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Breve história sobre meu pai, um homem correto e justo

cont2Pioneiros sempre têm muito a contar. Eli Brasiliense, por exemplo, em seu romance “Chão Vermelho”, fala da Goiânia que viu brotar da argila do Cerrado, na primeira metade do século passado. Mas sempre é pouco. Muitos desses pioneiros — a maioria — não contam o que viram e viveram, e se perde a história rica, às vezes dramática, às vezes cômica, mas sempre épica, de seu tempo. Gostaria que meu pai tivesse escrito um livro, ele que viveu desde o primeiro dia a saga de Goiânia, até seu falecimento, em 1982. Getulista empedernido, foi amigo incondicional de Pedro Ludovico, embora da geração seguinte, e por isso amigo também dos filhos do velho cacique. Na construção de Goiânia, foi um dos primeiros funcionários selecionados por Pedro Ludovico, na antiga capital, para a mudança. Sempre foi um membro de carteirinha do PSD, e ocupou nos governos dos Ludovico cargos de confiança, embora nunca tivesse se arriscado em eleições. “Não tenho jeito para pedir votos”, dizia. Era verdade. Nunca o vi pedir nada a ninguém, ele que viveu toda uma existência modesta, e que, com seus vencimentos de funcionário público, somados aos de minha mãe, professora, educou os filhos — e educou bem. A mim mesmo, fez questão de enviar ao Rio de Janeiro para fazer o curso que escolhi — Engenharia. Só hoje posso avaliar o sacrifício de meus pais para que a mesada chegasse religiosamente, como chegou, nos sete anos que passei estudando na então chamada, merecidamente, de Cidade Maravilhosa. Quando os Ludovico foram derrotados por Jerônimo Coimbra Bueno em 1947, no fim do Estado Novo, meu pai foi demitido do cargo de delegado (os cargos policiais de chefia eram de livre nomeação do governador), como o foram todos os amigos de Pedro Ludovico. Mas ele tinha a filosofia do personagem Ripol, de Vianna Moog, no livro “Uma Jangada para Ulysses”: “Never complain, never explain”. Não se amofinou nem por um momento. Juntou as economias da família, comprou um carro e foi ser “chofer de praça” como se chamavam os motoristas de táxi de então. Durante os anos do governo Coimbra Bueno dirigiu seu “carro de praça”, vendeu fios de cobre (conseguiu uma representação da fábrica Pirelli) sem uma queixa, uma recriminação sequer, embora trabalhasse febrilmente na eleição seguinte, a de 1950, para que Pedro Ludovico voltasse vitorioso para o governo de Goiás, e Getúlio Vargas para a Presidência do Brasil. Convidado por Pedro Lu­dovico, foi ser comandante da Guarda Civil, como se chamava a polícia fardada da época, em que não havia Polícia Militar. Sua infância, na antiga capital, não foi fácil. Minha avó paterna, Luiza, que residia na cidade de Goiás, era uma bela moça da família Sardinha da Costa, descendente de portugueses imigrados para a região de Paraúna, onde tinham léguas de sesmaria doadas pela coroa portuguesa à época do Brasil Colônia. Deu ela o que se chamava um “mau passo”, e para o qual não havia perdão numa cidade de Goiás supermoralista. Enamorada de um jovem engenheiro que viera do Rio de Janeiro a Goiás fazer uns serviços de cartografia, viu-se só, grávida e solteira, quando Benedito Netto de Velasco, o engenheiro, viajou inopinadamente para o Rio, e não mais voltou a Goiás. Imagine-se o escândalo, naquele ano de 1911, na pequena e preconceituosa capital. Basta dizer que minha avó encerrou ali sua carreira amorosa, e cuidou de educar o filho único, desprezada pela família e pela comunidade onde vivia. Imagine-se a dificuldade com que mãe e filho sobreviveram. Isso acabou por fortalecer o caráter de meu pai, que sempre na vida cuidou de ser o mais trabalhador e honesto, em qualquer função que exercesse, e uni-lo à minha avó por quem teve a maior afeição e a quem dedicou o maior desvelo até o dia de sua morte, o único dia em que o vi verdadeiramente abatido. Por outro lado, jamais perdoou o pai. Conviveu e fez amizade com o irmão deste, o brilhante político Domingos Velasco, que foi o pioneiro do socialismo no Brasil (fundador do Partido Socialista Brasileiro em 1947). Nunca aceitou sequer conhecer o pai, Benedito Velasco. Domingos Velasco era um advogado destacado, deputado federal por quatro mandatos e senador por um mandato, por Goiás. Aproximou-se de meu pai, certamente constrangido pelo comportamento do irmão, que condenava. Ele recebeu com naturalidade a amizade do tio. Quando Domingos Velasco disse a meu pai que o irmão desejava conhecer o filho, agora já adulto, e que jamais vira, meu pai foi categórico: “Impossível. Passou a época disso acontecer”. Anos mais tarde, quando um Benedito (que era bastante rico) talvez arrependido, já velho, perto do fim, pediu ao irmão que comunicasse a meu pai que pretendia contemplá-lo no testamento, teve a resposta: “Diga a ele que se o fizesse, estaria me fazendo um favor. Se não o fizer, serão dois favores. Que não o faça, pois ficaremos assim melhor os dois”. E mais não disse, nem lhe foi perguntado. Meu pai ocupou vários cargos na Segurança Pública, desde aqueles anos de 1930, em que se mudou para Goiânia, cidade existente mais no papel e tinta do arquiteto Atílio Correa Lima do que nos tijolos e cimento do interventor Pedro Ludovico. Foi agente de polícia (detetive, à época), delegado, respondeu pela Chefatura de Polícia (hoje Secretaria de Segurança), diretor da Penitenciária Estadual (agora Cepaigo ou Penitenciária Coronel Odenir Guimarães) e por longos anos pelo Serviço de Trânsito (hoje Detran), por onde se aposentou. Teria muitas histórias a contar ou a pôr no papel. Como a de quando Goiânia (início dos anos 1940) tinha apenas um ladrão, o “Boca Larga”, bastante conhecido. Dos crimes que chocaram o Estado, como o “Crime da Camionete Azul”, quando um assassinato foi cometido e a vítima desfigurada para ser tomada pelo criminoso, que pretendia se apossar dum grande seguro de vida em benefício de um parente cúmplice. Ou da morte dos bancários do hoje extinto Banco da Lavoura, em um assalto praticado por um membro — descobriu-se depois — de uma das famílias mais tradicionais e ricas de Goiás. Lembro-me da aflição de minha mãe, no início dos anos 1940, quando houve um motim na Pe­nitenciária Estadual, e meu pai, então diretor, entrou sozinho no pátio do estabelecimento, para negociar com os detentos, entre os quais os mais cruentos assassinos. Conseguiu acalmá-los e terminar a revolta. Carlos Lacerda, governador da Guanabara (Rio de Janeiro), faria a mesma coisa, em 1961. Quais as palavras trocadas entre o diretor e os presos? Esses diálogos estão perdidos para sempre. contDurante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), meu pai foi encarregado das campanhas de apoio ao esforço de retaguarda. Lembro-me vagamente da campanha da borracha, quando coletavam-se pneus usados para serem reciclados nos Estados Unidos e da campanha da sucata, com a mesma finalidade. Era a época do racionamento de combustível, gasolina principalmente, e também caiu nas mãos de meu pai a distribuição das cotas e a fiscalização do seu uso. Foi a única vez que eu soube de uma insinuação quanto à sua honestidade, uma agressão à sua reputação, de que zelava cuidadosamente. As consequências quase foram funestas. Existiam duas empresas que exploravam o transporte coletivo em Goiás, e o proprietário de uma delas, Pilade Baiocchi, tradicional descendente de imigrantes italianos no Estado, sentindo-se prejudicado, discutiu com meu pai. No aceso da discussão, acusou-o de beneficiar o concorrente, e pior, levar vantagem com isso. Soube depois que meu pai chegou a “coçar” o coldre do revólver, e possivelmente Pilade teria feito o mesmo. “Deveria lhe dar um tiro” — teria dito meu pai. “Mas há ainda uma instância antes disso, que é a Justiça. Se ela não resolver, esteja certo de que voltaremos a tratar do assunto.” Feita a denúncia de injúria, convocadas as testemunhas, a Justiça, que então era rápida, enviou Pilade para uma temporada na cadeia, mesmo tendo se retratado. Tempos depois, amigos que eram antes, reaproximaram-se. Esses e muitos fatos, que hoje sabemos por alto, sem as precisões devidas, ou de que nem tomamos ciência, perdem-se na poeira do tempo, vão-se com a memória daqueles pioneiros que vão nos deixando.

