Lena Castello Branco, aos olhos dos filhos: a mãe, professora e historiadora que marcou gerações
24 maio 2026 às 17h29

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A intelectual que adotou Goiás Lena Castello Branco foi uma das figuras mais marcantes da educação e da cultura do estado e do Brasil. A professora e historiadora construiu uma trajetória que uniu vida acadêmica e familiar, sendo reconhecida como Professora Titular da UFG, diretora de instituições culturais e autora de obras fundamentais sobre a história social e a memória coletiva. A sua produção intelectual dialogava com a vida cotidiana, já que conciliava pesquisas com momentos de convivência intensa com filhos e netos, tornando-se exemplo de dedicação e afeto.
Segundo os filhos Murilo Castelo Branco Ferreira Costa (70 anos, engenheiro civil), Virgínia Castelo Branco Ferreira Costa Torres (69 anos, economista, física e consultora de viagens aposentada), Luíza Castelo Branco Ferreira Costa (62 anos, pedagoga) e Fernando Castelo Branco Ferreira Costa (64 anos, empresário), a escritora goiana Lena Castello Branco foi uma mulher presente, admirada e caridosa, que deixou um legado profundo na família e na sociedade. Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, os filhos da escritora contaram sobre sua trajetória, que foi marcada pela educação, cultura e convivência familiar intensa apesar da movimentada vida de uma intelectual pública.

Lena sempre foi uma mãe presente, mesmo trabalhando muito. Foi cercada de amigos da faculdade, professores, advogados e familiares, sua casa era movimentada e cheia de vida. “Ela sempre foi uma pessoa muito presente em casa, apesar de todas as atividades dela. A lembrança que eu tenho é de uma mãe presente, que trabalhava muito, e sempre foi muito admirada, teve muitos amigos. Sempre foi muito caridosa, ajudava muito as pessoas”, contou Virgínia.
A educação formal, para ela, era prioridade, herança de gerações anteriores, dos pais e avós, que já haviam rompido barreiras ao se formar em cursos superiores, algo raro nas décadas de 1930 e 1940, especialmente no interior da Bahia. “Pelo lado da mamãe, o meu avô, já tinha a preocupação com a educação, que não era muito comum. Até as irmãs do meu avô se formaram na faculdade, os irmãos dele se formaram na faculdade e pelo lado da minha avó também tinha essa preocupação”, comentou Virgínia.
“Foi mais fruto de uma era mesmo. Então, o meu bisavô, pai do meu avô, se preocupou que todos tivessem educação. A minha tia-avó era dentista, uma outra tinha uma formação que, na década de 1930, isso aí não existia. Era muito difícil. E se você raciocinar em termos de geolocalização, era no interior da Bahia. A mesma coisa aconteceu pelo lado da minha mãe, então fomos influenciados por ambos os lados”, explicou Murilo.
Essa valorização da formação acadêmica foi transmitida aos filhos, que estudaram nos melhores colégios e participaram de intercâmbios culturais. Murilo relembra ter sido internado aos 11 anos em um colégio franciscano em Minas Gerais, viajando sozinho de ônibus, enquanto os irmãos também tiveram experiências semelhantes.
“Ela tinha muitos amigos, que davam aula na faculdade, e que frequentavam lá em casa. E amigo da família também, e como somos quatro irmãos, tinha os nossos amigos em casa também. Era uma casa bem movimentada. Era uma casa normal, com amigos normais, mas muito movimentada de pessoas ligadas às áreas de conhecimento e a educação formal, professores, advogados”, apontou Virgínia.
A preocupação com a educação não se limitava à família. Na década de 1980, Lena conseguiu recursos para construir uma escola em frente à sua chácara em Trindade, Região Metropolitana, hoje referência municipal. Para os filhos, não houve choque de gerações deles com os pais, mas uma evolução natural que percorre toda geração que sucede a outra, por exemplo, eles contam que cresceram sem internet, enquanto os netos já nasceram conectados, o que os coloca à frente em alguns aspectos e outros não.
Os finais de semana na chácara da família foram marcados por momentos inesquecíveis, sem televisão, mas com acampamentos, cavalos e brincadeiras ao ar livre. Esse espaço se tornou um paraíso para os netos da Lena, que conviviam intensamente com a avó.
