Abgar Renault e a poética pessimista

O olhar do poeta mineiro, sendo moderno, não faz da tradição literária um acervo ultrapassado, ou um utensílio de manipulação apenas. Reconhece que esse diálogo com o passado é uma via de mão dupla, isto é, um verdadeiro diálogo de troca

Abgar Renault, poeta mineiro, da mesma geração de Carlos Drummond de Andrade, porém não tão lembrado quanto este | Foto: Divulgação

Claudio Sousa Pereira
Especial para o Jornal Opção

O poeta mineiro Abgar Renault (1901-1995) é hoje tido como um poeta pouco conhecido do grande publico leitor, assim como para os leitores mais especializados. Mais conhecido pelas suas facetas (igualmente relevantes) no campo da educação e da política do que na poesia, Abgar Renault desenvolveu uma escrita que não se confunde com a dos seus contemporâneos. A obra produzida não se caracteriza como a de um poeta menor, ao contrário, percebe-se no poeta um alto nível de cosmovisão contida na observação do mundo mais vasta e mais organizada que a média dos nossos poetas.

Talvez a falta de ambição maior no território literário o reduza como um desconhecido por completo no cenário literário nacional. Mas vale ressaltar, porém, que com a calma e paciência, e, sobretudo, a falta de pressa em publicações, Abgar Renault desenvolveu uma poesia dotada de carga imagética e condensação filosófica, justificando a reivindicação de presença tanto em âmbito acadêmico quanto nos manuais de literatura. Uma urgência é destinada aos editores: a reedição de uma antologia ou da Obra Poética do autor, publicada em 1990, já se faz mais do que necessária. Na confrontação de características em que se desenvolve, evidencia-se no poeta certo teor pessimista e desconcerto sobre as demandas temporais e existenciais do ser humano.

A geração de Abgar Renault

A geração de Abgar Renault é a mesma de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Murilo Mendes (1901-1975), dois pilares da poesia moderna e de todos os tempos, e de valores incontornáveis à nossa literatura. Outros autores da geração mineira são relevantes ao período: o poeta Emílio Moura (1901-1971), o memorialista Pedro Nava (1903-1984), os ficcionistas Aníbal Machado (1894-1964) e Ciro dos Anjos (1906-1994), o contista João Alphonsus (1901-1944) e políticos também, tais como Gustavo Capanema (1900-1985) e Pedro Aleixo (1901-1975). Abgar Renault se situa entre essas duas esferas, a política e a literária, uma vez que se elegeu deputado estadual na década de 1930 e nunca mais se afastou da vida pública, ocupando cargos diretivos no ramo da educação do seu estado natal, e a posteriori no contexto nacional e internacional, chegando a ocupar o Ministério da Educação (1956) e cargos na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) por vários anos.

Isso explica, talvez, o seu aparecimento restrito na vida e/ou carreira literária brasileira do século XX. Assim, inclui-se na geração tardia (ou dispersa) do Modernismo brasileiro, tanto da 1ª quanto da 2ª geração, da qual podemos incluir Dante Milano, Sosígenes Costa e Joaquim Cardozo. Sem dúvida, Abgar possuía um comportamento um tanto refratário com relação à edição de possíveis livros seus, embora tenha aderido ao movimento desde a primeira hora. Se Abgar não teve uma participação literária editorial nem de vida literária, contudo ele não prescindiu do trabalho estético sobre o qual atravessou sete décadas de notável produção intelectual e literária. Dotado de sólida formação humanística, foi tradutor, filólogo, teórico da educação, professor e ensaísta. Na poesia, de nítida conotação surrealista, produziu com raro conhecimento estilístico, desde os exercícios concretistas, atravessando o verso livre em todas as suas possibilidades, além de ter experimentando a versificação isométrica e formatos mais tradicionais, como por exemplo, o soneto e a balada.

Mario Chamie, no ensaio de 1983, intitulado “Um estudo do livro Sob a Outra Face da Lua de Abgar Renault” (In: Abgar Renault. “Obra Poética”. Record, 1990), descreve características essenciais para a interpretação da obra do poeta mineiro:

“Este corte vertical e sincrônico na poesia brasileira, de Gregório a Drummond, passa, agora, obrigatoriamente por um livro que redimensiona e consagra, na sua originalidade, a indagação permanente sobre a história vivida da poesia e sobre a poesia vivida na história pessoal de outro poeta. Refiro-me a Abgar Renault. Ele não está entre Gregório de Matos e Carlos Drummond de Andrade. Abgar Renault situa-se no centro daquela indagação, com a independência de quem refaz a substância do poema, na sua vivência e na que tem de si mesmo e do mundo. Esse refazer, fazendo-se de novo, se mede pela sua ambiguidade própria e, sobretudo, pela peculiar conciliação de opostos que perpassa e perdura em todos os níveis de sua linguagem. O visível não dissocia-se do invisível, é a súmula do confronto e da comunhão de enigmas, aberto para a nossa iluminada perplexidade.”