11 vexames inesquecíveis de grandes seleções em Mundiais

Uma lista de casos de fracassos clássicos em Mundiais. Alguns poderiam até ter sido evitados, mas outros são coisa que talvez só se explique com o Sobrenatural de Almeida de Nelson Rodrigues Elder Dias Quanto maior a altura, maior também o tom­bo. A história das Copas é re­cheada de seleções po­derosas que chegaram como grandes favoritas e acabaram humilhadas pela própria soberba ou pela força das circunstâncias. Brasil, Itália, Ale­manha, Argentina, In­glaterra, entre outras: nenhuma escapou de passar por vexames quando delas se esperava triunfos. A laureada Espanha, portanto, é só mais uma a entrar na lista, com o desempenho vergonhoso deste ano. Nestas páginas, uma lista de casos de fracassos clássicos em Mundiais. Alguns poderiam até ter sido evitados com mais harmonia, espírito de grupo ou humildade. Mas outros são coisa que talvez tenha sentido somente em Nelson Rodrigues e seu Sobrenatural de Almeida, o personagem fantasma que ele criou para explicar as questões imponderáveis do futebol. Tocantins_1885.qxd 1) INGLATERRA/1950 Uma derrota que virou filme Era a primeira participação dos criadores do futebol em uma Copa do Mundo. Até então, os ingleses não reconheciam a Fifa como entidade mandatária do esporte no mundo e desprezaram o torneio desde a primeira edição, no Uruguai, em 1930. A soberba britânica sofreu um golpe duríssimo no dia 29 de junho de 1950. O jogo era contra os Estados Unidos, um país onde poucos sequer sabiam que existia futebol. Esperava-se um massacre do English Team, que começou pressionando, mas não conseguia o gol. Aos poucos, os norte-americanos foram ganhando confiança. Fizeram um gol e até o fim seguraram o resultado, que foi comemorado como título em Belo Horizonte, tanto pelos vencedores como por brasileiros. O jogo virou assunto de livros e até tema do filme “Duelo de Campeões” (veja dica sobre o filme neste caderno). Tocantins_1885.qxd2) FRANÇA/2002 A grande vergonha da era Zidane Em 2002, a França era a seleção toda-poderosa do mundo. Defenderia o título mundial conquistado em casa quatro anos antes e chegava com muito prestígio. Na abertura da Copa, a seleção do Senegal, caloura em Copas. E o primeiro tropeço: um célebre gol de Bouba Diop deu a vitória aos africanos. Na sequência, Zidane e cia. não conseguiram se encontrar: empataram em 0 a 0 e depois, no último jogo do Grupo A, perderam para a Dinamarca por 2 a 0. A França conseguia a inédita e indesejada façanha de uma campeã ser eliminada na Copa seguinte ao título sem fazer um único gol. Tocantins_1885.qxd 3) ITÁLIA/1966 O dia em que a Itália conheceu a Coreia A Itália chegava ao último jogo da fase classificatória da Copa de 66 precisando vencer. Nada que assustasse, pelo contrário: o adversário era a inexperiente, amadora e desconhecida Coreia do Norte, considerada a seleção mais fraca da competição. Questão de cumprir tabela. Bastava uma vitória simples, e ela veio. Só que do lado contrário. Os asiáticos venceram por 1 a 0 e se classificaram de forma surpreendente. A derrota italiana entrou para os fiascos clássicos da história das Copas. Coincidentemente, outra Coreia, a do Sul, eliminaria a mesma Azzurra da Copa de 2002, mas já nas oitavas-de-final. Tocantins_1885.qxd4) ESPANHA/2014 “Roja” de vergonha A “Fúria” tinha vencido a Copa do Mundo de 2010 e as duas últimas Eurocopas, em 2008 e 2012. Ainda que envelhecida, era tida como uma das grandes favoritas ao título pelo currículo, pelo nível técnico de seus jogadores e pelo desempenho nas Eliminatórias europeias. É bem verdade que a goleada sofrida para o Brasil na final da Copa das Confederações era um alerta. Mas nada que fizesse esperar o vexame inédito de uma campeã na Copa seguinte: a Espanha conseguiu a façanha negativa de ser eliminada antecipadamente, com duas derrotas e menos de uma semana de torneio. Tão cedo os espanhóis não vão esquecer o atropelamento sofrido da Holanda, por 5 a 1, ou o Maracanazo número 2, protagonizado pelo Chile. Tocantins_1885.qxd5) FRANÇA/2010 O vexame que quase deu em “CPI” Vice-campeã da Copa anterior, a França já chegava à África do Sul sob polêmica: a classificação havia sido obtida com um gol irregular de Henry, que conduziu a bola com a mão. Na Copa, apenas três jogos, um ponto e muitos vexames. Houve briga entre jogador (Anelka) e treinador (Raymond Domenech) e entre os próprios atletas — caso de Gourcuff e Ribéry. Eliminada, os “bleus” viraram tema no Parlamento francês: