Aleister Crowley, um mago na tradução

O controverso e excêntrico esotérico se tornou mundialmente notório por sua dedicação ao ocultismo, mas suas incursões pelo mundo da tradução são pouco conhecidas

Aleister Crowley, estérico, místico e literato, foi também um exímio tradutor

Fedra Rodríguez
Especial para o Jornal Opção

“Faze o que tu queres e tudo há de ser da Lei”. A frase, popularizada no Brasil na música “Sociedade Alternativa”, de Raul Seixas, é o axioma central da Thelema, seita fundada pelo britânico Aleister Crowley em 1904. O estabelecimento dos princípios thelêmicos e a reformulação da ordem hermética Ordo Templi Orientis, de Frantz Hartmann e Theodor Reuss, figuram entre os feitos mais marcantes do místico dentro da área das ciências ocultas, embora sua prolífica produção literária também não seja negligenciável.

Aliado a esse conjunto, seu interesse por práticas sexuais variadas, drogas, magia negra e tarô lhe valeram a fama de “satanista” ou, como definido por tablóides ingleses e documentado no filme de mesmo título (2014), “a pessoa mais perversa do mundo”, reputação que ele mesmo não recusava, já que chamava a si mesmo de o “DCLXVI”. Lunático, charlatão, bruxo verdadeiro ou simplesmente um intelectual com vasto conhecimento sobre diversas religiões, mitos e civilizações antigas que sabia usar as palavras para seduzir e convencer? Não importa, é fato indiscutível que Crowley era mais do que um simples curioso que ultrapassava as fronteiras da suposta bruxaria e pisava em outras paragens da filosofia, artes e ciências.

Dentre esses campos, atraía-lhe a li­teratura, e o interesse por esta era exacerbado pelas trocas intelectuais sobre temas variados com escritores como Fernando Pessoa e Marcel Schwob. Este último era alvo de sua admiração e respeito, e com ele mantinha uma amizade próxima, a ponto de que Schwob dizia com sinceridade que era “um poeta ruim”. Com outros, como W. B. Yeats, criou inimizade, especialmente quando este poeta irlandês economizou elogios a seu poema Jephthah, como revela John Simmons em seu livro “The Beast 666: The Life of Aleister Crowley”, de 1997. Somente anos depois, o fato viria à tona, mas recheado de polêmica, como de costume: Yeats, conta o próprio Crowley, “havia reconhecido o trabalho de um artista superior” e “fora ferido em seu orgulho ao descobrir sua notória inferioridade”.

As avaliações desfavoráveis ou os “supostos frutos da inveja” aparentemente não impediram que o mago continuasse seu flerte com a arte literária. Dedicou-se especialmente à produção de ensaios, relatos sobre mitos da antiguidade e textos epistolares, agrupados na coleção Libri, composta de cinco volumes. Alguns dos textos ali contidos são de sua autoria, outros pertencem a autores desconhecidos ou são suas próprias interpretações sobre as obras escritas por mestres e intelectuais de distintas regiões, épocas e gêneros. Igualmente, escreveu mais de quinze coletâneas de poesias, algumas de cunho erótico, entre elas “White Stains” (1898) e “Snowdrops from a Curate’s Garden” (1904), outras místicas e outras ainda sobre suas viagens pelo mundo e as experiências colhidas em cada lugar. É o caso da coletânea “Songs for Italy” (1923), escrita após sua expulsão daquele país por Mussolini, e carregada de uma análise crítica sobre a Itália e de um claro repúdio ao fascismo.

E foi também a partir dessas viagens que resolveu se dedicar também ao ofício de tradutor. Durante uma temporada pela Birmânia (atual Myanmar) e pela China, travou contato com o Tao Te Ching, de Lao Tzi, o qual viria a traduzir e incluir no volume III do periódico “The Equinox”. No prólogo à tradução dessa obra, afirma ter mergulhado profundamente nas distintas doutrinas religiosas da Ásia, bem como nos textos centrais que as norteiam. Crowley atribui a essas leituras a capacidade de compreender e interpretar escritos em línguas asiáticas como o chinês e o persa, arriscando assim a fazer a tradução de uma obra como o Tao. Cabe mencionar que sua tradução recebeu comentários negativos, pois sua própria filosofia thelêmica parecia ser o ponto de referência do projeto tradutório, adaptando termos do taoísmo ao gnosticismo ocidental. Assim, o “orvalho” de Lao se tornou “O Elixir da Fraternidade” dos Rosacruz na versão inglesa de Crowley, por exemplo.

Apesar disso, continuou sua empreitada como tradutor, dessa vez publicando sua tradução de “A Chave dos Grandes Mistérios”, de outro famoso ocultista e poeta, Éliphas Lévi, que teria influenciado personalidades literárias como Villiers de l’Isle Adam, Catulle Mendès e até mesmo Stéphane Mallarmé. Con­tudo, neste caso particular, a motivação para levar adiante a tarefa envolvia elementos sobrenaturais: acreditava piamente que era a reencarnação de Lévi. Tomado por essa ideia, pesquisou amplamente a vida do autor francês e dedicou-se verter ao inglês um de seus textos mais famosos.

Mas um dos nomes traduzidos por Crowley – e que surpreende muitos que desconhecem seu périplo por esse campo – é o de Charles Baudelaire. Segundo Martin P. Starr, estudioso de Baudelaire que assina o prefácio à tradução inglesa, a admiração do esotérico por esse autor começou na época da graduação em Cambridge, por volta de 1890, e, aliada ao amor pela literatura e também seu domínio da língua francesa, conduziu Crowley a dirigir particular atenção para a tradução de textos célebres como “Les Fleurs du Mal” e “Les Paradis Artificiels”. Starr afirma que, para Crowley, as traduções funcionavam como uma homenagem que permitia uma “transmigração artística de almas”. Assim, sua tradução de “Petits Poèmes en Prose” foi prometida para a edição de abril de 1913 de “The Equinox”. Mil exemplares numerados foram impressos pela Chiswick Press sob a marca da Wieland & Co., mas por alguma razão desconhecida, o lançamento do livro foi suspenso. Apenas uma ou duas cópias sobreviveram e Crowley as guardou até 1928, quando conheceu Edward Titus, um renomado jornalista americano que vivia em Paris e ali havia fundado sua editora, a Black Manikin Press. Titus, então, decidiu publicar a tradução de Crowley, acrescentando à edição 10 gravuras eróticas de Jean de la Bosschère.

Atualmente podemos encontrar essa tradução à venda, reeditada por Martin P. Starr, que acrescentou à publicação da Black Manikin ilustrações inéditas de Crowley, intituladas “Portraits of Mistresses”. Como afirma Starr, essas gravuras não foram destinadas a ilustrar sua tradução dos poemas de Baudelaire, no entanto, casam perfeitamente com a essência decadente e fantástica dos textos, além de claro, revelar mais uma habilidade pouco mencionada do multifacetado Aleister Crowley.

Fedra Rodríguez é graduada em Letras Francês e doutora em Estudos da Tradução pela Universidade Federal de Santa Catarina e Universidade de Sevilha, Espanha. Atua como tradutora, redatora, professora e roteirista de cinema.

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