Opção cultural

Impulsionado pela eleição presidencial de Donald Trump, nos Estados Unidos, o historiador norte-americano elaborou 20 lições que a história, sobretudo o período da ascensão dos regimes totalitários no século XX, pode nos ensinar, no momento presente

“E um infante o atalha no ato:/ – Pára, homem sanguinolento!/ De nada vale teu pacto:/ É desfeito o encantamento.” Trecho de “A cota de malha” vertido para o português

O olhar do poeta mineiro, sendo moderno, não faz da tradição literária um acervo ultrapassado, ou um utensílio de manipulação apenas. Reconhece que esse diálogo com o passado é uma via de mão dupla, isto é, um verdadeiro diálogo de troca

Marília Mendonça, uma das compositoras que mais arrecadam direitos autorais, é talentosa. Maiara e Maraísa mostram que cantar e compor bem não têm a ver com estética

O controverso e excêntrico esotérico se tornou mundialmente notório por sua dedicação ao ocultismo, mas suas incursões pelo mundo da tradução são pouco conhecidas

Investigação de dois jornalistas do “Washington Post” sobre o Caso Watergate, que derrubou o então presidente Richard Nixon, foi narrada em um clássico do cinema, e pode ser comparada ao atual momento político vivido nos Estados Unidos

A proposta do biólogo possui retórica débil, já que se fundamenta em princípios científicos, antagônicos aos dogmas religiosos. É difícil conceber que a elite religiosa queira abrir mão de sua zona de conforto a fim de buscar conciliação em bases evolucionistas e humanistas

Não se pode ignorar um estilo musical, como o sertanejo, que arrasta multidões e que movimenta bilhões de reais por ano na economia brasileira. Gosto é opcional, respeito é obrigação
[caption id="attachment_97794" align="alignleft" width="620"] O sertanejo, gênero musical que move milhões de pessoas, não pode ser deprezado[/caption]
Estreamos essa coluna falando de preconceito. Todos já ouviram falar bastante a respeito do preconceito racial, do preconceito de gênero, do preconceito social, do preconceito religioso, etc. Nesta sociedade maluca em que vivemos, o que não falta é preconceito. Uma das definições mais assertivas deste vocábulo é a de “sentimento hostil, assumido em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; intolerância”. Mas, como o nosso assunto aqui é música, falemos então sobre o preconceito musical.
Não é segredo para ninguém que a música sertaneja foi e ainda é alvo de discriminação. Confesso minha estranheza em relação à tamanha resistência dos chamados formadores de opinião. Ou a tentativa de rotular a música sertaneja como brega. Ou ignorar o “Sertanejo Universitário” que arrasta multidões. Sim, a música sertaneja sofre preconceito. Ao diagnóstico cabem perguntas: por que o preconceito acontece? Quais os critérios? O que motiva alguns a terem repulsa aos músicos que ganham milhões com festas de rodeio e shows que faturam milhões?
Lembro-me que na minha adolescência, no final dos anos 90 e início dos anos 2000, ser jovem e gostar de música sertaneja era motivo de chacota no colégio. Isso antes da explosão do chamado “Sertanejo Universitário” em 2006. Aliás, uma das grandes conquistas dessa variação do gênero foi rejuvenescer o público da música sertaneja no Brasil.
A música é ruim? Desculpe, é um critério muito subjetivo. O que pode ser bom para um é terrível para outro. Além disso, Nelson Rodrigues já dizia que toda unanimidade é burra. Generalizar também é um erro. Alguém pode contestar: “Ah, mas as letras são pobres”. Isto também é um critério individual. Já que falamos no grande dramaturgo, na literatura, por exemplo, tem gente que considerava Nelson Rodrigues um gênio e outros tachavam de um libertino, um velho que falava dos mesmos assuntos de modo indevido. E se todos levassem apenas uma opinião, uma corrente em consideração?
É claro que tem muita coisa sem qualidade no sertanejo. Mas também tem música ruim no pop, no rock, na MPB, no samba, etc. Tem artista bom e ruim em todos os estilos musicais. Tem profissional bom e profissional ruim em todas as carreiras. Não se pode ignorar um estilo musical que arrasta multidões e que movimenta bilhões de reais por ano na economia brasileira. Gosto é opcional, respeito é obrigação!

