Cláudio Ribeiro
Cláudio Ribeiro

“Do ponto de vista da escrita ensaística, este é meu livro mais arriscado e radical”, diz João Cezar de Castro Rocha

Professor do Instituto de Letras da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) fala de seu último livro, recentemente lançando pela editora É Realizações, “Culturas Shakespearianas: Teoria Mimética e os Desafios da Mímesis em Circunstâncias não hegemônicas”

João Cezar de Castro Rocha, professor e crítico carioca | Fotos: CPFL

João Cezar de Castro Rocha é um dos intelectuais mais importantes do Brasil, atualmente. Isto porque, além das pesquisas sólidas que tem desenvolvido a respeito de autores como Machado de Assis, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Oswald de Andrade, participa ativamente do debate público no Brasil, sobretudo no terreno do jornalismo cultural. Por ocasião do lançamento de seu último livro, intitulado “Culturas Shakespearianas: Teoria Mimética e os Desafios da Mímesis em Circunstâncias não hegemônicas”, entrevistei João Cezar via correio eletrônico. O resultado é o que segue.

Em seu novo livro, “Culturas Shakespearianas: Teoria Mimética e os Desafios da Mímesis em Circunstâncias não hegemônicas” (É Realizações, 2017), há muitas reflexões  que foram desenvolvidas por você em textos anteriores. Dois desses textos são as introduções às edições brasileiras dos livros “Mensonge romantique et Verité romanesque” (“Mentira romântica e Verdade romanesca”, É Realizações, 2009, tradução de Lilia Ledon da Silva) e “A Theater of Envy: William Shakespeare” (“Shakespeare: Teatro da Inveja”, É Realizações, 2010, tradução de Pedro Sette-Câmara), ambos de René Girard. Aos últimos tópicos da introdução de cada livro, você deu os títulos de, respectivamente: “Países shakespearianos?” e “América Latina: mimética?”. No primeiro, você diz que “os países shakespearianos necessitam de uma mirada alheia, porque ela ajuda a definir a própria imagem”. Isso é retomado e ampliado em “Culturas Shakespearianas”. No segundo, você apresenta o conceito de “poética da emulação”, que, a posteriori, foi trabalhado por você, pormenorizadamente, em “Machado de Assis: por uma poética da emulação” (Civilização Brasileira, 2013), um dos conceitos basilares deste novo livro. É possível afirmar que, desde esses textos introdutórios, você vem escrevendo “uma só obra”, dividida em várias etapas investigativas? 

Excelente pergunta e respondo, sem fugir à questão, sim e não.

“Culturas Shakespearianas”, É Realizações, 2017,

Sim: de fato, tenho tentado desenvolver um quadro teórico novo, cuja ambição é oferecer uma reflexão capaz de dar conta de um fator central na formação do mundo moderno – e cujo ápice vivemos neste exato momento histórico, que convencionamos denominar globalização. Refiro-me à multiplicação de áreas não hegemônicas por parte de um número sempre menor de centros hegemônicos; multiplicação essa iniciada sistematicamente com as Grandes Navegações, no século XV, e cuja culminância corresponde a nosso tempo histórico. Evito, contudo, ao máximo, a essencialização implícita no vocabulário que insiste em identificar posições centrais e periféricas, pois esse léxico convida a metáforas espaciais que, em geral, conduzem a pensamentos demasiadamente fixos. Pelo contrário, destaco o caráter dinâmico dos processos históricos, portanto, cambiáveis. Daí os conceitos que propus de circunstâncias hegemônicas e não hegemônicas, já que numa mesma quadra histórica as posições relativas podem trocar de sinal. Um único exemplo: até o século XVII a língua francesa encontrava-se em posição subalterna em relação ao latim; na época o idioma oficial da intelectualidade europeia. Ora, nos séculos XVIII e XIX, o idioma de Voltaire assumiu o papel de autêntica koiné do mundo das letras, substituindo o idioma de Cícero. Posição, contudo, que o francês perdeu para o inglês a partir da Segunda Guerra Mundial. Hoje, assistimos à emergência de uma nova hegemonia: o inglês das redes sociais…  Nessa perspectiva, valorizo o dinamismo das circunstâncias históricas, em lugar de engessar a reflexão em torno das noções de centro e periferia. Se eu for bem-sucedido, esse quadro teórico permitirá analisar um grande número de estudos de caso, e não somente latino-americanos, porém toda e qualquer constelação histórica desde um ponto de vista não hegemônico. Os desdobramentos dessa hipótese exigirão a escrita de alguns livros e, sobretudo, o trabalho de muitos, muitos anos. Logo, em boa medida, trata-se do mesmo projeto, ou, como você sugeriu, “uma só obra”. Em consequência, ocorre a reiteração de temas, de autores e, às vezes, inclusive de livros e até de citações. Não posso driblar tal recorrência, mas me preocupo muito em evitar toda forma possível de autoindulgência, vale dizer, de incorrer em repetições que já não produzam diferenças.

