Conselheiro tutelar detalha rotina de menino encontrado trancado em apartamento: “Ele vivia preso havia meses”
10 julho 2026 às 15h04

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O menino de 10 anos encontrado trancado em um quarto de um apartamento no Setor Faiçalville, em Goiânia, já vivia em situação de privação havia meses, segundo o conselheiro tutelar José Roberto Silva. Em entrevista ao Jornal Opção, ele relatou que a denúncia anônima recebida pelo órgão revelou um cenário de extrema vulnerabilidade e afirmou acreditar que a atuação rápida do Conselho Tutelar pode ter salvado a vida da criança.
“Nós recebemos uma denúncia anônima por volta de meio-dia informando que essa criança estaria vivendo em cárcere privado. Quando chegamos ao local, nos deparamos com essa triste situação. O menino estava sozinho, com a porta do apartamento trancada e também preso dentro do quarto”, contou.
Ao chegar ao prédio, o conselheiro utilizou uma escada para conversar com a criança pela janela do segundo andar. Foi nesse momento que percebeu a gravidade da situação.
“Perguntei por que ele não abria a porta e ele respondeu que o quarto estava trancado. Olhei para dentro e vi garrafas com urina, uma delas já antiga. Ele contou que ficava preso naquele quarto enquanto a mãe saía”, relatou.

Diabetes agravou estado de saúde
Durante a conversa, José Roberto percebeu que o menino utilizava um sensor de glicemia no braço e descobriu que ele é portador de diabetes tipo 1.
“Ao ver o adesivo no braço, perguntei o que era. Ele respondeu que tinha diabetes tipo 1. Inicialmente pensei em retirá-lo pela janela, mas, quando vi toda a situação, decidi acionar imediatamente a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros”, afirmou ao Jornal Opção.
Após o resgate, a criança foi levada para a UPA Jardim América. Segundo o conselheiro, a equipe médica constatou que os níveis de glicose estavam extremamente alterados em razão do tempo sem alimentação adequada.
“A médica tentou medir a glicemia dele e viu que estava muito alterada. Ela entendeu que ele precisava ser internado imediatamente. Ontem mesmo ele foi transferido para o Hecad e deu entrada diretamente na UTI. Continua internado, sem previsão de alta”, disse.
Segundo o relato do conselheiro, o isolamento não começou recentemente. A criança já enfrentava a mesma rotina antes de ser levada temporariamente para a casa da avó.
“Ele vinha vivendo nessa situação havia vários meses. Os vizinhos começaram a reclamar e a mãe acabou mandando o menino para a casa da avó. No último domingo, a avó devolveu a criança para a mãe e, desde então, ele voltou a ficar mantido em cárcere”, afirmou.
No apartamento, conforme relataram as equipes de resgate, o menino estava sem acesso à água, com pouca comida e utilizava garrafas para fazer as necessidades fisiológicas.
A mãe foi presa em flagrante e deverá responder pelo crime de abandono de incapaz.
Destino da criança será definido pela Justiça
Durante o atendimento, o menino manifestou o desejo de morar com o pai. No entanto, segundo José Roberto, a situação familiar ainda precisará ser avaliada.
“Conversei hoje com uma pessoa que conhece o pai e a mãe. Ela informou que o pai nunca teve muito vínculo com a criança e não demonstraria interesse em assumir os cuidados. Mas isso ainda será apurado. Não estou afirmando isso como conclusão”, ponderou.
Independentemente do resultado dessa avaliação, o conselheiro afirma que a criança não retornará para a guarda da mãe neste momento.
“Por medida protetiva, ele será retirado da responsabilidade da mãe. Assim que receber alta, o caso será encaminhado ao Juizado da Infância e da Juventude, que decidirá quem ficará com a guarda.”
Primeira denúncia oficial
Apesar de vizinhos relatarem que a situação era recorrente, José Roberto afirmou que o Conselho Tutelar nunca havia recebido uma denúncia formal envolvendo a família.
“Dessa família, foi a primeira denúncia. O menino já vinha sofrendo há meses, mas os vizinhos não denunciavam oficialmente. Por isso, sempre reforçamos a importância da denúncia”, afirmou.
Segundo ele, qualquer suspeita de violação de direitos deve ser comunicada ao Conselho Tutelar.
“Quando qualquer pessoa perceber que uma criança ou adolescente está sofrendo agressões, abandono, abuso ou qualquer outra violação de direitos, deve denunciar. Nós vamos verificar a situação. Se a denúncia não for confirmada, ela é arquivada. Mas, se for constatada a violação, tomamos todas as providências necessárias.”
Ao relembrar o caso, José Roberto acredita que a rapidez da denúncia foi decisiva para preservar a vida do menino.
“Tenho certeza de que, se o Conselho Tutelar não tivesse agido ontem, talvez hoje essa criança não estivesse mais conosco. O menino já está há dois dias internado na UTI”, concluiu.
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