Fenômeno, considerado típico do Brasil, pode e deve ser posto em xeque. Mas é necessária uma leitura atenta de intelectuais que já refletiram a respeito

O autor polonês discorre sobre questões candentes da sociedade contemporânea numa linguagem bastante acessível, que dialoga não só com especialistas, mas também com o leitor comum

Terceira e última parte da sequência de contos iniciada em 21 de maio, sob organização de Sérgio Tavares, Anderson Fonseca e Luiz Bras. Nesta edição, os autores clássicos homenageados são Adolfo Bioy Casares e Kim Stanley Robinson

O filósofo alemão é conhecido, dentre outras coisas, por seu aprazível estilo de escrita ensaística. Conhecer e estudar a poesia produzida por ele pode nos oferecer mais elementos para a compreensão tanto de sua estilística quanto do seu sistema de pensamento

No artigo “Em tradução (Thomas Pynchon)”, publicado em 11 de maio de 2017 no blog da Companhia, da editora Companhia das Letras, o tradutor Caetano Galindo já havia anunciado que o clássico romance “O Arco-Íris da Gravidade”, do escritor estadunidense Thomas Pynchon, seria relançado pela referida editora.
Hoje, o também tradutor Daniel Dago, em seu perfil no Facebook, confirmou a informação, e destacou que a pré-venda da nova tiragem será no dia 22 de junho, quinta-feira da próxima semana. A tradução, também clássica, é de Paulo Henriques Britto.
Quem vai perder essa?!

