Opção cultural
Nos tempos da reconquista do solo ibérico aos muçulmanos, quando pequenos feudos formavam o reino de Leão, as façanhas de Valderico corriam de boca em boca. Cavaleiro descendente de guerreiros celtas e visigodos saía-se vencedor em qualquer tipo de combate ou escaramuça. Os inimigos o temiam. E tremiam ao saber de seus feitos. Granjeava admiração ou inveja de seus aliados.
Ficando a sua bravura pouco aquém do disse-que-disse — a mídia daqueles tempos —, a fama do cavaleiro acabara vazando as fronteiras asturianas. E como cruzar a ponte entre a fama e a lenda era questão de encompridar a língua, disso se encarregavam os bufões palacianos — marqueteiros medievais — sabedores de que a mente humana costuma dar pés ao que vê, e asas ao que imagina.
Enfim, os sarracenos estremeciam ao ver a soberba figura de Valderico senhoreando sua montaria, com o brial de cavaleiro e a armadura reluzente, destroçando tendas, barbacãs ou guaritas, e espalhando mortes a golpes de espada, maça, lança, ou com os próprios punhos. Naquelas liças encarniçadas, nunca um infiel sobrevivera à fúria do guerreiro asturiano. Tal bravura o tornara vassalo preferido do rei.
Mas como tudo neste mundo tem seus prós e contras, a distinção concedida a Valderico nos campos de batalha deixava o monarca pouco confortável na paz do cotidiano: cobria-o de honrarias ou concedia-lhe favores. As honrarias seguiam os ritos das justas medievais. Já os favores tomavam caminhos sinuosos, pessoais, não raro levando o rei a fazer vista grossa aos caprichos sentimentais do cavaleiro. De fato, além de temível nos campos de guerra, Valderico era rastreador compulsivo dos fetiches femininos.
Conhecido o lado glorioso do cavaleiro, forjado e temperado nos campos de batalha, passamos àquelas lides, não menos perigosas, entre as muralhas dos castelos, nem menos inocentes travadas nos redutos acortinados das alcovas, sob a pureza contestável dos lençóis.
Ouviam-se nos corredores, torres, paços, pontes, guaritas, muralhas, em todo o castelo, que raras mulheres da corte conseguiam rechaçar os assédios do herói.
Numa ocasião, havendo o rei se deslocado às terras galegas, não muito longe do que viria a ser o caminho de Santiago, coincidiu na ausência do soberano que o seu vassalo preferido retornasse antecipadamente de vitoriosa missão contra os sarracenos nas fronteiras ao sul. Mal o herói se desvencilhara das parafernálias de combate, irrompeu nos alojamentos da armaria do castelo um mensageiro real.
— Nobre cavaleiro Valderico, trago mensagem de Sua Alteza, a rainha!
Embora surpreso com a presença tempestiva do mensageiro, Valderico não se alterou. — Com que mensagem me honra Sua Majestade?
— Sua Majestade ordena-lhe comparecer aos seus aposentos reais, amanhã, uma hora antes do pôr do sol.
— Diga à Sua Majestade que o seu fiel vassalo, com grande honra, ali estará na hora aprazada. Já o mensageiro iniciava mesuras para afastar-se, quando ocorreu a Valderico perguntar-lhe.
— Aconteceu alguma coisa fora dos costumes à Sua Majestade durante a ausência do rei?Estou pouco informado, pois estava a combater o inimigo infiel além das margens do Douro.
— Nobre cavaleiro, apenas sei que Sua Majestade, a rainha, anda maldisposta nos últimos dias. Agora, se me permite…
— Vá, vá mensageiro, e confirme à rainha o que já lhe transmiti.
No dia seguinte, a natureza cobriu de beijos ensolarados o verde úmido que ainda hoje engalana os montes asturianos. Valderico preparou-se dignamente, e dois pajens deram-lhe banho numa tina adaptada ao enorme guerreiro. Sendo costume somente dois ou três banhos daquele tipo por semestre, talvez por ano, uma visita aos aposentos da rainha requeria sacrifício de imersão e esfregões extras.
O pôr do sol fugia pela encosta dos montes, quando Valderico atravessou garbosamente a ala do castelo que levava aos aposentos da rainha. O brial de cavaleiro cobria-lhe vestes palacianas. Espada curta embainhada na cinta. A guarda real reconhecendo o herói, imediatamente deu-lhe passagem nos corredores sombrios.
O mesmo ocorreu no vestíbulo que antecedia a câmara real, quando cinco aias que guardavam a entrada reconheceram Valderico. Três delas lançaram-lhe olhares tão afiados quanto cimitarras sarracenas. Talvez numa tentativa imaginária de cortar-lhe as tramas do brial, suas vestes, e ver o gigante guerreiro despido. As outras abaixaram a cabeça com reverência desconfiada, mas pensamentos suspeitos. Todas suspiraram quando, na passagem do guerreiro, recendeu o cheiro inconfundível do banho tomado. Mas na cabeça de Valderico transitou outro gênero de questão, qualquer coisa como a diferença entre montar selas ou saias.
Vencidos corredores, vestíbulos, guardas e aias, Valderico em carne, osso e brial, apresentou-se à Sua Majestade, ajoelhando uma das pernas no chão, como era reverência de praxe nas saudações aos soberanos. Estando a rainha deitada sobre grandes almofadas no leito, o guerreiro achou por bem mencionar preocupação com a sua saúde.
— Vossa Majestade ordenou que estivesse aqui uma hora antes do pôr do sol, pois bem, cá estou, em carne e osso, cavaleiro Valderico de Santullano, Valdedios, Lena, Oviedo, Naranco e Leon…, mas a minha nobre senhora parece não estar bem-disposta…
— Cavaleiro Valderico agradeço-vos a presença, mas antes de qualquer conversa, melhor saberdes que, por minha ordem, entre este pôr do sol e a aurora de amanhã, todos os meus guardas, servos, aias e camareiras vão empenhar-se em tarefas longe da câmara real, de modo que, de agora em diante, tudo o que falarmos, tudo o que aqui ocorrer, tudo o que aqui fizermos, ficará entre estas frias paredes, nós dois, e Deus, talvez. Ordeno-vos juramento à rainha!
— A ordem de Vossa Majestade será cumprida por este fiel servo mesmo que eu tenha de apressar o pôr do sol ou retardar a aurora com a espada que trago na cinta. Tem meu juramento, nobre Senhora!
