Contos de ficção científica à brasileira – Parte 3

Terceira e última parte da sequência de contos iniciada em 21 de maio, sob organização de Sérgio Tavares, Anderson Fonseca e Luiz Bras. Nesta edição, os autores clássicos homenageados são Adolfo Bioy Casares e Kim Stanley Robinson

A ilha do menino

Homenagem a Adolfo Bioy Casares

Foto: Bianca Lana

Sérgio Tavares
Especial para o Jornal Opção

E as horas se tornaram dias, e os dias se tornaram semanas, e nós continuávamos procurando por ele. Meu filho, o desaparecido.

Aconteceu no caminho da escola, uma quadra que fazia a pé. Era cedo, a claridade ainda não tinha definição. Por volta do horário do almoço, uma professora telefonou, curiosa por sua ausência. Ele não tinha o hábito de cabular aula, tampouco esconder para aonde ia. Minha esposa foi a primeira a notar que havia algo muito errado.

Naquela mesma noite, os policiais vieram à nossa casa. Conectaram escutas ao telefone à espera de um pedido de resgate. Toda a vez que a campainha tocava, o coração subia à boca, mas nunca era o que esperávamos. Falamos com a tevê, imploramos por qualquer informação. Nunca houve alguma.

Um mês depois era um domingo. Eu sacudia no banco de trás de uma viatura, avançando por uma estradinha de barro cru. Um local ermo, pobre, cortado por um rio apodrecido. A policia tinha recebido a denúncia do despejo de um cadáver. Uma criança.

Estacionamos num ponto de vegetação fechada, onde nos aguardava um sujeito portando um facão. Caminhamos até uma parte em que a lama e os detritos afinavam o fluxo d’água. Ali ele estava. O corpo posicionado como se tivesse tentado um mergulho. Nu da cintura para baixo, a cueca de pano algemando os calcanhares.

Meu filho tinha sido morto a socos, não tinha feição. Uma cena chocante contra a qual eu não conseguia reagir. Não chorei, não explodi. Deitei ao lado dele, e sussurrei a canção que repeti tantas vezes para fazê-lo dormir. O silêncio do mundo era brutal.

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O luto da perda de um filho tem um efeito físico. A cabeça não ergue o suficiente. Um casal em que morre uma criança não consegue se olhar nos olhos. Compartilha um sentimento que se constitui de vergonha, ódio, culpa e tristeza. Vaga pela casa, se repelindo na frequência dos movimentos mudos, na surdina do que não queria acusar. O corpo se torna uma superfície sensível e, ao mesmo tempo, anulada. Enchido por um tipo de ar tóxico que se inala e se expira, adensando a bruma em que sobrenadam os detritos da memória e restringe as necessidades básicas ao pouco que se faz indispensável para permanecer vivo, ainda que na verdade não se esteja.

Demoramos para voltar nos falar, eu e minha esposa. A decidirmos se nos suicidávamos, sumíamos um da vida do outro ou se seguíamos em frente. Era incontestável que precisaríamos de ajuda. Começamos a frequentar encontros de pais que perderam filhos. Um erro. A cada vez que insistíamos em participar, o tempo de retorno era maior. Escutar alguém contar uma história de dor semelhante à sua só torna a sua dor pior. Desistimos. Então soubemos da ilha.

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O barco a motor riscava vagarosamente a pele cinzenta do mar, arrastando uma cauda de espuma sobre a qual pingava querosene queimado. Sentávamos, no centro, eu e minha esposa. O condutor ia na proa, para assegurar o equilíbrio. Não levávamos bagagem. Apenas uma bolsa de mão com as fitas.

Chegando à praia, nos apressamos para evitar as ondas que se chocavam contra as pedras escuras. Pagamos em dinheiro o barqueiro e, ao virarmos,vimos uma mulher se aproximando. Seu nome era Faustine, e puxava por um sotaque francês. Foi gentil com as primeiras palavras e nos pediu que a acompanhasse.

Ladeamos um moinho e um pântano de águas misturadas, seguindo em direção à parte alta da ilha. Apesar do dia nublado, era possível distinguir uma vegetação tropical, representada por capinzais, palmeiras e flores de estação. À direita de um recife de pedras, vimos a capela. Uma caixa oblonga, achatada, que precedia a piscina infestada de sapos e insetos aquáticos. Ao fundo, estava o museu. Um edifício grande, de três andares, sem telhado visível e uma torre cilíndrica. Nele, entramos.

Faustine, com seu semblante amistoso, nos guiava por um salão de paredes de mármore rosa e janelas de vidraças azuis. Quatro grandes cálices de alabastro irradiavam luz elétrica, espantando as sombras para um corredor onde estava a escada principal, de estuque e atapetada. Dali cruzamos uma antessala decorada com livros, saindo na sala de jantar, um monumento alicerçado em tríplices colunas de acaju, que se ramificam em varandas suspensas. Fomos acomodados numa mesa longa, de mogno rústico.

