Música pode reduzir sintomas do TDAH e até diminuir necessidade de medicamentos
12 julho 2026 às 14h56

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*Colaboração de Luan Monteiro
A música pode ser uma poderosa aliada no tratamento do TDAH, mas também exige cautela. Em entrevista ao Jornal Opção, o pesquisador Gustavo Gattino, doutor em Saúde da Criança e do Adolescente e professor associado da Universidade de Aalborg, na Dinamarca, destacou que o recurso pode reorganizar o cérebro, melhorar a atenção e reduzir a ansiedade, mas alertou que, quando mal utilizada, pode gerar estresse, desconforto e até crises de agressividade. Ele defende políticas públicas que incentivem intervenções não farmacológicas e aponta a música como uma alternativa relevante e baseada em evidências para crianças, adolescentes e adultos.
Segundo o pesquisador, a música vai muito além do aspecto lúdico e pode reorganizar o cérebro, estruturando de forma diferente o processamento do indivíduo. “Ela oferece possibilidades para que, principalmente, as áreas de atenção e memória, que possuem prejuízos nesses indivíduos, possam funcionar de uma maneira diferente”, afirma.
O especialista explica que a música, por ser uma arte temporal, ajuda a organizar o foco dentro do tempo. “Ou seja, o indivíduo organiza sua atenção para prestar atenção no que vai acontecer através da música”, aponta.
Ele diz que a literatura científica mostra que a música auxilia diferentes tipos de atenção. “A música consegue melhorar a atenção dividida, facilita a atenção focada ou sustentada e desabilita alguns elementos de vigilância ou alerta para que eu possa focar em um elemento específico de prazer ou que realmente me interesse”, explica.

Não há estilos musicais universais que funcionem melhor para pessoas com TDAH. “Nós construímos a nossa própria história musical desde a 25ª semana de gestação. Aquela música que ao longo da história foi ou é importante para o indivíduo, essa vai ser a música que provavelmente vai ajudar mais a regular, a prestar atenção e, principalmente, como algo que o indivíduo identifica como algo conhecido”, diz.
O processamento musical no sistema nervoso central também é decisivo. “Quando a música é processada, ela vai diretamente para a amígdala, que é como se fosse um grande portão. Se a amígdala interpreta que o conteúdo musical é benéfico, ela envia mensagens para diferentes áreas do sistema nervoso central, liberando neurotransmissores como serotonina, dopamina e endorfinas, que reduzem a ansiedade e a sobrecarga emocional”, afirma.
Gattino reforça que ouvir música é uma prática baseada em evidências. “Existem diversos estudos que mostram que a escuta musical pode ser benéfica para auxiliar nas tarefas do cotidiano, na transição de atividades, para a concentração e para o relaxamento”, pontua.
Ele diferencia a escuta espontânea da intervenção estruturada feita por um musicoterapeuta. “A diferença é o nível de complexidade e de especificidade que se pode chegar. Todas possuem um corpo de evidências já muito importante desenvolvido ao longo dos últimos 60 anos”, alerta.
O pesquisador recomenda que pais e professores utilizem a música como ferramenta para crianças e jovens com TDAH. “A música permite momentos sociais onde o indivíduo se sente valorizado e tem uma experiência de êxito. Mesmo que eu não saiba tocar, se eu escutar e conseguir bater palma no ritmo ou criar um movimento, já estou situado nessa estrutura”, pontua.
Ele sugere que famílias reservem momentos diários para escutar ou tocar música, e que escolas usem o recurso para organizar a aprendizagem.
Adultos também podem se beneficiar. “Se a música é utilizada em contextos específicos, como durante uma atividade física ou em momentos sociais, ela ajuda na motivação, no relaxamento e no foco”, afirma.
Ele alerta, porém, que músicas com pouca repetição, mudanças abruptas e excesso de estímulos podem se tornar distrações. “Quanto mais regular, simples e previsível for a estrutura da música, mais ela vai auxiliar para a concentração”, explica.
Sobre os mitos, Gattino é categórico. “O primeiro é que a música vai distrair mais do que ajudar. Isso não é verdade. Outro mito é imaginar que uma pessoa com TDAH não vai aprender música. Muitas pessoas com TDAH tocam instrumentos e são músicos. E também não é verdade que a música só trabalha um tipo de atenção. Ela auxilia na atenção dividida e suaviza os inputs de vigilância ou alerta”, comenta.
Ele acrescenta que, usada de forma sistemática e com orientação profissional, a música pode até reduzir a necessidade de medicamentos. “As pesquisas mais recentes mostram que não é coincidência que a música é algo importante para esses indivíduos. Ela trabalha diferentes tipos de atenção, memória e regulação emocional”, diz.
Gattino resume os impactos da música em diferentes fases da vida. “Na infância, ela molda aspectos cognitivos e emocionais. Na adolescência, tem papel crucial na identidade e nas emoções. Na vida adulta, assume caráter social e funcional”, pontua.
Ele alerta também para os efeitos negativos. “Assim como a música faz bem, ela pode fazer muito mal. Se eu escuto uma música que não gosto, isso gera estresse e adrenalina, podendo causar incômodo, agressividade e até estados alterados de consciência”, explica.
O pesquisador recomenda cautela quando houver dúvida sobre os efeitos da música. “Ficou na dúvida se o recurso é bom ou não, ou se pode estar causando algum efeito? A estratégia é: se existe uma clara demonstração de que não está fazendo bem ao indivíduo e ele não está se sentindo bem, corta na mesma hora. Quanto mais curta for a exposição, mais fácil vai ser para o indivíduo se regular sem a influência da música”, pontua.
Ele também destacou a falta de estudos não farmacológicos. “A falta de estudos não farmacológicos é justamente pelo poder que a indústria farmacêutica tem de fazer os estudos com medicamentos em comparação com os de outras áreas, porque a indústria farmacêutica consegue facilmente ter mais pessoas, ter equipes envolvidas, o que facilita a realização e a publicação desses estudos”, afirma.
Segundo Gattino, apenas nos últimos anos houve maior esforço de institutos e universidades para pesquisas relacionadas à música. “Hoje esse é um grande esforço de alguns grupos de pesquisa, só que a grande dificuldade é a parte de financiamento. No momento em que tivermos mais financiamentos públicos e privados para esse tipo de estudos, mais isso vai aparecer. E, claro, tudo depende do interesse de quem financia”, diz.
Ele defende políticas públicas que incentivem intervenções não farmacológicas. “Talvez, no momento em que tivermos uma consciência, um discurso e, principalmente, políticas públicas que recomendem o uso de intervenções não farmacológicas, isso vai ajudar muito. É óbvio que espera-se que primeiro se tenha os estudos para que depois se pensem em políticas públicas. Mas, como se sabe que medicamentos têm efeitos específicos e que podem atrapalhar o desenvolvimento de um indivíduo, por que não pensar já nesse momento em políticas que possam favorecer tantas intervenções não farmacológicas, como é o caso da música?”, finaliza.
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