Para o cientista Edward Wilson, a salvação da Terra pode estar no entendimento entre religião e ciência

A proposta do biólogo possui retórica débil, já que se fundamenta em princípios científicos, antagônicos aos dogmas religiosos. É difícil conceber que a elite religiosa queira abrir mão de sua zona de conforto a fim de buscar conciliação em bases evolucionistas e humanistas

Edward O. Wilson, um dos mais gabaritados biólogos do mundo

Nilson Jaime
Especial para o Jornal Opção

Edward Osborne Wilson (1929) é uma das 25 pessoas mais influentes da América, está entre os mais proeminentes cientistas da atualidade, sendo considerado, por muitos, o maior biólogo vivo. Professor da Univer­sidade de Harvard há cinquenta anos, Wilson é autor de duas dezenas de livros sobre Mirme­co­lo­gia, biodiversidade, Ecologia, Evolução e uma nova ciência, criada por ele, a Sociobiologia. Dentre as dezenas de prêmios por ele recebidos estão dois Pulitzer de não ficção (1979 e 1991), sendo este último, por seu monumental trabalho sobre formigas, “The Ants” (1990), escrito em coautoria com o alemão Bert Hölldobler e sem tradução para o Português.

No ano de 2006 Edward O. Wilson publicou, nos Estados Unidos, “The creation – an appeal to save life on Earth”, traduzido no Brasil por Isa Maria Lando sob o título “A Criação: como salvar a vida no planeta Terra” (Companhia das Letras, 2008, 192 p.). Li o livro logo após sua publicação e o estou relendo para esta resenha crítica. No título original, Wilson usa o substantivo “apelo”, mais adequado que a designação da tradução brasileira, pois o livro tem, de fato, estilo literário de uma invocação, rogo ou apelo.

Edward Wilson é um conciliador. Ao contrário do também evolucionista Richard Dawkins – autor de “O relojoeiro cego” (1986) e “Deus, um delírio” (2006), radical apologista da evolução, polêmico, provocador, quase um “xiita” da ciência –, Wil­son é um diplomata. Neste livro, bus­ca estabelecer pontos comuns en­tre Ciência e Religião, por uma cau­sa maior: a salvação do planeta Terra.

Buscando esses pontos de convergência, Wilson inicia o livro a São Paulo, escrevendo uma de suas E­pís­tolas Paulinas. No capítulo 1 – “Car­ta a um pastor evangélico: saudação” – este último termo é utilizado co­mo um ponto de contato, uma mostra de afinidade com o vocabulário re­ligioso. Fala de sua infância frequentando igrejas – com o pensamento, certamente, na Primeira Igreja Batista de Pensacola, conforme relatado no livro “Naturalista” (1994), de sua autoria – dizendo a esse pastor fictício que “nós dois fo­mos criados na mesma fé. Na infância, eu também respondi ao chamado do altar; também recebi o batismo”.

Buscar áreas de contato entre Religião – principalmente as judaico-cristãs – e Ciência não é tarefa simples. A primeira é dogmática e julga ter respostas para todas as perguntas. E se, porventura, uma questão não couber dentro do Pentateuco, da Bíblia, das bulas papais, catecismos ou teses da fé protestante, são remetidas a um Deus absoluto, onipotente, onipresente e onisciente. A Ciência, contrariamente, se alimenta das dúvidas, das questões em aberto, da busca incessante por preencher lacunas de conhecimento e responder hipóteses que possam ser confirmadas ou negadas. Esses conflitos aparentemente insanáveis alimentam discussões há milênios, com aparente predominância da Religião, na Idade Média, e da Ciência, após o Iluminismo.

Herbert Spencer, em “Primeiros Princípios” (Ed. Ex Machina, 2015, tradução de Irapuan Costa Júnior, pág. 31, § 5) avalia que, “Como para o religioso, parecerá absurdo ter que justificar a Religião, também para o cientista parecerá inconcebível a necessidade de defender a Ciência, embora fazer a segunda coisa seja tão necessário quanto fazer a primeira”. Deixar de lado as diferenças metafísicas que separam Ciência e Religião e buscar convergir no propósito comum de salvar o planeta Terra é a proposta de Wilson neste trabalho.