Não: é muito importante para minha concepção de vida intelectual trabalhar arduamente na ampliação constante do repertório com o qual lido. Caso contrário, a escrita de “uma só obra” tende a conduzir o pesquisador a uma posição excessivamente cômoda, que resulta na produção em série de livros perfeitamente ociosos porque monótonos… Ora, bastaria ler dois ou três títulos e eles valeriam pelos 11 ou 22 que teimaram em ser publicados. Como antídoto, me esforço em aperfeiçoar o conhecimento de idiomas, incluindo os clássicos, e, de igual modo, me obrigo a incorporar em minha reflexão novos objetos e novas áreas de estudo. No livro que agora lanço, Culturas Shakespearianas, o que digo se percebe com facilidade. É o primeiro ensaio no qual incorporo organicamente as artes plásticas, além de apresentar estudos próprios de autores canônicos como William Shakespeare, Gustave Flaubert e Joseph Conrad. Destaco ainda o diálogo constitutivo com a tradição filosófica e literária hispano-americana. Por fim, do ponto de vista da escrita ensaística, este é meu livro mais arriscado e radical.

Na medida de minhas possibilidades, busco conciliar continuidade no aprofundamento do projeto e descontinuidade na ampliação do repertório e na experimentação com a escrita ensaística.

 No livro, você intercala a apresentação das intuições fundamentais da teoria mimética de René Girard, bem como os principais desdobramentos da mesma, com a exposição daquela que seria a contribuição propriamente latino-americana a esta teoria, dialogando com o leitor a todo momento, tal como o narrador machadiano. Fale um pouco sobre a estratégia de escrita desenvolvida especificamente para este ensaio.

Infelizmente, a teoria mimética é pouco conhecida para além do círculo restrito dos girardianos, que, em geral, são católicos e politicamente conservadores. Tal circunstância, muitas vezes, ou quase sempre, condena o instigante pensamento de René Girard a um isolamento empobrecedor tanto para a teoria quanto para a sociedade. Ora, eu sou ateu e politicamente me identifico com as bandeiras da esquerda. Vamos lá: agora que já sou um senhor, cinquentão sem disfarces, creio que seria mais honesto dizer que defendo posições de centro-esquerda. Em todo caso, meu perfil tem muito pouco ou mesmo nada a ver com o girardiano tradicional. No entanto, como o próprio René Girard foi um autêntico outsider no mundo acadêmico, estou em boa companhia…

Neste livro arrisco uma leitura radical da teoria mimética, concentrando minha perspectiva tanto numa compreensão antropológica do sujeito mimético, definido pela centralidade do outro em sua determinação, quanto no caráter incontornável da violência na arquitetura girardiana, aspecto estruturador do contexto latino-americano desde os séculos da colonização. Desse modo, busquei renovar a recepção do pensamento girardiano, pois ele favorece, por exemplo, um entendimento singular do universo contemporâneo das redes sociais; aliás, planejo um futuro livro acerca do tópico. Aqui, a hipótese da ampliação do repertório esclarece seu alcance, pois, além de esmiuçar o conjunto da obra girardiana, propondo uma leitura própria de seu pensamento, coloco em diálogo intérpretes europeus, norte-americanos e latino-americanos da teoria mimética. É a primeira vez que tal mosaico de vozes é composto, o que me obrigou a desenvolver a síntese crítica que ofereço no livro.

