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“As Coisas Incríveis do Futebol” reúne 25 crônicas do jornalista Mário Filho, constituindo um recorte significativo de seu estilo de escrita e modo de ver o futebol. As crônicas são compostas de modo fluente, num tom coloquial, com pitadas de fina erudição, repletas de frases de efeito e construções sonoras
Ademir Luiz Especial para o Jornal Opção
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Mário Filho: um dos maiores nomes do jornalismo esportivo brasileiro na primeira metade do século passado[/caption]
Eu falo muito sobre futebol. Há tempos deixei de torcer, atualmente sou mais um entusiasta do esporte pelo que ele possui de épico e humano. Admiro-me do fato do futebol ser o maior bem simbólico da humanidade. Quase todos os povos do globo, independentemente de crenças religiosas e regimes políticos, o praticam. Fique claro que estou longe de ser um cientista, um pesquisador, um catedrático da bola. Sento na arquibancada quando vou ao estádio, não fico nos camarotes ou nas cadeiras numeradas tomando chá, enrolado num cachecol e tirando fotos para postar na internet. Embora, por motivos de senso estético, evite participar da “hola”, futebol para mim é, sobretudo, diversão, ainda que diversão reflexiva. Tenho lá minhas idiossincrasias. Sou do tipo que analisa estatística, inventa esquemas táticos mirabolantes, escala equipes impossíveis formadas com os melhores de todos os tempos, de diferentes épocas. Coleciono uniformes da seleção da Holanda, tendo atualmente seis deles, incluindo o clássico de 1974. Coisa de doido!
Quem sofre são meus alunos na UEG (Universidade Estadual de Goiás). Eles, diferentemente de meus amigos e familiares, em tese, não podem me mandar calar a boca. Ultimamente, no esquenta do mundial de 2014, tenho observado que entre os estudantes universitários esse é um assunto controverso. Muitos estão influenciados pela ingênua campanha do “não vai ter Copa”, versão pós-moderna da velha ladainha de que o “futebol é ópio do povo”. Outros simplesmente afirmam que é perda de tempo, que não gostam. Outro tanto são apreciadores, mas não apresentam muito senso histórico e de proporções. Pelé, por exemplo, perdeu muito de seu prestígio nacional (não internacional) com as novas gerações, fenômeno esse que atribuo a expansão do politicamente correto que tomou conta do esporte desde a era Senna. Pouco se fala de Garrincha. Romário está se tornando folclore, enquanto Ronaldo está se tornando piada pronta. O mito de Zico tem resistido bem, talvez por se encaixar perfeitamente no arquétipo sennista de atleta.
Diante desse cenário costumo apresentar certa bibliografia para justificar meu entusiasmo, até porque na universidade tudo o que apresenta bibliografia ao final ganha ares de irrefutabilidade. Aconselho a leitura das crônicas de Nelson Rodrigues, reunidas nos volumes “À Sombra das Chuteiras Imortais” e “A Pátria em Chuteiras”, organizadas por Ruy Castro, no qual se tem verdadeiras aulas de História do Brasil, Sociologia e Antropologia via futebol. Recomendo o denso “A Dança dos Deuses”, do medievalista Hilário Franco Jr., para se aprofundar nas estruturas históricas da formação do mundo moderno e suas relações com o desenvolvimento do futebol. Insisto que leiam até o mediano “Futebol ao Sol e à Sombra”, de Eduardo Galeano, para me ancorar no prestígio do exagerado “As Veias Abertas da América Latina”, pois, espero que assim raciocinem, se o autor do segundo escreveu o primeiro, talvez o futebol não seja tão ópio assim.