— Alça-te! Era o que esperava ouvir do maior herói do reino. Pois, pois, valoroso e fiel Valderico, durante algumas horas, vamos tratar-nos de tu, e guarda a tua espada para outras causas… Sabes tu que, desde menina ouço teus feitos e glórias, e todos falam de ti, e… bem… sempre sonho contigo…
— São exageros majestade, apenas cumpro o meu dever de vassalo preferido do rei… — Tentou argumentar Valderico.
— Ouve Valderico! O rei está ausente, e pode até morrer nos campos de batalha, está ficando velho e fraco, e tu sabes que ainda não entrei na carreira dos trinta. Ora, pois, quero então saciar agora mesmo todos os meus desejos em relação a tua figura de cavaleiro e herói, quero ouvir de viva voz aquilo que mais te dá prazer nos campos de batalha, pois o tempo passa e teus feitos parecem cada vez mais assombrosos, excitam-me a imaginação, caso compreendas um pouco da alma feminina!
Estando os heróis sempre prontos a enfrentar o inusitado, Valderico pareceu não se alterar, e maior foi a dificuldade de mudar o tratamento pronominal ordenado pela rainha do que, naquele momento, apagar do pensamento a figura do rei. Então, reiniciou o discurso com eufemismos logo envolvidos pela excitação.
— Exageram minha nobre rainha, apenas luto com denodo por fidelidade aos meus senhores e à causa cristã. Verdade que herdei de meus ancestrais visigodos desejo insaciável para o combate, principalmente o corpo a corpo. E me apraz nos campos de batalha montar meu cavalo, e com a lança retesada derrubar o inimigo de sua montaria, e… bem, depois sentir o infiel estremecer por inteiro ao trespassar-lhe minha espada! E também…
Valderico falou, falou, e falou. E tanta era a vibração que instilava na voz que gotas de suor lhe escorreram da fronte e se infiltraram nas barbas. Mas como homens de ação são objetivos e não se perdem em elucubrações, logo constatou que tanta vibração não vinha da fala, mas do falo.
Enquanto o herói discursava, a rainha parecia enfeitiçada. Rito estudado, soltou os longos cabelos de ouro, livrou-se de almofadas e lençóis, içou o tronco esbelto e, com movimento estratégico preciso, deixou metade do corpo níveo cruzar as fronteiras do decoro. Em seguida, passou da estratégia à tática, apontando agressivamente na direção de Valderico dois aríetes bicudos e, claro, majestosos. De repente, a boca em arco disparou seta indefensável.
— Ordeno que tolhas o brial de cavaleiro e todas as tuas vestes, para que eu possa ver tuas origens celtas e visigodas, tuas armas naturais.
— Majestade!…
— Jurastes…
— Jurei... minha rainha...
Até então nenhuma cimitarra moura fizera zunido semelhante àquele que Valderico sentiu nos ouvidos. Estratégia por estratégia, tática por tática, fidelidade ao rei por fidelidade à rainha, vendaval desarrumou-lhe as ideias por um instante, e como a vida é feita de momentos e, às vezes, há momentos que valem a vida inteira, a arquitetura celta e visigoda do seu inconsciente desabou com um grito tribal, interior e milenar: “Guerra é guerra!” E mais rápido que o voo do falcão, tolheu o brial e despiu-se .
— Pronto minha rainha! Juramento é juramento, eis-me, em guarda, com as minhas armas naturais.
— Ordeno ao maior herói do reino que suba ao leito, e por merecimento e glória, trave com sua rainha uma contenda amorosa e real!
E foi assim que, lança em riste, sob o lusco-fusco do pôr do sol, numa atmosfera real de um lado e irreal de outro, Valderico travou com a rainha confronto amoroso privativo dos reis. Noite alta e a lua entre sombras, após o calor da luta, dos infindáveis movimentos e golpes de parte a parte, sem vencedor nem vencido, desejos saciados, torpor inevitável anunciou a trégua final. Um silêncio parecia esmagar a ambos, lado a lado. A atmosfera de sonho começou a dissipar-se. E como na vida tanto os gozos fruídos quanto os sonhos a desfrutar têm um preço, um custo, um ônus, ou que nome se queira dar, instalou-se nos amantes o pêndulo da reflexão que logo se transformou em remorso, depois em culpa, finalmente em pecado. A rainha espatifou o silêncio contra o teto.
— Valderico, cometemos tremendo pecado!
— Verdade minha rainha, traímos nosso rei, sob a lei dos homens não teremos perdão, mas eu jurei cumprir tuas ordens… — Achou melhor retornar ao antigo e respeitoso tratamento — aliás, cumpri ordens de Vossa Majestade…
— Jurastes — isso é verdade, mas eu vos provoquei… e nós dois fraquejamos. Porém, ainda podemos pedir perdão a Deus, o Senhor de todas as coisas… só Ele poderá perdoar-nos e aliviar a nossa consciência… talvez uma grande penitência, uma clamorosa contrição…, talvez um autoflagelamento…
— Que pensais Majestade?
— Tão logo amanheça, irei à abadia. Abrirei o coração ao meu abade confessor, e ele me dirá qual penitência terei de cumprir para recuperar minha pureza...
— E eu, que farei? Há anos não me confesso, e jurei que tudo o que acontecesse aqui não o revelaria a ninguém… Ficarei com este remorso o resto dos meus dias?
— Fareis o mesmo, ireis ao abade logo depois de mim. Pedireis perdão a Deus que está acima de qualquer juramento. Obviamente, quando confessardes vossos pecados ao meu padre confessor, ele já saberá o que cometemos — até será melhor — e assim somente uma voz pedirá a Deus por nós…
Valderico deixou a câmara real incógnito, pensamentos sombrios e passadas estreitas. Passadas menos silenciosas do que quanto queria, pois a culpa agrega peso invisível ao espírito. Então, o que é imponderável parece adquirir massa, matéria, peso. E surge uma espécie de incômodo corpo dentro do próprio corpo. Em seu alojamento na torre não conseguiu dormir, assaltado pelo remorso.
O sol nasceu. A luz do dia ajuda a clarear também as sombras do espírito. Valderico observou da janela da torre dois servos carregando a liteira da rainha em direção à capela da abadia. Homem de ação, ele pensou rápido, desceu da torre e dirigiu-se à capela. Ajoelhou-se atrás de uma coluna e ficou à espera. Viu quando a rainha terminou o ato da confissão e retirou-se para cuidar de sua penitência. Valderico apareceu como um raio diante do abade confessor e pediu-lhe para, também, tomar sua confissão.