Após a morte precoce do marido, aos 49 anos, Lena se casou novamente com Floriano, que se tornou um avô dedicado e querido por todos da família. Os filhos garantem que apesar de ser traumático a morte de um dos pais, por serem muito novos, não sofreram tanto quanto se espera para esse tipo de situação.
Os almoços de domingo eram tradição, e Lena fazia questão de preparar pratos específicos para cada neto. Sem medir esforços, com a ajuda de uma funcionária, fazia o que cada neto pedia. Essa rotina se manteve até sua morte, mesmo após mudar para Goiânia durante a pandemia, quando sentiu falta da horta e das rosas que cultivava na chácara. A ligação com as rosas era tão forte que a família conseguiu preservar uma muda de roseira que vinha da mãe de Lena, perpetuando sua memória.
A produção intelectual de Lena foi igualmente marcante. Ela escreveu sobre a história de Goiás, pesquisou em Portugal a origem da família Caiado, no qual o principal representante é o ex-governador, Ronaldo Caiado (PSD), e, os filhos disseram que conviveram com figuras como Cora Coralina durante as férias em Goiás Velho. Seu primeiro livro, Arraial e Coronel, retratou a colonização de Pirinópolis e a Fazenda Babilônia.
A identificação com a história colonial de Goiás foi profunda e constante. Lena também levou os filhos para Goiás Velho, onde conciliava pesquisas com momentos de lazer, mostrando que sua paixão pela história se integrava à vida familiar.
A trajetória da família foi marcada pelo avô, engenheiro de ferrovias, que trouxe todos para Goiânia na década de 1950. Lena se identificou com a cidade, fez faculdade, tornou-se professora na Universidade Católica de Goiás (UCG), antigo nome da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), e participou da fundação da Universidade Federal de Goiás (UFG).
Enquanto fazia o doutorado na Universidade de São Paulo (USP), viajava de ônibus para São Paulo, conciliando estudos com a rotina familiar. Mais tarde, trouxe professores da instituição para Goiânia e criou o doutorado em História, sendo reconhecida pela comunidade acadêmica por dar oportunidade a outros acadêmicos antes de concluir o próprio doutorado.
E mesmo com limitações de mobilidade na velhice, Lena continuou ativa em instituições culturais, como o Instituto Histórico, a Academia Goiana de Letras e a Academia Feminina de Letras, da qual foi fundadora. Seu hobby era a leitura, e mantinha contato com amigos pelas “novas tecnologias”, sempre apoiada pelos netos.
O padrasto Floriano compartilhava com ela o gosto pela música e pela vida cultural, enquanto o primeiro marido havia sido parceiro na fundação da Faculdade Anhanguera. Cada fase da vida de Lena foi marcada por diferentes papéis. Com o primeiro marido, a criação dos filhos; com Floriano, a “curtição” da vida e dos netos.
Na rotina, Lena vivia intensamente a cultura. Pela manhã, lia livros, escrevia críticas e resenhas, e mantinha contato com amigos pelo WhatsApp. Recebia pessoas do Instituto Histórico em casa para tomar chá no fim da tarde e publicava semanalmente crônicas, muitas vezes no Facebook, onde comentava sobre problemas da cidade e obras paradas.
Atuante e crítica, participou do Conselho Estadual de Cultura e esteve envolvida no processo de crescimento de Goiânia desde a década de 1950, acompanhando a criação das faculdades Católica e, posteriormente, da Universidade Federal de Goiás. Para os filhos, Lena foi uma mãe dedicada, presente e tranquila, que cobrava naturalmente e sempre oferecia oportunidades para eles. Eles afirmam que o estado de Goiás deve muito a ela, principalmente na área da educação.
As viagens de Lena eram temáticas, nem sempre, mas gostava de ir a Portugal para pesquisas, a Goiás Velho para conversar na praça, ao Piauí para tomar suco de cajuína em Teresina, ou simplesmente para estar com amigos. Era uma pessoa que viveu intensamente, sem traumas, em uma época diferente, quando telefonar era caro e difícil, e Goiânia ainda crescia.
Os filhos lembram que moravam no Setor Sul, onde o asfalto só chegou no final dos anos de 1960, e que acompanharam o desenvolvimento da cidade. Hoje, eles criticam a verticalização desordenada que, segundo Murilo, “assassinou o plano diretor original” e transformou Goiânia em um caos urbano.