Finalmente, para dar solidez de diamante aos meus argumentos, não me furto de citar dois clássicos: “O Negro no Futebol Brasileiro”, de 1947, e “Viagem em Torno de Pelé” (1964), ambos do jornalista Mário Filho (1908 – 1966). Gilberto Freyre escreveu o prefácio de “O Negro no Futebol Brasileiro”, reconhecendo-o como um trabalho fundamental para compreender a formação do Brasil. Certamente, é digno de figurar na mesma estante que os livros de Freyre. Segundo José Trajano, “nenhum de nós, jornalistas esportivos, somos capazes de engraxar os seus sapatos. Não me venham de Armando Nogueira, João Saldanha, Thomas Mazzoni ou Nelson Rodrigues, irmão dele, todos sensacionais e de tirar o chapéu. Perto de Mário Filho eles estão distantes anos-luz”. Apesar de tamanha importância, mesmo na era do PDF de internet, a obra de Mário Filho estava se tornando de difícil acesso. Depois da biografia “A Infância de Portinari”, de 1966, a última vez em que foi publicado foi na coletânea de crônicas “Sapo de Arubinha”, de 1994.

Para suprir essa lacuna a editora Ex Machina, fundada recentemente por Bruno Costa, ex-sócio da Editora Hedra de São Paulo, lançou “As Coisas Incríveis do Futebol — as melhores crônicas de Mário Filho”, com apresentação de José Trajano e organização de Francisco Michielin. Não poderia ser em melhor hora, considerando que Mário Filho foi um dos nomes mais importantes nos bastidores da Copa de 1950, sendo que o estádio Maracanã foi batizado oficialmente com seu nome. Sessenta e quatro anos depois o Brasil sedia novamente o mundial. “As Coisas Incríveis do Futebol” reúne 25 crônicas de Mário Filho, constituindo um recorte significativo de seu estilo de escrita e modo de ver o futebol. As crônicas são compostas de modo fluente, num tom coloquial, com pitadas de fina erudição, repletas de frases de efeito e construções sonoras, boas para serem lidas em voz alta. Parece-me que ali está capturado, e retrabalhado literariamente, o modo de falar das décadas de 1940 e 50, corte cronológico do volume. A crônica mais antiga, intitulada “Sururu”, foi publicada em “O Globo Esportivo” em 5 de outubro de 1945, enquanto a mais recente, intitulada “O individualismo no futebol brasileiro”, foi publicada na “Manchete Esportiva” no dia 6 de abril de 1957. O título da coletânea foi extraído de uma série de sete crônicas que Mário Filho publicou entre setembro e outubro de 1947, em “O Globo Esportivo”, sendo que algumas delas, trazendo histórias pitorescas sobre personagens do mundo do futebol, estão presentes no livro.
Mas o livro vai muito além de histórias pitorescas. Entranhadas nas crônicas, quase que como anéis escondidos, estão presentes algumas reflexões profundas e complexas sobre a realidade sociocultural do Brasil. Na citada crônica sobre “O individualismo no futebol brasileiro”, Mário Filho dialoga com a tese de Sérgio Buarque de Holanda sobre o bacharelismo reinante das relações sociais brasileiras ao escrever que a “maneira de ser brasileira, a do brilho pessoal, a do anel de doutor no dedo, mesmo sem diploma, a do título de doutor, mesmo sem anel, a do discurso, a do soneto, pecados que todos cometiam ou se vangloriavam de ter cometido, às vezes em confissões como que envergonhadas mas que no fundo eram sussurros do orgulho humilhado”, motivavam o futebol livre, leve e solto praticado pelos brasileiros, que subvertia a lógica original do esporte frio e calculado dos inventores ingleses.
Em outro momento, na crônica “O torcedor de rádio”, de 10 de fevereiro de 1950, Mário Filho antevê a importância que o futebol teria nas décadas seguintes para a cultura de massa. Pergunta: “Quem não andou torcendo pelo rádio por ocasião do campeonato do mundo? Gente que nunca se preocupara com futebol descobriu, de um momento para outro, uma vocação irresistível de torcedor”.