— Abre o coração filho!--Disse o abade por trás da treliça de madeira.
— Tenho muitos pecados!
— Abre o coração, filho, todos somos pecadores, confessarás teus pecados a Deus, e se deleste arrependeres, o Senhor de tudo te perdoará.
— Trucidei quatrocentos e oitenta e nove sarracenos!
— Eram infiéis filho, basta fazeres o pelo-sinal e estarás perdoado.
— Afoguei cento e vinte e cinco cristãos-novos!
— Tardaram a converter-se, reza uma ave-maria e estarás perdoado.
— Tirei a vida de oitenta e dois cristãos, homens de armas!
— Jejuarás por dois dias consecutivos.
— Deitei com metade das mulheres da corte!
— Quantas?
— Acho que umas trinta…
— Quantas?
— Talvez quarenta…
— Então, durante quarenta dias não conhecerás nem deitarás com mulher, será tua penitência.
— Ia esquecendo, não reconheci dezesseis filhos bastardos!
— Dezesseis ave-marias será tua penitência.
— Deitei com a rainha no leito real!
— O quê? Pecado gravíssimo, filho! Não só aos olhos de Deus! Cometeste alta traição ao rei, e à própria rainha, mesmo tu, Valderico, sendo o maior herói do reino poderás ser enforcado e esquartejado! E tua pobre alma arderá no Inferno eternamente!
— Mas estou confessando meu pecado, e farei qualquer penitência, até mesmo me autoflagelar!
— Ouve filho, grandes pecados, exigem grandes penitências.
— Então, o que devo de fazer, meu abade confessor?
— Hoje nada farás. Vais e repousa. Mas amanhã, deves tomar um bom banho, com muitos esfregões nas tuas armas naturais. Em seguida vestirás o teu brial de cavaleiro. Ao cair da tarde, virás procurar-me, sem que ninguém perceba, em meus aposentos particulares aqui na abadia. Aliás, será melhor uma hora depois do pôr do sol.
Carlos Trigueiro é escritor
Vem a vida em sua energia secreta e natural, intraduzível e irrevelada, cozinhando devagar suas transformações de cada dia, em silêncio. Conspirando para fazer o nosso tempo passar mais devagar
Mãos ao alto! Joguem ao chão defesas, sustos, ressentimentos, maledicências. Rejeitem desconfianças de toda a ordem. O amor existe e insiste em lhe entregar uma flor
Gabriel García Márquez não precisou morrer para alcançar o posto de mito, tornou-se um ainda em vida
Há 50 anos a maior poeta da história da literatura goiana lançava o seu primeiro livro
Um dos aspectos pouco observados na obra do poeta e compositor Vinicius de Moraes foi o seu humor negro
“Uma Longa Queda”, adaptação cinematográfica dirigida pelo francês Pascal Chaumeil, surpreende ao retirar o essencial dos três vértices o livro de Nick Hornby: a tentativa quádrupla de suicídio, a relação dessa turma improvável de amigos com a mídia após um pacto e o desfecho piegas
Este é o espírito da obra, seu veio nutriente preenchido por histórias pessoais e por escritores de várias tendências
James Joyce narra as impressões da infância, da adolescência e da juventude de um garoto que deseja profundamente ser um artista. O protagonista do livro é o jovem Stephen Dedalus, que perderá a fé no Deus criador, terrível e onipotente e ganhará na liberdade o direito de perder-se por sua conta e risco
Alguém sugeriu despejar tequila enrustida, colocar fogo naquela coleção medonha ali mesmo e aproveitar o calor da ignorância para derreter alguns marshmallows
Paulo Lima
Na época das Grandes Navegações, quando das primeiras viagens de Portugal ao Brasil, desde a invasão até a exploração regular que durou cerca de três séculos, as condições de transporte em nada lembravam um passeio bucólico pelos bosques paulistas do Ibirapuera ou pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
Você leu direito: eu falei invasão, não descoberta. Até parece que não havia ninguém na futura colônia (índios não eram gente?), sem contar que o navegador espanhol Vicente Yáñez Pinzón aportara na costa norte do Brasil três meses antes da chegada de Cabral, fora os vestígios de africanos que aqui estiveram centenas de anos antes ainda.
Continuemos. A nau do Pedrão, por exemplo, viajava a vertiginosos nove quilômetros horários, no máximo. Durante cerca de um mês, superar o enjoo do mar sem Dramim, o mau cheiro da embarcação repleta de homens fedendo a macaco morto a tapa, a vontade de desistir e pegar o caminho de volta logo a partir do segundo dia, a saudade da terrinha, não era tarefa para os fracos.
Nada de camas ou colchões. Os corpos ficavam ao chão, se revezando para descansar, uns dormitando, outros de pé no batente. Havia aqueles que dormiam ao relento, no convés.
Uma caravela tinha no máximo mais dois pavimentos inferiores, onde o ar e a luz chegavam através das fendas entre os ripados de madeira, que também deixavam passar água. Os porões estavam sempre abafados, quentes, úmidos e fétidos.
É óbvio que não havia banheiro nos navios. Mas não faltava criatividade para resolver esse pequeno problema que afetava somente algumas dezenas de homens que dividiam um espaço que deveria ser ocupado por no máximo uns vinte. Qualquer semelhança com os aposentos das penitenciárias brasileiras da atualidade é mera coincidência.
Dependendo do tipo e do ano da embarcação, como ocorre hoje nos carros e seus opcionais produzidos pelas nobres montadoras, sempre dava-se jeito. Para fazer suas necessidades mais sujas, os marujos recorriam a pequenos assentos pendurados sobre a amurada dos navios, se debruçando no costado com as calças arriadas e o traseiro voltado para o mar. O resto ficava por conta da força da cólica, da contração abdominal espontaneamente provocada ou da lei da gravidade. Talvez ambos os três.
Outra alternativa: usava-se uma longa corda cuja ponta estava sempre alguns metros dentro d’água, se lavando e desinfetando de água e sal marinhos em tempo integral. Teria a agressão ambiental ao Atlântico começado ali? Em tempo: a corda era compartilhada por todos, sem exceção. Até os capitães faziam uso do mesmo recurso...
Vale o registro: alguns mais ditosos caíam enquanto buscavam alívio e nunca mais retornavam para relatar a aventura. Outros ainda optavam por encher recipientes diversos, despejando o conteúdo no oceano ou deixando-o em qualquer canto. Por fim, havia os vergonhosos ou preguiçosos que largavam sua produção intestinal no porão mesmo. Ninguém se lavava, pois tinham que racionar água e o banho era considerado nocivo à saúde. De resto, era comum no balançar das ondas em alto mar os marujos vomitarem como quem joga uma tarrafa, sujando uns aos outros.