Apesar de um profundo pessimismo e desencanto pela vida, o que levou à perspectiva filosófico-antropológica de negação da transcendência, contrastada por uma vida materialmente e intelectualmente bem sucedida, Abgar Renault, em sua poesia, pouco conhecida pelo meio acadêmico, atinge um nível literário comparável aos nossos melhores poetas do modernismo brasileiro.

O entrave dessa falta de conhecimento deve-se, talvez à tardia iniciação editorial de sua carreira literária, iniciada apenas aos 68 anos.

Qual terá sido o motivo? A falta de tempo, desinteresse, ineditismo involuntário ou consciência da imaturidade literária? Muitas podem ser as explicações, porém, algo é justificável: o poeta possuía qualidades suficientes desde cedo: como se poderá negar o valor de Abgar que escreveu os magníficos “Sonetos Antiguos”, concluídos em 1923, com apenas 22 anos de idade? E o poema-livro “Sofotulafai”, da década de 1940, antecipando certas características consolidadas anos depois com os experimentos concretistas? O poeta soube o momento certo de dar-nos a possibilidade de lê-lo e admirá-lo, sobretudo pelo alto nível de sua obra.

Tais fatores são indiscutíveis sobre o poeta mineiro, e o que também leva a seguinte indagação: na sociedade ao qual vivemos hoje, onde a utilidade e o desejo estão acima de qualquer argumento, de cujo estetismo desvinculado do real é moeda forte, quem teria a coragem, ou, a paciência em esperar, abnegadamente, pelo amadurecimento literário? Poucos, sem dúvida, pouquíssimos no universo literário de hoje, pautado pelo processo lento de rebaixamento espiritual e a mais completa desconstrução da Inteligência da história humana.

Poucas obras literárias da poesia brasileira moderna e contemporânea atingem o nível de filosofia intuitiva como consegue o poeta brasileiro. Estão na poesia de Abgar incontornáveis desdobramentos sobre a maioria dos problemas metafísicos, assim como a oscilação de indagações capitais do ser humano: a fé e a negação dessa mesma fé, as passionalidades e a sabedoria, o sentido de abstrato e do real concreto, a noção entre tempo decorrido e a perenidade do eterno presumido, tal como o sentido e existência da vida na sua precariedade ascética, afrontada pela modernidade cada vez mais vendida aos prazeres e facilidades. Tudo condensado em linguagem poética exemplar. A negação e a afirmação da perspectiva ontológica também estão presentes, como também o diálogo com o passado e o futuro e o próprio diálogo como poesia e poéticas que ajudaram na formação pessoal do poeta mineiro.

Dois poemas

Escolhi da sua “Obra Poética” (Record, 1990) dois poemas. Em “Omnia Fluunt” (traduzido por “Tudo Flui”), o sujeito enunciador indica que tudo passa incontornavelmente e fluirá em sentido de rio/ampulheta, de caminhar a um estado de coisas irremediavelmente fatídicas. Poema da transitoriedade do tempo no qual o ser humano escorre, sem retorno, para a esperada foz (a morte).

OMNIA FLUUNT

De tempo somos feitos, e acabamos
quando escassa clepsidra seca em nós.
Inescrutavelmente gotejamos
a nossa essência breve, neste a sós
fugirmos entre fugitivos ramos
de horas e dias. Fluidos e sem voz,
escorremos de nós e nos escoamos
sem esperança até a esperada foz.

Ah! interromper-se o fluxo que nos leva,
a água que flui fazer-se imóvel fonte,
parado sonho a vida solta no ar…

Não vermos fosso, muro, fria treva,
e adiarmo-nos além deste horizonte,
sem outrora, num hoje circular.

No poema “A vida tem uma faca na mão”, dentre outras sugestões, há a frieza das palavras para descrever a inutilidade da leitura e da escrita, da fruição da vida, devido à transitoriedade e crueldade desta. Sugere que a poesia, de modo geral, mesmo com sua capacidade de incitar o belo, e aliviar a dureza e o sofrimento inerentes ao ato de viver, as vezes é incapaz e ater-se a dimensão trágica da vida: no próprio título o poema já afirma sua intenção: da faca na mão, dos perigos que é capaz de gerar, na fuga pela sublimação do belo in totus, em que exista uma dramaticidade contingencial do existir. É um poema em que sua metáfora principal mostra o pessimismo da condição existencial vivida pelo autor.