"Precisava de uma solução plausível. Verdadeiramente plausível. Por essa razão, uma das experiências mais marcantes na minha vida foi ouvir dizer do trabalho do filósofo Olavo de Carvalho. Ou melhor: de sua luta pela autoconsciência"
[caption id="attachment_97227" align="aligncenter" width="620"] Escola de Atenas, obra do pintor renascentista Rafael[/caption]
Bruno Gama Duarte
Especial para o Jornal Opção
Tanto no colégio em que eu estudava quanto dentro de casa, política era sempre um assunto em pauta. Era muito comum discutir a respeito. Amigos meus participavam de movimentos estudantis ou tinham parentes ligados a algum partido político ou ainda mesmo simpatizavam por esta ou aquela personalidade histórica. Uns mais à esquerda; outros mais à direita. Eu, na verdade, só fui me interessar no tema quando entrei na adolescência, aceitando todo tipo de ideia anárquica que me aparecia. Foi, justamente, nesse período que levei em consideração o fato de que nunca havia estudado as disputas político-sociais mais importantes desde a Revolução Francesa até a Revolução Russa. Repetia os chavões e lugares-comuns acerca da Ditadura Militar, do Imperialismo Norte-Americano, do Socialismo como todo moleque de 16 anos costuma fazer; e porque, afinal de contas, havia um quê de transgressor ao redor disso. Era bonito.
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Com base nesse sentimento de ignorância sobre um assunto que me chamava atenção, desenvolvi um apetite por livros e filmes cuja temática girasse em torno das transformações e do desenvolvimento do espírito humano desde o advento do mundo. Por muito tempo eu o via apenas como uma ilusão que passava pelos meus sentidos e buscava algum tipo de residência aparentemente cômoda e segura dentro da minha memória. Eu tinha uma ideia do mundo e quanto mais eu exigia um significado comprobatório acerca dele mais ele se afastava de mim. Eu não conseguia manter uma conversa honesta comigo mesmo enquanto todas as minhas energias tinham se direcionado a submeter à prova toda e qualquer experiência que eu me metia. Fracassei ano após ano até perceber que dar enorme crédito a algumas falsas suposições podia ter a ver com a má resolução das minhas atitudes. Por causa disso, fiz questão de substituir cada uma de minhas ideias. Se antes tive de aceitar algo falacioso, depois tive de me dar ao trabalho de jogar fora tudo o que fui obrigado a acreditar naquele momento.
A opinião recalcitrante fazia mal a mim, mas evidentemente não era o foco do problema. Outras pessoas cheias de opiniões que eu conhecia discutiam ocasionalmente sobre quaisquer pontos levantados naquele instante e eram pessoas tranquilas, espertas, envolventes, cujas vocações e carreiras profissionais continham o mesmo peso e relevância que cabe a qualquer outro ser humano normal responder. Meu problema se resumia numa oposição entre a vontade indômita e o raciocínio obsessivo sobre o qual não daria apenas para aplicar meus gostos e preferências.
Tentei fugir desse problema por um bom tempo. Até porque, ideias têm consequências, alteram o nosso comportamento e nos orientam a cada problema que surge. Mais cedo ou mais tarde, temos de saber como administrar isto. É, inclusive, o que se espera de alguém bem resolvido consigo próprio. De uma pessoa consideravelmente adulta. Precisava de uma solução plausível. Verdadeiramente plausível. Por essa razão, uma das experiências mais marcantes na minha vida foi ouvir dizer do trabalho do filósofo Olavo de Carvalho. Ou melhor: de sua luta pela autoconsciência.
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Filósofo Olavo de Carvalho[/caption]
Olavo de Carvalho restaura a mente das pessoas. É um exemplo vivo de um sujeito que restabeleceu o processo normal e sadio do padrão básico do comportamento racional. Pode-se dizer, também, muito por conta disso, que o filósofo é um personagem que tem a função de representar o modelo ideal de conduta diante das dificuldades da existência. Sendo um produto da tradição intelectual, ele é um modelo que deve ser admirado, pois demonstra o como as coisas funcionam corretamente; quer dizer: uma biografia que funcionou a despeito dos altos e baixos do drama pessoal, apesar de toda a sua dificuldade e aspereza.
