O espelho do ódio: o que a Psicanálise revela por trás do moralismo violento
12 julho 2026 às 13h03

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Recentemente, o debate público foi novamente chacoalhado por episódios de hostilidade e declarações preconceituosas vindas de figuras de destaque — como a recente polêmica envolvendo o proprietário do Frigorífico Goiás. Para além do impacto político e social, manifestações viscerais de homofobia e intolerância associadas a discursos de extrema-direita acendem um alerta que ultrapassa a barreira do debate ideológico e entra diretamente no campo da saúde mental e da estrutura psíquica.
Por que a existência, o afeto e a identidade do outro geram reações de tamanha repulsa e agressividade em determinados indivíduos?
Para a psicanálise, o ódio barulhento raramente fala sobre o objeto odiado; na verdade, ele funciona como um holofote sobre as fragilidades de quem o emite. Longe de ser apenas uma escolha política, o moralismo rígido e a necessidade obsessiva de condenar o comportamento alheio operam frequentemente como mecanismos de defesa do ego.
Quando a intolerância se disfarça de “defesa dos bons costumes”, a teoria freudiana nos convida a olhar para o que está recalcado. O ódio sistemático costuma ser o sintoma de uma arquitetura interna que precisa sufocar as próprias contradições. É a manifestação clássica de fenômenos como:
- A projeção: Onde o sujeito deposita no outro os impulsos e vulnerabilidades que não consegue aceitar em si mesmo.
- A formação reativa: Uma compensação psíquica onde o pavor da própria fragilidade (ou de desejos reprimidos) se transforma em uma postura de extrema rigidez e agressividade externa.
O preconceito, portanto, funciona como uma armadura para egos inseguros, que necessitam criar um “inimigo externo” para manter a ilusão de uma pureza e superioridade que eles próprios sentem ameaçada.
O caso envolvendo uma figura pública que defendia determinados valores morais e acabou associada, na esfera privada, a comportamentos aparentemente contraditórios reacendeu um velho debate: afinal, por que alguém condenaria publicamente aquilo que, em sua vida íntima, pode desejar ou até praticar?
Embora a reação mais comum seja classificar situações como essa simplesmente como hipocrisia, a psicanálise propõe uma leitura mais ampla. Para o psicanalista Leandro Borges, especialista em teoria psicanalítica de orientação lacaniana, é preciso diferenciar conceitos que frequentemente são tratados como sinônimos no debate público, como divisão subjetiva, hipocrisia e cinismo.
Segundo ele, Freud já demonstrava que o ser humano não possui uma coerência absoluta entre aquilo que pensa, deseja e faz. A ideia de que “o eu não é senhor em sua própria casa” revela justamente que existe uma dimensão inconsciente capaz de produzir conflitos entre a imagem que uma pessoa constrói de si mesma e aquilo que efetivamente a mobiliza no plano do desejo. Lacan aprofunda essa compreensão ao afirmar que todo sujeito é estruturalmente dividido, havendo sempre um desencontro entre os ideais que sustenta, a identidade que apresenta ao mundo e seus desejos inconscientes.
Nem todo preconceito revela desejo reprimido
Apesar de reconhecer que determinados mecanismos psíquicos podem produzir esse tipo de contradição, Leandro faz uma ressalva importante: a psicanálise não afirma que toda pessoa preconceituosa deseja secretamente aquilo que condena.
Segundo ele, essa interpretação se tornou popular, mas não encontra respaldo nas formulações de Freud. Cada sujeito possui uma história singular e apenas uma escuta clínica seria capaz de compreender o lugar ocupado por determinado desejo em sua trajetória.
Ainda assim, alguns mecanismos de defesa ajudam a entender por que determinadas manifestações de hostilidade podem surgir. Entre eles está a chamada formação reativa, descrita por Freud como uma defesa em que um impulso considerado ameaçador é substituído justamente por sua expressão oposta. Em vez de reconhecer uma ambivalência interna, o indivíduo passa a investir intensamente na condenação daquilo que lhe provoca conflito.
Outro mecanismo citado pelo especialista é a projeção, quando aspectos que causam desconforto interno são atribuídos exclusivamente ao outro, fazendo com que ele seja percebido como ameaça ou inimigo.