Tal síntese foi fundamental para realizar um exercício duplo. De um lado, considerar no contexto da teoria mimética a violência latino-americana, que assola nosso dia a dia com uma naturalidade, ela mesma, violentíssima. De outro, contribuir teoricamente com o pensamento girardiano a partir da circunstância não hegemônica. Daí, o vaivém ensaístico entre pressupostos da teoria mimética e elementos estruturais da circunstância não hegemônica. O êxito ou o insucesso dessa estratégia de escrita – em suas palavras – depende do ritmo imposto por esse trânsito constante.

Você acertou em cheio: a escrita é muito importante no meu trabalho. No livro, publicado em 2013, Machado de Assis: por uma poética da emulação (Civilização Brasileira, 2013, 368 páginas), já me afastava da dicção acadêmica do tratado, da tese. De qualquer modo, em todos os meus livros, sempre cuidei muito da elaboração do texto, que invariavelmente passou por inúmeras revisões. No fundo, ter colaborado com assiduidade para a imprensa me ajudou a aperfeiçoar uma escrita que busca preservar a complexidade do tema, sem contudo sacrificar a clareza da formulação.

Porém, neste livro, Culturas Shakespearianas, levei adiante a experiência, arriscando muito mais do que jamais o havia feito. Há um motivo forte para esse salto no escuro: para o bem ou para o mal, estou desenvolvendo um quadro teórico próprio; daí, estou, por assim dizer, tateando. A escrita que apresento neste livro pretende estar à altura do desafio, ou seja, por que não tatear juntamente com o leitor? As interrupções do raciocínio por digressões constantes, os diálogos com os leitores assinalando instantes instáveis da reflexão, os parênteses que abro e nos quais duvido desta ou daquela opção que tomo, enfim, todos esses recursos pretendem preservar na escrita a dinâmica de um pensamento em curso. Muito jovem, fui jogador profissional de xadrez. Pois bem: esta escrita encena um tabuleiro e deixo as peças brancas com o leitor.

Por que a obra de William Shakespeare é tão importante para refletir sobre aqueles que se acham em “circunstâncias não hegemônicas” — em especial, a América Latina?

Como diria o narrador de Quincas Borba, eis uma questão prenhe de questões, que levariam longe… E levam mesmo!

Vamos lá.

Sua pergunta me ajuda a esclarecer meu método de trabalho, que sempre se encaminha da prática à teoria; aliás, subtítulo de meu livro Por uma esquizofrenia produtiva, saído em 2015. Aqui, permaneço fiel a meu curso de graduação: História, com ênfase em Antropologia. Isto é, o conceito de “culturas shakespearianas” foi desenvolvido a partir da observação da centralidade da obra de Shakespeare em contextos bem específicos.

No século XVIII, instante crucial em que Goethe e Schiller reinventam a cultura alemã, superando o complexo de inferioridade em relação à civilização francesa, Shakespeare tem presença marcante numa obra icônica: Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister. Neste romance de formação, joga um papel decisivo a tradução das obras completas de Shakespeare, realizada por Ludwig Tieck, pois a encenação de Hamlet constitui um dos eixos do enredo.

Por exemplo, nas literaturas de línguas eslavas se considerava que, para a escrita da epopeia nacional, esse sonho desmedido do romantismo oitocentista, era indispensável contar com a tradução das obras completas de Shakespeare! Como se traduzir o autor de Júlio César assegurasse a qualquer idioma a musculatura necessária para voos mais arriscados. Numa de suas crônicas, Machado de Assis afirmou que todos os idiomas poderiam ser esquecidos, desde que nunca deixássemos de falar o “shakespeariano”, que, em si, conteria todas as possibilidades do humano. Em 1873, em seu célebre ensaio “Instinto de Nacionalidade”, Machado de Assis recorre ao dramaturgo para defender a tese do “certo sentimento íntimo”.

Como entender esse engajamento consigo próprio através do texto de Shakespeare?

