A presidente estadual do PSOL em Goiás e pré-candidata ao governo, Cíntia Dias, afirmou ao Jornal Opção que mantém seu nome na disputa pelo Palácio das Esmeraldas, mas admite recuar para compor uma chapa unificada do campo progressista nas eleições de 2026. Segundo ela, a prioridade do partido é evitar a fragmentação da esquerda e apresentar uma alternativa conjunta a Daniel Vilela (MDB), Marconi Perillo (PSDB) e ao campo bolsonarista representado pelo PL.

A declaração ocorre em meio à indefinição do campo progressista em Goiás, que ainda tenta acomodar interesses de partidos como PT, PSOL, Rede, PCdoB, PV, PSB e PDT. Para Cíntia, o cenário é contraditório: ao mesmo tempo em que há demora na definição de nomes e na apresentação de propostas, existe uma oportunidade rara de construção de uma frente unificada.

“Por mais assustador que pareça, é um momento favorável, porque a única alternativa que se apresenta de progressista tem tentado, pelo menos, caminhar junto”, afirmou. Segundo ela, desde 2002 não havia um cenário com tantos partidos discutindo uma candidatura própria do campo progressista em Goiás.

O PSOL lançou Cíntia como pré-candidata ao governo, mas a presidente estadual do partido afirma que a prioridade é a construção coletiva. A avaliação interna, segundo ela, é de que uma candidatura isolada poderia até preservar a identidade partidária, mas teria menos capacidade de reorganizar a esquerda goiana no médio prazo.

“Estou disposta, mesmo com uma pontuação maior do que a do Luiz César, a recuar para garantir que a gente apresente a unidade, que a gente apresente um campo unitário”, disse. Luiz César Bueno é o nome apresentado pelo PT como pré-candidato ao governo, embora ainda dependa da consolidação das alianças dentro da federação e do campo progressista.

Sob clima de tensão

A fala de Cíntia expõe uma tensão interna da esquerda goiana. Parte da militância do PSOL avalia que o partido deveria manter candidatura própria diante do baixo desempenho inicial de Luiz César Bueno em levantamentos eleitorais. A presidente estadual, no entanto, defende que a campanha ainda não começou de fato e que a esquerda precisa apostar em uma narrativa comum.

Para ela, há um eleitorado hoje disperso, inclusive em candidaturas de centro e de direita, que poderia ser atraído por uma proposta progressista mais nítida. Cíntia cita, por exemplo, eleitores que hoje declaram voto em Marconi Perillo (PSDB) não necessariamente por adesão ao tucano, mas como forma de se opor ao grupo político de Ronaldo Caiado e Daniel Vilela.

“Tem muita gente na sociedade que, por exemplo, está votando hoje no Marconi para derrotar o caiadismo do Daniel. Então, se a gente entrega uma proposta de frente ampla, consolidada, com a mesma narrativa e o mesmo discurso, eu tendo a apostar que a gente pode chegar a um resultado melhor”, afirmou.

A dirigente reconhece, porém, que a esquerda perdeu espaço político nos últimos anos. Na avaliação dela, o campo progressista foi pouco ativo na disputa de opinião pública, deixou de ocupar territórios e chegou ao período pré-eleitoral sem uma plataforma suficientemente visível para confrontar o discurso de continuidade do governo estadual.

“O nosso maior problema é a falta de espaço que a gente não ocupou. E isso é culpa do campo progressista, não é de outro lugar. O campo progressista, nos últimos dois anos, se ajoelhou, ficou quieto, não avançou. Então, para recomeçar, a gente precisa fazer isso juntos”, declarou.

Progressismo pode ficar de fora do 2 turno

Diante configuração atual da disputa pelo governo de Goiás. Daniel Vilela (MDB), atual governador e herdeiro direto do grupo de Ronaldo Caiado, tenta consolidar a narrativa de continuidade administrativa. Marconi Perillo, por sua vez, aposta na memória de seus quatro mandatos como governador e busca se apresentar como alternativa de experiência. Já o PL tenta preservar a força do bolsonarismo no Estado, que se mostrou competitivo tanto em 2022 quanto nas eleições municipais de 2024.

A dirigente aponta que a esquerda pode ficar novamente fora do segundo turno se não conseguir organizar uma candidatura forte. O risco seria a repetição, em escala estadual, do que ocorreu em Goiânia em 2024, quando a disputa final ficou entre Sandro Mabel, candidato apoiado por Caiado, e Fred Rodrigues, nome do PL apoiado pelo bolsonarismo. A deputada federal Adriana Accorsi (PT), que chegou a aparecer competitiva em pesquisas, terminou fora do segundo turno.

Para Cíntia, a surpresa provocada pelo PL na capital não deve ser ignorada pela esquerda. Ela avalia que o bolsonarismo continua com capacidade de mobilização em Goiás, mas rejeita a ideia de que o Estado seja naturalmente conservador ou impermeável a uma candidatura progressista.

A dirigente cita a votação de Lula em Goiás em 2022 como prova de que há base eleitoral para o campo progressista. No segundo turno presidencial daquele ano, Lula recebeu mais de 1,5 milhão de votos no Estado, o equivalente a 41,29% dos votos válidos. Bolsonaro venceu em Goiás, com 58,71%, mas o resultado, para Cíntia, mostra que a esquerda não parte do zero.

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