integrantes da comissão técnica foram ouvidos a portas fechadas. O técnico responsabilizou a imprensa pela campanha vexaminosa. Após ameaça de intervenção na federação, houve recuo após alerta da Fifa sobre risco de suspensão da entidade, caso ocorre algo do tipo. Tocantins_1885.qxd 6) ITÁLIA/2010 A campeã virou lanterninha A Azzurra vinha como campeã, embora com uma geração já um tanto envelhecida. Mas voltar para a Itália sem nenhuma vitória diante de adversários sem nenhuma tradição em Copas, como eram os de seu grupo - Paraguai, Eslováquia e Nova Zelândia -, era algo jamais imaginado até mesmo pelo mais pessimista dos "tifosi". Mas foi pior: em campo nada funcionou e a seleção tetracampeã mundial terminou a fase de grupos como lanterninha, após dois empates e uma derrota. Um fim melancólico para uma geração que, mesmo não sendo favorita ao início, havia vencido com galhardia a Copa da Alemanha. Tocantins_1885.qxd7) ARGENTINA/1958 “Hermanos” sob chuva de pedras e moedas O pior placar da história da seleção argentina em Copas — aliás, em qualquer competição — na pior Copa da história da Argentina. Assim se resume o dia 15 de junho de 1958 e o jogo contra a Checoslováquia, perdido por 6 a 1. Com uma defesa irreconhecível, que levou dez gols em três jogos, a Copa que seria a redenção de seus arquirrivais acabava já no nascedouro para eles. Em Buenos Aires, foram recebidos com chuva de moedas e pedras pelos portenhos, especialmente o goleiro Carrizo, considerado um dos maiores de todos os tempos no país. Tocantins_1885.qxd8) COLÔMBIA/1994 Ascensão, queda e tragédia de uma seleção Os anos 90 trouxeram a melhor geração de jogadores produzidos em território colombiano — basta lembrar do trio ofensivo Valderrama– Asprilla–Rincón. O histórico massacre sobre a Argentina de 5 a 0 em Buenos Aires, em pleno Monumental de Nuñez, pelas Eliminatórias, em 1993, elevou a Colômbia a candidata ao título da Copa do ano seguinte. É exatamente por essa alta expectativa que ela se torna a única seleção não campeã a entrar nesta lista. No Mundial dos Estados Unidos, além de tudo, deram a sorte de estar em um grupo teoricamente fácil. Mas a expectativa não se concretizou. A Colômbia perdeu seus dois primeiros jogos e acabou desclassificada logo na 1ª fase. Mais do que isso, por causa de um gol contra no segundo jogo, contra os Estados Unidos, o zagueiro Andrés Escobar foi morto ao voltar à Colômbia. Tocantins_1885.qxd9) BRASIL/1966 Depois do bi, o fiasco O Brasil de 1966 ainda tinha Pelé e Garrincha juntos e vinha de dois títulos mundiais em sequência, fato que só havia acontecido uma vez — com a Itália em 34 e 38 — e não mais se repetiu nunca mais. Não tinha como não ser apontado como favorito, apesar de estar entrando em uma fase de transição. Mas a eliminação veio logo na 1ª fase, depois de duas derrotas, para Hungria e Portugal, e apenas uma vitória, sobre a Bulgária. A desorganização marcou aquela seleção fora de campo, e a violência dos adversários, não coibida pela arbitragem, colaborou para o fracasso. Tocantins_1885.qxd10) ALEMANHA/1938 O “Führer” não deve ter gostado Nem com o reforço de jogadores da Áustria, a Alemanha conseguiu êxito na Copa de 1938. O esporte era um joguete político nas mãos de Adolf Hitler, que o usava para proselitismo, como fizera nos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim. Por isso, era grande a expectativa pelo desempenho germânico na França. Mas a participação acabou sendo a mais rápida da história da Alemanha em Mundiais: uma derrota de 4 a 2 logo na primeira partida, contra a Suíça, fez os alemães deixarem a competição. Tocantins_1885.qxd11) BRASIL/1990 O desastre do “Professor Pardal” Lazaroni A seleção de Sebastião Lazaroni foi a menos brasileira da história das Copas. O treinador resolveu incrementar o esquema tático com uma inovação europeia: o líbero, hoje uma figura em desuso no futebol. Assim, escalou um time com três zagueiros – Ricardo Rocha, Mauro Galvão e Ricardo Gomes –, mas sem que nenhum deles ficasse definido como o tal líbero. A invenção não funcionou. O Brasil saiu logo nas oitavas-de-final e, pior, eliminado pela Argentina de Caniggia (autor do único gol do jogo) e Maradona, que seria vice-campeã. Anos depois, o camisa 10 argentino contaria, como pilhéria, que ofereceu água “batizada” (com substância dopante) a jogadores brasileiros, notadamente o lateral Branco naquele jogo.

“Importação” de xingamentos do futebol revela infantilidade da discussão política no Brasil