A seleção de textos realizada por Francisco Michielin enfoca, sobretudo, episódios cotidianos do esporte, usando-os como trampolim para voos maiores de imaginação, como na crônica “O poeta e o passado”, com participação especial de José Lins do Rego, e reflexões sobre o desenvolvimento e as características peculiares do futebol conforme praticado no Brasil. No posfácio, Michielin explica que “Mário Filho foi um pioneiro, um inovador, alargando sua influência. Que ele tenha mudado a abordagem do futebol, através da imprensa, é fato notoriamente reconhecido e celebrado por todos (...) dotado de uma estética de rara singeleza, a nos fazer rodopiar por um carrossel de alegorias e alegrias; existenciais, expositivas, dramáticas, irreverentes e, sobretudo, inteligentes”. Por esse trecho parece-me evidente que os critérios de seleção foram mais estético-literários do que históricos. Certamente, é um critério válido já que o livro se propõe a republicar as “melhores crônicas” do autor. Contudo, não deixa de fazer falta a faceta de Mário Filho enquanto testemunha da história. Seria interessante ler suas perspectivas acerca de episódios como a surpreendente campanha da Seleção Brasileira na Copa de França de 1938, o Maracanaço de 1950, a Batalha de Berna de 1954, a vitória em 1958, o bi em 1962. Quem sabe pode ser o mote para um segundo volume.
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Mário Filho e o irmão Nelson Rodrigues: enquanto Nelson buscava o épico, Mário cultivava o humano[/caption]
Ao mesmo tempo chama atenção a opção por praticamente não enfocar grandes craques da época, como Pelé, Garrincha, Di Stefano ou Puskas. Estrela o livro figuras semiesquecidas, como Belfort Duarte, Haroldo e Mimi Sodré. O célebre zagueiro Domingos da Guia é uma exceção, e mesmo essa exceção surge de modo a reforçar o esquema geral.
Nesse ponto cabe uma comparação, que fiz questão de evitar até o momento, entre Mário Filho e Nelson Rodrigues. Embora a escrita do caçula fosse claramente devedora do estilo do primogênito, os objetivos eram diametralmente opostos. Enquanto Nelson Rodrigues buscava o épico, Mário Filho cultivava o humano. Não é por acaso que o título da coluna de Nelson Rodrigues era “à sombra das chuteiras imortais”, ele de fato retratava seus personagens como deuses do futebol, como figuras acima da vida. Afirmava que o meia Didi possuía a dignidade inata de um “Príncipe Etíope”, defendia que do peito de Pelé “parecem pender mantos invisíveis”, para ele “Garrincha está acima do bem e do mal”.
Nada disso aparece no irmão mais velho. Mário Filho fala do capitão de time que não tem tostão para pegar o bonde, do jogador honesto demais para fazer falta em um companheiro de trabalho, do perneta que jogava futebol. Tipos muito próximos dos torcedores, dando a sensação que os protagonistas de suas crônicas poderiam ser seus vizinhos, amigos ou até eles mesmos. A crônica “Notas para uma biografia de Domingos da Guia” é sintomática. Nela não aparece o beque genial, lendário, mitológico, o atleta acima de todos os outros. Não, longe disso, aqui Domingos da Guia surge como Domingos Antônio, apenas o mais habilidoso de uma família que trazia o futebol no sangue (Mário Filho não sabia que o melhor estava por vim, na figura do divino mestre Ademir da Guia). Domingos é retratado como um homem humilde, até ingênuo, mas muito correto e trabalhador. Um homem que achava que “meu futuro não está no futebol”, que labutou como mata-mosquitos e serralheiro, só jogando futebol nos finais de semana, que tinha receio de ofender os cartolas ao negociar seus contratos. O Domingos da Guia de Mário Filho não joga com chuteiras imortais, é, sim, humano, demasiadamente humano.
Esse senso de humanidade é justamente o maior legado deixado por Mário Filho, que fez pelo futebol o que Gilberto Freyre fez pela Casa-grande, pela Senzala, pelos sobrados e pelos mucambos. Suas crônicas são obrigatórias, foram coisas incríveis que o futebol permitiu que existissem.