Oficialmente, constava que a embarcação levava carne vermelha defumada, peixe seco ou salgado, favas, lentilhas, cebolas, vinagre, banha, azeite, azeitonas, farinha de trigo, laranjas, biscoitos, açúcar, mel, uvas-passas, ameixas, conservas e queijos. Como não havia lenha e fogo, peixes e carnes eram consumidos crus.
Oficialmente. Na verdade, a dieta era basicamente composta de biscoitos de água e sal cozidos duas vezes para durar mais tempo. O restante da lista era só uma complementação esporádica, privilegiada e temporária. Cada qual recebia diariamente cerca de quatrocentos gramas do delicioso biscoito para sua farta refeição. A ração era distribuída três vezes ao dia, nunca excedendo uma porção de biscoitos, meia medida de vinho e uma de água. Depois de algumas semanas, o vinho se transformava em vinagre e a água em um criadouro de larvas. Em viagens longas, os biscoitos já estavam todos roídos por outros tripulantes não convidados: ratos e baratas. Aliás, caçar os muitos ratos presentes também era uma estratégia honrosa para driblar a fome.
Alimento fresco? Sim, às vezes seguiam a bordo alguns animais vivos, como galinhas, porcos, carneiros e cabras, brindando os embarcados com muito esterco e urina.
Estamos falando de uma viagem perfeita. Diante de imprevistos, como tempestades, danos físicos nas embarcações ― quer dizer, imperícia ― do timoneiro, a machaiada sofria com a falta de alimento e mais desconforto.
Os utensílios eram compartilhados entre os tripulantes. Lavar as colheres, as gamelas e os pratos usados? Nem pensar. Consumia muita água, produto precioso para tamanhos luxos.
Mas nem tudo era de todo ruim. O consumo de ratos, animalzinho virtuoso que sintetiza a vitamina C a partir dos alimentos que consome, diminuía sensivelmente os infortúnios vividos pelos mareantes. Sem saber, acabavam evitando o aparecimento ou agravamento do escorbuto, então chamado de “mal das gengivas” ou “mal de Luanda”. Uma enfermidade daquelas bem desgracentas que causava inchaço das gengivas e perda dos dentes, dilatações e dores nas pernas, levando o desinfeliz a uma morte lenta e dolorosa.
Infestação de piolhos era tão comum como hoje são os vírus de computador. Cabeça raspada, a solução. Nem as princesas reais escapavam da desdita. Sem a proteção da cabeleira, a cachola esquentava muito sob o sol dos trópicos, mas... Fazer o quê?
A bordo a rigidez na disciplina era comparada à dos quartéis, pois tinha de tudo: marinheiros experientes e grumetes (aprendizes), tripulantes, carpinteiros, artesãos, calafates (especialistas em tapar fendas ou buracos) e tanoeiros (responsáveis pelo conserto de tonéis e barris), soldados e religiosos, degredados e criminosos, além de canhões e peças de artilharia. Manter a ordem exigia pulso firme. Alguns desses homens eram extremamente necessários a uma viagem desse tipo. Mas evitavam levar médicos, porque os humanos presentes eram descartáveis.
Crianças e adolescentes entre 9 e 15 anos de idade eram recrutados ou alistados pelos próprios pais, que embolsavam o soldo dos meninos, coisa que hoje ainda ocorre em algumas culturas e profissões, mesmo depois de instituída a tal civilização. A molecada servia como grumetes, fazendo as piores tarefas como lavar o convés, limpar o bosteiro, costurar velas. Serviam também à sanha dos mais afoitos, pois mulheres eram proibidas durante as expedições de descobrimento. Frequentemente alguns adultos, mais enfraquecidos pelo rigor da jornada, eram arrastados para onde sua virgindade pudesse ser surrupiada. Suicídios eram comuns e aceitos pela Marinha Portuguesa como efeitos colaterais ou acidentes de percurso.
Vale lembrar que, depois que se tornaram rotineiras nos séculos 15 e 16, a presença de mulheres nas viagens à Índia e ao Brasil foi finalmente permitida. As escolhidas: órfãs e ex-prostitutas, enviadas para casar com colonos portugueses. E para a diversão durante as viagens, claro.
Por recomendação dos padres, o lazer era proibido. Apesar disso, os precavidos capitães sempre faziam vistas grossas para alguma jogatina, como cartas e dados, para aliviar a tensão interna.
Aqueles navegadores carregavam na alma medos reais e imaginários. Muitos juravam de pé junto que o oceano era povoado por monstros e dragões, buracos sem fundo e tantas outras coisas que no século 21 nem as criancinhas são capazes de fantasiar. Fora isso, havia a certeza de que, ao seguir em mar aberto, as tempestades e chuvas intensas poderiam pôr fim à fragilidade das embarcações. Por tudo isso, alucinações e depressão eram uma constante.
Contei essa história, com muito mais riqueza de detalhes, durante uma hora inteira ― a terceira da viagem São Paulo-Miami ― às minhas duas filhas adolescentes que me comprimiam no assento do meio do voo noturno e mais barato que a companhia aérea dispunha. Era nossa primeira excursão rumo à Disney. Não é fácil se posicionar em meio a um ataque de nervos de duas jovenzinhas acostumadas ao conforto das modernidades, indignadas com o desconforto da classe econômica e dos serviços precários da aviação brasileira. Mas valeu o esforço e a consulta ao Google, ainda que não pudesse comprovar a veracidade das informações postadas na controversa fonte Wikipédia.
A narrativa surtiu efeito. As cinco últimas horas foram de sossego, marcado por profundo silêncio e resignação.
Paulo Lima é escritor e publicitário.