Somos o país da novela e do futebol. Nossos pontos de vista se dividem entre os que são a favor e os que são contra: um maniqueísmo jardim-de-infância João Paulo Lopes Tito Especial para o Jornal Opção A Copa do Mundo chegou e, com ela, conforme previsto, a onda de protestos. Uma das poucas coisas em que não houve atraso. É engraçado notar que o brasileiro geralmente protesta da mesma forma com que torce. Como o futebol é o esporte com mais força no País, acaba identificando-se, em cada manifestante, um torcedor apaixonado. De longe, ouvimos gritos de “Ôôô, o Joa­quim julgou! O Joaquim julgou!” ou “Arranja outro deputado pra votar na nossa linha”, “Fulano ladrão! Porrada é a solução!”. Rimas pobres, entrosamento momentâneo, ausência de profundidade. No fim, claro, xingam o juiz — ou a presidente — mandando-o ir para algum lugar obsceno. Mais do que falta de criatividade e desrespeito, isso evidencia um ato falho desconcertante. A mentalidade brasileira, quando se trata de discussão política, ainda beira o infantil. Não é à toa que Romário hoje é deputado, que Silvio Santos cogitou a carreira política (e, de acordo com as pesquisas da época, prometia dar trabalho na disputa presidencial) e que Ayrton Senna ganharia qualquer eleição fácil, para qualquer coisa a que se candidatasse. Mais recentemente, muita gente queria ver o ministro-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, como chefe do Executivo — sem perceber que ele já era um dos três maiores líderes da Nação. [caption id="attachment_7634" align="aligncenter" width="521"]Tocantins_1885.qxd Xingar a presidente Dilma na abertura da Copa foi uma forma de protestar: o jeito mais chulo, sem razão e abarrotado de senso comum que existe — a falta de educação | Fotomontagem[/caption] Somos o país da novela e do futebol. Nossos pontos de vista se dividem entre os que são a favor do herói e os que são contra o vilão. Time nosso contra time adversário. E se resume a isso: um maniqueísmo jardim-de-infância. O lado bom é santo e deve ser presidente do País (seja ele carteiro, escritor, jogador de futebol, piloto de F-1 ou apresentador de programa de auditório). O lado mau é o de quem discorda (ou seja, nunca é o seu) e deve morrer, ir para o inferno, tomar em algum lugar (ou ser xingado de reacionário, esquerdinha, coxinha, direitona, marginal, vândalo etc., o que quer que essas palavras signifiquem, na cabeça de quem xinga). Não existe meio termo e isso, infelizmente, acaba com qualquer discussão. Não que não existam motivos para críticas e manifestações. Principalmente em se tratando de Copa do Mundo. Análises superficiais sobre todo o processo que envolveu desde a escolha do Brasil como sede até a festa de abertura, no dia 12 de junho, em São Paulo (e, muito provavelmente, englobará a festa de encerramento também), já escancaram uma série de amadorismos por parte do governo — em todas as esferas — e de entidades privadas responsáveis pelo evento. O protesto é sempre cabível. Mas existem 1 milhão de formas de se protestar. E exatamente por isso, é grave o ato falho do povo brasileiro: de 1 milhão de formas, escolheram os gritos do futebol. Está na cara que, se for só assim, não vai dar em nada. No jogo de estreia da Copa, por exemplo, escolheram xingar a presidente Dilma Rousseff. O jeito mais chulo, sem razão e abarrotado de senso comum que existe: a falta de educação. Num estádio superfaturado, onde morreram oito operários por falta de segurança no desempenho dos trabalhos — segurança essa que faltou por ganância ou comodismo de empresas privadas —, centenas de pessoas que provavelmente sonegam seus impostos, defendem a violência contra fiscais de trânsito e trombadinhas e cortaram fila pra entrar mais cedo no estádio gritam, estapafurdiamente, desaforos inócuos a uma pessoa que, independentemente de partido, classe social ou sexo, é uma semelhante. Mais do que isso, xingaram a chefe do Poder Executivo do próprio país. A questão esbarra em aspectos institucionais que passam muito longe da percepção de quem xingou: existe, disfarçado no ato, uma insubordinação à própria organização política do País, uma ofensa a princípios democráticos conquistados a muito custo. E o fato de as mesmas bocas que cantaram o Hino Nacional apaixonadamente minutos atrás, chorando junto com Júlio César e David Luiz, serem protagonistas de tais impropérios escancara o quanto estamos perdidos em nossas reivindicações. O brasileiro não sabe, ainda, distinguir um argumento racional e verossímil da birra clássica do “quero e não posso ter”. Um comportamento infantil, de quem ainda precisa aprender a lidar com a frustração eventual, inerente a processos democráticos, para tentar influir de maneira positiva — ainda que radical, vez ou outra — na vida política do País. Por enquanto, o que vimos foi um chilique maciço de pessoas vergonhosamente mandando a chefe do Executivo ir tomar em algum lugar, do mesmo jeito que fazem os torcedores de um time de futebol que sofre pênalti. Enquanto for assim, estaremos sempre na atitude passiva de torcedores sem educação, e o juiz vai continuar mandando no jogo. João Paulo Lopes Tito é advogado.

Motociclista morre vítima de linha com cerol

O motociclista Gleisson Alves da Rocha, de 36 anos, foi vítima de uma linha com cerol (vidro moído com cola) enquanto transitava pelas ruas de Anápolis. Gleisson conduzia uma motocicleta quando uma linha de pipa com cerol o atingiu no pescoço. Com um profundo corte, o homem já estava morto quando os paramédicos chegaram. Um adolescente de 17 anos, apontado por testemunhas como o responsável pela utilização da linha com cerol, foi apreendido pela Polícia Militar. Depois de prestar depoimentos o jovem foi liberado, sendo que a pipa e a linha com cerol foram apreendidos. 

Se torcedor vaia até minuto de silêncio, por que não vaiaria Dilma?

Apupos com que a torcida premiou a presidente não é questão de segurança nacional, como governistas tentam vender à opinião pública

Vanderlan nega isolamento e diz ter 150 pré-candidatos a deputado

Socialista não mostra desânimo com coligação pequena para sua candidatura ao governo e afirma que os goianos têm nele uma nova via política

Papa Francisco diz ser contra legalização de qualquer tipo de droga

[caption id="attachment_184" align="alignleft" width="300"]Papa Francisco: sucumbindo ao relativismo que não respeita nem a morte | Foto: Vaticano Foto: Vaticano[/caption] O papa Francisco afirmou na 31ª edição da Conferência Internacional para o Controle de Drogas (IDEC) que é contra a legalização de qualquer tipo de droga. "A droga não se vence com a droga. A droga é um mal e, com o mal, não pode haver relaxamento ou compromissos", disse na ocasião. O evento aconteceu no Vaticano na última sexta-feira (20/6) e contou com a presença de representantes de diversos países. Na conferência, foram discutidos os diversos problemas causados pela lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas. "As legalizações das drogas leves, quanto menos discutíveis em nível legislativo, não produzem os efeitos pré-fixados. As drogas substitutivas não são uma terapia suficiente e sim um modo velado para render-se ao fenômeno", enfatizou o pontífice. O papa argentino falou também de jovens que querem se livrar da dependência, tentando reconstruir suas vidas. "Eles devem ter estímulo e olhar para frente com confiança", disse Francisco. De acordo com o religioso, "o flagelo das drogas continua a fazer estragos em formas e dimensões impressionantes, alimentado por um mercado vergonhoso que atravessa as fronteiras nacionais e continentais."

