A versatilidade de Vargas Llosa

A principal característica do Prêmio Nobel de literatura Mario Vargas Llosa é que não perde o rigor de sua narrativa nem tem medo de enveredar por experiências formais

Ronaldo Costa Fernandes
Especial para o Jornal Opção

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Mario Vargas Llosa, considerado um dos mais importantes escritores da atualidade

A versatilidade é uma característica de dom Mario Vargas Llosa: já passeou pela comicidade de “Tia Júlia e o Escre­vi­nha­dor”, envolveu-se no romance po­licial de “Quem matou Pa­lo­mino Molero?”, mergulhou no fluxo de consciência de um adolescente no seu romance inicial “A Cidade e os Cachorros” e entendeu o mundo mágico e trágico dos ambientes hostis como a selva peruana em “A Casa Verde” e “O Falador”. Em “O Paraíso na Outra Es­qui­na”, há dois mundos selvagens que seus personagens frequentam. O primeiro é o mundo supostamente paradisíaco em que se enfurna o pintor Gauguin para fugir da sociedade dita civilizada, eu­ropeia, a fim de desvendar no­vas formas viscerais de arte. O se­gundo é o mundo “selvagem” da sociedade francesa, principalmente entre patrões e operários, no qual a sonhadora e libertária Flora Tristán, avó de Gauguin, luta bravamente para expor suas ideias e sofre os contratempos dos donos do capital e dos conservadores.

O vigoroso em Mário Vargas Llosa é que não perde o rigor de sua narrativa nem tem medo de enveredar por experiências formais. Em “O Paraíso na Outra Esquina”, começa alternando dois tempos, um que corresponde a Flora Tristán e a primeira metade do século 19, quando florescem as ideias do socialismo utópico de Saint-Simon, Fourier, Étienne Cabet e outros, e um tempo que corresponde a Gauguin e a segunda metade do século 19. Até quase a metade do livro, as duas narrativas seguem paralelas quando se mesclam os dois tempos, muito bem delineados, mas expostos na narrativa de forma combinada. Mais tarde, já sabemos tratar-se de avó politicamente revolucionária e neto artisticamente revolucionário. Llosa se dá ao luxo de misturar outros dois tempos, o de Mar­se­lha, 11 anos mais tarde, com o tempo em que Flora passara com sua família peruana em Arequipa em busca de parte de uma herança que lhe poderia dar sossego e segurança contra o vingativo ex-marido. Mais à frente, retoma os capítulos à parte (um de Flora, outro de Gauguin). Raras narrativas de autores de grande vendagem ainda têm coragem de aventurar-se num relato mais ousado. Louve-se Vargas Llosa neste livro pela audácia que ainda o mantém tão jovem literariamente e, sem medo de arriscar, aumenta ainda mais seu público leitor mais exigente. Num momento que a literatura brasileira vive de minguados relatos elevados à condição de grande prosa, devemos nos render aos encantos de Llosa e, para os que escrevem, vê-lo como fonte permanente de renovação.

“O Paraíso na Outra Esquina” é um romance sobre dois libertários e sonhadores num século on­de homens escreviam sobre sociedades utópicas. Hoje, que perdemos o poder de sonhar sociedades igualitárias como no século 19 ou pegar em armas por elas como no século 20, os personagens verdadeiros de Llosa, Gauguin e sua avó Flora, apontam para uma história de liberdade. Nenhum dos dois encontra o paraíso na outra esquina (mote de uma brincadeira infantil), mas dele estiveram perto e por isso pagaram seu preço. Para tanto, dedicaram suas vidas e o melhor de seus pensamentos e de suas ações (Flora Tristán) e a mais pura e divina estética (Gauguin). Llosa parece nos lembrar que o sonho e a liberdade ainda permanecem, neste início de século de ceticismo, e que, sim, podem estar na outra esquina.

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Como na maioria dos romances ditos históricos, “O Paraíso na Outra Esquina” leva o leitor a acreditar que, além de desfrutar esteticamente uma obra de arte, estará “aprendendo” sobre dois personagens históricos. É certo que Flora e seu neto Gauguin fascinam a imaginação dos leitores e que também o leitor — embora não seja essa a função da literatura — acaba “aprendendo” algo sobre os dois personagens. Inte­ressante observar que, à diferença dos romances de Vargas Llosa dos anos 1960 e 70, agora o homossexualismo toma outra tonalidade na narrativa, ocupa boa parte da sexualidade sofrida de Flora Tristán e mostra um lado feminino deste pintor que dizia “ter nariz quebrado de inca”, numa cena idílica no paraíso tropical e nada pacífico de Papeete.

O personagem de Flora Tristán é mais rígido e as cenas se repetem com mudanças apenas de ambientes e personagens, já que sua história é a narração incansável de seus tro­peços nos encontros clandestinos com operários e camponeses pa­ra divulgar suas ideias socialistas contidas no livro que publicou, em 1843, intitulado “A União Operá­ria”. Diferentemente do personagem Gauguin, mais angustiado e mais denso. Não há dúvida que “O Pa­raíso na Outra Esquina” é um dos grandes livros de Vargas Llosa na sua fornida e consistente bibliografia.