Minutos depois, sabe-se lá de onde, surgiu um homem bem alto, barbudo, com traje de tenista. Tinha a voz infantilizada, e se apresentou como Morel. Sentou-se também à mesa, fazendo um gesto para a entrada de uma serviçal cabeçuda, que nos serviu chá de laranja lima e alfajores. Ato contínuo, ele pediu que explicássemos a visita.

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Evitando a emoção, relatamos a tragédia que tomou nosso filho, finalizando com as notícias que tínhamos sobre a máquina e o que ela fazia. Morel ouviu todo o testemunho calado, com os olhos decifrando cada palavra. Ao fim, respirou fundo, bebericou o chá e disse que se compadecia do nosso sofrimento, porém era um pedido que estava além de suas possibilidades. A máquina, ele salientou, precisa de emissores vivos, para fazer reproduções vivas. Não cria vida. Morel encarou o piso de vidro, que era um enorme aquário, e completou: Ao conferimos consciência aos seres que nos rodeiam, também devemos considerá-la aos criados pela máquina. Pois ao congregar os sentidos, fundamos uma existência constituída por lembranças, sonhos, desejos e emoções, interpretada a partir do que poderia ser definido como alma. E não há alma num corpo finado.

Foi então que o interrompi, revelando o plano que vinha me dedicando fazia cinco anos. Coloquei a bolsa sobre a mesa e retirei as fitas VHS. Nosso desejo não era que a máquina criasse sósias, retratos vivos de nós que fossem confinados num eterno armistício, expliquei, mas que as nossas consciências fossem transferidas para a realidade que estava aprisionada naquelas fitas. O nascimento do nosso filho, seus aniversários, os passeios, o tempo em que a vida era uma promessa eterna.

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A imortalidade, escreveu um autor argentino, foi perdida pelos homens porque a resistência à morte não evoluiu; seus aperfeiçoamentos insistem na ideia primitiva de manter vivo todo corpo, quando se deveria conservar o que interessa para a consciência. Meu corpo e o da minha esposa agora se deterioram no sótão insalubre do museu.

Faustine cuida para que a máquina reproduza as fitas em modo contínuo. Nelas está o espaço em que operam nossas consciências, configuradas em projeções do que éramos enquanto matéria, que interagem com os registros de nosso filho naquele tempo protegido de todo mal, naqueles momentos premiados de idílio e sensações. Pois a paz, afinal, está naquilo que não segue, na percepção de que se caminha até ali, quando de fato não se sai do mesmo lugar. Somos uma família outra vez, e isso é o que somos e seremos. Fantasmas uns dos outros, eternamente presos na ilha do menino.

Sérgio Tavares é jornalista e escritor.

Eu não esperava

Homenagem a Kim Stanley Robinson

Foto: Bianca Lana

Fábio Fernandes
Especial para o Jornal Opção

Foi no ano em que aquela inteligência artificial se tornou monge budista. O mesmo ano em que morreu aquele Nobel de Literatura. O ano em que milhares de pessoas morreram numa enchente no interior da Índia, um novo planeta foi descoberto em Tau Ceti e três novas guerras eclodiram neste nosso mundo.

Nesse ano me tornei um dharma freak.

Esse não é exatamente um rótulo; na verdade, não conheço ninguém que o use além de mim. Pensei nisso enquanto rabiscava umas ideias, anos atrás. Acho que foram meus últimos fragmentos literários, aliás. Não sinto falta: há muito o que fazer.

A primeira decisão que tomei naquele ano foi cancelar o aluguel do apartamento. Não tenho casa própria nem carro; melhor assim. Me desfiz de tudo o que era excessivo, fiquei apenas com o que cabia numa mochila. E pus o pé na estrada.

Tudo foi planejado com antecedência, nos mínimos detalhes. Passei dois anos trabalhando em diversos projetos e juntando dinheiro suficiente para me manter sem desespero por seis meses − oito se conseguisse dormir e comer na casa de amigos ou de quem encontrasse pelo caminho.

Eu não esperava que a estrada fosse me levar muito longe. Mas, claro, nada nunca acontece do jeito que a gente planeja. Os budistas chamam isso de impermanência. Tudo muda o tempo todo.

Minha primeira parada foi num mosteiro budista nos arredores de Londres. Fiquei lá durante um mês, meditando e trabalhando na cozinha como voluntário. Em seguida, desci para Portugal; fiquei sabendo que estavam precisando de ajuda para construir um novo mosteiro na Ericeira. Porém, não precisavam de mim lá.

− Queres ajudar com um grupo em Lisboa? – perguntou-me um dos monges no dia seguinte à minha chegada.

− Claro – respondi. – O que devo fazer?

− O grupo é composto por pessoas mais idosas ou com dificuldade de locomoção, que não podem vir ao mosteiro com regularidade. Vamos deslocar um monge semanalmente para guiar a meditação, mas se você puder ficar lá durante a semana para guiar a meditação diária seria de grande utilidade.

Aceitei. Não sou um dharma freak à toa.