Nove mesas de sinuca e 14 churrasqueiras são apreendidas no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia

Itens foram encontrados somente na Casa de Prisão Provisória. Aparelhos celulares ou drogas não foram vistos na Penitenciária Odenir Guimarães A primeira inspeção no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia desde que a crise no sistema prisional se tornou evidente levou da Penitenciária Odenir Guimarães - onde ficam os presos de regime fechado - 14 churrasqueiras e nove mesas de sinuca. O objetivo principal era recolher celulares, drogas, e outros objetos ilícitos dentro das unidades, entretanto, na Penitenciária Odenir Guimarães nenhum aparelho celular ou droga foi apreendido. Já na Casa de Prisão Provisória (CPP) foram encontrados 46 aparelhos celulares e 2,4 kg de maconha. [relacionadas artigos="7521"] Em entrevista ao Jornal Opção Online na manhã deste sábado (21/6), o superintendente-executivo da Secretaria da Segurança Pública (SSP-GO), coronel Edson Costa de Araújo, afirmou que viu a inspeção como uma grande avanço. "Essas mesas estavam lá há anos, o que mostra que o governo de Goiás está inovando. Uma crise sempre é ruim, mas serve para que haja melhorias." Entretanto, questionado se a permanência de churrasqueiras e mesas de sinuca eram ilegais, o coronel afirmou que não, e disse: "Olha, sinceramente, não é ilegal, mas não convém. Eu não concordo com uma mesa de sinuca na prisão. Existem outras atividades que podem ser praticadas pelos detentos." De acordo com ele, é melhor exagerar do que não realizar ações. "Podemos até estarmos exagerando agora, mas é apenas para estabelecer a ordem no sistema", explicou. O coronel Edson Costa afirmou que na próxima semana irá estabelecer uma equipe para estudar as leis a fim de regulamentar o que pode ou não ficar em todas as prisões do Estado. De acordo com ele, um recadastramento das pessoas que visitam detentos será feita. "Queremos ter certeza de que somente familiares estão entrando no complexo", disse o superintendente, que explicou que pretende deixar um prazo de 45 a 60 dias para que as pessoas se recadastrem. Edson afirmou que irá se reunir na próxima segunda-feira (23/6) com um grupo da secretaria para estabelecer um cronograma para tudo que ainda deve ser feito para a melhoria do sistema, como por exemplo a compra de equipamentos eletrônicos. "Esses equipamentos evitam o constrangimento dos presos, além de ser mais seguro, já que mesmo com a revista eles escondem em alguns lugares que não tem como o agente ver", disse o coronel.

A crise

As medidas estão ocorrendo após a veiculação no último domingo (15) de uma reportagem no programa “Fantástico”, da Rede Globo, mostrando presos goianos tendo acesso a regalias dentro da Penitenciária Odenir Guimarães (POG), em Aparecida de Goiânia. Na segunda-feira (16),  Edemundo Dias, então secretário de Administração Penitenciária e de Justiça de Goiás (Sapejus), e do superintendente-executivo da pasta Antônio Carlos de Lima, foram exonerados. Ainda na segunda-feira (16) o governador Marconi Perillo (PSDB) decretou estado de emergência em relação ao sistema prisional goiano. De acordo com o tucano, os fatos ocorreram concomitantemente, mas o decreto não foi motivado pela matéria. A crise que foi colocada em evidência resultou em uma reunião na última quinta-feira (19) com diretores da Secretaria de Administração Penitenciária e Justiça (Sapejus) para discutir medidas relacionadas à organização do sistema prisional. Na ocasião o grupo estabeleceu metas que começaram a ser cumpridas ainda na quinta-feira, sendo uma delas as inspeções manuais enquanto o equipamento eletrônico não fosse adquirido.

A versatilidade de Vargas Llosa

A principal característica do Prêmio Nobel de literatura Mario Vargas Llosa é que não perde o rigor de sua narrativa nem tem medo de enveredar por experiências formais

Duas favoritas jogam hoje: Argentina em BH e Alemanha em Fortaleza

Apontadas como favoritas, Argentina e Alemanha entram em campo hoje (21) de olho na classificação antecipada para a segunda fase da Copa. Depois de vencer, com dificuldade, o primeiro jogo contra a Bósnia, no Maracanã, a equipe de Lionel Messi vai ao Estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, para jogar contra o Irã, às 13h. Os iranianos ficaram no empate contra a Nigéria, por 0 x 0, na primeira rodada. Já a tricampeã Alemanha, que goleou a seleção portuguesa na estreia por 4 x 0, volta a campo contra Gana, às 16h, no Estádio Castelão, em Fortaleza. Os ganeses buscam a recuperação e a sobrevivência no mundial depois de perderem para os Estados Unidos. Bósnia e Nigéria complementam a rodada de hoje, às 19h, na Arena Pantanal, em Cuiabá. Em último no Grupo F, os bósnios tentam a recuperação depois de quase surpreenderem a favorita Argentina na estreia. Já os nigerianos, em segundo no grupo, jogam para se manter como a segunda força entre os quatro e passar para as oitavas de final. Ontem (20), em jogo que definiu a liderança do Grupo D, a Costa Rica venceu a Itália por 1 x 0, no Recife. Já pelo Grupo E, a França venceu a Suíça por 5 x 2, em Salvador, e o Equador assumiu o segundo lugar do grupo ao derrotar Honduras por 2 x 1, de virada, em Curitiba.