Ademir Luiz é escritor e doutor em História.
Editor da Ex Machina é o goiano Bruno Costa
A Ex Machina, editora nacional, é dirigida pelo goiano Bruno Costa, ex-editor da Hedra (onde fez um trabalho magistral). Ele mora em São Paulo há vários anos.
Bruno Costa, além de editor nato e atilado, é tradutor do primeiro time. Intelectual, conhece literatura como poucos.
“As Coisas Incríveis do Futebol — As Melhores Crônicas de Mário Filho” é o primeiro livro editado pela Ex Machina. As crônicas, em tempo de Copa do Mundo, ganharam resenhas e notas nos principais jornais do país. O livro foi publicado com o habitual capricho do jovem editor.
Jornal Opção acompanha a visita de chefe do Departamento de Engenharia de Construção (DEC) às frentes de serviços de recuperação de uma rodovia federal e de reconstrução de um aeroporto na Bahia
Vem a vida em sua energia secreta e natural, intraduzível e irrevelada, cozinhando devagar suas transformações de cada dia, em silêncio. Conspirando para fazer o nosso tempo passar mais devagar
Coligações do PSB e do PT não vingaram e candidaturas dos dois oposicionistas vão se arrastar até a última etapa da campanha, o que reflete a acirrada polarização entre Marconi e Iris
Realizada pelo Sebrae, a Feira do Empreendedor ressalta cuidados com o meio ambiente
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O Jornal Opção ouviu a mais respeitada autoridade do assunto no Brasil para saber as características de um serial killer e, assim, poder se aproximar da resposta a essa pergunta
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Lula se serve do “leva e traz”de Carvalho junto à presidente Dilma[/caption]
No meio da semana saiu a informação de que Gilberto Carvalho deixaria a Secretaria Geral da Presidência para atuar na campanha de reeleição da presidente Dilma Rousseff junto aos movimentos sociais. O secretário negou. Esclareceu que, no atual governo, o seu lugar de trabalho é no palácio, onde está há 11 anos e meio.
A informação surgiu como espécie de pressão sobre Carvalho, ainda na onda de pessoas surpreendidas e agitadas com a fala dele aos blogueiros, que teria incomodado Dilma. Ela estaria surpresa, como outros petistas, com a autonomia daquele discurso dentro do Planalto em horário de expediente.
As pessoas esquecem que Carvalho trabalhou como chefe de gabinete do presidente durante os oito anos de mandato de Lula, que depois o legou à sucessora como secretário-geral. Além de receber do antigo chefe a incumbência informal de ser o seu elemento de ligação com o palácio. Em outras palavras, Carvalho acompanha o que se passa por ali e relata ao ex.
Era uma posição que incomodava a presidente. No início, ela queria afastar o companheiro ali presente atentamente. Não conseguiu. Tentou então ignorá-lo. Foi convencida a aproximar-se mais do secretário. Aproximou-se, mas Dilma guarda suas confidências para Giles Azevedo, conselheiro e chefe de gabinete de Dilma até março, quando se afastou para atuar na campanha.
Nessa condição, Carvalho expressa muito mais as ideias e intenções de Lula do que cogitações de Dilma. Assim, reuniu os companheiros blogueiros para transmitir um recado do ex. Como se comentou aqui na semana anterior, entre a fala de Lula e a correção de Carvalho ocorreu a mais recente pesquisa do Ibope.
O projeto de Lula ao atacar elites era fazer de Dilma uma vítima do processo eleitoral, num recurso para reerguer o prestígio da presidente. Não funcionou. Sondagens informais em torno dos dados preliminares da pesquisa informaram que o ataque prejudicou a presidente mais do que aos seus dois principais concorrentes, Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB).