Assim, desta maneira, o filósofo serve de instrumento ao seu povo. De modelo. Ele expressa e encarna, por assim dizer, as tendências mais altas do espírito humano. Esse é o papel dentro da sociedade que o filósofo representa. Algo de curioso nisso é que, muita das vezes, só é percebido de forma ingênua pelos sentimentos. Nada mal. Absolutamente. Quando ouvimos falar da história de um gênio, pode haver uma identificação imediata com a figura dele e ser contaminado mais pelo humor, pelo temperamento, pela iconoclastia revelados em seus exemplos de conduta do que qualquer outra coisa.
Para ilustrar esse ponto, imaginemos, por exemplo, uma tribo que está prestes a entrar em extinção. E acho que nem preciso comentar que os índios dessa tribo desistem muito facilmente de suas tarefas, abandonam o campo de batalha e sucumbem em razão, justamente, da falta de um modelo de coragem a seguir. Não há por quê. Até que, miraculosamente, surge alguém repleto de histórias e explicações sobre os mistérios da vida e conta as saídas possíveis dos problemas de cada membro de sua tribo. É isso que poderá orientá-los outra vez. Simplesmente, pelo forte coeficiente psicológico da presença de um sujeito que detém os conhecimentos elementares do mundo. Esse modelo possui valor afetivo, antes de mais nada. Ele tem vida e significado. Poder-se-ia colecionar todas os grandes prodígios do mundo, e todos os santos e sábios e líderes, e tudo o mais, e não significaria absolutamente nada, se se deixasse de lado o aspecto emocional, afetivo do fenômeno.
Ele oferece as perspectivas e ao mesmo tempo reanima a força de vontade de seu povo. Por caridade. Ele ensina que é preciso sempre captar toda a experiência vivida e depurá-la, por meio do exercício da confissão, onde, como e com quem determinada ideia foi parar em nossas cabeças. A riqueza do conhecimento está na sua vigilância autoconsciente: o filósofo sabe que sabe. Ainda mesmo com as suas existentes falhas de caráter, possíveis neuroses, tendências genéticas aviltantes, etc. Está tudo dentro do pacote. A maravilha em saber algo está em superar o sofrimento em cima disso. Seria muito fácil somente ler artigos pinçados e livros a esmo sem correr o risco de perder o pescoço.
Difícil, na verdade, é fugir das leis da condição humana segundo as quais levam todas em última análise diante da onipresença inevitável da morte e da eternidade. Que é que eu fiz da minha vida? Qual o meu legado? Quem amei? Que me distingue deste e daquele? Que fiz em troca do maravilhoso dom da vida? A noção de que o filósofo tem algo a oferecer para a sua sociedade nasce exclusivamente daí. Está longe de ser uma vida confortável, justa, mas oferece o mínimo de dignidade necessário para seguirmos em frente. Ao ponto de não perdemos a coração.
Comecei duvidando do mundo, depois nunca mais dediquei o mesmo ódio a ele, em querer reformá-lo, torná-lo meu, e poucos ideais ainda ocupam espaço na minha cabeça. Tudo isso com algum esforço, mas foi o rumo que as minhas leituras dos livros do prof. Olavo de Carvalho foram tomando. Iniciei outros projetos de estudo, embora não tenha terminado os de 10 anos atrás; foram só aumentando, para falar a verdade. E o resultado é que – não só eu –, mas uma porção de pessoas captou sua mensagem ao esgotar em poucos dias os ingressos para o documentário “O Jardim das Aflições”. Dando indícios de uma sessão permanente. É que as pessoas estão começando a entender a tremenda importância da busca apaixonada pela verdade. De que somente ela pode dar algum sentido realmente profundo e verdadeiro para as nossas vidas. Por mais miserável e absurda que elas nos pareçam.
Bruno Gama Duarte vive em Goiânia, é escritor.