Os corpos da Copa e a questão da hegemonia

Na disputa do Mundial no Brasil, diferenças de gênero, raça e etnia no futebol ganham projeção e estão ligadas ao sentido político que atribuímos aos corpos Cristina Vianna Especial para o Jornal Opção Morar sozinha é um estilo de vida que me conduz sempre a uma boa padaria. Você sabe que ir a padaria é frequente em sua rotina quando passa a ser chamada por seu nome pela atendente. Esta semana vi uma cena que capturou minha atenção enquanto tomava café e comia distraidamente um pão integral. Um garoto trocava figurinhas com o rapaz do balcão, e eles analisavam o álbum de craques com muito interesse. Fiquei surpresa e pensei: isso ainda existe? Lembrei-me de um texto que li tempos atrás, em que um jornalista descrevia como descolava figurinhas dos jogadores da Copa do Mundo de 1982, comprando dezenas de chicletes. Hoje, creio que talvez haja um jeito mais fácil, como um álbum virtual. De toda forma, álbum de craques é considerado um verdadeiro clássico. Com a Copa do Mundo em casa, milhares de brasileiros formam grupos de torcidas organizadas, não organizadas, espontâneas, combinadas, enfim, uma variedade de modos de se juntar e torcer pelo País e por nosso futebol. Temos o favoritismo de vencer, por jogar em casa. Só que não. Pensamos que o Brasil poderia ter recebido melhor os convidados que, afinal, disputam a picanha do churrasco com os donos da casa. No último jogo da seleção, contudo, o goleiro mexicano saiu na frente, jogou chili na carne e ninguém comeu nada. Preciso dizer com franqueza. Faço parte mesmo é daquele grupo sem time certo que só torce pro Brasil na Copa do Mundo. Antes era mais fácil torcer, todos pelo Brasil e contra o adversário. Torcer e entoar uma só voz parece ser a prova de união por algo que extrapola o individualismo. Entretanto, o que mais temos ouvido são vozes dissonantes que se projetam em direções distintas e denotam uma insatisfação disseminada pela Copa gerada por denúncias de corrupção, com reações de protestos e paralisações. A Copa do Mundo em casa tornou o solo fértil para pautar questões sociais. Esse é um importante ganho do evento, que reforça o futebol como tópico político. Paradoxalmente, a gente pode torcer pela seleção, e ao mesmo tempo apoiar as reivindicações e pautas sociais, por que não? Torcer não invalida a ação política, ou pelo menos não deveria, já que a Copa do Mundo não apaga as diferenças entre nós. Interessante seria a gente refletir sobre como muitas dessas diferenças estabelecem relações de desigualdade. [caption id="attachment_7776" align="alignleft" width="300"]Mario-Balotelli-Loucuras-Scrotos O atacante italiano Mario Balotelli, em sua pose mais memorável: corpo do jogador é um corpo ideal, de uma masculinidade hegemônica | Foto: Divulgação[/caption] Diferenças de gênero, raça e etnia no futebol ganham projeção na Copa e estão ligadas ao sentido político que atribuímos aos corpos. Vejamos o caso do futebol, que tem como peça fundamental o jogador. O corpo do jogador é domesticado para treino e jogos em campeonatos. É um corpo quase inatingível para se manter como padrão, posto ser um corpo treinado para ser atlético. Esse corpo é medido, calculado, negociado, vendido, é moeda de troca internacional. O corpo do jogador é um corpo masculino ideal, de uma masculinidade hegemônica, uma supermasculinidade, ligada ao sentido de vitória, poder e sucesso. No caso da banana de Daniel Alves, o mesmo corpo de jogador marcado pelo racismo europeu chega ao Brasil como corpo nacional, marcado pelo talento da Pátria mãe querida. Se o jogador é brasileiro, a centralidade dessa identidade nacional passa a ser a suposta garantia que tudo vai dar certo, que vamos vencer ao final. Como as mu­­lheres, de mo­do geral, se apropriam dos corpos de jogadores na Copa? Elegem pernas, coxas, bundas, braços, partes de ho­mens e também homens inteiros. É verdade que pode haver uma “preferência nacional”, mas nesse aspecto vale mais a democracia — corpos de jogadores são desejáveis independentemente do time. Obvia­mente, algumas seleções costumam ser campeãs nesse quesito. Como disse, muitas mulheres, mas nem todas, se divertem com essa apreciação, e muitos homens também apreciam essa prática cultural em época de Copa. Depois de campanhas antirracismo no futebol, o combate à homofobia tem sido promovido por campanhas nacionais sobre orgulho gay e a libertação dos homens das amarras do gênero. Pensamos nos corpos dos jogadores sob uma ótica de gênero e raça. E como pensar os corpos das mulheres durante a Copa do Mundo no Brasil? Estereótipos de gênero e etnia reforçam o lugar dos corpos das mulheres brasileiras como corpos desfrutáveis. Para a gente entender como a desigualdade de gênero é universal, basta observar como muitos estrangeiros têm se aproximado de brasileiras com conotação sexual explícita, sem que isso seja considerado como violência. Na contramão, campanhas nacionais promovem o combate ao turismo sexual e a exploração sexual de crianças e adolescentes. Sobre a apropriação dos corpos das mulheres durante a Copa, também não podemos esquecer a eleição de musas da Copa, o que inclui musas das arquibancadas, musas das equipes de reportagem, musas esposas de jogadores, e por aí vai. Mulheres são tratadas com desvalorização e desqualificação no futebol e pelo jornalismo esportivo. Na semana passada, uma amiga psicóloga publicou um breve texto sobre Psicologia do Esporte em um conhecido blog sobre esportes. Curioso foi que as únicas mulheres que fizeram comentários elogiaram o teor do texto, alguns poucos homens fizeram elogios ao texto e ao blog, mas a maioria dos leitores — se é que esse termo se aplica nesse caso — comentou que ficou só na foto mesmo, nem leu o texto, porque com uma psicóloga assim é preciso um tratamento “extensivo”, para não sarar nunca, já ela era “gata”, “linda”, “maravilhosa”, “uma beleza”. Fico pensando na naturalidade com que encaramos essa discriminação, pois em uma situação contrária, em espaços onde mulheres dominam mais assuntos do que homens, a opinião de um homem com expertise tende a ser tratada com respeito e até deferência, e não com deboche. Refletir sobre como os corpos dos jogadores estão inscritos no sentido de masculinidade hegemônica, como esse sentido de masculinidade exclui corpos não heterossexuais do tema futebol e ainda como as mulheres são tratadas com misoginia e machismo — com ou sem Copa — é pensar em uma perspectiva de gênero e feminista. Recentemente estive no 2º Colóquio de Estudos Feministas e de Gênero realizado na Universidade de Brasília (UnB). Participantes dialogaram sobre estudos e pesquisas feministas no cenário brasileiro nas áreas de Psicologia Clínica e Cultura, Literatura, História e Sociologia. Em um encontro como esse de trocas e interlocução, embates e confraternização, me sinto feliz de participar de uma dentre as muitas redes compostas de mulheres e homens que questionam e combatem a desigualdade de gênero e outras formas de opressão. Acho que agora preciso de mais um café, o meu esfriou. Isto me acontece muito, me distraio quando reflito sobre coisas. De novo eu aqui na padaria, fazendo mau uso do tempo, alimentando a dispersão e a criatividade. Escrever sobre isso pode ser a saída para a “mea culpa” de tomar café tão demoradamente. Cristina Vianna é doutora em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília, psicoterapeuta e professora universitária.

Sem êxito ao transformar Dilma em vítima, o PT pode levar a corrupção para a campanha

O secretário-geral da Presidência deu o mote e os petistas, em autodefesa, podem confrontar a corrupção no governo, numa operação de alto risco

A história de “Widmung”, do compositor Robert Schumann

“Widmung” é uma declaração de amor invulgar, cuja letra foi extraída dos versos do poeta Friedrich Rückert. Tornou-se especialmente famosa entre os cultores da música erudita, sobretudo, por sua popularização crescente como peça fundamental do canto lírico mundial