Acionado pelo ex, Carvalho entrou em ação e, na véspera da divulgação do resultado da pesquisa, passou o recado pelos blogueiros. No outro dia, quando os meios eletrônicos espalhavam os números do Ibope, os jornais publicavam a correção de rumo feita por Carvalho como se fosse algo por conta e risco do próprio, inclusive a responsabilização da mídia pelas denúncias de corrupção.
Além de passar anos monitorando o crime nas cadeias ao invés de exigir que ele seja prevenido à força, o Ministério Público chega a defender que criminosos como Beira-Mar não podem ser vigiados quando recebem visitas
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Aécio Neves: candidato tucano estimula deserção de aliados ao governo[/caption]
A nova sucessão presidencial caminha para fazer história em matéria de confronto entre governo e oposição. Num canto do ringue, a presidente Dilma Rousseff, em busca da reeleição, dispensou o recato e pediu lealdade aos partidos aos quais distribui cargos. No gesto, advertiu e ofereceu uma lição ao público em geral:
— Engana-se quem defende a tese de que não há compatibilidade entre a lealdade e política. Tem uma espécie de esperteza que tem vida curta.
No outro canto, o principal candidato da oposição, senador Aécio Neves (PSDB), ouviu aquilo, afastou a austeridade mineira e abriu o jogo numa recomendação à esperteza — ou falta de compostura dos políticos premiados com cargos no governo. Dirigiu-se aos governistas dissidentes e recomendou que chupem as tetas do governo e depois votem com a oposição:
— Tem muita gente que já desembarcou e o governo ainda não percebeu. É porque vão sugar mais um pouquinho do governo até o final. E eu digo a eles: “Façam isso mesmo, suguem o que puderem e venham a nós.”
A atitude da presidente revela insegurança. Em queda de prestígio nas pesquisas, ela tenta conter o crescimento da oposição. O desabafo de quarta-feira ocorreu na convenção do PSD, um dos aliados que não devem marchar coesos rumo à reeleição, como o PMDB, o PP e o PR, mas a carapuça cai melhor nesse último, que resgatou o fisiologismo no Ministério dos Transportes.
No começo de julho de 2011, Dilma iniciou a faxina na Esplanada pelos Transportes, com a demissão do então ministro Alfredo Nascimento, líder do PR e senador pelo Amazonas. Agora, aconselhada por Lula, desfez a faxina e, disfarçadamente, devolveu o ministério à banda menos limpa do PR, mas representada por um ministro técnico com cara de interino, Paulo Sérgio Passos.
Na onda, Aécio Neves surfa na queda da concorrente e atrai governistas dissidentes para a expectativa de poder tucana, que pode acontecer no fim do ano com a derrota da velha ordem. O senador orienta-se numa das leis informais da política que moveu o avô Tancredo Neves ao eleger-se presidente contra a ditadura em 1985: a atração da expectativa de poder futuro.
A doença que Tancredo dissimulou o impediu de assumir a Presidência, mas a ditadura perdeu a posição com a vitória do candidato do PMDB daquele tempo com apoio de dissidentes governistas que captaram o esvaziamento do poder militar e foram à eleição indireta consagrar a alternativa que brotava como viável.
