O Programa Araguaia Vivo 2030, iniciado em 2023 com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) e execução pela Tropical Water Research Alliance (TWRA), chega ao terceiro ano consolidando-se como a maior base científica já produzida sobre o rio Araguaia.

O programa mobiliza quase 300 pesquisadores de cerca de 30 instituições brasileiras, o projeto percorreu 3,5 mil quilômetros da bacia e produziu informações estratégicas para conservação ambiental, turismo sustentável, saúde pública e desenvolvimento regional.

Ao Jornal Opção, a coordenadora geral, Mariana Pires de Campos Telles, bióloga e doutora em ciências ambientais, explicou que tem uma equipe grande de diferentes áreas focada em levantar dados e informações inéditas na bacia do Araguaia durante esses últimos três anos.

Segundo ela, o projeto já produziu 38 reportagens na coluna Araguaia em Foco do Jornal Opção. “Nós temos várias expedições que foram realizadas. Temos um grupo grande que levantou informações novas sobre aves, peixes, plantas, vários grupos de organismos terrestres e aquáticos. Também sobre recursos hídricos e várias ações de educação ambiental, envolvimento com a comunidade e com os guias locais”, disse.

Foto: Divulgação

As descobertas mais relevantes estão novas espécies de plantas e peixes. “Nós temos descrição de espécies novas de planta, de peixe. Temos um levantamento inédito feito junto com os guias de pesca. Nós chamamos isso de ciência cidadã, quando a comunidade participa do levantamento das informações”, explicou.

Ela destacou que os guias, quase 50 parceiros, participaram desse levantamento. “Hoje temos uma informação que não existia e que é bem importante para pensar em manejo e políticas públicas”, disse.

O impacto cultural também foi avaliado. “Temos documentários premiados. É uma outra linguagem, a partir do audiovisual do cinema. Conseguimos vincular em várias redes e participamos de festivais de cinema, inclusive internacionais. Mostramos o Araguaia para o mundo”, afirmou.

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O programa consolidou uma frente estratégica de comunicação pública da ciência, transformando resultados em narrativas capazes de aproximar a sociedade da conservação do rio.

O documentário Expedição Araguaia foi selecionado para 17 festivais nacionais e internacionais, chegando a oito países e recebendo prêmios no Brasil e no exterior. Outras produções incluem Turismo de Natureza no Araguaia, Mulheres da Pesca no Araguaia, além das animações Florinha do Cerrado, Vétera e O Mundo Aquático de Micra.

Sobre o estado de conservação do rio, Mariana avaliou que está pior do que imaginavam quando iniciaram as pesquisas. “Do que nós imaginávamos, está um pouco mais ameaçado, porque como cientista precisamos de evidências para emitir uma opinião baseada em dados”. Ela acrescentou que “três anos não é suficiente para levantar todas as informações.

Para alguns temas foi suficiente para ter um diagnóstico bom, mas outros precisam de mais tempo e de monitoramento a longo prazo”. Dentre os problemas identificados estão a balneabilidade comprometida em alguns pontos, com níveis de coliformes acima do permitido. “Num levantamento de coliformes, em alguns lugares está muito acima”, disse.

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Os principais riscos ambientais incluem desmatamento e diminuição da disponibilidade hídrica. “Nós temos muitas margens do rio que deveria ter uma área de proteção permanente e não tem. Isso é preocupante porque cuidar da água não é só cuidar do rio, precisamos cuidar das nascentes e da mata ciliar. Teria que fazer o Código Florestal valer, ter as áreas de proteção permanente de fato protegendo e, no caso de algumas que não estão com vegetação, serem revegetadas”, afirmou.

Ao ser questionada sobre pontos críticos do rio, Mariana explicou que não dá para falar de um ponto específico. “Tem algumas áreas mais preocupantes, principalmente próximas das cidades ou dos empreendimentos, que merecem ação em termos de monitoramento”, explicou.

