O período de férias costuma ser associado a descanso e lazer, mas para muitas mães, pais e responsáveis a realidade é bem diferente. A ausência da rotina escolar concentra tarefas em casa e pode transformar o recesso em um tempo de exaustão física e emocional. Sem atividades regulares e horários previsíveis, a reorganização da vida das crianças recai quase sempre sobre uma única pessoa.

Os dados do Censo Demográfico 2022 do IBGE ajudam a explicar esse cenário. As mulheres passaram a chefiar 49,1% dos lares brasileiros, o equivalente a 35,6 milhões de domicílios. Em 2010, esse percentual era de 38,7%. Já os homens, que representavam 61,3% das chefias, caíram para 50,9%.

O levantamento também mostrou o crescimento dos domicílios unipessoais, que saltaram de 12,2% para 18,9%, além da permanência de famílias monoparentais. Esses arranjos tornam ainda mais evidente como o recesso escolar pode ampliar uma carga que já existe ao longo do ano.

Ao Jornal Opção a psicóloga Maísa Colombo Lima explica que a quebra da rotina intensifica a sobrecarga. “A rotina muda e o cuidador passa a concentrar ainda mais tarefas. Sem escola, atividades regulares ou alguém para dividir os cuidados, o período que deveria ser de descanso pode se transformar em sobrecarga física e emocional”, afirma.

Segundo ela, a solidão não está necessariamente ligada à falta de companhia. Muitas vezes o adulto passa o dia inteiro com a criança, mas sente que não tem com quem dividir decisões ou expressar o próprio cansaço. “Há presença o tempo todo, mas pouca escuta, pouca troca e quase nenhuma possibilidade de pausa”, observa.

A expectativa de descanso também pode se tornar fonte de frustração. “A expectativa pode ser: ‘Nas férias eu finalmente vou descansar’. Quando isso não acontece, podem surgir irritação, tristeza, ansiedade e sensação de injustiça”, diz Maísa.

Os sinais de que o limite emocional foi ultrapassado estão irritação frequente, choro, insônia, cansaço constante, vontade de se afastar de todos e pensamentos como “não vou dar conta” ou “não aguento mais”.

Um outro sentimento comum é a culpa. Muitos cuidadores se cobram por não corresponderem à imagem idealizada de paciência e leveza. Para Maísa, essa interpretação precisa ser revista. “Sentir cansaço não significa falta de amor. É importante substituir a acusação por uma compreensão mais realista: ‘Estou cansada porque estou sobrecarregada e preciso de cuidado’”, orienta.

Ela lembra que o esgotamento pode afetar a relação com a criança, reduzindo a paciência e levando ao afastamento emocional como forma de preservação. Isso não significa ser um mau cuidador, mas evidencia que ninguém sustenta o cuidado sem pausas e apoio.

Além das demandas práticas, há a pressão social para que as férias sejam sempre alegres e cheias de atividades. Passeios e brincadeiras aparecem como um ideal, mas muitas famílias lidam com limitações financeiras, trabalho e ausência de ajuda. Quando a realidade não corresponde a essa expectativa, o sentimento de inadequação aumenta.

Para tornar a rotina mais possível, Maísa recomenda reduzir expectativas, planejar atividades viáveis, alternar momentos tranquilos e aceitar que a criança não precisa estar entretida o tempo todo. Dividir pequenas tarefas, trocar apoio com pessoas de confiança e reservar alguns minutos para si também ajudam.

A comunicação direta com a criança pode ser uma ferramenta importante. “Frases como ‘eu gosto de estar com você, mas agora preciso descansar alguns minutos. Depois podemos fazer algo juntos’ ensinam que todas as pessoas têm necessidades e limites”, explica.

Segundo a psicóloga, o papel de familiares e amigos é essencial para reduzir a sensação de isolamento. Ela aponta que uma ligação, algumas horas de companhia ou um convite para uma atividade podem fazer diferença significativa no bem-estar emocional. Quando o sofrimento passa a ser frequente e interfere no sono, no trabalho ou nos relacionamentos, é hora de buscar apoio profissional. Reconhecer o próprio cansaço, conclui Maísa, não é sinal de fraqueza, mas de cuidado. Admitir limites e pedir ajuda protege tanto o adulto quanto a criança.

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