Vi nascimentos e conheci a injustiça da morte. Descobri o amor, suas alegrias e dores, e também vivenciei a amizade, com suas traições à espreita. Entendendo pouco ou nada de tudo aquilo, buscava refúgio nos livros, que traduziam o que eu experimentava e supriam minhas deficiências
Basileu França reconstrói a beleza inspirada em novela de Mérimée e impulsiona, do teatro para a cidade, as grandes produções
Gerald Martin realizou centenas de entrevistas, em 17 anos de pesquisa, para mergulhar na trajetória de Gabriel García Márquez e revelar os labirintos da vida do autor de “Cem Anos de Solidão”
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Gabriel García Márquez: um dos mais aclamados escritores da história. Ganhador do Nobel de Literatura, seus livros venderam mais de 50 milhões de cópias em todo o mundo | Foto: Edgard Garrido/Reuters[/caption]
Salatiel Soares Correia Especial para o Jornal Opção
O incidente aconteceu num cinema na Cidade do México, em 1976. Lá estava prevista para ocorrer a première do filme “Os Sobreviventes dos Andes”, do qual um importante escritor da América Latina era o autor do roteiro. De repente, um velho amigo desse escritor que estava presente abriu os braços para ele e fez uma calorosa saudação: “irmão”!
A resposta ao cumprimento não poderia ser mais inesperada. O cumprimentado, praticante de boxe amador, deferiu um potente soco no olho direito de quem o cumprimentou e disse: “Isso é pelo que disse a Patrícia”. Alguns afirmam que o nocauteador proferiu a seguinte frase: “Isso é pelo que fez à Patrícia”. Pouco importa o motivo, o estrago já estava feito. A potência do soco foi tamanha que o nocauteado caiu, bateu a cabeça no chão e ficou de fato tonto. Os dois protagonistas da lamentável contenda nunca mais se encontrariam. Nunca mais se falariam.
A verdade nunca, de fato, saberemos qual foi. O fato é que aquele soco encerrou uma amizade de 10 anos entre dois dos mais importantes escritores da América Latina: o peruano Mario Vargas Llosa e o colombiano Gabriel García Márquez.
Passados quase 40 anos do episódio, as especulações a respeito do fato persistem até hoje. Ciúme da mulher, inveja pelo sucesso que o colombiano vinha obtendo como escritor. O recente falecimento de Gabriel García Márquez levou com o ele o segredo para o túmulo. Mario Vargas Llosa, ao ser recentemente indagado a respeito do episódio, foi de uma elegância que reflete o respeito que possui pela obra de seu então opositor. “É um pacto [a razão do atrito] entre García Márquez e eu. Ele respeitou isso até sua morte e vou fazer o mesmo [...] vamos deixar a nossos biógrafos, se merecemos isso, investigar o assunto.”
Gabriel Garcia Márquez se foi deste mundo, mas sua obra certamente vencerá as areias do tempo. O episódio relatado se encontra na obra de seu biógrafo inglês. Só mesmo a paciência de um inglês, evidenciada em 17 anos de pesquisa, foi capaz de mergulhar nas entranhas da vida do autor de “Cem Anos de Solidão” e revelar os labirintos de sua vida. Este inglês se chama Gerald Martin. Falemos um pouco dele para, em seguida, mergulharmos no esplendor de sua obra.
Professor emérito de línguas modernas na Universidade de Pittsburgh é ele, também, pesquisador sênior de Estudos do Caribe na London Metropolitan University. Mais conceituado biógrafo de Gabriel García Márquez, Gerald Martin é um profundo conhecedor da América Latina. Para produzir seus escritos, viajou pelos lugares onde viveu o autor de “O Amor nos Tempos do Cólera”. Conheceu seus hábitos, as histórias contadas por gente próxima do escritor, pesquisou documentos para, enfim, pacientemente, compor as 814 páginas do mais importante mergulho que já se fez na vida de um dos maiores escritores do século 20.
Fonte da imaginação
O fluxo da vida se passa como num filme cujas imagens vão se desencadeando e explicando o âmago de nossa existência. Se existe uma etapa na vida de Gabo que irrigou sua obra literária esta se passou ao lado daquele que seria a maior influência em seus escritos: os avós. O coronel Nicolás Márquez e a avó Tranquilina Igurán foram os verdadeiros pais do menino Gabito.
Criado distante dos irmãos e da influência paterna e materna, o autor de “Crônica de uma Morte Anunciada” passou a infância em Aracataca; e os pais, noutra cidade da Colômbia (o pai de García Márquez era farmacêutico e viveu nas cidades colombianas de Sucre, Cartagena e Barranquilla). Gabo e o avô eram, na verdade, os únicos homens numa casa repleta de mulheres, por onde transitavam a avó, tias, empregadas.
Certamente, a companhia feminina e a dependência delas exerceram influências decisivas na vida do futuro escritor. Nessa ambiência é que se destacava a figura masculina do avô Nicolás. Quem já conhece a história de vida desse grande autor colombiano, não terá dúvidas de que toda consciência política de Gabito foi moldada no imaginário do escritor, sob a influência do coronel Nicolás Márquez, este foi um ativo participante da Guerra Civil colombiana. Quanto a isso, conta-nos seu biógrafo que “seria ele [Gabriel] quem herdaria as memórias do velho coronel, sua filosofia de vida e sua moralidade política, além da visão de mundo; o coronel viveria através dele. Foi o avô quem lhe contou sobre a Guerra dos mil dias sobre os próprios feitos e os de seus amigos, todos liberais heroicos; foi o coronel quem explicou a presença das plantações de bananas, da United Fruit Company, com suas casas, lojas, quadras de tênis e piscina da companhia e os horrores da greve de 1928. Batalhas, cicatrizes e lutas. Violência e morte”.
United Fruit, a luta entre conservadores e liberais, a greve de 1928, as revoluções de um continente fadado a revoluções. Todos os ingredientes estavam ali para tomar forma e tornarem-se, anos mais tarde, um dos mais celebrados romances que levariam Gabriel García Márquez ao patamar ao qual se encontrou durante toda sua vida e, certamente, transcenderá a sua morte. O romance de que falo é o célebre “Cem Anos de Solidão”, o mais importante livro escrito em língua hispânica depois de “Dom Quixote”.
Outra fonte dos personagens encontrados nos romances do futuro escritor foi coletada nas cidades que a família García Márquez viveu. Nesse sentido, relata-nos seu biógrafo: “Ali [em Sucre, uma das cidades que os pais de Gabo viveram] ou em outras cidades vizinhas, Gabito conheceria muitos de seus personagens mais conhecidos, entre eles, a inocente Erêndira, de ‘A Incrível e Triste História de Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada’, e a prostituta que ele chamaria de Maria Alejandrina Cervantes em ‘Crônica de uma Morte Anunciada’”.
A história de amor entre os pais foi outra fonte inspiradora que a mente criativa de Gabriel García Márquez imortalizaria naquele considerado, por muitos (incluo-me nesta opinião), como um dos mais belos romances de amor produzido pela literatura universal. Falo de “O Amor nos Tempos do Cólera”. Em vida, o neto do coronel Nicolás sempre afirmou que esse belíssimo romance — e não “Cem Anos de Solidão” — de fato será seu passaporte para a imortalidade.