A VIDA TEM UMA FACA NA MÃO

Vamos parar de ler. Paremos de escrever.
Olhos e mãos circulam no papel
ao serviço da dor e da desgraça,
mas as palavras são frias e sem fel
para exprimir o desespero dessa taça.
Ninguém sabe escrever. E ninguém pode ler
o que fica, depois de tanta luta fútil,
a escuridão desvirginada do teu ser
na indiferença de uma folha de papel.
Hoje, ontem, amanhã — amanhã sobretudo —
a vida sempre tem uma faca na mão,
vai sob as unhas, vai direto ao coração,
dói nos olhos, nos pés, dói na alma, dói em tudo,
torna toda a poesia um jogo raso e inútil.

A negação da transcendência

Outro fator a ser destacado refere-se à ao dualismo da Transcendência-Imanência em seus poemas: a referência sobre o transcender no imanente, que alguns fazem, é um pressuposto incorreto: os poemas de Abgar Renault além da fuga e negação do transcendente, não transcendem na imanência: esta expressão não é apropriada. Não há transcendência imanente nem por mera expressão, ou seja, são termos excludentes. Expressão vulgarizada, inclusive veiculada equivocadamente nas universidades, acabou-se por perder sua significação adequada. A poesia de Abgar, mesmo apenas tocando no assunto metafísico, em seu discurso niilista, reconvoca a uma volta ao mundo concreto, nos recônditos do real sem jamais o transpor. De fato, é uma poesia que, embora possua ocorrências ao imanente, que se situa na gradação mínima de escala metafísica. Pode-se não aceitar ou crer no Deus único, mas para transcender é necessária a aceitação de um sentido maior. O filósofo espanhol Julián Marías em das visões existentes sobre a transcendência, e quero crer talvez a forma mais apropriada, afirma sobre o assunto:

“Por outra parte, a irredutibilidade é o nervo da noção de criação. Não o é fabricação, nem geração nem emanação, senão criação ex-nihilo sui et subjecti. O mundo não é algo “feito” por Deus com uma matéria prima preexistente, nem engendrado por ele — como o Filho do Pai — nem emanado da sua própria realidade, senão posto na existência, “fora”: este “fora” radical é o que se há chamado transcendência, frente a toda forma de panteísmo; é a total irredutibilidade entre criador e criatura.”

Abgar Renault e a atualidade

Ao reler a produção do poeta observei que, apesar do pessimismo-niilismo presente em grande parte dos seus poemas, não há o enfraquecimento da escrita simbólica, haja vista a abordagem sobre o mistério do eterno, pelo fio invisível do discurso sobre a precariedade do ser humano e suas epifanias. O diálogo por uma espécie de inexplicável e do ilógico do absurdo humano é um dos leitmotiv principais de sua poética, portanto, não ignorando por completo sobre quando esses fenômenos são percebidos. Pode-se haver na poesia de Abgar a dúvida da crença divina, entretanto o autor reconsidera a presença e dimensão do espírito.

As leituras sociológicas, históricas e políticas são comumente empregadas para explicação desse contexto, e é justamente aí que ela se revela inócua; porque estas leituras somente respondem as demandas literárias ligadas a esses parâmetros. Na poética do poeta mineiro, sem dúvida chega a uma relevante constatação da situação do poeta na modernidade: voltado a niilismos e negações que marcaram toda uma geração do século XX, ordem em literatura quase sempre imanente, desoladora e descrente. Hoje esse fenômeno parece ser ainda maior, ou seja, gerações afundadas de impregnação do objeto pelo objeto e da excessiva metalinguagem. Isso mostra como a perspectiva filosófico-antropológica dos ensaios interpretativos e das poéticas predominantes está toda voltada para o materialismo corpóreo ou cotidiano, o hiperrealismo em vez da literatura como alimento do Ser.

Inclui-se também o que Eric Voegelin denomina como historiogênese: a busca incessante pelo apagamento do passado e a instauração do tempo hodierno como o primado essencial da humanidade. Não é a toa que poéticas voltadas ao centralismo extremo do eu, ao mnemonismo circularista voltado ao hiperconcreto ou ao corpo ignoram ou negam veementemente a perspectiva da transcendência.

Pelo menos, a poesia de Abgar Renault, mesmo com sua ótica pessimista, não se reduz ingenuamente ao erro crasso da perspectiva histórica denunciada por Eric Voegelin. O olhar do poeta mineiro, sendo moderno, não faz da tradição literária um acervo ultrapassado, ou um utensílio de manipulação apenas. Reconhece que esse diálogo com o passado é uma via de mão dupla, isto é, um verdadeiro diálogo de troca.

Claudio Sousa Pereira é poeta e ensaísta.

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