Aqui, avó e neto são frutos de traumas, passam por transformações radicais (Gauguin nunca havia feito nenhum desenho antes de se encontrar com um colega na agência que trabalhava como Corretor da Bolsa: “Até os trinta anos creio não ter desenhado nem um bonequinho. Os artistas me pareciam uns boêmios, uns maricas. Eu os desprezava. Quando deixei a Marinha, no final da guerra, não sabia o que fazer da vida. Mas a única coisa que não me passava pela cabeça era ser pintor”, disse Gauguin, refletindo sobre seu passado, no fim da vida, numa ilha mais afastada ainda da capital do Taiti.), consomem seus corpos e suas saúdes em nome da humanidade e da arte.

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Já no romance “Travessuras da Menina Má” parece haver dois livros: um brega e outro que resgata o velho Vargas Llosa. O primeiro corresponde ao amor bissexto e bizarro do solteirão — estranho homem que não tem outra relação na vida e só se dedica a esperar a chegada intermitente da mulher que ama — Ricardo Somocurcio, tradutor da Unesco, peruano de nascimento. Não é à toa que a personagem da “menina má”, como Ricardo chama sua amante, reiteradamente o critica e o classifica de brega quando faz suas inúmeras e aborrecidas declarações sentimentaloides de amor. “Eu adorava essas orelhas e queria cortá-las, embalsamá-las e levá-las comigo pelo mundo afora, no bolso do meu casaco mais próximo do coração. — Vamos, disse ela, continue com suas breguices, seu cafona.”

Este livro dentro do livro (não falo de metaliteratura, mas de verdade de uma escritura tão diversa uma da outra que parecem ser dois livros), o caso de amor entre Ricardo, que é o narrador, e a peruanita que foi guerrilheira, amante de milionário, envolveu-se com a máfia japonesa, é de um lugar-comum irritante, recheado de cenas de sexo também convencionais.

Quando Llosa se esquece deste tema central do livro e escreve sobre a crônica dos anos 1960, 70 e 80, embora de maneira rápida e abrangente, o narrador torna-se denso e conciso. O “cronista” somente dá pinceladas, o que faz muito bem, porque o livro é um romance e não um ensaio. Mas aquele que espera abrangência maior e profundidade de análise (que também poderia estar no romance) irá se decepcionar. Na verdade, o próprio comportamento dos personagens e a descrição do pequeno ambiente talvez informem mais do que o jornalístico panorama das épocas (afinal são três décadas turbulentas e complexas) feito em tom solene e, ao mesmo tempo, leve.

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Este outro “livro” conta a vida or­dinária do tradutor e suas dificuldades de relacionamento, as notícias que chegam do Peru, a relação com o anódino Salomón, mas brilhante tradutor, que questiona a profissão (“pro­fissão de fantasmas”). É um “livro” que toma outro tom, mais ge­ne­roso, forte e sedutor. O caso de amor e as travessuras da menina má, que, na verdade, são o fulcro do ro­mance, diminuem o vigor narrativo e torna-o frouxo, quando não desinteressante e previsível. O que me sugere uma imagem malévola, como se Llosa se dissesse “preciso escrever um livro acessível e de fácil leitura, lo­go a trama e a linguagem devem ser diluídas no caldo ralo da subliteratura”, enquanto o mesmo Llosa, numa autocrítica, se alertasse, “mas não posso deixar de manter pulso na­rrativo e fazer de meu livro um livro de um escritor medíocre, afinal tenho um nome a zelar”. Existem en­tão, em “Travessuras da Menina Má”, o mestre do romance que nos deu “Conversa na Catedral” e o es­cri­tor que quer alcançar o grande público por razões pessoais que só ele deve conhecer. De maneira sur­pre­endente, a partir da metade do li­vro, a breguice desaparece e a relação entre a menina má e o menino bom (como ela o chamava) passa a ter um tom de drama e, em vez da pouco crível mulher de um criador riquíssimo de cavalo e de amante de um mafioso japonês, ela passa a ser uma criatura frágil e doente, depois de pretensamente presa e estuprada na Ni­géria. Aí o livro embica e desenvolve-se seguro e envolvente. Até mesmo o sexo deixa de ser convencional. Só que já é um pouco tarde, fica o início formando a parte manca do livro.

A diferença de qualidade entre “O Paraíso na Outra Esquina” e “Travessuras da Menina Má” é grande. Neste último, Llosa não se permite nenhuma aventura mais extravagante com a linguagem e mantém uma estrutura linear e sem surpresas. A angústia profunda e turvada de personagens à margem da sociedade como Flora Tristán e Gauguin aqui se apresenta de forma branda, deslocada, às vezes até mesmo inverossímil.

Há ligação entre os livros: o exílio físico e existencial. Ricardo e a me­nina má, Gauguin e sua avó. Com os três primeiros, o exílio é inclusive geográfico: França e Taiti. No caso de Flora, o exílio é ser rechaçada até mesmo dentro do movimento socialista, já que não são todos que a aceitam. De qualquer forma, o eixo central dos quatros personagens nos dois romances é o Peru. Agora, de forma inversa, mais presente em Ricardo, na menina má, em Flora e, menos, em Gauguin. Outra ligação é o fato de os dois livros tratarem de amor. “Travessuras da Menina Má” trabalha com o amor tradicional, heterossexual, encontros e desencontros de um homem e uma mu­lher. “O Paraíso na Outra Esquina” opta por um amor desmedido (Flora Tristán) pela justiça social, pela igualdade entre os homens, pelo amor incomensurável pela humanidade e também um amor pela arte (Gauguin) que ultrapassa a busca estética, tornando-se mais uma frenética procura de uma expressão artística que exprima o ser verdadeiro, inconsciente e selvagem que nos habita.

Ronaldo Costa Fernandes é escritor

 

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