O cientista político Leôncio Martins Rodrigues verificou a existência de um processo de popularização da política no país ao comparar o patrimônio declarado por deputados federais nas quatro últimas legislaturas, o que corresponde aos eleitos desde 1998 a 2010 - em outubro próximo será eleita outra legislatura. Professor aposentado, Rodrigues constatou que a saída dos ricos abre espaço ao recrutamento de políticos mais na classe média do que entre trabalhadores. Uma das razões da mudança seria o encarecimento das campanhas, o que afastaria pessoas do auto financiamento de candidaturas. Com isso, abre espaço a candidatos apoiados por entidades como sindicatos, igrejas e ONGs. Verificou que, em 1998, por exemplo, os empresários ocuparam 45% das cadeiras da Câmara. Doze anos depois, a porcentagem caiu para 37. O rodízio de classes no parlamento seria também uma decorrência, segundo Rodrigues, da modernização das sociedades pela massificação geral do planeta. Porém, como o trabalho de Rodrigues abrangeu patrimônios declarados, o autor admite a existência de distorção em seu levantamento por autodeclarações com a subestimação de valores. Além disso, são comuns os políticos que aumentam a riqueza pessoal no exercício de mandato. Entram mais pobres e saem mais ricos. A pesquisa de Rodrigues foi publicada em “Pobres e ricos na luta pelo poder”, livro recém-lançado pela Topbooks. É interessante a circunstância de que o trabalho do cientista político revela uma coincidência entre a mudança no perfil dos políticos com o crescimento do desencanto de eleitores apurado em pesquisas de opinião do Datafolha. Nas ultimas eleições presidenciais o desinteresse dos eleitores cresceu quanto maior nível de riqueza, educação e informação entre eles. O desencanto se revela em votos em branco ou nulo e, significativamente, entre os adeptos do voto facultativo. A oposição ao voto obrigatório aumenta conforme aquela mesma escala de esclarecimento – a elite, digamos, dos eleitores. O cruzamento entre pesquisas do Datafolha a sobre eleições presidenciais permite a conclusão de que o voto facultativo seduz àquela elite mais do que à massa popular, além de prejudicar mais a oposição do que ao governo. Torna-se desconcertante o fato de que o desencanto tem a ver com corrupção e má gestão, mas quem se desinteressa pelo voto é o eleitor esclarecido. Sobre perdas da oposição, o Datafolha apurou em maio que, se o voto não fosse obrigatório, 43% dos eleitores da presidente Dilma Rousseff deixariam de votar nela. Aécio Neves (PSDB) perderia 58% de seus eleitores. Eduardo Campos (PSB) seria abandonado por 62% dos seus.
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Ex-deputado José Genoino, condenado no processo do mensalão: doença arranjada está complicando saída da cadeia[/caption]
Como se fosse um bom conselheiro, o ministro Roberto Barroso ajudou a derrubar no Supremo Tribunal Federal o pedido de prisão domiciliar do ex-deputado José Genoino, mas sugeriu que ele peça para trabalhar fora do presídio. Seria mais uma maneira de passar pelo menos o dia fora da cela na Papuda. No entanto, o ministro não notou o disparate de sua proposta.
Como novo relator no Supremo dos recursos dos mensaleiros, Barroso, há um ano no tribunal, esqueceu que um pedido de Genoino para trabalhar fora seria a desmoralização do ex-presidente do PT na época do mensalão. Desde a prisão em novembro de 2012, Genoino tenta sair da cela sob a alegação de que a cardiopatia o impede de trabalhar. E agora, pode pedir para trabalhar?
A vida de Genoino complicou ainda mais desde que surgiu a história da doença ao ser preso. A complicação se iniciou em setembro do ano passado ao seguir outro conselho, de advogados espertos: pedir aposentadoria como deputado por invalidez provocada pelas coronárias. Levaria para casa o salário integral de deputado na época, R$ 26.723,13.
A direção da Câmara reuniu uma junta médica e pediu um parecer sobre a invalidez do deputado, não constatada. Outras juntas vieram e mantiveram o laudo, inclusive quanto à necessidade de prisão domiciliar. Veio o novo conselho, de Barroso, na última quarta-feira.
O ministro ainda lembrou que basta a Genoino esperar pelo 25 de agosto, quando cumprirá um sexto de sua pena de quatro anos e oito meses de prisão por corrupção. Teria então direito a progressão para o regime aberto, que o levaria para casa sem necessidade de arrumar emprego. Apenas dois entre 10 ministros votaram com Genoino, Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli.