Na América Latina, aliás, logo após a derrota da Espanha para os Estados Unidos, na guerra de 1898, que levou à perda da última colônia espanhola, os intelectuais do continente lançaram mão de uma peça shakespeariana, The Tempest, para definir sua identidade em oposição aos Estados Unidos! Rubén Darío deu a deixa em indignado artigo de 1898: os norte-americanos seriam o verdadeiro Calibã, enquanto os latino-americanos, um sitiado Ariel. Em 1900, José Enrique Rodó formulou definitivamente a noção em seu celebrado ensaio Ariel. Em 1971, o poeta e pensador cubano Roberto Fernández Retamar inverteu o modelo: Calibã seriam os latino-americanos, especialmente aqueles engajados com a revolução. O ensaio se chama, sintomaticamente, Calibã. Mais importante do que a mudança do modelo – Ariel ou Calibã – é a permanência da obra shakespeariana como régua e compasso. Um dos melhores poemas de Machado de Assis, o soneto “No alto”, é uma releitura notável da peça, na qual não se insiste na dicotomia rígida entre Ariel e Calibã,  mas se assinala que são inseparáveis, pois se definem à sombra de Próspero.

George Romney – William Shakespeare – The Tempest Act I, Scene 1

Nas décadas de descolonização do século XX, especialmente nos anos de 1950-1970, nas literaturas anglófonas, lusófonas e francófonas, The Tempest voltou a ser o texto-chave para a autodefinição das jovens nações. Mencione-se apenas um ou dois textos: Une Tempête, de Aimé Césaire, cujo simples título indica a fonte apropriada; Water with Berries, a reescrita da peça por George Laming. Nos países africanos de língua portuguesa, desenvolveu-se o que se denominou uma “literatura calibanesca”.

Reitero a pergunta: como entender a onipresença de Shakespeare nessas circunstâncias não hegemônicas?

Proponho uma hipótese: o Shakespeare que nos interessa é o elisabetano! Vale dizer, o Shakespeare histórico, anterior à pressuposição romântica de sua “genialidade”, da sua imagem de “demiurgo”, criador de um universo incomparável de tramas e personagens. Ora, das 37 peças reunidas em 1623, no célebre First Folio, somente 4 possuem enredo imaginado por Shakespeare; as outras 33 peças foram o resultado de reciclagens, apropriações, releituras. A imagem do autor-leitor, do autor-reciclador é o próprio retrato de William Shakespeare. Machado de Assis tudo entendeu ao afirmar, no capítulo IX de Dom Casmurro, que Shakespeare era o maior de todos porque “evidentemente, é um plagiário”. Vale dizer, o importante é o oposto do que se ressalva: Shakespeare é fundamental precisamente porque pouco criou, mas inventou o tempo todo. Culturas shakespearianas são culturas de invenção. Recorde-se que inventio, substantivo do verbo invenire, supõe encontrar-se com o que já existe, logo, o gesto de invenção é um gesto de rearranjo, reciclagem, recombinação.

Em outras palavras, o método compositivo shakespeariano anuncia o procedimento não hegemônico, que situa a escrita como efeito de leituras prévias; que torna a tradução o centro da tradição. Os autores da circunstância não hegemônica teriam intuído essa afinidade estrutural profunda com a obra de William Shakespeare. De minha parte, procuro elaborar um novo quadro teórico com base nessa afinidade e, sobretudo, na forma shakespeariana de invenção.

No início do livro, você diz que a antropologia literária de Wolfgang Iser lhe inspirou a compor a sua intuição central, qual seja, a de que “a potência das culturas shakespearianas depende de uma operação estética e intelectual que supere a dicotomia entre imitatio versus creatio, e isso através da consideração de um terceiro termo: a aemulatio.” Apesar de você não expor em detalhes as teses de Iser, é perceptível que elementos de investigações por ele desenvolvidas sobre temas como a bucólica da Renascença estão presentes em muitos pontos da sua argumentação. Em que medida a obra de Iser fornece subsídios à teoria mimética, em geral, e à poética da emulação, em especial?     

Trabalhei por muitos anos com a obra de Wolfgang Iser e com o próprio teórico. Organizei um colóquio internacional sobre a sua obra, cujo resultado foi o livro Teoria da ficção indagações à obra de Wolfgang Iser (Imago Editora, 1999, 260 páginas).

Vamos então por partes.

No tocante à teoria mimética, a contribuição iseriana é apenas marginal. O entendimento do Iser sobre a mímesis difere muito, mas muito, do pensamento girardiano, pois, para o francês, a mímesis implica um dado concreto, associado a objetos e relações humanas; concretude essa que não se encontra no horizonte do alemão, cuja obra deve muito à fenomenologia.

