Cinco poemas de Nietzsche traduzidos para o português

O filósofo alemão é conhecido, dentre outras coisas, por seu aprazível estilo de escrita ensaística. Conhecer e estudar a poesia produzida por ele pode nos oferecer mais elementos para a compreensão tanto de sua estilística quanto do seu sistema de pensamento

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, além de grande ensaísta, foi também poeta, no sentido estrito da palavra | Foto: Wikipédia Commons

Wagner Schadeck
Especial para o Jornal Opção

Friedrich Wilhelm Nietzsche, nascido em Röcken, a 15 de outubro de 1844, e morto em Weimar, a 25 de agosto de 1900, foi um filósofo, filólogo, poeta e compositor alemão. Polemista, é sem dúvida um dos pensadores mais estudados na contemporaneidade. O conhecimento de sua música e poética, entretanto, é fundamental para a mais ampla compreensão de sua obra.

Publicou “Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres” – “Menschliches, Allzumenschliches, Ein Buch für freie Geister” (1886); A Gaia Ciência – “Die fröhliche Wissenschaft” (1882); “Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém” – “Also Sprach Zarathustra, Ein Buch für Alle und Keinen” (1885), entre outros.

Ecce Homo

Ja! Ich weiß, woher ich stamme!
Ungesättigt gleich der Flamme
glühe und verzehr’ ich mich.
Licht wird alles, was ich fasse,
Kohle alles, was ich lasse:
Flamme bin ich sicherlich!

Ecce Homo

Sim, minha origem me orgulha!
Insaciável fagulha,
No incêndio extingo-me logo;
Levo tudo à combustão;
Quando o abandono – é carvão:
É certo então que sou fogo!

28.

So sprach ein Weib voll Schüchternheit
Zu mir im Morgenschein:
“Bist schon du selig vor Nüchternheit
Wie selig wirst du – trunken sein!”

28.

Uma moçoila pudica
Me disse ao amanhecer:
– Se já está assim sem beber;
Bêbado, como não fica?

55.

Das realistiche maler
»Treu die Natur und ganz!« – Wie fängt ers an:
Wann wäre je Natur im Bilde abgetan?
Unendlich ist das kleinste Stück der Welt! –
Er malt zuletzt davon, was ihm gefällt.
Und was gefällt ihm? Was er malen kann!

55.

O pintor realista
“Fiel à natureza”. – Mas
Como a conter em quadros tais?
Com o mundo infindo, é conjugada.
O artista pinta o que lhe agrada…
E o que ele pinta? O que é capaz!

Venice

An der Brücke stand
jüngst ich in brauner Nacht.
Fernher kam Gesang:
goldener Tropfen quoll’s
über die zitternde Fläche weg.
Gondeln, Lichter, Musik –
trunken schwamm’s in die Dämmrung hinaus…

Meine Seele, ein Saitenspiel,
sang sich, unsichtbar berührt,
heimlich ein Gondellied dazu,
zitternd vor bunter Seligkeit.
– Hörte Jemand ihr zu?…

Veneza

Estando à ponte,
Eu cismava na noite escura.
E além ouvi uma canção:
Na superfície das águas
Gotas de ouro ondulantes
Resplandeciam circulando.
Gôndolas, luzes, música –
Sorvidas pelo crepúsculo…

E como o acorde de uma lira,
Tocada por mão invisível,
Minha alma canta a si mesma,
Uma canção de gondoleiro,
Ondulante e melancólica.
– Quem a ouvira?

Vereinsamt

Die Krähen schrein
Und ziehen schwirren Flugs zur Stadt:
Bald wird es schnein. –
Wohl dem, der jetzt noch Heimat hat!

Nun stehst du starr,
Schaust rückwärts, ach! wie lange schon!
Was bist Du Narr
Vor Winters in die Welt entflohn?

Die Welt – ein Tor
Zu tausend Wüsten stumm und kalt!
Wer das verlor,
Was du verlorst, macht nirgends halt.

Nun stehst du bleich,
Zur Winter-Wanderschaft verflucht,
Dem Rauche gleich,
Der stets nach kältern Himmeln sucht.

Flieg, Vogel, schnarr
Dein Lied im Wüstenvogel-Ton! –
Versteck, du Narr,
Dein blutend Herz in Eis und Hohn!

Die Krähen schrein
Und ziehen schwirren Flugs zur Stadt:
Bald wird es schnein. –
Weh dem, der keine Heimat hat.

Solidão

Vão corvos crocitando
Para a cidade em voo circular:
Logo estará nevando –
E bem-aventurado quem tem lar!

Altivo, olhando outrora
Teu passado não volta num segundo!
Quem és – um louco que ora
Antes do inverno fugirá do mundo?

O mundo – uma saída
Aberta para um ermo horrendo e agreste.
Não pode achar guarida
Aquele que perdera o que perdeste.

Com palor de desgraça,
A viagem hibernal tens desdenhado,
Semelhante à fumaça
Evolando para o orbe regelado.

Entoa, ave, teu canto
De pássaro no seu errante anelo! –
Louco, escondes, no entanto,
Teu coração sangrando em pasmo e gelo.

Vão corvos crocitando
Para a cidade em voo circular:
Logo estará nevando –
E bem-aventurado quem tem lar!

Wagner Schadeck é poeta e tradutor.

Uma resposta para “Cinco poemas de Nietzsche traduzidos para o português”

  1. “Nietzsche é, antes de tudo, um grande poeta; um poeta neorromântico. Suas poesias líricas são poucas, mas de beleza e intensidade incomparáveis: Herbst (Outono), Mein Glueck (Minha Felicidade), Vereinsamt (Solidão), Venedig (Veneza), os epigramas, Das trunkene Lied (A Canção Ébria), Ecce homo. Curtos poemas em prosa são muitos de seus aforismos magistrais. O grande poeta é também prosador de primeira linha. Mas é necessário, para saber disso, proceder a uma revisão de valores.”
    Otto Maria Carpeaux. História concisa da literatura alemã.

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