Goiás cria empregos, mas salário médio recua e acende alerta sobre qualidade das vagas
05 maio 2026 às 10h53

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O estado de Goiás tem ampliado o número de empregos formais, mas o trabalhador está ganhando menos e trabalhando mais. Dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho e Emprego, de 2023, mostram que, enquanto mais de 78 mil novos vínculos empregatícios foram criados, a remuneração média caiu, escancarando um modelo de crescimento baseado em longas jornadas e salários mais baixos.
Goiás tem, hoje, a 5ª maior massa de proletários submetidos a jornadas superiores a 40 horas semanais no Brasil. No entanto, o dado que a propaganda não mostra é o da remuneração média real, que caiu de R$ 3.470,61 para R$ 3.380,65. Na prática, Goiás está contratando mais pessoas, mas pagando menos por cada uma delas.
A comparação regional escancara a desigualdade. Nos estados vizinhos, o valor médio do trabalho é maior, deixando Goiás na última posição do Centro-Oeste:
Distrito Federal — R$ 6.276,65 (+ R$ 2.896,00)
Mato Grosso do Sul — R$ 3.968,08 (+ R$ 587,43)
Mato Grosso — R$ 3.643,34 (+ R$ 262,69)
Goiás — R$ 3.380,65
Enquanto no Mato Grosso um trabalhador recebe, em média, quase R$ 300 a mais para funções semelhantes, em Goiás a jornada de 44 horas semanais segue como regra, não exceção.
A juventude como combustível
O dado mais sensível está no perfil de quem ocupa essas vagas. O aumento de 9,1% na contratação de menores de 17 anos e a concentração de trabalhadores com Ensino Médio completo em funções de baixo valor agregado revelam uma estratégia clara: sustentar setores inteiros com mão de obra mais jovem, mais barata e com menor poder de negociação.
Em polos como Rio Verde e Anápolis, a riqueza gerada pelo agronegócio e pela indústria não se traduz, na mesma proporção, em valorização salarial. O volume de empregos cresce, mas os ganhos reais são corroídos pela inflação setorial e pela ausência de políticas consistentes de valorização.
Goiás se consolida como um grande fornecedor de mão de obra para o país. Produz, transporta e movimenta a economia, mas sob o peso de jornadas intensas e salários em queda.
A questão já não é a falta de vagas, é o valor de cada hora trabalhada. Se o modelo atual se mantiver, o estado pode continuar apresentando bons números no PIB, mas às custas de uma população cada vez mais cansada, empobrecida e pressionada.
Apesar da queda na remuneração média, é necessário observar que o avanço no número de vínculos formais pode estar associado a uma mudança no perfil das contratações. Setores como serviços, comércio e agroindústria — muito presentes em cidades como Anápolis e Rio Verde — tendem a gerar vagas com salários iniciais mais baixos, especialmente em funções operacionais. Isso ajuda a explicar por que o volume de empregos cresce ao mesmo tempo em que a média salarial recua: há uma entrada maior de trabalhadores em posições de base, o que puxa o valor médio para baixo sem necessariamente indicar redução generalizada nos salários individuais.
Outro fator relevante é o impacto da inflação e da dinâmica econômica recente sobre o poder de compra dos trabalhadores. Mesmo pequenas variações nominais na remuneração podem representar perdas reais mais significativas quando comparadas ao aumento do custo de vida, especialmente em áreas como alimentação e transporte.
Além disso, a expansão do emprego formal pode refletir um processo de recuperação econômica após períodos de instabilidade, no qual o mercado absorve mão de obra gradualmente, começando por vagas de menor qualificação e remuneração. Nesse cenário, o desafio passa a ser não apenas gerar empregos, mas garantir progressão salarial e melhoria das condições de trabalho ao longo do tempo.
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