Para a indignação de todos os que tecem inúmeras ofensas ao filósofo, esse momento não conseguiu passar em vão. Aquele que deveria ser relegado ao esquecimento, hoje está em um documentário tendo o seu pensamento exposto para todo o Brasil
[caption id="attachment_97126" align="aligncenter" width="620"] Filósofo Olavo de Carvalho e Josias Teófilo, diretor do documentário "O Jardim das Aflições"[/caption]
Tobias Goulão
Especial para o Jornal Opção
“Do Olavo de Carvalho não se fala”, disse certa vez o líder comunista Milton Temer, e essa frase resumiu durante alguns anos a posição que se tomava sobre o autor. O homem de 70 anos, atualmente morando no estado da Virgínia, nos Estados Unidos, autor de livros de sucesso como "O imbecil coletivo" e "Aristóteles e nova perspectiva", entre outros, e que durante um bom tempo constava entre os colaboradores dos veículos de mídia como revista Época, O Globo, Jornal da Tarde, Folha de São Paulo, Diário do Comércio, passou por uma tentativa de ser relegado ao esquecimento. Motivo: atitude de denúncia do establishment brasileiro. O que a casta dos intelectuais e políticos tupiniquins esqueceu foi que não havia mais uma hegemonia na forma de exposição de ideias, no fornecimento de aulas, na difusão de conhecimento. A internet e a iniciativa particular conseguiram suprir o ostracismo que tentaram impor a Olavo de Carvalho, que ainda continuou a escrever, a lecionar e a semear em uma terra desolada. O resultado é que hoje, em 2017, não há mais como ignorar Olavo de Carvalho. Até mesmo o cinema é prova disso.
O documentário O Jardim das Aflições, lançado recentemente, em 30 de maio, e que está percorrendo as principais cidades do país, é prova da importância que Olavo de Carvalho exerce no meio intelectual, mesmo ainda sendo ignorado por muitas pessoas que compõem a intelligentsia no país. O filme dirigido por Josias Teófilo foi rodado sem nenhuma verba governamental e conseguiu, por financiamento coletivo, uma soma de 315 mil reais - um baixo orçamento se comparado às grandes cifras de filmes que são rodados via Lei Rouanet. Em uma combinação de diálogos, leituras de trechos de obras filosóficas do próprio Olavo e de outros autores, as três partes do documentário caminham, como uma escrita sinfônica à maneira que o poeta Bruno Tolentino classificava a escrita de Olavo, a um arremate belo após a grande execução.
As três partes, I Contra a tirania do coletivo, II Como tornar-se o que se é, III e As ideias dos náufragos, são uma forma de dar espaços à observação que o autor faz sobre as forças que tem ação sobre nós. Assim ele destaca o poder que o Estado exerce sobre os indivíduos, coisa que outrora não encontramos paralelo e como a esfera da ação política em busca desse controle tomou conta de todas as atividades, inclusive da religião. Após expor o avanço do controle via Estado, há uma longa exibição de como buscar a consciência de si, de como moldar a própria personalidade tentando caminhar em meio às inúmeras forças que exercem sobre nós algum poder e, mesmo assim, saber utilizar todas como meio de auxílio na nossa formação. Por fim, após o encontro com o poder, com a noção de construção daquilo que somos, Olavo fala a nós sobre aquelas ideias que levam os homens à ação, as ideias que movimentam e que acabam por construir um caminho na história humana. Como um bom estudioso das ideias clássicas, ao dialogar fica claro o ponto em que, citando Platão, nos lembra que a filosofia nos ensina a morrer; mais ainda, a filosofia acaba mostrando ao fim que peso possuem nossas ações, pois a distinção final é a que mesmo não mais presentes corporalmente nossas ações, nosso ser que, em tempos passados, surgiu e agiu não perde nada dessa condição. Aquilo que é ser, não pode ser não-ser; aqueles que realizaram alguma ação, não podem desfazê-las.
Nas escolhas de filmagem de Josias Teófilo, tudo é caminho para encontrar a figura do filósofo distante da torre de marfim que muitos intelectuais cultivam. As panorâmicas na cidade onde ele habita, o passeio na pequena livraria, as cenas em família, a reunião na sala, o tempo na biblioteca e até mesmo os relatos sobre o Olavo feitos pela esposa Roxane caminham para mostrar a integridade do que o filósofo fala e daquilo que ele vive. A montagem faz relação com toda a narrativa do documentário, sendo elemento que representa, ora de forma clara e outras simbolicamente, aquilo que Olavo está explicando. As cenas retiradas de entrevistas conferidas pelo autor, trechos retirados de filmes somados às cenas que se passam em Brasília, seja na visão aérea da catedral, seja no plano-sequência que traz a explanada dividida em tempos de impeachment, são excelentes ilustrações dos temas discutidos: poder, consciência e transcendência. Ainda é importante citar na construção do filme o peso da fotografia do premiado Daniel Aragão. Ele soube passar muito bem a atmosfera da proposta inicial de Josias: partir do livro e expandir o tema de O Jardim das Aflições. Ou seja, da tirania imposta pelo Estado, da importância de saber quem se é e do elemento transcendental no homem. Um detalhe à parte é a trilha sonora: 1ª Sinfonia de Sibelius, além de ser uma obra magistral que completa a composição do cenário o qual ambienta a vida do filósofo, é uma referência à forma da escrita do Olavo.