Para eles, todos os gestores políticos contribuíram para a deturpação da cidade, “nem um e nem outro, todos eles”, permitindo adensamentos excessivos e alterando o plano diretor em busca de arrecadação. Lembram ainda das invasões pontuais, como no Vale dos Sonhos e no Jardim Goiás, mas destacam que o maior problema foi a verticalização dos setores tradicionais, que matou o ambiente familiar e levou à criação de condomínios fechados.
Um outro aspecto importante da vida de Lena foi a criação da Escolinha na varanda da chácara em Trindade, na década de 1970. Era uma sala multisseriada, com várias séries funcionando ao mesmo tempo, enquadrada como Escola Rural vinculada ao município.
A prefeitura de Trindade disponibilizava uma professora e uma merendeira, que morava na chácara e cuidava dos alunos durante o dia. Com o tempo, Lena conseguiu recursos do Ministério da Educação e transferiu a escola para o loteamento em frente, no Setor Pontakayana, onde passou a se chamar Escola Municipal Tabelião Augusto Costa.
Mais tarde, a escola foi instalada em uma área pública maior e se tornou referência em Trindade, com destaque para a banda marcial, campeã estadual. Lena mantinha uma relação próxima com os alunos, que duas vezes por ano iam até sua casa para tomar banho de piscina, ouvir o gramofone e brincar com um xadrez gigante. Essa convivência marcou gerações, e até hoje alguns professores da escola foram alunos da época em que funcionava na chácara.
Os filhos concluem que Lena foi uma mulher maravilhosa, exemplo de calma e dedicação, que viveu intensamente e deixou marcas profundas na família e na sociedade. Sua vida foi uma síntese de mãe, professora e historiadora, e seu legado continua vivo na memória dos filhos, netos e na história de Goiás.
Vida e Produção Acadêmica
Lena deixou um legado notável na educação, na cultura e na pesquisa histórica em Goiás e no Brasil. Professora Titular aposentada da Universidade Federal de Goiás (UFG), foi também Diretora da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG). Participou ativamente da vida intelectual e cultural, sendo sócia fundadora da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás e da Academia Brasileira de História da Medicina, além de integrar diversas instituições como a Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica e a Academia Goiana de Letras, onde ocupou cadeira como membro titular.
Sua formação acadêmica foi sólida e diversificada: bacharel e licenciada em Geografia e História pela PUC-GO, pós-graduada em Altos Estudos Políticos e Estratégicos pela Escola Superior de Guerra, doutora em História Social pela USP e também Doutora Honoris Causa pela Universidade Metodista de Piracicaba. Sua tese de doutorado, intitulada As elites brasileiras e a Escola Superior de Guerra, tornou-se referência nos estudos sobre poder e sociedade. Além disso, foi Professora Emérita da Faculdade de Engenharia Braz Cubas de Mogi das Cruzes.
Na UFG, desempenhou funções de grande relevância: professora regente e titular do Departamento de História, chefe do Departamento de Geografia e História, diretora do Instituto de Ciências Humanas e Letras e idealizadora da criação do Museu Antropológico da universidade. Também foi responsável pela fundação dos cursos de mestrado em Ciências Humanas (História), Letras e História das Sociedades Agrárias, em convênio com a USP. Sua atuação ultrapassou os limites da universidade, chegando ao Conselho Federal de Educação e à Direção-Geral do INEP, além de colaborar com o Ministério da Cultura em projetos de preservação da memória nacional.
Como pesquisadora e escritora, publicou obras que marcaram a historiografia goiana e brasileira, entre elas Uma Família na História (1967), Arraial e Coronel (1978), Saúde e doenças em Goiás. A medicina possível (1999), Goiás: História e Cultura (2004, 2ª ed. 2008) e Novilha de raça e outros contos (2009). Sua produção transitou entre a história social, a história da medicina e a literatura, sempre com rigor acadêmico e sensibilidade cultural.
Ao longo de sua trajetória, Lena Castelo Branco foi conselheira, articulista e colaboradora em diversos projetos e revistas, como a Cultura Sicoob – UniCentro Brasileira. Também coordenou iniciativas de preservação do patrimônio cultural, como o projeto “Rede Brasil. Inventário Nacional do Patrimônio Cultural da Saúde”, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz.
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