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Por ciúme de sua mulher, Vargas Llosa nocauteou García Márquez. Nunca mais se falaram | Foto: David Levenson[/caption]
O gosto pelo cinema foi outra influência que o garoto Gabito aprendeu a apreciar convivendo com o avô na sua primeira infância. Era costume do coronel Nicolás levar o neto para assistir os filmes que passavam na pequena Aracataca. Seu biógrafo assim descreve os primeiros contatos do menino Gabito com o cinema: “Ele [o avô] costumava me levar para ver todo tipo de filme, ele me fazia contar-lhe a história, para ver se eu tinha prestado atenção. Assim, não somente preservei com muita clareza os filmes na minha mente, mas também me preocupava em saber como poderia narrá-los, porque sabia que meu avô me faria contar a história, passo a passo, a fim de ver se eu tinha compreendido”.
O amor pela sétima arte se propagou no viver do futuro escritor. Anos mais tarde, passando um tempo em Roma, tornou-se, o jovem Gabriel, um frequentador dos famosos estúdios da Cinecittà. Creio ser do conhecimento de todos qual foi o destino do dinheiro ganho por Gabriel García Márquez quando do prêmio Nobel: fundar uma escola de cinema em Cuba. Além disso, certamente, a influência paterna foi decisiva para a profissão que um de seus dois filhos — Rodrigo — viria a abraçar, nos Estados Unidos: a de diretor de cinema.
Assim, as cenas do filme da infância do autor de “Crônica de uma Morte Anunciada” passam como tudo na vida passa, só permaneceram vivas na sua alma as lembranças de uma cidade solitária, repleta de personagens solitários que o mundo conheceria anos mais tarde como sendo a Macondo de “Cem Anos de Solidão”. O gênio do escritor daria universalidade à terra dos avós e mostraria ao mundo que, na América Latina, pratica-se uma literatura de alta qualidade. Certamente, o sucesso absoluto de “Cem Anos de Solidão” consagrou, anos mais tarde, a brilhante carreira literária de seu autor. Isso todo mundo sabe. O que pouca gente sabe é o que ele passou para chegar lá. “Todo mundo é meu amigo desde ‘Cem anos de Solidão’, mas ninguém sabe o que me custou chegar até aqui. Ninguém sabe que fiquei reduzido a comer lixo em Paris”, disse ele a seu biógrafo, explicando-se, em seguida, a respeito da espantosa afirmação: “Uma vez, estava numa festa, na casa de alguns amigos que me ajudaram um pouco. Depois da festa, a dona da casa me pediu que colocasse o lixo na rua para ela. Eu estava com tanta fome que peguei tudo que pude do lixo e comi, ali e depois”. Pois é. A maioria de nós gosta de quem chega ao cume da montanha. O que pouca gente avalia é o que se passou na vida para chegar lá.
Jornalismo e literatura
Vejamos mais uma cena do filme da vida do neto do coronel Nicolás Márquez: a de estudante de direito em Bogotá. O jovem Gabriel foi estudar direito não por vocação, mas para satisfazer a vontade dos pais: “Não, ele não era um bom aluno”. Assim relatou a Gerald Martin, um de seus professores na faculdade. O professor estava certo. Decididamente, o direito não morava no sangue do futuro escritor. Sua verdadeira vocação estava em outra seara: o jornalismo.
A respeito do talento literário de Gabo, um dos mais respeitados colunistas do prestigiado jornal colombiano “El Espectador”, Zalamea Borda, profetizou algo que o futuro mostraria ser uma verdade: “Em Gabriel García Márquez, estamos vendo o nascimento de um extraordinário escritor”. Ciente de sua vocação, Gabriel García Márquez não pensou duas vezes na decisão que tomaria a respeito de sua vida: paulatinamente, foi abandonando o curso de direito sem nunca o ter concluído. Seguiu para Cartagena consciente do que gostaria de fazer na vida: um aprendiz, segundo ele mesmo dizia, daquela que, para ele, era “a melhor profissão do mundo”.
Levava consigo a experiência de ter sido testemunha dos famosos protestos e desordens que ocorreram no centro de Bogotá, protestos ocasionados pelo assassinato do candidato a presidente Jorge Eliécer Gaitán. Também, levava consigo uma vida de boemias vivenciadas nos prostíbulos da capital colombiana e, lógico: uma considerável bagagem de leituras de autores que, certamente, anos mais tarde, influenciaram o gênio literário a elaborar um estilo próprio de narrar suas histórias, que ficou conhecido pelo mundo afora como Realismo Mágico.
Gabriel García Márquez foi um jornalista de excepcionais qualidades. Sua incansável maneira de apurar os fatos, abordando ângulos inovadores da notícia, logo, fez a diferença para que se tornasse o que veio a ser para a imprensa de seu país: um nome de respeito. Quem conhece seus escritos sabe o quanto foi importante na formação do futuro escritor ter sido, antes, um jornalista. Veja-se pelo próprio título de suas obras. “Cem Anos de Solidão”, “Crônica de uma Morte Anunciada”, “O Amor nos Tempos do Cólera”, “Notícias de um Sequestro”, “Ninguém Escreve ao Coronel”, “O General em seu Labirinto”, “A Incrível e Triste História da Cândida Eréndira e da Sua Avó Desalmada”, “A Má Hora: o Veneno da Madrugada”. Reparem bem: todos os títulos de livros mais se parecem com chamamento de manchetes de jornais. Em quase todas as suas obras literárias, faz-se notar a presença do jornalista. Certamente, fazer literatura-arte como se fosse reportagens muito contribuiu para cativar o enorme público leitor de seus escritos: “Minha escrita é sempre uma espécie de literatura jornalística”, reconhecia o próprio Gabo.
Como jornalista, o neto do coronel Nicolás Márquez foi enviado para ser correspondente na Europa. Sua estada na França, embora repleta de privações financeiras, possibilitou-lhe descobrir o mundo, até então, desconhecido, anterior à queda do muro de Berlim: o da cortina de ferro. Na Europa, pôde solidificar suas convicções políticas que abraçou durante toda sua vida: à esquerda sem excessos.