O pastor em questão é representativo de todas as religiões – “latu sensu” – do cristianismo – “stricto sensu” – e, mais especificamente, do protestantismo tradicional americano, do qual o próprio Wilson é originário. O pai da Sociobiologia denota humildade ao esclarecer que “escrevo-lhe agora, para consultá-lo e pedir-lhe sua ajuda”.

Embora dotado de bem aventurança, Wil­son escorrega em sua intenção já no início do livro, ao se confessar “um humanista secular”. Co­nhecedor do universo cristão americano, Wilson deveria ter se dado conta de que a maioria dos cristãos tem alguém que se afastou da fé natal como apóstata, um “desviado”, no jargão brasileiro. Qual­quer coisa que disser, doravante, estará contaminada pelo pecado original da apostasia e encontrará poucos ouvidos dispostos a escutá-lo, quanto mais ouvi-lo. Mas o autor de “Diversidade da Vida” (1994), além de cientista, é pensador, humanista e crédulo com as possibilidades de entendimento, acima de tudo.

Em sua tentativa, Wilson apresenta ao pastor (reafirmo, aqui representando todas as religiões, até mesmo as animistas e panteístas) a ética como um imperativo que deve unir religiosos e cientistas: “segurança, liberdade de escolha, dignidade pessoal e uma causa em que acreditar”. Conclama os religiosos a “nos encontrarmos do lado de cá da metafísica, para lidar com o mundo real que é tanto seu como meu”. Argumenta que a “defesa da Natureza viva é um valor universal” e que devem, ambos, deixar de lado as diferenças para salvar a “Cri­a­ção”. Aqui o autor de “Biofilia” (1986) utiliza um termo do jargão religioso – “Criação” – para se referir à natureza viva, afirmando que ela está em crise. E acrescenta que “a religião e a ciência são as duas forças mais poderosas do mundo, inclusive e especialmente nos Estados Unidos”.

No livro, dividido em 17 capítulos e cinco partes, o autor despende sete capítulos à Criação – seguida de uma analogia entre a queda bíblica de Adão e a sua consequente expulsão do Éden com a degradação do mundo natural –, e reforça esta queda, dedicando outros três capítulos ao declínio da Natureza e à pauperização da Terra. É difícil convencer um religioso judaico-cristão, que se acha senhor absoluto dos recursos naturais, de que esses meios são limitados e demandam dele responsabilidade, cuidado e senso de preservação. Os cristãos e judeus, bem como os seguidores de algumas outras religiões abraâmicas, como os islâmicos, concebem a ideia de que Deus lhes deu domínio total sobre a Criação. O conceito de um homem superior a uma natureza inferior, o desobrigaria, portanto, de cuidar desta. Assim, a desatenção com a ecologia extrapola o cidadão e o ser religioso, enredando nações inteiras a estabelecer políticas ambientais irresponsáveis. Exemplo mais marcante da insensibilidade do “homem religioso” com a Natu­re­za, é que os Estados Unidos da A­mé­rica, de formação episcopal, batista, calvinista, presbiteriana e católica, foi a única das nações mais ricas a não ratificar o Pro­to­colo de Quioto, de 1997, que visava re­du­zir as emissões de Car­­bo­no, alegando questões econômicas.

O teólogo e filósofo cristão Francis Schaeffer (1912-1984) fez um alerta, em 1970, sobre a necessidade dos cristãos do mundo inteiro, notadamente os americanos, tomarem consciência ecológica e oferecerem às gerações futuras melhores perspectivas para o planeta Terra. Em seu livro “Poluição e morte do homem: uma perspectiva cristã da ecologia” (Juerp, 1976), Schaeffer era a outra mão que Wilson procura hoje, separados por um lapso temporal de 40 anos. Já naqueles tempos, o pensador americano via mais cuidado dos panteístas (para quem Deus é semelhante à Natureza) com o mundo natural, do que entre os membros das religiões judaico-cristãs. Evidência de que a situação não melhorou nesses quase cinquenta anos foi a eleição presidencial de Donald Trump, nos Estados Unidos, não obstante suas promessas de rasgar tratados internacionais e leis ambientais.