Martiniano

J.C. Guimarães Especial para o Jornal Opção cul2Martiniano Almeida Rossi, 61 anos: não inventarei um personagem. É este aí mesmo. Militante político, publicitário e engenheiro (gostaria nessa ordem, provavelmente), foi um dos fundadores do nosso partido. Foi também um líder de caráter, idealista e coerente. Faleceu num sábado, 29 de agosto. Um dia antes me ligara: era o último de sua vida — como poderia saber? —, mas estava interessado numa coisa de somenos importância, diante da enormidade do passo seguinte. Queria saber se eu topava pleitear uma vaga na direção municipal. Com a voz estrangulada pela rouquidão, quase não entendi o que falava. Propora indicar o meu nome para a chapa vencedora; se dispôs a defendê-lo como postulante do grupo. Aceitei sua ilusão e respondi-lhe com firmeza, como se travássemos um despreocupado diálogo entre Esculápio e Ganime­des. Foi a última vez que nos falamos. Antes que morresse nos encontramos algumas vezes, em sequência. A quarta vez foi há duas semanas, em sua casa, nas proximidades da Praça Cívica. O motivo, ordinário, era o partido: o partido era o elo que nos unia e nos separava. Marcus Messner, o egoísta, não tinha mais o gosto religioso das confrarias, como seu amigo de outros tempos, que se tornava, gradativamente, uma relíquia histórica. Messner achava insuportável a ideia de viver e morrer em função do grupo, como se o mundo permanecesse dividido entre comunistas e capitalistas: talvez o quiséssemos; talvez fosse insuportável perder o chão, mas a vida não liga. A história é a maior potência da história. Desenraiza-nos, atropela nossas paixões. É invencível. Entre debiques e fumaradas, Mar­tiniano se divertia com reuniões muito mais do que eu — como aliás se divertiu, naquele dia, no início da tarde. Na roda en­contrávamos eu, ele, uma professora do primário, um casal de funcionários públicos, uma em­pre­gada doméstica e um jornaleiro gordo e bonachão, que descia de Nerópolis: Daniel, a erva daninha. Quase nunca dava certo de nos encontrar: éramos poucos e pouca a motivação. Suspeitei, por isso, que a urgência do seu caso foi mais interessante do que o pretexto original: pela primeira vez havia um acordo mútuo, entre nós. Com muito custo nos encontrávamos durante o ano e, agora, num único mês conseguimos articular duas reuniões em sequência: foram o terceiro e o segundo encontros. Se morresse um de nós a cada mês, em breve passaríamos de uma centena. Tentamos trazer outros elementos e a conversa estendeu-se até a uma importante entidade de trabalhadores rurais. Vislumbramos uma terceira reunião com um número dobrado de participantes. Só que não houve a terceira reunião, nem houve mais planos. As adesões não se confirmaram. Fracas­samos pela enésima vez, admiravelmente quixotescos. Na noite seguinte retornei so­zi­nho à casa de Martiniano, a seu pedido, pois ele queria avaliar o quadro. Recolhemo-nos na área dos fundos, de parelha com a cozinha. A empregada trou­xe à mesa pães de queijo assados na hora e um saquinho de soja torrada. Martiniano a­briu uma Bohemia e tomamos juntos. Bem baixinho, ouvi uma valsa de Strauss vindo de seu escritório (por alguma motivo eu me lembrei das músicas incidentais, nos filmes). Não era na verdade uma valsa de Strauss, mas eu não sabia que música era aquela e acreditei que ele poderia gostar de Strauss. Tinha seus refinamentos burgueses, apesar da filiação comunista. Sua casa era enorme e ele possuía um Fritz Dobbert, jazendo solenemente num dos cômodos espaçosos. Uma litografia de Siron, quadros de Antônio Poteiro e de outros artistas de renome enfeitavam as paredes da sala de visitas. Martiniano vivia bem, da forma que se merece, e eu não poderia censurar aquele amigo dos pobres por ter conquistado alguma dignidade. Na estante destacavam-se, ao primeiro golpe de vista, as grossas lombadas vermelhas das biografias de Che, Stálin e Mao, vidas pelas quais nunca me interessei. Enquanto degustávamos os aperitivos, olhei para ele e sugeri: “Vamos esquecer a formação do grupo. Já há muitos partidos no partido, não acha?” Preparei-me para ser duramente altercado, pois ele envolvera-se na causa a ponto de ainda mandar tomar no cu, como fazia todas as vezes em que se sentia contrariado. Era bom sinal que me mandasse tomar no cu, coisa que eu não tinha coragem de mandá-lo fazer. Era bem mais velho do que eu e, apesar de ser liberal e curtidor, uma espécie de respeito se me impunha e eu não conseguia tratá-lo com tanta intimidade. Apesar da doença Martiniano teimava em viver com certa normalidade seus últimos dias, e por isso portava-se como um imaculado. Tentando enganar-se, acho, ele agia como se tudo estivesse sob controle, embora porcaria nenhuma estivesse mais sobre controle. Ainda me ligava com a frequência habitual, passava e-mails, jogava paciência em seu computador, bebia cerveja e interessava-se pelos destinos do grêmio. E continuava fumando um cigarro atrás do outro, mais ansioso do que nunca. Eram expressões de seu interesse pela vida. Como repreendê-lo pela anestésica carteira diária de Carlton? Se tinha medo, não é o que desejava transparecer, irônico ainda, risonho ainda. Um lapso e a certeza: vai se recuperar, por que não? Com tal interesse pela vida, eu poderia jurar que daria a volta por cima e faríamos muitas outras reuniões — quem sabe ainda viraríamos o mundo de pernas pro ar, como ele sonhava! Erámos sete personagens típicos, que lembravam o germe das revoluções inacabadas. Que me lembravam “A Jangada”, de Gericault... De qualquer modo achei sinceramente que seria possível: a vida não é um amontoado de absurdos? Tudo pode mesmo acontecer, se você acredita, se você se empenha. Para minha surpresa, ante a ideia de abortar nossos movimentos, Martiniano apenas olhou para mim e deu um sorriso de aceitação. Isso não fazia parte do script. Tive a impressão de que o sorriso dele flutuara fora do tem­po. Pensamentos terríveis minavam a atenção de Martinia­no, enquanto ele sorvia a cerveja e tragava um cigarro, que o tragava. A intervalos tossia e pigarreava, massageando a garganta enfermiça. O pijama de seda deixava seu aspecto ainda mais lívido e convalescente: quase morto. Não respondeu nada durante alguns minutos, sentado, quieto. Limitou-se a contemplar o que já não cabia em pensamentos. Dado instante, fe­cha­ra os olhos e roçara a testa, a­fo­gando-se para dentro de si. Eu es­tava vendo derreter uma estátuas de cera, como aquelas dos mu­seus. Novo trago. Olhei de novo; novo e discreto sorriso, eloquente de doer (um amigo por perto pode servir de boia no pânico, eu recordaria nas próximas horas). Deixar tudo de lado já não soava uma perda tão importante assim. Dali a pouco eu me despedi com a trivialidade de sempre, sem saber, ignorante, que nunca mais apertaria a sua mão. O último contato e a última palavra entre amigos podem ser de uma banalidade impressionante. Assim aconteceu entre eu e ele. Na segunda-feira, 31, ao chegar ao trabalho, meu diretor me surpreende ao dizer que Martiniano “morreu”. Incrédulo, fui ao jornal do dia, olhei e lá estava ele, Martiniano, estampado sob a nota ruim e inequívoca, despertando-me para a realidade, mais irreal do que o sonho. Era mesmo ele: o homem de chapéu de feltro e barba destruída pela quimioterapia — um líder perdido para a doença. Mas, alegre, continuava sorrindo para nós, como se fosse imune. A alegria que é a maior recusa, o maior protesto. Vá lá o corpo — mas o que são feitos dos sentimentos de uma pessoa, quando ela morre? Caberá mesmo numa cova o coração de um homem? Leio o conteúdo inacreditável, conheço sua agonia e descubro que tinha sido sepultado no dia anterior. Enquanto morria eu traçava planos de futuro, sem nunca imaginar como foi duro o seu final de semana. Hemorragia, parada cardíaca e óbito. Conhecia Martiniano há três anos. Apesar da diferença de idade que nos separava, quis de mim um amigo, desses de sair para o boteco. Fiquei devendo a ele uma rodada, que para sempre teceu um vínculo de afeto entre nós. Nunca lhe perguntei se acreditava na vida após a morte (não sofria a doença da gravidade, como eu). Se ela existe, saberá agora que não resisti de fazer esse conto, com feitio de crônica, em sua homenagem. As palavras me atormentaram e tive de me livrar delas, para sobreviver sem omissão. Na­quela mesma segunda-feira, à noite, eu conferi no celular as chamadas recebidas e lá estava, pela última vez, o seu nome: “Martiniano 28/08/09 15:22”. Fiquei olhando seu nome, o dia e a hora cravada. Deti-me por um momento, perplexo com esses dados, aparentemente insignificantes. Eu estava agora diante do último criptograma, diante já do mistério insondável e surpreendente que nos assusta feito crianças. J.C. Guimarães é escritor e crítico literário.