Gabo pôde avaliar, numa Alemanha divida pela ideologia, as contradições existentes entre o capitalismo e o socialismo. Quanto a isso, nada mais proveitoso do que avaliar in loco os contrastes de uma Berlim dividida pela Guerra Fria. “Berlim ocidental é uma enorme agência de propaganda capitalista”, disse ele ao conhecer a cidade. Trafegando por Berlim oriental, veio a comprovação de uma cidade, ao mesmo tempo, sombria e desencantada, onde a competição entre o ocidente e o oriente se tornava visível e clara num mesmo espaço geográfico. A conclusão do neto do coronel Nicolás não poderia ser mais apropriada para aquele mundo que, a ele, apresentava-se: “Berlim era um espaço humano aterrorizado, imprevisível e indecifrável, onde nada era o que parecia, onde tudo era manipulado, um lugar em que todos estavam envolvidos em fraudes diárias e ninguém tinha a consciência limpa”.
Na União Soviética, Gabriel García Márquez não só se impressionou com o tamanho de seu território, mas, sobretudo, com o paradoxo de uma sociedade que era capaz de construir e lançar o Sputnik (foguete) na órbita da terra, mas era incapaz de dotar seu povo de padrões razoáveis de vida, expressos por bens de consumo.
Outro fato curioso que não passou despercebido aos olhos do jornalista escritor se refere à inexistência de algo muito presente na América Latina e praticamente inexistente na União Soviética da Guerra Fria: o ódio aos Estados Unidos. A rivalidade se dava muito mais no campo das invenções do que propriamente no tocante ao sentimento de rejeição, como se manifestou no nosso continente contra o ianque invasor ou pelo imperialismo tanto propagado pela esquerda radical latino-americana.
A visão do autor de “O Outono do Patriarca” a respeito da União Soviética que conheceu foi “favorável e solidária”. Prova disso foi a maneira como apoiou Cuba e Fidel na década de 1970. Entretanto, embora simpático à causa socialista, o senso crítico de Gabo não deixou de apontar as fragilidades do regime.
Viver na Europa deu universalidade às futuras obras que o escritor iria produzir. Pari passu, a essa universalidade estava sendo sedimentada a influência de grandes autores, como refino de sua prodigiosa imaginação. O caminho estava, assim, sendo construído para que as lentes do neto do coronel Nicolás voltassem como, anos depois, voltaram-se: para a pequena Aracataca e seus solitários habitantes que o mundo, tempos mais tarde, conheceria como a Macondo de “Cem Anos de Solidão”. Gabo seria capaz de dar universalidade àquele torrão de mundo eternamente condenado à solidão. Uma solidão que se confunde com a própria história da América Latina.
Imaginação prodigiosa
Gabriel García Márquez costumava simplificar as coisas quando fazia referência às suas prestigiosas obras. “Tudo que fiz foi recontar o que vivi”, costumava dizer. Não é bem assim. Sem respirar os ares do mundo e sem o enfrentamento de grandes autores, não se constrói grandes escritores. Sem essas duas qualidades, a escrita cai na vala comum dos escritores de província que nunca conseguem dar universalidade ao que é meramente regional. Escritores regionais não conseguem construir o necessário elo de suas províncias com os ares do mundo. Decididamente, este não foi o caso de Gabo, pois ele leu e recebeu influência de autores do primeiro time da literatura mundial. O tcheco Franz Kafka foi um deles.
Os escritos contidos na “Metamorfose”, de Kafka, em que um homem se transforma numa barata, mostraram a Gabo que era possível narrar coisas surreais em literatura. O autor de “Cartas ao Pai” influenciou decisivamente na confiança que o neto do coronel Nicolás Márquez passou a ter em si mesmo. E percebe-se essa influência em romances como “Cem Anos de Solidão”. A ação de seus personagens, como é o caso da previsão do cigano Melquíades, que profere que, caso casamentos consanguíneos se repetissem na árvore genealógica da família Buendía, a criança originada desse incesto nasceria com alguma deformidade, não poderia ser mais kafkiana: a criança, tal qual o homem que se metamorfoseou em barata, nasceu com um rabo de porco. A repetição do casamento consanguíneo condenou ao desaparecimento todas futuras gerações dos Buendía “porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra”.
Tanto Kafka como o colombiano Gabriel García Márquez sofreram com o autoritarismo da figura paterna. A figura opressora de seus progenitores muito influenciou nos “demônios” que ambos os escritores carregaram para a vida e, como escritores de si mesmos, transportaram para seus escritos tal peso. Aliás não apenas Kafka e Gabo padeceram desse mal. O peruano Vargas Llosa também tratou de exorcizar a figura paterna na sua literatura.
O americano William Faulkner foi outro autor de fundamental importância na formação literária do neto do coronel Nicolás. Gabo nutria pelo autor de “O Som e a Fúria” não só uma relação professoral (chamava Faulkner de “mestre”), mas, sobretudo, nutria absoluto respeito pelo seu talento literário. “É um escritor muito bom.” Bom demais para o prêmio Nobel que o autor de “Palmeiras Selvagens” não ganhou em 1949, embora tenha ele recebido o prêmio em 1950. Quando, finalmente, Faulkner foi laureado com o Nobel, Gabo não deixou de apontar o deslize ocorrido em 1949. Para ele, o prêmio estava atrasado porque Faulkner era “o maior escritor do mundo contemporâneo e um dos maiores de todos os tempos”. Com o prêmio ganho, teria ele de aceitar “o privilégio desconfortável de se tornar moda”.
Assim como Faulkner criou o condado imaginário de Yoknapatawpha, Gabriel, talvez inspirado no mestre, teve a ideia de fazer sua pequena Aracataca se transformar na imaginária Macondo. Não restam dúvidas de que a literatura de Faulkner teve influência decisiva na formação do grande escritor, que viria a tornar-se Gabriel García Márquez. O autor de “O Som e a Fúria” alimentou a alma literária de alguém que tinha um destino certo: tornar-se, como o mestre, um dos maiores escritores do século 20.Ernest Hemingway foi outro autor pelo qual Gabo nutriu enorme admiração. Hemingway, jornalista como Gabo, teve influência direta em algo que o autor de “O Velho e Mar” sabia fazer como poucos: escrever. Conhecer a obra de Hemingway fez de Gabo o que ele mesmo refere a respeito dessa influência: “Aprendi a ser escritor”.
Muitos estudiosos de suas obras atribuem à inglesa Virginia Woolf um papel menos relevante do que o recebido por Gabo dos três autores acima citados. Outros, entretanto, comungam da ideia de que o grande escritor argentino Jorge Luis Borges tenha influenciado demasiadamente na literatura de Gabo, ao ponto de “‘Cem Anos de Solidão’, quando aparecesse, seria um livro distintamente borgiano”.
