nei, mas mostram a maturidade e o desejo inerente a toda boa poesia: o da permanência. Não falo apenas da fortuna crítica que hoje parece ligar-se apenas a artigos acadêmicos sobre os livros numa linguagem cifrada e que pouco fazem pela geração de um novo público leitor. Fica claro que o jovem poeta estava inserido nos sonhos de uma geração que vivia a “abertura política” do País, mas o olho poético estava no futuro como na ironia à la Walt Whitman do poema sem título à página 93:

Ah, essa mania de escrever
Para a eternidade.

A eternidade morreu de velha
Se eu conseguir,
Pelo menos,
Fazer vocês rirem
Dispensarei o resto

Não fica de fora o cenário do momento, os anos 1970, como o atesta “Carta ao companheiro Exilado” em que os versos denunciam: “Batem nas portas/ e revistam roupas e pacotes/ Estamos na praia do naufrágio/ Do mar vieram boiando coisas mortas/ entre elas/ nossos sonhos e emboscadas”.

O poeta parece sintonizado com o Whitman do poema “Ple­no de vida agora”, e diz ao leitor dos séculos futuros o que todo poeta gostaria de dizer (e anseia acontecer): “Ao homem que viva daqui a um século, ou dentro de quantos séculos for,/ A ti, que ainda não nasceste, dirijo este canto./ Quando leias isto, eu, que agora sou visível, terei me tornado invisível…”. Similarmente, Nei o diz, profeticamente, no poema “Na velhice”:

Vou chegar à velhice
Com o olhar seguro
e o corpo pleno de mundo
Marcado pela espada dos dias
morando sob paredes
de areia e neve
Vou ficar velho
como figueira
alimentada de terra
calmo e duro
a percorrer caminhos
repletos de emboscada
talhado no cinzel da vida
assimilada bruta

Os novos dirão:
de onde vieste?
Levantarei devagar os olhos
e arrancarei respeito
com palavras fortes

Não me importarei com meu corpo
e serei, na velhice
belo como casa de barro
que cruza o inverno
com sua aspereza eterna
Severo como pastor amado
em busca das ovelhas roubadas
O tempo dirá:
aqui pesam sessenta anos
e calará
pois terei seu corpo palpitante
nas minhas palmas enormes
como uma pomba
pronta sempre
a escapar para longe

Assim, na velhice
viverei o susto do tempo
preparando para colher sua fuga
a qualquer hora
Agora eu estou partindo
tímido e novo
em busca do arrulho áspero
que palpita nos olhos do mato
que me circunda

A poesia de Nei Duclós é, portanto, irmã dessa natureza de líricos que trazem a profecia para todos, um profeta que fala urbi et orbi e dá sua benção de esperança em meio ao ruído do mundo, da política, da tirania ou do cinismo dos que tecem a teia do mando.

Se em “Outubro” o leitor pode vislumbrar o traço rasteiro da poesia dita engajada (até o título parece alusão à militância política – como no poema “E os meus mortos”, p.56), cabe ao que lê esses versos, 40 anos depois que foram impressos pela vez primeira, verificar pacientemente que há um côvado acima no fazer poético de Nei, como em “Limpar o Poema” (p.32):

Cortar o nó do poema
com força e delicadeza
para que todos aprendam
antes que a noite aconteça

Armá-lo como um guerreiro
dos pés até os dentes
e que saibam, de longe
por quem está combatendo

Para que o povo o suspenda
nos ombros, como um eleito
e seja seu companheiro
na vitória e na falência

Deixar que fale alto
sem vizinhos que o repreendam
e corra pelas sarjetas
como automóvel sem freios

Que não esconda a violência
nem tenha voz de inocente
e seja um duro instrumento
com ataques de surpresa

Soltar o poema
e devendar seu segredo
para que o mundo o receba

O poeta não utiliza pontos ao final dos seus versos, leitor, como se não quisesse deixar fechada cada estância do seu versejar juvenil. Naturalmente, indica filiação poética a fim de que aquele desejo de que “o mundo o receba” se valide na tradição poética do que tudo leu (p.ex.: Whitman e também Mário Quin­tana) e tem um poema para cada amigo. Na verdade, diz o amigo presente na primeira e nesta edição quarentona, Cláudio Levitan: “era uma mala de poemas” que foi aberta para dar forma ao livro “Outubro”.