Quem sabe se Genoino, na pressa em ir para a casa, aventura-se a colocar em risco a reputação e arruma um emprego? Talvez se anime, agora que cinco mensaleiros poderão assumir trabalho externo nesta semana, autorizados pelo Supremo? Os cinco voltarão à prisão apenas para dormir.
Genoino que veja saírem para o trabalho os companheiros José Dirceu e Delúbio Soares, na companhia de dois ex-deputados, o paulista Valdemar Costa Neto, ainda líder do PR; e o pernambucano Pedro Corrêa, do PP. Com eles, Jacinto Lamas, ex-tesoureiro do PL, que depois Neto transformou em PR.
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José Sarney: o mais nefasto político brasileiro vivo anuncia aposentadoria. Será verdade?[/caption]
A notícia é velha, mas vale um comentário dada a importância para os brasileiros. No início da semana passada o caquético líder político José Sarney, do PMDB, anunciou sua aposentadoria. Uma conjugação de fatores na política local no Amapá, Estado pelo qual ele vinha se elegendo senador, dificultava sua candidatura à reeleição.
Mas não há dúvida de que pesou na decisão do ex-presidente da República a sequência de vaias que levou num evento de entrega de casas com a presidente Dilma Rousseff, em Macapá, na segunda-feira, 23. Para não “pegar mal”, apaniguados de Sarney propagaram a informação de que a decisão da aposentadoria estava tomada desde sexta-feira, 20.
Ele realmente estava pensando em não disputar, mas mantinha a possibilidade em banho-maria na expectativa de que talvez Lula da Silva interferisse pessoalmente no enquadramento dos petistas no Estado, facilitando sua reeleição. Para isso, o PT local teria de deixar de apoiar o governador Camilo Capibe-ribe, do PSB, em favor de Waldez Goes, do PDT, um cordeirinho de Sarney. Lula é esperto bastante para não entrar em barca furada. Aliás, aos poucos Lula está deixando Sarney ao relento.
Com a sequência de sete vaias durante a solenidade ao lado de Dilma, Sarney teve um “gráfico” de que seu tempo passou. Na vida pública desde 1955, ele é chefe do clã que comanda a oligarquia que chupinha um Estado, o Maranhão, que não por acaso ostenta os piores indicadores sociais da Brasil. Enquanto a família Sarney e seus aliados se enriquecem cada vez mais.
De José Sarney não é exagero dizer que se trata do mais nefasto político brasileiro vivo, tal a sua influência nos meandros do poder, sempre em favor de si e de seus seguidores. E nem é preciso lembrar que foi um apoiador de primeira hora da ditadura militar. Sarney é o autêntico político “superbonder”, que adere ao governo, qualquer governo, aliado dos todos os presidentes desde Juscelino Kubitschek.
Ele continuará exercendo influência sobre uma boa parte da bancada peemedebista (e de outros partidos) no Congresso e não deixará de manobrar nos bastidores. Sempre a favor de quem estiver no poder, porque assim está trabalhando em seu próprio favor. Ou seja, vai continuar fazendo mal ao Brasil, embora de forma menos direta e ostensiva.
Mas é bom aguardar um pouco mais. Sarney pode estar blefando. Ele já anunciou aposentadoria outras vezes e depois desistiu de desistir. A boa notícia pode não se concretizar. l
O vice-presidente nacional do PT, Alberto Cantalice, publicou um texto e arrolou como “pitbulls da mídia” Reinaldo Azevedo, Arnaldo Jabor, Demétrio Magnoli, Guilherme Fiúza, Augusto Nunes, Diogo Mainardi, Lobão, Gentili, Marcelo Madureira. Azevedo disse que vai processá-lo.
O artigo é fraco, e, se não tivesse citados nomes, certamente teria sido ignorado. Menciona “propagadores do ódio”, mas não que perceber que, ao citar os profissionais — jornalistas e humoristas —, espalha sua cota de ódio.
As nove pessoas citadas pensam da mesma maneira. Alguns dos críticos do governo petistas são mais radicais, ou enfáticos, porém pelo menos dois são mais moderados e analíticos.
