Uso excessivo de telas nas férias escolares preocupa especialista: “Essa dependência foi construída a partir de um hábito instituído pela própria família”, diz
13 julho 2026 às 16h00

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O uso prolongado de telas por crianças e adolescentes durante as férias realmente traz riscos importantes para o desenvolvimento físico e emocional. A exposição excessiva favorece o sedentarismo, que somado à ansiedade pode desencadear problemas como obesidade, hipertensão e sobrecarga cardiovascular. Além disso, há impactos diretos no sono, na capacidade de lidar com frustrações e até no desempenho escolar.
Ao Jornal Opção, cardiopediatra Mirna de Sousa, membro da Sociedade Goiana de Pediatria (SGP), falou sobre os riscos do uso excessivo de telas por crianças e adolescentes durante o período de férias.

Segundo ela, os impactos vão muito além do lazer e podem comprometer a saúde física e mental desde cedo. “Hoje, praticamente o lazer do adolescente e do jovem é redes sociais ou jogos, tudo relacionado à tecnologia”, afirmou.
Para Mirna, essa mudança de hábitos trouxe consequências preocupantes. “As férias eram um período de movimento físico. Hoje, muitas vezes, o único entretenimento é a tela, como televisão, tablet, celular, videogame. Isso impõe riscos que às vezes não estamos alerta”, apontou.
A médica falou que entre os sinais precoces de problemas cardiovasculares estão o sedentarismo e a ansiedade. “Sedentarismo associado à ansiedade está ligado à compulsão alimentar, excesso de peso, pressão arterial que sobe. As crianças começam a ter, desde muito cedo, sobrecarga do aparelho cardiovascular e impacto na saúde ao longo da vida”, explicou.
Ela lembrou que doenças como infarto e derrame, que acometem adultos, começam na infância.
Além da parte física, Mirna ressaltou prejuízos comportamentais. “As crianças e adolescentes acostumados às atividades de tela têm resposta imediata, ficam mais intolerantes à frustração. Há distúrbios do sono porque o estímulo luminoso da tela interfere na qualidade do sono. Associados à ansiedade e intolerância à frustração, temos uma geração menos saudável”, disse.
A médica alertou que o problema se acentua nas férias, quando os pais acreditam que manter os filhos em casa com dispositivos é mais seguro. “A internet é a rua de hoje. O conteúdo acessado pode ser muito mais perigoso do que o que se encontra na rua”, afirmou.
Sobre recomendações práticas, Mirna destacou protocolos da Sociedade Brasileira de Pediatria. “Crianças abaixo de 2 anos não devem ser expostas à tela. Acima de 2 anos, limitar cerca de 2 horas por dia; acima de 10 anos, até 3 horas. Nunca durante refeições, nunca na cama, e de preferência só até às 19 horas”, explicou.
A relação entre sedentarismo e obesidade infantil também foi abordada. “Esse risco está bem estabelecido na literatura médica e na prática. A criança que não se movimenta ganha mais peso com facilidade, tem hábitos alimentares menos saudáveis. O sedentarismo é um dos principais fatores removíveis de risco cardiovascular”, afirmou.
Segundo ela, o mais grave é que a criança sedentária vai se tornar um adolescente sedentário, um adulto sedentário, e o risco é cumulativo.
Para os pais, Mirna recomendou planejamento da rotina. “É muito importante incluir atividade física. Mesmo nas férias, tentar fazer um cronograma e colocar momentos obrigatórios de movimento. Os melhores resultados acontecem quando pais ou cuidadores praticam junto com a criança, de preferência ao ar livre. O benefício é duplo: para a criança e para o adulto”, disse.
Ela também sugeriu alternativas ao tempo de tela. “Brincar de amarelinha, pular corda, jogar bola, peteca. Montar quebra-cabeças, jogar dominó, cartas, jogos de tabuleiro. É muito possível passar o tempo sem ter a tela como único método de entretenimento. A mensagem mais importante é: a tela não é o único tipo de entretenimento. Leitura de livros e gibis também deve ser incentivada”, apontou.
Segundo ela, é fundamental que os responsáveis retirem os dispositivos do convívio e ofereçam outras opções de lazer. “Para a criança ter acesso a isso e deixar a tela de lado, ela precisa ter esses brinquedos, essas outras alternativas em casa. Eles têm que ser estimulados e a tela tem que ser retirada do convívio. É preciso tirar da mão da criança o celular ou tablet e proporcionar essas outras atividades que são muito mais interessantes”, afirmou.
A médica também abordou a relação entre telas e hábitos alimentares. “É muito difícil viver numa sociedade onde é mais fácil e mais barato comprar o pacotinho de um salgadinho do que ter acesso a verduras, legumes e frutas de qualidade. É importante políticas públicas que facilitem o acesso ao alimento saudável e dificultem o acesso ao que faz mal”, disse. Ela destacou ainda que “alimentação é um hábito e hábito é aprendido. Não existe uma família que os pais se alimentam mal e que a criança se alimenta bem. A família toda tem que passar por esse processo de conscientização”, explicou.
Sobre possíveis benefícios do uso moderado de telas, Mirna explicou que existe sim algum benefício. “As escolas usam a tela para atividades pedagógicas. A diferença entre o remédio e o veneno é a dose. O uso da tela sob supervisão, com conteúdo adequado para a idade, com tempo de exposição limitado e poupando principalmente o final do dia e os momentos de refeição, pode ser usado como elemento de entretenimento e pedagógico”, disse.
A especialista também comentou sobre a resistência das crianças quando os pais tentam reduzir o tempo de tela. “Essa dependência foi construída a partir de um hábito instituído pela própria família ou sociedade. Tudo que eu vou desconstruir leva tempo. A primeira mensagem é: tenha paciência; a segunda: persistência. Reestruturar a rotina com limites e regras claras. Quando as regras são claras, a criança segue. O aprendizado é um processo de repetição, persistir porque o resultado vai surgir”, afirmou.
Mirna reforçou que a mudança de hábitos exige esforço coletivo e constância. “A gente consegue transformar esses hábitos, a gente consegue vencer essas resistências”, concluiu.
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