O programa também desenvolveu ferramentas para gestão ambiental, como um índice de saúde hídrica da bacia, em fase de implementação, que deve apoiar o monitoramento contínuo e subsidiar respostas rápidas a situações como mortandade de peixes e contaminações.

Segundo ela, foram realizadas análises de DNA ambiental em lagos, riachos e amostras de solo, permitindo identificar espécies a partir de vestígios genéticos presentes no ambiente. Também foram feitas análises de mercúrio ao longo da cadeia trófica, envolvendo sedimentos, plantas, peixes e invertebrados.

Mariana destacou a parceria com órgãos ambientais. “Nós fizemos bem essa comunicação com Ibama e Semad, viramos parceiros. Quando acontece, por exemplo, mineração clandestina, eles chamam nossos pesquisadores para ajudar a analisar o tamanho do impacto”, relatou.

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Ela também reconheceu que, de uma maneira geral, o Araguaia não está melhorando. “Não dá para falar que está melhorando não. Nós temos mais restrição hídrica, mais poluição, mais redução de vegetação. Então a tendência não está sendo melhorar”, disse.

Para ela, os impactos vêm tanto do turismo quanto dos empreendimentos. “Não dá para falar que um é pior que o outro. Na época de turismo, em julho, aparecem milhões de pessoas. É muito pontual, são locais específicos que concentram demais e geram muito lixo, muito resíduo. O impacto é grande. Por isso tem que ser feito da forma mais correta possível em termos de tratar os resíduos da melhor forma. A população inteira tem que colaborar com isso”, afirmou.

A participação da comunidade local foi considerada essencial. “Os guias foram se envolvendo muito com o projeto e a nós vemos mudança de comportamento, deles falarem mais com o turista sobre essa preocupação. Os próprios guias como agentes de mudança nesse sentido, de conscientização ambiental. A comunidade local pode fazer um papel muito importante nessa ajuda de trazer consciência para o turista que às vezes não tem”, disse.

Ela também relacionou a preservação ambiental com a saúde pública. “É porque está tudo ligado. Os vetores das doenças são insetos que estão na vegetação nativa e, dependendo do que nós fizermos com ela, isso desequilibra e aumenta demais a população desses vetores”, apontou.

“Isso tem impacto na nossa população. A própria Covid foi um exemplo disso. Estudar a biodiversidade e preservar tem a ver com a saúde, porque está tudo conectado. É desequilíbrio ambiental que pode gerar aumento ou diminuição de populações de insetos que são vetores de doenças importantes”, acrescentou.

O programa contou com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e projetos associados, como o Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio Araguaia) e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade (INCT EECBio).

Foram publicados dezenas de artigos em periódicos internacionais e apresentados resultados em congressos no Brasil e no exterior. O fortalecimento institucional despertou interesse de outras unidades da federação, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat), que demonstrou intenção de colaborar com a iniciativa.

Por fim, Mariana ressaltou a importância do investimento público. “É importante reconhecer o investimento do próprio Estado, a Fapeg, que direcionou uma agenda de pesquisa para a bacia do Araguaia. Quando nós cuidamos do nosso território, nós estamos cuidando do nosso planeta. E precisa de investimento para isso. Nós não conseguimos fazer o trabalho que fez sem um alto investimento. Tem que ter pessoas qualificadas. Então a ciência a serviço da vida, vamos pensar assim”, apontou.

Ao completar três anos, o Araguaia Vivo 2030 reforça, por meio de nota, a mensagem de que preservar o rio é responsabilidade coletiva. Entre os legados estão a formação de novos mestres e doutores, a descoberta de novas espécies, o preenchimento de lacunas de conhecimento sobre a biodiversidade regional e a consolidação de ferramentas para gestão sustentável.

Segundo a nota, mais do que gerar conhecimento científico, o programa traça um modelo replicável de gestão de bacias hidrográficas no Brasil, integrando ciência, poder público e sociedade.

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