Publico o artigo de Cantalice para que o leitor possa avaliar sua fragilidade. Seu título deveria ser outro: muito barulho por nada.
A desmoralização dos pitbulls da grande mídia
Alberto Cantalice Três vezes derrotados nos pleitos presidenciais, por Lula e Dilma e o PT, os setores elitistas albergados na grande mídia, ao se verem na iminência do quarto revés eleitoral, foram ao desespero. Diurtunamente lançam vitupérios, achincalhes e deboches contra os avanços do país visando desgastar o governo federal e a imagem do Brasil no exterior. Inimigos que são das políticas sociais, políticas essas que visam efetivamente uma maior integração entre todos os brasileiros, pregam seu fim. “A hora é de renovar as esperanças e acreditar no Brasil”. Profetas do apocalipse político, eles são contra as cotas sociais e raciais; as reservas de vagas para negros nos serviços públicos; as demarcações de terras indígenas; o Bolsa Família, o Prouni e tudo o mais. Divulgadores de uma democracia sem povo apontaram suas armas, agora, contra o decreto da Presidência da República que amplia a interlocução e a participação da população nos conselhos, para melhor direcionamento das políticas públicas. Personificados em Reinaldo Azevedo, Arnaldo Jabor, Demétrio Magnoli, Guilherme Fiúza, Augusto Nunes, Diogo Mainardi, Lobão, Gentili, Marcelo Madureira entre outros menos votados, suas pregações nas páginas dos veículos conservadores estimulam setores reacionários e exclusivistas da sociedade brasileira a maldizer os pobres e sua presença cada vez maior nos aeroportos, nos shoppings e nos restaurantes. Seus paroxismos odientos revelaram-se com maior clarividência na Copa do Mundo. Os arautos do caos, prevendo e militando insistentemente pelo fracasso do mundial – tendo, inclusive, como ponta de lança a revista Veja previsto que os estádios só ficariam prontos depois de 2022, assistem hoje desolados e bufando à extraordinária mobilização popular e ao entusiasmo do povo brasileiro pela realização da denominada, acertadamente, de a Copa das Copas. O subproduto dos pitbulls do conservadorismo teve seu ápice nos xingamentos torpes e vergonhosos à presidenta Dilma na abertura da Copa, na Arena Corinthians. Verdadeiro gol contra, o repúdio imediato de amplas parcelas dos brasileiros e brasileiras ao deprimente espetáculo dos vips demonstra que a imensa maioria da população abomina essa prática. Desnudam-se os propagadores do ódio. A hora é de renovar as esperanças e acreditar no Brasil! Alberto Cantalice é vice-presidente nacional do PT e coordenador das Redes Sociais do partido.Mario Sergio Conti entrevistou um sósia do técnico da Seleção Brasileira de Futebol acreditando que estava entrevistando Felipão. O jornalista admitiu o erro e fez a correção. Por que massacrá-lo? Fica-se com a impressão de que rancores antigos, dada sua posição de mando em pelo menos três redações, “Veja”, “Jornal do Brasil” e “Piauí” — o que sempre gera desgaste com subordinados, mesmo com os mais talentosos (jornalistas detestam ser criticados e corrigidos) —, estão sendo expostos como se fossem críticas isentas.
O erro de Mario Sergio Conti entra para a categoria dos primários, mas possíveis. O que não se deve é avaliar o trabalho anterior e atual do jornalista pela falha — apenas uma. O ex-editor da “Veja” é um dos melhores jornalistas de sua geração, tanto que, sob sua direção, a revista era bem melhor. Assim como a “Piauí”, sua criação, ao lado de João Moreira Salles, é uma publicação de qualidade. Conti escreve muito bem e não é nenhum néscio. Apesar da crítica negativa de Mino Carta, seu livro “Notícias do Planalto” é uma importante crônica dos anos Collor.