Contudo, de um ponto de vista heurístico, a obra iseriana foi simplesmente fundamental para a hipótese da poética da emulação. Isto é, em primeiro lugar, a estrutura triangular iseriana, envolvendo real, fictício e imaginário, pode ser associada à estrutura do desejo mimético, igualmente triangular, envolvendo sujeito, objeto e mediador. Ao mesmo tempo, o terceiro termo, constituído pelo imaginário, permite fugir dos esquematismos, inevitáveis na dicotomia real e fictício. Tal possibilidade foi muito importante no desenvolvimento do meu projeto, pois me permitiu vislumbrar na aemulatio clássica o modo de escapar do binarismo creatio / imitatio, que condena as culturas não hegemônicas a um aparentemente incontornável e provinciano complexo de inferioridade. Destacando sempre que a “poética da emulação” não se confunde com a aemulatio clássica, pois esta dependia de um sistema retórico preciso, enquanto aquele supõe a “forma livre”, na acepção inventada pelo defunto autor machadiano, nas Memórias póstumas de Brás Cubas.


O conceito de “interdividualidade” é o único neologismo criado por René Girard. Por sua vez, você desenvolveu o conceito de “interdividualidade coletiva” para pensar as “circunstâncias não hegemônicas”. Poderia explicar um pouco em consiste esse conceito e qual é a contribuição que ele pode oferecer às discussões sobre a identidade latino-americana?

Vejamos em primeiro lugar o conceito de interdividualidade, que pretende substituir a voz mais comum: individualidade. O prefixo inter reitera que o sujeito, mimeticamente concebido, nunca se basta; ele necessita de outros para aprender a desejar, depende de outros para finalmente olhar-se. No vocabulário de Mentira romântica e verdade romanesca trata-se do mal ontologique. Em vocabulário mais contemporâneo, o sujeito mimético sofre de uma precariedade constitutiva, que o obriga a apropriar-se continuamente da alteridade. Assim compreendida, a subjetividade mimética não deixa de evocar tanto a antropofagia de Oswald de Andrade, quanto a predação ontológica, caracterizada na antropologia de Eduardo Viveiros de Castro. Bem sei que tais associações parecerão heréticas para muitos, mas só me interessa o jogo das ideias. Ao mesmo tempo, tais associações favorecem a releitura que proponho da teoria mimética.

Pois bem: e se radicalizarmos a intuição girardiana? Isto é, e se imaginarmos que a interdvidualidade não se limita ao plano do interdíviduo, porém pode afetar a toda uma coletividade? Nesse caso, a imagem que uma cultura faria de si mesma também dependeria do olhar de um outro, tomado como modelo a ser reproduzido. Claro, tal processo não precisa e no fundo não costuma ser consciente. Não é verdade que, historicamente, as culturas não hegemônicas tenderam a definir seus padrões pelo metro dos centros hegemônicos? Pensemos, por exemplo, na presença francesa na cidade letrada latino-americana oitocentista; ou a influência norte-americana especialmente a partir da Segunda Guerra Mundial.

Ora, tal analogia não parece problemática; contudo, as consequências não são tão simples.

A interdividualidade favorece a violência, mimeticamente engendrada, pois sujeito e modelo terminarão por rivalizar pela posse do objeto cobiçado por ambos. Já no plano coletivo, como entender esse aspecto do pensamento girardiano? Propus duas noções.

De um lado, as culturas não hegemônicas estruturaram sua identidade a partir da centralidade de um Outro, sempre estrangeiro, europeu ou norte-americano, cujo prestígio tautologicamente é derivado de sua estrangeiridade. De outro, e pelo avesso, as culturas não hegemônicas alimentaram um desprezo vitimário contra o “outro outro”, isto é, todos que se situam no polo oposto ao idealizado Outro.

Tal circunstância engendrou uma forma social propriamente esquizofrênica: violência exacerbada exercida contra o “outro outro”; docilidade submissa em relação ao Outro. As culturas shakespearianas, assim, possuem um lado solar, que consiste numa grande habilidade na assimilação inventiva da alteridade. Ao mesmo tempo, porém, um lado noturno não pode mais ser negligenciado, qual seja, a negação violenta do “outro outro”.

No Brasil, esse duplo movimento ilumina o que temos de melhor e de pior. Algum dia saberemos equilibrar essas duas tendências? Por enquanto, não tenho resposta; por isso mesmo, começo a preparar um novo livro.

 

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