A inconciliável leviandade do ser

“Precisava de uma solução plausível. Verdadeiramente plausível. Por essa razão, uma das experiências mais marcantes na minha vida foi ouvir dizer do trabalho do filósofo Olavo de Carvalho. Ou melhor: de sua luta pela autoconsciência”

Escola de Atenas, obra do pintor renascentista Rafael

Bruno Gama Duarte
Especial para o Jornal Opção

Tanto no colégio em que eu estudava quanto dentro de casa, política era sempre um assunto em pauta. Era muito comum discutir a respeito. Amigos meus participavam de movimentos estudantis ou tinham parentes ligados a algum partido político ou ainda mesmo simpatizavam por esta ou aquela personalidade histórica. Uns mais à esquerda; outros mais à direita. Eu, na verdade, só fui me interessar no tema quando entrei na adolescência, aceitando todo tipo de ideia anárquica que me aparecia. Foi, justamente, nesse período que levei em consideração o fato de que nunca havia estudado as disputas político-sociais mais importantes desde a Revolução Francesa até a Revolução Russa. Repetia os chavões e lugares-comuns acerca da Ditadura Militar, do Imperialismo Norte-Americano, do Socialismo como todo moleque de 16 anos costuma fazer; e porque, afinal de contas, havia um quê de transgressor ao redor disso. Era bonito.

Com base nesse sentimento de ignorância sobre um assunto que me chamava atenção, desenvolvi um apetite por livros e filmes cuja temática girasse em torno das transformações e do desenvolvimento do espírito humano desde o advento do mundo. Por muito tempo eu o via apenas como uma ilusão que passava pelos meus sentidos e buscava algum tipo de residência aparentemente cômoda e segura dentro da minha memória. Eu tinha uma ideia do mundo e quanto mais eu exigia um significado comprobatório acerca dele mais ele se afastava de mim. Eu não conseguia manter uma conversa honesta comigo mesmo enquanto todas as minhas energias tinham se direcionado a submeter à prova toda e qualquer experiência que eu me metia. Fracassei ano após ano até perceber que dar enorme crédito a algumas falsas suposições podia ter a ver com a má resolução das minhas atitudes. Por causa disso, fiz questão de substituir cada uma de minhas ideias. Se antes tive de aceitar algo falacioso, depois tive de me dar ao trabalho de jogar fora tudo o que fui obrigado a acreditar naquele momento.

A opinião recalcitrante fazia mal a mim, mas evidentemente não era o foco do problema. Outras pessoas cheias de opiniões que eu conhecia discutiam ocasionalmente sobre quaisquer pontos levantados naquele instante e eram pessoas tranquilas, espertas, envolventes, cujas vocações e carreiras profissionais continham o mesmo peso e relevância que cabe a qualquer outro ser humano normal responder. Meu problema se resumia numa oposição entre a vontade indômita e o raciocínio obsessivo sobre o qual não daria apenas para aplicar meus gostos e preferências.

Tentei fugir desse problema por um bom tempo. Até porque, ideias têm consequências, alteram o nosso comportamento e nos orientam a cada problema que surge. Mais cedo ou mais tarde, temos de saber como administrar isto. É, inclusive, o que se espera de alguém bem resolvido consigo próprio. De uma pessoa consideravelmente adulta. Precisava de uma solução plausível. Verdadeiramente plausível. Por essa razão, uma das experiências mais marcantes na minha vida foi ouvir dizer do trabalho do filósofo Olavo de Carvalho. Ou melhor: de sua luta pela autoconsciência.

Filósofo Olavo de Carvalho

Olavo de Carvalho restaura a mente das pessoas. É um exemplo vivo de um sujeito que restabeleceu o processo normal e sadio do padrão básico do comportamento racional. Pode-se dizer, também, muito por conta disso, que o filósofo é um personagem que tem a função de representar o modelo ideal de conduta diante das dificuldades da existência. Sendo um produto da tradição intelectual, ele é um modelo que deve ser admirado, pois demonstra o como as coisas funcionam corretamente; quer dizer: uma biografia que funcionou a despeito dos altos e baixos do drama pessoal, apesar de toda a sua dificuldade e aspereza.

Assim, desta maneira, o filósofo serve de instrumento ao seu povo. De modelo. Ele expressa e encarna, por assim dizer, as tendências mais altas do espírito humano. Esse é o papel dentro da sociedade que o filósofo representa. Algo de curioso nisso é que, muita das vezes, só é percebido de forma ingênua pelos sentimentos. Nada mal. Absolutamente. Quando ouvimos falar da história de um gênio, pode haver uma identificação imediata com a figura dele e ser contaminado mais pelo humor, pelo temperamento, pela iconoclastia revelados em seus exemplos de conduta do que qualquer outra coisa.

Para ilustrar esse ponto, imaginemos, por exemplo, uma tribo que está prestes a entrar em extinção. E acho que nem preciso comentar que os índios dessa tribo desistem muito facilmente de suas tarefas, abandonam o campo de batalha e sucumbem em razão, justamente, da falta de um modelo de coragem a seguir. Não há por quê. Até que, miraculosamente, surge alguém repleto de histórias e explicações sobre os mistérios da vida e conta as saídas possíveis dos problemas de cada membro de sua tribo. É isso que poderá orientá-los outra vez. Simplesmente, pelo forte coeficiente psicológico da presença de um sujeito que detém os conhecimentos elementares do mundo. Esse modelo possui valor afetivo, antes de mais nada. Ele tem vida e significado. Poder-se-ia colecionar todas os grandes prodígios do mundo, e todos os santos e sábios e líderes, e tudo o mais, e não significaria absolutamente nada, se se deixasse de lado o aspecto emocional, afetivo do fenômeno.

Ele oferece as perspectivas e ao mesmo tempo reanima a força de vontade de seu povo. Por caridade. Ele ensina que é preciso sempre captar toda a experiência vivida e depurá-la, por meio do exercício da confissão, onde, como e com quem determinada ideia foi parar em nossas cabeças. A riqueza do conhecimento está na sua vigilância autoconsciente: o filósofo sabe que sabe. Ainda mesmo com as suas existentes falhas de caráter, possíveis neuroses, tendências genéticas aviltantes, etc. Está tudo dentro do pacote. A maravilha em saber algo está em superar o sofrimento em cima disso. Seria muito fácil somente ler artigos pinçados e livros a esmo sem correr o risco de perder o pescoço.

Difícil, na verdade, é fugir das leis da condição humana segundo as quais levam todas em última análise diante da onipresença inevitável da morte e da eternidade. Que é que eu fiz da minha vida? Qual o meu legado? Quem amei? Que me distingue deste e daquele? Que fiz em troca do maravilhoso dom da vida? A noção de que o filósofo tem algo a oferecer para a sua sociedade nasce exclusivamente daí. Está longe de ser uma vida confortável, justa, mas oferece o mínimo de dignidade necessário para seguirmos em frente. Ao ponto de não perdemos a coração.

Comecei duvidando do mundo, depois nunca mais dediquei o mesmo ódio a ele, em querer reformá-lo, torná-lo meu, e poucos ideais ainda ocupam espaço na minha cabeça. Tudo isso com algum esforço, mas foi o rumo que as minhas leituras dos livros do prof. Olavo de Carvalho foram tomando. Iniciei outros projetos de estudo, embora não tenha terminado os de 10 anos atrás; foram só aumentando, para falar a verdade. E o resultado é que – não só eu –, mas uma porção de pessoas captou sua mensagem ao esgotar em poucos dias os ingressos para o documentário “O Jardim das Aflições”. Dando indícios de uma sessão permanente. É que as pessoas estão começando a entender a tremenda importância da busca apaixonada pela verdade. De que somente ela pode dar algum sentido realmente profundo e verdadeiro para as nossas vidas. Por mais miserável e absurda que elas nos pareçam.

Bruno Gama Duarte vive em Goiânia, é escritor.

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