Sem intencionar esgotar o leque de grandes autores que influenciaram direta ou indiretamente nos escritos de Gabriel García Márquez, penso estarmos aptos para dizer que não é nada fácil chegar ao cume da montanha como chegou Gabo depois da publicação de “Cem Anos de Solidão” e o que disso resultou: ganhar o prêmio Nobel e transformar-se numa celebridade mundial. Este é o cume da montanha. Todo mundo vê o cume, mas não enxerga a escalada de subida dessa montanha. Na trajetória de subida, o neto do coronel Nicolás teve muitas privações financeiras na Colômbia e fora dela, muita leitura de grandes escritores, muitas viagens pelo mundo afora. Basta disser que, após os 18 meses que Gabriel García Márquez hibernou no México para escrever sua obra-prima, faltou dinheiro até para enviar os originais pelo correio para um editor na Argentina. Depois do sucesso, todo mundo quis ser amigo de Gabo e, como ele mesmo disse, porém “poucos sabem o que é que eu passei para chegar lá”.
Amizade com Fidel
Gabriel García Márquez poderia muito bem adotar uma atitude típica de outros autores que, como ele, foram laureados com o prêmio Nobel de literatura: a acomodação. Já era um escritor mundialmente consagrado, com uma respeitável produção literária e uma obra-prima incluída entre os cânones da literatura universal. Mas não foi isso que veio a acontecer.
Não se passaram mais que três anos e veio outra obra-prima que representou a metamorfose do talento literário de Gabo. Falo de “O Amor nos Tempos do Cólera”. Vejamos o que nos diz Gerald Martin a respeito do sucesso dessa obra: “O livro impressionou leitores e críticos, porque representava um novo García Márquez, um escritor que havia se metamorfoseado, de algum modo, numa espécie de romancista do século 19 para os tempos modernos, um homem que escrevia sobre o poder e sobre o amor, e o poder do amor”.
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A amizade com Fidel Castro amordaçou o poder da crítica. García Márquez foi chamado de lacaio do ditador cubano | Foto: El Tiempo[/caption]
O trio amoroso que protagoniza o romance, composto de Florentino Ariza e seu amor de juventude Firmina Daza, que acaba se casando com o médico Juvenal Urbino, mostra o quanto o poder do amor pode ser represado e florescer em tempos tão adversos como foram aqueles presentes numa Colômbia impregnada pela epidemia do cólera. O reencontro amoroso entre Firmina Daza e Florentino Ariza já na velhice, após a morte do marido dela, é, sem dúvida, um dos pontos altos de uma literatura da mais alta qualidade.
Gerald Martin revela, em seus escritos, que “‘O Amor nos Tempos do Cólera’ pode ser interpretado como um reencontro com seu pai [de Gabriel] e com o passado da Colômbia, mas também como uma investigação do conflito entre o casamento e as aventuras sexuais; é, acima de tudo, um livro sobre o subúrbio de Manga, onde seus pais viveram”.
O prestígio de escritor mundialmente reconhecido concedeu a Gabriel García Márquez considerável peso em outro campo que não o da literatura: na política. Nessa área, seu perfil ideologicamente mais à esquerda, aliado a sua sincera simpatia por Cuba, foram ingredientes suficientes para aproximá-lo de uma figura que sempre suscitou polêmicas no mundo intelectual: Fidel Castro.
Gabo foi um amigo muito próximo do líder da Revolução Cubana. Pessoalmente, sou daqueles que pensam que o intelectual, quando se torna íntimo de governantes, acaba ficando privado da maior arma que dispõe para exercer seu nobre ofício: a liberdade de criticar.
Aconteceu isso com Gabo. Sua amizade com poderosos refletiu, muitas vezes, num incômodo silêncio. Vargas Llosa, seu ex-amigo e ideologicamente identificado com os liberais, não deixou por menos: “Lacaio de Fidel Castro” e “oportunista político”.
Certamente, oportunista político Gabriel García Márquez não demonstrou ser, pois se existe alguém que se dispôs a investir muito de seu dinheiro em Cuba, este alguém foi Gabo. Entretanto muito do seu silêncio em relação às polêmicas (até os erros cometidos pelo regime) evidencia aquilo que anteriormente mencionamos: a proximidade com o poder amordaça o poder da crítica, tão necessário aos intelectuais que privam pela sua liberdade de expressão.
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Gerald Martin, autor do mais importante estudo sobre a vida e a obra de Gabriel García Márquez | Foto: Mario Guzm‘n[/caption]
O novo Cervantes
A última cena do filme da vida do autor de “Ninguém Escreve ao Coronel” acabou de ser rodada. Gabriel García Márquez deixou órfãos não só sua família, mas, também, milhões de admiradores que tem pelo mundo afora. Na sua vida privada, teve uma família harmoniosa e uma esposa que o acompanhou por cerca de 60 anos. Mercedes foi uma “companheira cheia de qualidades”, que sempre primou pela perspicácia, discrição e apoio incondicional ao marido. O mesmo se pode dizer dos seus filhos. Com os quais, declarou ele, certa vez, à revista “Paris Match” ter “excelentes relações. Eles [os dois filhos] são o que querem ser e aquilo que eu queria que eles fossem”.
Ao contrário de Miguel de Cervantes, que, em vida, não foi reconhecido, Gabriel García Márquez conheceu a glória em vida. Prova de sua importância foi a enorme repercussão que teve sua morte pelo mundo afora. Não tenho dúvidas de que neste e no outro mundo o neto do coronel Nicolás Márquez será sempre eterno.
Para saber mais sobre García Márquez
Para uma leitura perspicaz da prosa e do próprio García Márquez, recomenda-se o ensaio “Gabriel García Márquez — À Sombra do Patriarca”, inserto no livro “Os Redentores — Ideias e Poder na América Latina” (Benvirá, 606 páginas, tradução de Magda Lopes, Cecília Gouvêa Dourado e Gabriel Federicci), do jornalista, ensaísta e historiador mexicano Enrique Krauze, parceiro de Octavio Paz na criação da revista “Vuelta” e professor convidado de Oxford. Leia breve comentário sobre o livro no link: http://bit.ly/1gOJb6S. Sobre o conflito com Mario Vargas Llosa pode-se ler no link: http://bit.ly/1h8O0Ta.
Salatiel Soares Correia é crítico literário e mestre em Planejamento Energético pela Unicamp.