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Cartaz de "O Jardim das Aflições"[/caption]
Mas aquilo que o documentário melhor retrata é um simples fato: o filósofo no seu exercício de filosofar. A definição que Olavo de Carvalho oferece de filosofia, “a busca metódica pela unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa”, é justamente o que está exposto em O Jardim das Aflições. No filme, principalmente na exposição da consciência de si que compõe a segunda parte do documentário, vemos esse exercício. As reflexões feitas por Olavo nada mais são que esse ato de fazer uma filosofia que esteja diretamente ligada à realidade e aos elementos circunstanciais que dão ao indivíduo a matéria-prima para ser aquilo que é. É justamente a composição de uma sinfonia que transmite a busca da unidade entre as ideias que estão em ação no indivíduo, a procura por entender a realidade que está em constante relação com essas ideias e como elas não devem ser apenas uma obra de gabinete, mas uma composição que busca justamente determinar a unidade do real. As circunstâncias, referência direta ao filósofo espanhol José Ortega y Gasset, que já foi comentado pelo próprio protagonista do documentário como um dos responsáveis por abri-lhe os olhos para fora do mundo marxista, são as condições que estão ligadas diretamente à formação de nossa realidade como pessoa. Considerar o efeito dos elementos internos e externos a nós é um dos temas que serão expostos e que dão um tom importante ao desenrolar da explicação de Olavo sobre a nossa busca para nos tornarmos aquilo que somos. Outra referência não feita no documentário, mas que pode ser percebida mesmo que levemente, é vinda do francês Louis Lavelle, que em outras situações é mencionado pelo filósofo brasileiro e que tem em seus escritos justamente uma busca por essa consciência de si, ligada a um aprofundar-se no próprio ser e um expandir-se ao encontro do outro.
O que é feito nesse exercício filosófico que vemos no documentário é aquilo que certa vez Olavo de Carvalho explicou ter visto de um filósofo de fato, não de um professor de história da filosofia. Em seu tempo como aluno do Pe. Stanislavs Ladusãns, sacerdote católico vindo da Letônia, disse que este fazia em suas aulas o exame dos problemas propostos seguindo uma linha que passava pelas respostas de vários autores até chegar a uma solução. Esse método do exame, da narrativa do problema e da observação de suas causas, efeito e solução é o que temos nas lições dadas durante o documentário.
Como lembra Eric Voegelin, autor a quem Olavo faz referência durante o documentário, filosofar é algo que deve ser feito para resgatar a realidade. Justamente essa é a obra de resgate a qual Olavo dedica boa parte de seu trabalho. É intenção dele o resgate das inteligências no Brasil, uma ação de esquecimento das ideologias e procurar, na realidade, ligar-se ao que ela é e assim buscar a compreensão da vida humana. Apelo à realidade esse que também pode ser encontrado em outro grande filósofo por vezes mencionado por Olavo em outras ocasiões, o espanhol Xavier Zubiri, que traz na sua filosofia a mesma noção de se ligar ao real e, a partir de nossa relação com ele, buscar a compreensão apartada das vias ideológicas que têm como intuito apenas nublar a verdade das ações da realidade.
Além de Voegelin, Aristóteles e Platão são outras referências citadas várias vezes durante o documentário, o que mostra a conexão entre a filosofia não como uma sucessão de ideias nas quais a cada moda se esquece os antecessores, mas como um conjunto concreto no qual se utiliza de toda a verdade que há em seu trajeto histórico até hoje, talvez uma mostra do que Mario Ferreira dos Santos fez em sua Filosofia Concreta, este que também é um autor muito estudado por Olavo.
Para a indignação de todos os que tecem inúmeras ofensas a Olavo de Carvalho, esse momento não conseguiu passar em vão. Aquele que deveria ser relegado ao esquecimento, ser tratado como pária, hoje está em um documentário tendo o seu pensamento exposto para todo o Brasil. A figura que deixou toda uma casta intelectual com muita indignação está novamente nos holofotes, o que reflete a influência que ele exerce, cada vez mais, em uma população que começa a se levantar do lamaçal ideológico em que estamos mergulhando (vide as referências diretas a ele nas várias manifestações públicas que tivemos no país). Para “um filme que não deveria existir”, O Jardim das Aflições veio dar novos ares ao cinema e uma nova visibilidade para a filosofia no Brasil.
Tobias Goulão é mestre em História pela Universidade Federal de Goiás.
Assista ao trailer do filme:
https://www.youtube.com/watch?v=ErvhYt_EUzE&t=48s