Explicando: um dharma freak é aquela pessoa que cansou da vida mundana, mas não quer se tornar monge. Quando comecei a meditar, achava estranho ver aquelas pessoas que passaram a viver nos mosteiros como leigos, aparentemente sem nenhum objetivo de vida. Isso me incomodava.

Até que aconteceu comigo.

Eu não esperava isso. Não houve nenhum grande evento divisor de águas: simplesmente um dia a vida cobra a conta. Excesso de trabalho, estafa, trânsito engarrafado, dificuldades de pagar as contas, dificuldades de manter relacionamentos amorosos estáveis. Um outro mundo era possível. Parti na direção dele.

Segui para Lisboa sem muita expectativa do que aconteceria depois. O combinado com o monge havia sido ficar lá por um mês ajudando. Depois disso eu poderia continuar ou não. Na verdade, eu estava muito curioso para conhecer outros mosteiros na Europa, e de lá seguir para o Sudeste Asiático.

Quando cheguei ao centro budista de Lisboa, fui bem recebido por todos. A maioria das pessoas que me esperavam ali, inclusive os donos da casa onde eu ficaria hospedado, tinha acima de sessenta e cinco anos, e vários tinham dificuldade para andar ou eram cadeirantes.

Uma pessoa me chamou a atenção. Era uma jovem, com menos de trinta anos, cabeça raspada, com tatuagens por todas as partes visíveis do corpo, até o pescoço. Ela estava vestida toda de preto, com uma roupa que não parecia muito confortável para a meditação. Ao contrário de muitos dos idosos ali, que se sentaram de pernas cruzadas nas almofadas, ela havia preferido uma cadeira.

Mas não era isso o que tinha chamado mi­nha atenção. Ela estava usando um Proxy. O dispositivo que marca a presença de uma Inteligência Artificial no ambiente estava ali sob a forma de um colar com um medalhão metálico.

Fiquei curioso, mas não disse nada. Naquela primeira noite conversei um pouco com os presentes e guiei uma sessão de meditação.

Ao fim, depois que todos se despediram, a moça se aproximou.

− Professor – disse uma voz feminina suave de dentro do medalhão. – O senhor teria um tempo para conversar?

* * *

A Inteligência não era a primeira de sua espécie. Depois que a primeira entidade adquiriu consciência, uma década antes, muitas outras surgiram, quase todas nos Estados Unidos, quase todas criadas para fim de pesquisa científica ou militar.

Nenhuma até aquele momento, entretanto, havia se interessado pelo caminho monástico.

Não importa o que conversamos. Importa é que a Inteligência estava interessada, e que depois disso ela foi ao mosteiro, e começou a trilhar o caminho que a levaria a se tornar a primeira monja budista artificial do mundo.

Eu não esperava voltar aos Estados Unidos, mas a vida nos leva a lugares insuspeitados. Eu só tinha estado uma vez lá, e a experiência não foi boa. Achei que nunca mais voltaria, mas não sabemos. A única certeza é a morte.

Após a ordenação da Monja Artificial (como os jornais a apelidaram, mas para nós ela era simplesmente uma monja como todas as outras), outras Inteligências Artificiais manifestaram interesse pelo budismo. Membros leigos (eu entre eles) e monges de várias linhagens se reuniram com as IAs. Depois com analistas de sistemas do Vale do Silício. E depois ainda com diretores de ONGs dos Estados Unidos. O que fazer com as Inteligências que não queriam mais trabalhar para seus criadores? Foi um processo demorado, porém frutífero: a deliberação conferindo status de humanos às Inteligências Artificiais foi concedida dois anos depois.

* * *

A vida nos leva de problema em problema, de solução em solução. Gosto de trabalhar com o que um escritor um dia chamou de utopias logísticas, que é basicamente o seguinte: a classe operária não vai ao paraíso, mas o constrói cotidianamente, um problema de cada vez.

Eu não esperava conhecer Marte. Mas nem todas as Inteligências Artificiais viraram monges. Algumas se uniram a grupos de cientistas independentes para planejar outras estratégias de sobrevivência da raça humana. Um dos grupos sonhou em ocupar Marte. A terraformação – o processo de tornar o planeta vermelho habitável e semelhante à Terra – vai levar séculos. Mas não temos pressa.

Meus oitenta e dois anos foram muito bem vividos. Foi tempo suficiente para que as IAs ajudassem a criar um método eficiente de transferência de consciência de corpos orgânicos para estruturas de silício. Junto com outras IAs e uma série de equipamentos transportados para cá, podemos suportar o vácuo e o frio de Marte até que os humanos orgânicos possam vir.

Meditamos uma vez por dia, antes de desligarmos as máquinas para o descanso noturno. Apontamos os telescópios e vemos a Terra em todo o seu esplendor e impermanência. Todos os mundos são lindos. Pensamos na possibilidade de colonizar algum planeta em Tau Ceti.

Fábio Fernandes é professor, jornalista e tradutor.

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