A história de “Widmung”, do compositor Robert Schumann

“Widmung” é uma declaração de amor invulgar, cuja letra foi extraída dos versos do poeta Friedrich Rückert. Tornou-se especialmente famosa entre os cultores da música erudita, sobretudo, por sua popularização crescente como peça fundamental do canto lírico mundial

Rafael Teodoro
Especial para o Jornal Opção

Robert e Clara Schumann formaram um dos casais mais famosos da história da música erudita

Robert e Clara Schumann formaram um dos casais mais famosos da história da música erudita

Uma das composições mais conhecidas do repertório pianístico é “Liebeslied”. Nem to­dos sabem, no entanto, que o celebérrimo arranjo do húngaro Franz von Liszt (1851-1919) foi desenvolvido para o piano solo a partir de “Widmung”, tema originalmente escrito pelo compositor alemão Robert Schumann (1810-1856).

Como é cediço, Schumann foi um dos maiores nomes do Ro­man­tismo na música. Sua biografia é e­mocionante como sua arte, já que o compositor viveu um amor intenso pela esposa, a pianista Clara Schu­mann, foi pioneiro da crítica musical com a criação da Neue Zeitschrift für Musik na Alemanha, além de ter sofrido terrivelmente a vida inteira com um histórico de doenças mentais que foram consumindo sua sanidade pouco a pouco. A gravidade dos males psíquicos que o acometiam era tamanha que Schu­mann, num gesto desesperado, chegou a tentar o suicídio. Fracassou no propósito de ceifar a própria vida, mas, destruído mentalmente pela doença, veio a falecer em 29 de julho de 1856.

Do ponto de vista composicional, Schumann é conhecido pela grandiloquência de suas melodias. Em 1840, ele deu início a um projeto artístico ambicioso: musicar os versos de grandes poetas. Esse projeto ficou conhecido como o “ciclo de canções Myrthen” (Op. 25). Nomes como Johann Wolfgang von Goethe, George Gordon Byron, Thomas Moore, Hein­ri­ch Heine, Robert Burns e Julius Mosen tiveram algumas de suas obras utilizadas como letra para as composições do maestro.

A mais popular das peças do ciclo é indubitavelmente “Wid­mung”. Trata-se de uma canção de amor cuja letra foi extraída dos versos escritos pelo poeta Friedrich Rückert (1788-1866) — um autor exponencial da literatura alemã, mas infelizmente pouquíssimo conhecido dos leitores brasileiros não fluentes no idioma germânico, dada a carência de traduções para a língua portuguesa. Apesar disso, “Wid­mung” tornou-se especialmente famosa entre os cultores da música erudita, haja vista sua popularização crescente como peça fundamental do canto lírico alemão e mundial.

Aliás, só a título de curiosidade, é pertinente recordar que “Widmung” é muita vez escolhida como trilha sonora de casamentos na Alemanha. E não é sem razão. A partitura foi escrita qual um presente de Schumann para sua então noiva Clara Wieck. Por isso, a canção faz uso dos versos de Rückert, que expressam um amor profundo, digno de um coração apaixonado e devotado. O eu-lírico caracteristicamente romântico do poeta encontra na mulher amada o significado de sua própria existência (ela traz sua paz, é seu mundo, sua alma, sua dor; ser amado por ela faz com que ele se sinta alguém importante). O próprio título escolhido pelo autor (“Widmung”) em alemão remete à ideia de dedicação (devoção) a alguém. Era exatamente assim que Schumann se sentia diante de Clara, a mulher cujo amor representava a redenção da alma de um artista extremamente sensível, porém atormentado por dificuldades psíquicas que o oprimiriam até sua morte. Eis então os motivos que fazem de “Widmung” uma declaração de amor invulgar, extremamente elegante. É obra lavrada na mais pura sensibilidade lítero-musical do gênio humano. É obra típica de quem ama a música e a arte erudita.

Assim como ocorre com “Liebslied” (S566), transcrição para o piano de Liszt, considero “Widmung” outra das composições eruditas românticas que tocam o meu coração em profundura. É o tipo de declaração de amor que todo homem um dia deveria dedicar a uma mulher (se tiver sensibilidade suficiente para isso, é claro), tal como o fez Robert Schumann, o gênio que tantas obras dedicou à sua amada Clara, nesse amor que marcou para sempre a história do Ro­mantismo na música erudita.

Rafael Teodoro é advogado e crítico de música e literatura.

 

via Revista Bula

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