Edição comemorativa de “Outubro” marca os quarenta anos do livro | Foto: Divulgação

Edição comemorativa de “Outubro” marca os quarenta anos do livro | Foto: Divulgação

Além de ter seus poemas musicados por Muts Weyrauch e Zé Gomes, Nei Duclós, que é colaborador do Opção Cultural, teve carreira jornalística de sucesso e lançou 17 títulos, incluindo títulos em formato digital. É um poeta que vale a pena ser lido, sendo “Outubro” um livro em especial que já mostrou a força de sua permanência entre os amantes da boa poesia feita no Brasil.

Eis-nos, pois, leitor, diante de um livro de 40 anos de vida com um frescor de poemas eternos de um jovem poeta à beira dos 70 anos, pode dizer ainda, como disse à época da primeira edição, em “Estou vivo e te conheço, Walt Whitman”:

Estou vivo e te conheço, Walt Whitman
Tua língua feriu-me como um dardo
Minha pele treme com a tua palavra
áspera na página

Para mim dedicaste tua vida
e para os depois de mim, com um livro
o tempo é domesticado, tu o sabes

Tenho um recado para ti, poeta amado:
a primavera continua a balançar a terra
e a florescer a porta com lilases

Embora morto, como tua saúde é forte
e agride meu espírito covarde
Gostaria de não ter encontrado
teu canto de ouro e árvores
ele prova como é falso
meu amor pelo universo

Como te odeio, poeta amado

Sobre o Autor

Depois de “Outubro”, lançado em 1975 por IEL/A Nação, vieram “No Meio da Rua”, em 1979, pela LP&M Editores (com prefácio de Mário Quintana), “No Mar, Veremos”, pela editora Globo (com prefácio de Mario Chamie), em 2001, e “Partimos de Manhã” (IEL/Corag), em 2012. Todos de poesia. Em 2004, publicou seu primeiro romance, “Universo Baldio”, pela W11 Editores. Em 2006, lançou “O Refúgio do Príncipe – Histórias Sopradas Pelo Vento”, pela Editora Empreendedor, de Santa Catarina.

Em e-book, lançou “Arraso”, “Poemas de Amor”, “Cálida Palavra”, “Trovador”, “Verso Esparso” e “Pampabismo/Enigminas: Conversos”. E também “Mágico Deserto – Contos Fora de Forma”, e “Beijo Entre Nuvens, crônicas”. E em 2012, o livro impresso “Laguna, Obra e Paisagem”, pela Editora Expressão. Em 2014, publicou pela Editora Unisinos o livro “Todo Filme é Sobre Cinema, ensaios sobre a Sétima Arte”.

Tem 17 livros (entre ebooks e impressos) de crônicas, contos, poesias, romance e ensaios, além de inúmeros textos publicados na imprensa brasileira, sites e blogs e redes sociais. Citações em vários trabalhos acadêmicos, de graduação, mestrado e doutorado. Poemas e contos traduzidos para o italiano pela revista virtual Sagarana, editada em Lucca, e poemas traduzidos para o inglês para a revista Rattapallax, editada em Nova York.

Títulos em destaque: “Outubro” (1975), “Universo Baldio” (2004), “No Mar, Veremos” (2001), “No Meio da Rua” (1979). Site oficial – http://www.consciencia.org/

3 respostas para ““Outubro”, livro à la Walt Whitman, é reeditado após 40 anos e mostra que a poesia não envelhece”

  1. Obrigado, Yago & Carreiro, equipe Opção Cultural por abrir espaço para a divulgação do trabalho do excelente poeta e crítico Nei Duclós. (AQ).

  2. Nei Duclós disse:

    Agradeço a brilhante matéria, maravilhosamente bem editada, sobre a segunda edição de um livro muito amado e totalmente patrocinada pelos leitores e amigos e por recursos próprios do autor. Para quem quiser adquirir, basta entrar em contato com [email protected].

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