Ao relatar ao pastor fictício a visão de um evolucionista sobre a natureza, Wilson traz informações desconcertantes, que sugerem não ser o homem “o centro” do universo, nem sequer senhor do planeta Terra. Informa que, em 2006, o número de espécies de insetos em nosso planeta era de cerca de 900 mil, com uma biomassa de 1 milhão de trilhões (1018) de insetos vivos. Diz ainda que, só as formigas, com 10 mil milhões (1010) de indivíduos, pesam o mesmo que os 6,5 bilhões de seres humanos vivos, naqueles dias. Esta é a forma sutil que Wilson encontra para insinuar que o homem é apenas mais uma das “criações” de Deus na Terra. E está neste planeta a apenas um átimo de tempos dos insetos, que já o habitam há 300 milhões de anos.

A seguir, o cientista das formigas apresenta diversos casos que demonstram que a natureza está sendo destruída pela espécie que se julga dominante: o Homo sapiens. Entre os exemplos de antropização do mundo natural, cita os contrastes existentes entre a floresta tropical na região do Jari, no estado de Rondônia, onde os entomologistas registraram, em poucos quilômetros quadrados, 1.600 tipos de borboletas. Em área similar de pastagens (formada após a derrubada da floresta e queimadas), adjacente à área estudada, foram encontradas apenas cerca de cinquenta espécies. Contrastes como esses são elencados pelo autor para mostrar a destruição ambiental em todo o mundo.

A Criação: como salvar a vida na Terra

Didático, Wilson aponta o declínio da biodiversidade da Terra como “consequência involuntária de múltiplos fatores que foram intensificados pela atividade humana”, resumidos no acrônimo “Hipse”: a) Habitat (H) – perda dos habitats, inclusive aquela causada pelas mudanças climáticas induzidas pelo homem; b) Invasões (I) – espécies invasoras, incluindo as exóticas daninhas, predadoras, organismos causadores de doenças e concorrentes dominantes que expulsam as espécies nativas; c) poluição (P); d) Superpopulação (S) humana – causa básica dos outros quatro fatores e; e) Exploração (E) excessiva – caça, pesca e coleta.

Como resultado da reorganização continental e do comércio humano, afetando o mundo natural, Wilson cita o caso da formiga-de-fogo vermelha importada (Soleno­psis invicta), a nossa conhecida formiga “lava-pés” que, originária do Brasil, foi acidentalmente introduzida no porto de Mobile, no estado do Alabama, no final da década de 1920. Em pouco mais de meio século, esta formiga, na ausência de inimigos naturais, espalhou-se por vários estados americanos, “desde a planície da Carolina do Norte até a parte central do Texas e, para o sul, ocupando toda a Flórida”, além da Califórnia e América Central, tornando-se uma séria praga.

As crianças brasileiras, acostumadas desde a mais tenra idade com a solenopsina, um alcaloide liberado pela picada da “Fire Ant”, como é chamada nos Estados Unidos, não padecem tantos problemas, exceto em casos de alergias. No entanto, naquele país, o ataque dessas formigas, que nidificam no solo e nos gramados, constitui relevante caso de risco à saúde pública, que deve ser notificado ao “Center for Disease Control and Prevention” (CDC). As crianças, principalmente, podem ser acometidas de choques anafiláticos e até casos de paradas cardíacas foram relatados, devido ao veneno injetado por esses insetos.

O autor de “Consiliência: a unidade do conhecimento” (1999) alerta para os riscos da negação da realidade, a “combinação generalizada de uma ideologia religiosa com uma ideologia secular que não veem nenhum mal na destruição da Criação”. Para Wilson, essa é a filosofia do excepcionalismo, que supõe o status especial da humanidade sobre a Terra e nos coloca acima das leis da Natureza. No seu entendimento, o excepcionalismo assume uma de duas formas: a primeira, leiga, pela qual “não devemos mudar de rota agora; a inteligência humana há de prover”. A segunda, religiosa, se firma no pensamento de que “não vamos mudar de rota agora, estamos nas mãos de Deus, ou dos deuses, ou do carma da Terra, ou do que quer que seja”. Assim, uma alegre fé no destino da humanidade descarta o restante dos seres vivos, onde os primeiros entendem a extinção como algo natural, e que novas espécies surgirão para substituir as que desaparecerem. Já os segundos entendem que a humanidade não precisa de tantos “bichinhos”, ervas e fungos.