Troca de acusações entre caciques afugenta o interesse do eleitor pelo novo presidente

[caption id="attachment_7677" align="aligncenter" width="610"]Adolescentes se mostram menos propensos a votar, reflexo direto do baixo nível da política na campanha pré-eleitoral Adolescentes se mostram menos propensos a votar, reflexo direto do baixo nível da política na campanha pré-eleitoral[/caption] Quanto mais os caciques políticos trocam acusações entre si, maior o desencanto dos eleitores. A constatação é autorizada pela mais recente pesquisa do Ibope sobre a sucessão, que manteve estáveis as cotações dos dois principais concorrentes, presidente Dilma Rousseff e senador Aécio Neves (PSDB), mas inchou a rejeição a ambos e ao socialista Eduardo Campos. A pesquisa foi às ruas no dia seguinte às hostilidades contra Dilma, há dez dias, na abertura da Copa do Mundo, em São Paulo. Assim o Ibope entrou em campo no dia 13, sábado, e ficou ali até a segunda-feira, 15. Nesse espaço de três dias, flagrou a reação inicial da massa de eleitores no momento mais explosivo do choque entre o PT e a oposição. A rejeição dos eleitores atingiu Dilma, proporcionalmente, me­nos do que a Aécio e Campos. Era de 38% na última pesquisa, divulgada em 10 de junho, dois dias antes do início da Copa. Agora chegou a 43% — subiu menos, mas é a taxa mais alta entre todos. A rejeição a Aécio era de 18% e quase dobrou, com 32. Com Campos, mais do que dobrou ao passar de 13% para 33. A discrepância de Campos em relação aos outros dois confirma a tendência à polarização da disputa entre o PT de Dilma e o PSDB de Aécio, seguindo o costume que Lula se impôs de procurar, nas campanhas, chocar-se preferencialmente com tucanos, para os quais perdeu duas eleições presidenciais, mas depois venceu outras três, incluindo-se a de Dilma. Outra diferença interessante em relação a Campos está no seguinte. Sendo o mais desconhecido entre os três candidatos, ele era o menos rejeitado na pesquisa do Ibope de 10 de junho, com aqueles 13%. Mas, por ser o mais desconhecido, pagou com a maior elevação proporcional de rejeição num espaço de nove dias, ao conquistar os novos 33%. [caption id="attachment_7681" align="alignright" width="300"]Entre os três candidatos, Eduardo Campos e Aécio Neves têm menos rejeição Entre os três candidatos, Eduardo Campos e Aécio Neves têm menos rejeição[/caption] Há uma coerência num movimento tão brusco em pouco mais de uma semana. Campos paga o pato pela indução do eleitor, conscientemente ou não, à polarização entre os adversários Dilma e Aécio. Trata-se de um fenômeno que se reflete na mudança na cotação de votos a favor de Campos, que tinha 13% das preferências e agora foi a 10. Dilma se manteve estável ao subir um ponto na preferência do eleitor: passou de 38% a 39. A mesma coisa com Aécio ao descer um degrau, de 22% para 21. A oscilação deles está dentro da margem de erro da pesquisa, 2%. Também estão os outros tipos de voto. Os indecisos eram 7% e foram a 8. Os brancos continuam com 13%. Portanto o reflexo negativo da discussão está mesmo no incremento da rejeição aos candidatos nos quais o eleitor, no calor da batalha, afirmou que não votaria de jeito nenhum. Ao mesmo tempo, a estabilidade relativa do voto a favor de Dilma e Aécio indica posições que não se perturbaram entre uma semana e outra, apesar de toda a agitação entre eleitores e políticos. A propósito do desencanto com a política, a semana revelou outra tendência a se projetar no futuro. É o desinteresse de adolescentes em se alistarem como eleitores. Um ano depois dos protestos de junho, somente um quarto dos jovens com 16 e 17 anos se inscreveu para votar, exatos 25%. As estatísticas expostas pelas repórteres Paula Ferreira e Thalita Pessoa demonstram que o número dos adolescentes que renunciam ao voto facultativo está em alta desde as eleições de 2006, ano marcado pela evolução da apuração do mensalão, revelado em 2005. A partir daí a mídia apresentou questionamentos sucessivos sobre corrupção no governo. Em 2006, quando Lula se reelegeu, os eleitores entre e 16 e 17 anos equivalia a 39% da população com essa idade. Nas eleições de 2010, a proporção caiu para 32%. Agora, chegam aos 25%. Numa manifestação paralela, os números de­monstram a falta de lideranças políticas ou partidos capazes de tocar a adolescência no sentido de levá-la à participação nas urnas.