Na era da “pós-verdade”, trama narrada no filme “Todos os Homens do Presidente” nos traz questões indispensáveis

Investigação de dois jornalistas do “Washington Post” sobre o Caso Watergate, que derrubou o então presidente Richard Nixon, foi narrada em um clássico do cinema, e pode ser comparada ao atual momento político vivido nos Estados Unidos

Jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, autores do livro “Todos os homens do presidente”, na redação do “Washington Post”

O filme “Todos os Ho­mens do Presidente”, de 1976, dirigido por Alan J. Pakula, conta a história de Bob Woodward e Carl Bernstein, interpretados por Robert Redford e Dustin Hoffman, respectivamente. Woodward e Bernstein eram então jornalistas do “Washin­gton Post”, encarregados de investigar a invasão, por cinco pessoas, da sede do Partido Demo­cra­ta, localizada, à época, no complexo Wa­tergate. Tais pessoas pretendiam instalar escutas no escritório.

Como os democratas eram oposição ao republicano Richard Nixon, que buscava a reeleição, as suspeitas recaíram naturalmente sob pessoas ligadas à Casa Branca, especialmente depois de Woodward descobrir que o nome de um assessor especial do presidente, Charles Colson, estava em uma anotação de um dos invasores.

Nixon acabou sendo reeleito em meio à investigação, mas com a conclusão do Caso Watergate, o republicano se viu sem saída e teve de renunciar. “Todos os Homens do Presidente” é imprescindível para os amantes da política estadunidense, para os que têm a pretensão de conhecer melhor como se deu um dos fatos mais importantes da história recente dos Estados Unidos. Contudo, é necessário ressaltar que, como geralmente acontece, a obra jornalística homônima, escrita por Woodward e Bernstein, é mais completa do que a cinematográfica, cuja narrativa precisou ser adaptada ao cinema.

Mais do que retratar a renúncia de Nixon, o filme relata, sobretudo, a realidade da concorrência por um furo de reportagem (o “New York Times” também estava na briga), além do cotidiano do jornalismo investigativo: uma enormidade de telefonemas, anotações, encontros com fontes, longas esperas para ser atendido, análise de documentos, intuição e interpretação das falas – como quando a Casa Branca, em uma ligação com Wood­ward, antes mesmo de ser perguntada sobre Watergate, informou que eles seriam inocentes. Era a confirmação que os repórteres (mes­mo em um primeiro mo­mento aparentando não se darem muito bem) necessitavam para entender que havia algo misterioso e, dessa forma, dar prosseguimento a sua investigação, apesar da desconfiança de outros jornalistas do “Washington Post” em decorrência da falta de experiência deles no tocante à pauta política.

“Todos os Homens do Presi­dente” é precursor da utilização da expressão “garganta profunda” no meio jornalístico. O termo foi a alcunha dada à fonte de Woodward, com quem se encontrava às escuras em uma garagem e de quem recebia indícios que lhe permitiam saber se estava seguindo o caminho certo ou não. O “Garganta Profunda” acabou sendo aquele que ajudou a desvendar os questionamentos envolvendo o caso Watergate.

Com um orçamento de US$ 8 milhões e 500 mil, o filme venceu quatro estatuetas do Oscar: Melhor Ator Coadjuvante (Jason Robards, no papel de Bem Bredlee, o editor-executivo do “Washington Post”, que, ao contrariar Woodward e Bernstein, acabava estimulando-os), Melhor Direção de Arte, Melhor Som e Melhor Roteiro Adaptado, além de ter sido indicado às categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Edição. A trama reconhecida como uma aula de jornalismo e deve ser assistida por todos aqueles que almejam aderir à profissão.

A era da “pós-verdade”

A Universidade de Oxford, na Inglaterra, elegeu “pós-verdade” como a palavra do ano de 2016, podendo ser definida como “aquilo que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e crenças pessoais”. A pós-verdade vem ganhando cada vez mais relevância nos debates políticos e, no ano passado, foi muito utilizada devido ao Brexit e à eleição de Donald Trump a presidente dos Estados Unidos.

Capa do filme “Todos os homens do presidente” (1976)

O crescimento de informações perpetradas por mídias alternativas, como blogs, Twitter, WhatsApp e Facebook, contribuem para a expansão do fenômeno. Falando especificamente dos EUA, a campanha à Presidência foi marcada pelo surgimento de boatos, que, antes de serem devidamente verificados, já moldavam a opinião pública – as chamadas fake news (“notícias falsas”), que afetam republicanos e democratas. Trata-se de uma nova fase do jornalismo e este precisa se reinventar. A pós-verdade resume bem a busca incessante por clicks e até mesmo grandes veículos de comunicação podem cair nesta armadilha.

Um caso emblemático sobre a última eleição presidencial estadunidense é o suposto envolvimento da Rússia na campanha a favor de Donald Trump – vale ressaltar que interferência externa em pleitos mundo afora é bastante comum, principalmente pelos próprios Estados Unidos. O tema é recheado de Fake News, tanto em benefício quanto em prejuízo para Trump, mas fato é que o presidente passou a ser investigado pelo FBI e, recentemente, o republicano demitiu James Comey, do cargo de diretor da unidade de polícia, responsável pelo caso.

Trump, investigado também por obstrução de justiça, corre risco de sofrer um processo de impeachment, caso as acusações se provem verdadeiras. Em virtude de uma maioria republicana no Congresso, o mais provável seria um pedido de renúncia – assim como fez Nixon –, a não ser que os democratas desbanquem seus rivais nas eleições legislativas do ano que vem. Outra semelhança entre Trump e Nixon é o embate com a imprensa e, com isso, abre-se espaço para levar a hipótese de que haja um novo “garganta profunda” fomentando matérias de jornais como “Washigton Post” e “New York Times”. Curiosa e coincidentemente, a identidade do “garganta profunda” do caso Watergate foi revelada em 2005 – era Mark Felt, ex-vice-diretor do FBI.

James B. Comey talvez não seja essa fonte anônima, mas informações – e poder – ele tem. De qualquer maneira, quem quer que se torne um “garganta profunda” na era da pós-verdade deve tomar cuidado para não ser descreditado e, assim, confundido como alguém em busca da multiplicação de Fake News, independentemente de suas reais motivações. Na nova era da informação, o jornalismo de qualidade tem de buscar se reafirmar e retomar o seu espaço – e isso não tem nada a ver com quem tem mais clicks. Quem sabe, com o desenrolar dos fatos e o passar dos anos, saibamos, por meio de um novo filme sobre mais uma brilhante reportagem investigativa, quem são, de fato, todos os homens de Donald Trump. l

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