No capítulo 10 – “Fim de jogo” – Edward Wilson apresenta 25 “hot spots”, pontos quentes, cuja biodiversidade está em situação mais crítica, segundo o artigo “Biodiversity hotspots for conservation priorities”, publicado originalmente na revista “Nature” (nº 403, 2000) e levantamento da Conservação Interna­ci­o­nal (2006). Estranhamente a Ama­zô­nia brasileira não encontra-se entre eles. Mas o Cerrado e a Mata Atlân­tica, sim.

Iniciando a parte III do livro – “O que a Ciência aprendeu” –, Wilson defende que os argumentos para salvar o restante dos seres vivos provêm tanto da Religião quanto da Ciência. Apresenta um quadro que, na sua opinião, devem se constituir nos grandes objetivos da Biologia no Século XXI, dentre os quais: criar vida – completar o mapeamento de uma espécie de bactéria simples; reconstruir os passos que levaram à origem da vida; usar informações moleculares para curar doenças humanas; explicar a mente, por modelos de transmissão química e elétrica; completar o mapeamento da fauna e a flora da Terra até o nível de espécies, incluindo os microrganismos; empregar as informações para impulsionar a medicina, a agricultura e a saúde pública, dentre outras.

Na parte IV – “Ensinando a Criação” – que abrange os capítulos 14 a 16, Edward Wilson penetra ainda mais no terreno escorregadio da Ciência ante a Religião. Pretende que os religiosos continuem a enxergar a Natureza, ou a Criação, a partir da ótica de um Criador (Deus, conforme cada um o conceba), só que utiliza-se de bases evolucionistas para convence-los à sua causa. Não é de se admirar que os resultados apresentem-se pífios, até agora.

Finalizando o livro, na parte V – “Es­tendendo a mão” – o grande mirmecologista é arauto de que “a Ciên­cia e a Religião são as duas forças mais poderosas da sociedade e, juntas, podem salvar a Criação”. Tem-se con­tudo, nos capítulos finais do livro, a impressão de que Wilson pregou Ciência para religiosos, já que suas pressuposições basilares são todas de cunho evolucionista, algo inconcebível para um religioso. Se fosse o contrário – um religioso ensinar Religião pa­ra um cientista – com base no É­den e em Adão, por exemplo, os re­sul­tados seriam igualmente desanimadores.

Obviamente que os propósitos de Edward Wilson são de cunho ético e moral. Não se trata de converter religiosos à causa da Ciência, mas estabelecer uma agenda comum de diálogo e convivência pacífica e proativa. “O que devemos fazer?”, pergunta Wilson. “Encontrarmo-nos no terreno comum. Isso talvez não seja tão difícil como parece à primeira vista. Pensando bem, nossas diferenças metafísicas têm um efeito notavelmente pequeno sobre a conduta de sua vida e da minha. Minha suposição é de que somos, ambos, pessoas éticas, patrióticas e altruístas mais ou menos no mesmo grau”. […] E encerra: “Pois seja como for as tensões que acabem se desenrolando entre os nossos pontos de vistas opostos, seja como for que a Ciência e a Religião aumentem ou diminuam de importância na mente dos homens, permanece o compromisso, ao mesmo tempo humano e transcendental, que nós dois somos moralmente obrigados a compartilhar”.

Não há evidências de que o apelo de Edward Wilson tenha alcançado receptividade em âmbito religioso. No ambiente científico, todavia, notadamente entre cientistas cristãos, o apelo foi visto com simpatia e sinal de boa vontade. E, certamente, terá calado positivamente entre os leigos. A proposta de Wilson, embora com força moral, possui retórica débil, já que se fundamenta em princípios científicos, antagônicos aos dogmas religiosos. É difícil conceber que a elite religiosa, estabelecida há milênios em dogmas e certezas, queira abrir mão de sua zona de conforto a fim de buscar conciliação em bases evolucionistas e humanistas. Há que se ter muita abnegação e grandeza – de ambas as partes – para que Ciência e Religião deem as mãos. Ainda que seja para salvar a Gaia Terra.

Nilson Jaime é engenheiro agrônomo, mirmecologista, mestre e doutor em Agronomia.

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