O mercado de modelagem em Goiás não acabou, mas passou por um processo recente de retração e reorganização. Após o impacto da pandemia, que reduziu oportunidades e esfriou o setor, a atividade dá sinais de recuperação, ainda que sob novas regras, mais conectadas à publicidade e às redes sociais do que às passarelas tradicionais.

A avaliação é de quem atua diretamente no mercado. O diretor da agência Central Model, Garcia Neto, ao Jornal Opção afirmou que houve uma queda significativa, seguida de retomada gradual. “Depois da pandemia, ele deu uma encolhida. Mas já tem um ano e pouco, dois anos, que começou a crescer. Hoje está mais promissor, mais amplo”, diz.

Segundo ele, a recuperação não significa volta ao modelo antigo. O desempenho depende cada vez mais do perfil dos profissionais inseridos no mercado. “Depende muito dos modelos, de quais são inseridos para absorver a moda”, afirma.

Garcia Neto, diretor da agência Central Model | Foto: Arquivo pessoal

A ascensão das redes sociais transformou a dinâmica do setor, criando um cenário ambíguo para as agências. De um lado, ampliam a visibilidade; de outro, estimulam a autonomia dos modelos.

“Em certo ponto prejudica e em outros ajuda. Muitos tentam carreira solo, no freelancer. Mas muitos voltam para a agência porque têm uma estabilidade melhor”, afirma Garcia Neto. “Ajuda porque divulga melhor os modelos e as marcas. Tem os prós e os contras.”

Essa “desintermediação”, quando marcas contratam diretamente via redes sociais, é uma das principais mudanças do setor, reduzindo a dependência das agências em alguns casos. Apesar das transformações tecnológicas, o perfil buscado pelas marcas ainda segue padrões consolidados.

Segundo o diretor, o processo de seleção continua baseado na identidade de cada campanha. “O cliente cria a marca, o estilo, e busca o modelo dentro daquele padrão. Manequim 34, 36, 38 para mulheres; masculino também tem perfil definido. Isso não mudou”, explica.

Ao mesmo tempo, há sinais de ampliação. “Agregou com plus size, com curves. O mercado tem agregado”, diz. Na prática, porém, essa inclusão ainda é limitada. A modelo Sued Oliveira relata que a diversidade existe, mas de forma restrita.

“Nos castings, a realidade é quase sempre a mesma: só uma ou duas meninas ‘curves’”, afirma. Ela também aponta uma mudança estética recente. “Nos últimos dois anos, vimos a volta da magreza extrema e o uso das canetas emagrecedoras.”

Publicidade domina, passarela perde espaço

A mudança mais visível no mercado é o tipo de trabalho disponível. Desfiles e editoriais perderam protagonismo para campanhas comerciais e publicidade. “Publicidade e comercial são o que mais aparece hoje”, afirma Sued Oliveira.

Segundo ela, mesmo com limitações, ainda há espaço para atuação. “O mercado curve e plus size tem muito a melhorar, mas mesmo assim ainda consigo fazer trabalhos relevantes.” A própria trajetória da modelo reflete a adaptação exigida pela profissão.

snapinsta.com.br-6a17581097bd5
Modelo Sued Oliveira desfilando no Rio Fashion Week | Foto: Reprodução

“Estou há quatro anos me dedicando à carreira e, há menos de seis meses, também invisto nas minhas redes sociais”, contou ao Jornal Opção.

Mesmo com o avanço do trabalho independente, a atuação por meio de agência segue relevante, especialmente para quem está começando. Sued Oliveira afirma que tentou atuar de forma autônoma no início, sem sucesso. “Não via oportunidades. Se é seu sonho, vale a pena ter uma agência. São experiências necessárias”, afirma.

Do lado das agências, a percepção é semelhante: apesar da concorrência com o ambiente digital, elas continuam oferecendo estrutura, direcionamento e acesso ao mercado.

snapinsta.com.br-6a1757df0e093
Sued em trabalho para a revista de moda Marie Claire | Foto: Reprodução

Embora Goiás não seja considerado um dos principais polos da moda brasileira, modelos do estado ainda conseguem espaço no mercado internacional. Segundo Garcia Neto, profissionais goianos seguem sendo recrutados para temporadas fora do país.

“Temos modelos que vão para o exterior, ficam três meses, seis meses, e retornam para Goiás e continuam trabalhando aqui normalmente”, afirma. “Vai muito do perfil que o mercado internacional está pedindo naquele momento.”

Leia também: