Cláudio Ribeiro
Cláudio Ribeiro

O “jeitinho brasileiro”: instituição paralegal, modo de navegação social ou mito narcisista?

Fenômeno, considerado típico do Brasil, pode e deve ser posto em xeque. Mas é necessária uma leitura atenta de intelectuais que já refletiram a respeito

Três Robertos: Gomes, Campos e DaMatta elaboraram reflexões consistentes a respeito do “jeitinho” | Fotos: Reprodução

 

O escritor Antônio Risé­rio, no artigo “Não somos assim tão diferentes”, publicado no dia 14 de maio de 2017, no caderno “Ilustríssima”, do jornal “Folha de São Paulo”, colocou em questão um dos principais elementos definidores de nossa identidade nacional: o famoso “jeitinho”. De acordo com Risério, a tendência em reconhecer como sendo de exclusividade nossa a característica de “a tudo dar-se um jeito”, é, ao menos em grande parte, uma tentativa de reforçar o narcisismo de uma coletividade, “ao delinear com alguma clareza, ainda que apenas no império das aparências, o seu lugar no mundo”.

Risério afirma isso após apresentar e comentar alguns depoimentos de pessoas que tiveram experiências similares ao nosso “jeitinho” em países de tradição completamente diferentes da brasileira. Mas, antes, o autor critica as teses de autores como Roberto Schawarcz e de Francisco de Oliveira; este último acusado de “derrapar” em sua tentativa de definir o “jeitinho”, em artigo publicado no número 73, da revista “Piauí”, em 2012. Segundo Risério, Oliveira define “jeitinho” de uma tal forma que o termo pode assumir “qualquer sentido, porque passa a ter todos”. Torna-se uma “espécie de Bombril conceitual”, com multiuso.

Todavia, para contrapor Fran­cis­co de Oliveira, Risério traz à baila o economista e diplomata Roberto Campos, especificamente um breve ensaio deste intitulado “Sociologia do Jeito”, publicado na revista “Senhor”, em 1960, e depois incorporado ao livro “A Técnica e o Riso”, em 1966, pela Edições APEC. Risério diz que Campos “viu com mais clareza” o problema do “jeitinho”, ao comparar as tradições anglo-saxônica e latina. Para os anglo-saxões, “a lei é expressão de uma práxis, fundada no costume, a partir de uma coleção de precedentes. Já entre os latinos, a legislação é um conjunto formal de regras apriorísticas que, em vez de nascer das condutas sociais, quer modelar comportamentos.” Assim sendo, seria “desse confronto entre o formalismo da lei e o comportamento real das pessoas que nasce o jeitinho – modo de contornar uma normatividade jurídica que se quer impor de fora à vida social”.

Ainda que a tradição anglo-saxônica, e outras, como a germânica, não tenham o “jeitinho” em seu “DNA”, elas o contêm, de alguma forma, se­gundo Risério. Um dos exemplos que lhe foram dados partiu da professora Márcia Cristina Fráguas, que, em 2004, estudava alemão e audiovisual em Berlim. Fráguas reportou a Risério que vários “jeitinhos” lhe foram oferecidos pelos alemães. Um deles proveio de um seu professor que, a fim de burlar os meios legais para que ela permanecesse no país, queria atestar de alguma forma às autoridades berlinenses o fato de que ela lecionava português na capital alemã, o que era mentira.

A partir desta provocadora observação de Risério, cabe, a esta altura, perguntar se o fato de darmos tanta ênfase ao nosso “jeitinho” seria mesmo apenas uma exercício de narcisismo diferenciador, ou se é, de fato, uma característica que nos define. Acredito que seja um misto das duas coisas. Uma retroalimenta a outra. Para tanto, além de “sociologia do jeito”, de Roberto Campos, é necessário revisitarmos mais dois outros Robertos: o antropólogo Ro-berto DaMatta, autor de “Car-navais, Malandros e Heróis”, e o escritor Roberto Gomes, autor de “Crítica da Razão Tupi-niquim”.

Para Roberto Campos, o “jeito”, ou “jeitinho”, é uma “instituição paralegal”, típica das culturas latinas, e que, “se amputada essa instituição, dado o irrealismo de nossas formulações legais, a tensão social poderia levar-nos a duas extremas posições: a da sociedade paralítica, por obediente, e da sociedade explosiva, pelo compasso entre a lei, o costume e o fato.” Isto é, Campos aponta para o caráter conciliador e mantenedor de uma “ordem” razoável que “jeito” implica.

De modo similar, Roberto DaMatta, que morou nos Es-tados Unidos da América, onde lecionou e pesquisou, o “jeitinho”, ao lado da malandragem e do “Você sabe como quem está falando?”, é um dos “modos de navegação social do brasileiro”. DaMatta, no livro “O que faz do brasil, Brasil?” (Rocco, 127 páginas), pergunta-se: “entre a desordem carnavalesca, que permite e estimula o excesso, e a ordem, que requer a continência e a disciplina pela obediência estrita às leis, como é que nós, brasileiros, ficamos?” A resposta reside no equilíbrio entre duas unidades sociais básicas: “o indivíduo (o sujeito das leis universais que modernizam a sociedade) e a pessoa (o sujeito das relações sociais, que conduz ao pólo tradicional do sistema.” Segunda DaMatta, “entre os dois, o coração dos brasileiros balança”. É no meio dos dois, que está a malandragem, o “jeitinho” e o “Você sabe com quem está falando?”, que “seriam modos de enfrentar essas contradições e paradoxos de modo tipicamente brasileiro. Ou seja: fazendo uma mediação também pessoal entre a lei, a situação onde ela deveria aplicar-se e as pessoas nela implicadas, de tal sorte que nada se modifique, apenas ficando a lei um pouco desmoralizada mas, como ela é insensível e não é gente como nós, todo mundo fica, como se diz, numa boa, e a vida retorna ao seu normal…”

Nesse sentido, o “jeito”, para o antropólogo, “é um modo simpático, desesperado ou humano de relacionar o impessoal com o pessoal (…), é um modo pacífico e até mesmo legítimo de resolver problemas”. Aqui, o ponto de convergência com a visão de Roberto Campos sobre o fenômeno é notório. Em síntese, para DaMatta, no Brasil, “entre o ‘pode’ e o ‘não pode’, encontramos o ‘jeito’. Na forma clássica do ‘jeitinho’, solicita-se precisamente isso: um jeitinho que possa conciliar todos os interesses, criando uma relação aceitável entre o solicitante, o funcionário-autoridade e a lei universal”. Isto, pode-se dizer, Berlin ou Londres nenhuma comporta, pelo menos não a níveis tão abrangentes como entre nós.

Já Roberto Gomes, em “Crítica da Razão Tupiniquim” (FTD, 120 páginas), pode ser apontado como uma ponte entre a crítica de Risério e o real caráter determinante do “jeitinho” para a identidade brasileira. Gomes diz que o “ufanismo brasileiro privilegia um objeto: o jeito. É voz corrente que damos um jeito em tudo, do existencial ao político, do físico ao metafísico. E não paramos por aí: ficamos muito satisfeitos em ser, pelo que nos parece, o único povo capaz de tão saudável atitude.” Há neste ponto uma crítica mordaz à reivindicação do “jeitinho” como sendo genuinamente “nosso”, e, para isto, Risério atentou. Entretanto, Gomes pode ser posto ao lado de Campos e DaMatta, quando destaca que o elemento constitutivo do “jeitinho” é não-radicalização. Isto é, a não tomada de posição, o “deixe-estar para ver como é que fica”. Fato que nos torna, segundo o escritor, um povo existencialmente dissolvente, sem tônus.

Para Gomes, na visão da “razão tupiniquim”, “um homem que se exalta perde a capacidade de ‘dar um jeito’. Um país que entra num processo revolucionário não soube descobrir o ‘jeito’ de evitar coisa tão desagradável.” O “jeitinho”, deste modo, é uma forma de nos mantermos perpetuamente com “um pé atrás”, de nos mantermos ao largo das tomadas de posição. É nessa atmosfera que “nasce o espírito conciliador. Afinal, as coisas da existência, seja pessoal ou social, não estão aí para serem levadas a sério. Conciliador e obediente, cordial, o brasileiro jamais conduz as tensões àquele nível em que geram um limite sem retorno.”

E mais nos dá Roberto Gomes, que diz que é “urgente, pois, que se faça a leitura além das aparências dos mitos com os quais gostamos de nos revestir de modo narcisista.” Leitura esta que precisa ir “além da cordialidade, do espírito aberto e conciliador”, pois estes, apesar de, de fato, serem inerentes à nossa composição cultural, “são mitos e apresentam algo comum aos mitos: estruturam uma visão de mundo e pretendem ser inquestionáveis. Gerados pela ausência de uma posição crítica, são produto da indiferenciação intelectual. Eis por que, ausente a crítica, seu contrário emerge sob a forma de intolerância, sectarismo, partidarismo estéril, repressão, censura – um campo fértil para a atuação da autoridade irracional e para os regimes que dela façam uso.”

É indubitável, portanto, que em nós, mais do que em outros povos, o “jeitinho” está enraizado como “instituição paralegal” e “modo de navegação social”. Entretanto, a nossa incapacidade de superá-lo advém, em grande parte, do reforço identitário que dele fazemos, por meio de variadas máscaras, que o cristalizam como mito.

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