Desejo, identidade e prática sexual não são a mesma coisa
Outro ponto frequentemente confundido durante escândalos envolvendo sexualidade é a ideia de que uma experiência sexual definiria automaticamente a identidade de alguém.
Para Leandro Borges, a psicanálise distingue claramente três dimensões: orientação do desejo, fantasias e práticas sexuais.
É importante, nesse ponto, diferenciar desejo de identidade. Uma experiência sexual não define, isoladamente, a identidade de ninguém. O desejo humano não se organiza segundo categorias tão estáveis e lineares quanto aquelas utilizadas socialmente para classificar as pessoas. Ele é atravessado por fantasias, curiosidades, conflitos e formas de satisfação que podem não coincidir com a maneira pela qual o indivíduo se reconhece ou deseja ser reconhecido.
Segundo ele, uma fantasia pode nunca ser realizada; uma prática isolada não revela toda a vida psíquica do indivíduo; e nenhuma experiência, por si só, permite concluir quem uma pessoa é.
Essa complexidade costuma desaparecer quando episódios íntimos ganham repercussão pública. Em vez de compreender a singularidade da experiência humana, o debate passa a buscar explicações definitivas para enquadrar a pessoa em uma identidade única, observa o especialista.
Quando a questão deixa de ser privada
Para o psicanalista, o problema ético não está na existência de desejos, fantasias ou práticas entre adultos capazes de consentir livremente.
A situação muda quando alguém constrói sua autoridade pública justamente atacando ou estigmatizando pessoas que pertencem ao mesmo grupo com o qual mantém relações privadas.
Nesse cenário, afirma, a discussão deixa de ser exclusivamente sexual e passa a envolver os efeitos produzidos pelo discurso público.
Segundo Leandro, uma pessoa pode desejar alguém sem reconhecer plenamente sua dignidade como sujeito, buscando seu corpo na intimidade enquanto rejeita sua existência no espaço público. Quando isso ocorre, o discurso contribui para reforçar preconceitos, humilhações e até situações de violência simbólica contra o grupo que, em segredo, também é objeto de seu desejo.
Hipocrisia ou cinismo?
A entrevista também diferencia dois conceitos frequentemente utilizados como sinônimos.
A hipocrisia, explica Leandro, ocorre quando alguém sustenta publicamente valores que não orientam sua própria conduta. Em muitos casos, porém, isso não acontece necessariamente de forma consciente. O sujeito também pode tentar preservar para si uma imagem idealizada de retidão, pureza ou virilidade, protegendo-se de conflitos que ameaçam sua identidade.
Já o cinismo ocupa outra posição.
Nesse caso, a pessoa reconhece perfeitamente a contradição entre discurso e prática, mas continua sustentando publicamente determinada narrativa porque ela lhe garante prestígio, pertencimento, influência política ou vantagens sociais. O discurso deixa de expressar uma convicção e passa a funcionar como instrumento de poder.
A contradição adquire maior gravidade quando a defesa pública de determinados valores contribui para estigmatizar justamente as pessoas procuradas na intimidade. Nesse caso, não estamos apenas diante de um conflito privado. O discurso produz efeitos sociais: legitima humilhações, reforça preconceitos e pode expor um grupo à violência, ao mesmo tempo que transforma seus integrantes em objetos de uma satisfação mantida em segredo. A pessoa pode desejar alguém sem reconhecer plenamente sua dignidade como sujeito. Pode buscar seu corpo na intimidade e rejeitar sua existência no espaço público. Esse é um dos pontos mais delicados da questão.
A queda da imagem pública
Na avaliação do especialista, casos como esse despertam enorme repercussão porque a sociedade não reage apenas à sexualidade da pessoa envolvida.
O impacto maior decorre da percepção de que existiria uma dissociação entre a imagem construída publicamente e a vida privada.
Segundo ele, a psicanálise distingue o direito à intimidade da fabricação deliberada de uma identidade moral utilizada para julgar ou perseguir outras pessoas. Ninguém é obrigado a expor sua sexualidade ao espaço público, mas a situação muda quando essa imagem pública serve como instrumento para controlar, excluir ou discriminar terceiros.
É justamente nessa diferença, afirma Leandro, que reside o aspecto ético do problema.
O prazer coletivo em condenar
A entrevista também chama atenção para outro fenômeno observado durante grandes escândalos: a reação da sociedade.
Segundo Leandro Borges, Freud já havia observado, em O mal-estar na civilização, que a agressividade humana não desaparece; ela apenas encontra novos destinos. Na avaliação do psicanalista, as redes sociais transformaram a exposição pública em uma espécie de espetáculo contemporâneo, marcado por memes, humilhações, sátiras e linchamentos simbólicos.
Essa renúncia produz um mal-estar permanente. Um desses destinos consiste em deslocar parte dessa tensão para determinados grupos, transformando-os em depositários das angústias, dos medos e das contradições que a própria coletividade encontra dificuldade em reconhecer como suas. Não por acaso, Freud observa que “o homem não é uma criatura branda”. A agressividade não é um acidente da civilização; ela constitui um de seus problemas fundamentais.
Inspirando-se em Lacan, ele afirma que existe, em determinados momentos, uma forma de satisfação coletiva — o chamado gozo — na vigilância, na condenação e na ridicularização do outro. O risco, segundo ele, é que a indignação ética se misture ao prazer de assistir à queda de uma figura pública, reduzindo toda a complexidade humana a um único episódio.
Por isso, conclui, a psicanálise procura evitar dois extremos: transformar toda contradição em desculpa ou reduzir uma pessoa inteiramente à sua vida sexual. A compreensão dos mecanismos inconscientes não elimina a responsabilidade pelos atos praticados nem pelos efeitos que discursos públicos produzem sobre outras pessoas. Ao mesmo tempo, responsabilizar alguém não exige transformá-lo em objeto de linchamento simbólico.
Quando desejo e moral entram em conflito
A psicanalista clínica Helena Duarte Nogueira destaca que a psicologia também oferece explicações para compreender esse tipo de comportamento, mas alerta que elas não podem ser aplicadas automaticamente a todos os casos.
Um dos conceitos é o da dissonância cognitiva, desenvolvido pelo psicólogo Leon Festinger, segundo o qual o indivíduo experimenta um desconforto psicológico ao sustentar crenças, desejos ou comportamentos incompatíveis. Para reduzir essa tensão, explica Helena, algumas pessoas podem negar sentimentos ou atacar justamente o grupo que desperta esse conflito. Ela ressalta, porém, que esse mecanismo não significa que toda pessoa preconceituosa esteja reprimindo desejos.

A especialista acrescenta que a psicanálise também descreve a formação reativa, mecanismo de defesa em que o indivíduo manifesta externamente o oposto daquilo que sente internamente. Além disso, cita a chamada homofobia internalizada, que pode surgir em pessoas criadas em ambientes onde diferentes orientações sexuais eram associadas à culpa, vergonha ou pecado.
Ainda assim, Helena reforça que a ciência não permite concluir que “todo homofóbico é um gay enrustido”. Segundo ela, embora algumas pessoas possam vivenciar conflitos relacionados à própria sexualidade, muitas outras apenas reproduzem preconceitos aprendidos na família, na religião ou no meio social, sem qualquer relação com sua orientação sexual.
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