Livros da infância: modos de usar

Vi nascimentos e conheci a injustiça da morte. Descobri o amor, suas alegrias e dores, e também vivenciei a amizade, com suas traições à espreita. Entendendo pouco ou nada de tudo aquilo, buscava refúgio nos livros, que traduziam o que eu experimentava e supriam minhas deficiências

Foto: Living Books

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Marcelo Franco
Especial para o Jornal Opção

Sempre que preciso preencher alguma ficha com meus dados pessoais, percebo o quanto venho decaindo na vida. Pedem meu nome e eu, que já fui Tarzan dos Macacos, escrevo um comum “Marcelo Franco”. No campo do endereço, coloco o meu atual com saudade das pradarias do Velho Oeste, onde vivia ao léu quando era Winnetou e Mão de Ferro, e “Promotor de Justiça” é uma profissão sem maiores atrativos para mim, logo eu que, tendo sido D’Artagnan e mosqueteiro do rei, salvei o reino de França. Amigos, realmente ingrata é a minha sorte: no tempo em que o mundo era recente, eu poderia, por direito próprio, apresentar-me como Sherlock Holmes, detetive residente em Baker Street, 212-B.

Fui também Phileas Fogg, Hercule Poirot e Sandokan. Em noites chuvosas, sendo Missa Marple, fazia tricô e desvendava crimes. E se às vezes buscava conselhos com meu amigo Dr. Watson, em outras ocasiões ouvia as ponderações do Cardeal de Richelieu. Salvei vidas, reinos e a própria civilização ocidental, naveguei os mares e submergi nas suas profundezas, fui à Lua e ao centro da Terra, corri florestas pulando de árvore em árvore e cacei bisões no sem-fim de pradarias.

Já se nota que escrevo sobre livros lidos na infância e na adolescência. É um tema recorrente entre leitores inveterados; creio já ter topado com dezenas de relatos desse tipo. Fernando Sabino, por exemplo, dizia que o livro que mais relia era “Winnetou”; já António Lobo Antunes fala dos livros que lhe “coloriram a infância”, os quais sempre procura nas feiras de livros (na juventude, o português até foi leitor, como Vargas Llosa, dos romances populares de Corín Tellado). Uma busca rápida no Google com as palavras “livros” e “infância” me dá como resposta dezenas de sites. Sim, há uma hipnose qualquer nessas leituras que não nos abandonam nunca — ou não abandonam a mim, nostálgico de carteirinha; outros, imagino, conseguem ser libertos do peso do passado.

O fato é que, mesmo tendo lido centenas ou milhares de outros livros, recordo-me com mais detalhes de muitos que foram os meus primeiros livros, isso talvez, creio, pela pungência da novidade daquelas leituras iniciáticas. Na verdade, cheguei aos livros novo, pois tinha aprendido a ler muito cedo e em casa, praticamente sozinho. Minha mãe havia comprado uma cartilha e ali pela segunda lição, ainda no b+a=ba, eu já havia entendido todo o sistema — comecei então a ler por conta própria e nunca mais parei (quem dera essa iluminação tivesse acontecido com a música e que eu fosse uma daquelas pessoas que a entendem antes mesmo de estudá-la sistematicamente). Desde então, nunca consegui me aproximar de um livro — ou de um texto qualquer — sem ouvir, como Santo Agos­tinho, uma voz que me dissesse “toma e lê”. “O livro é meu objeto sagrado, totêmico”, disse certa vez Otto Lara Resende. Também o é para mim. Aliás, não só livros: sou doido por jornais, revistas, bulas de remédio… Com certeza eu não passaria incólume por uma junta médica, mas ainda assim não tenho sequer o consolo de saber que tantos livros me desasnaram — não o fizeram; porém, levaram-me com certeza à bancarrota.

Antes mesmo dos 10 anos eu já havia lido “Reinações de Narizinho” e todos os outros livros infantis de Monteiro Lobato, que me ensinaram em primeira mão o prazer de participar de uma vida que não era a minha. Depois a paixão pela leitura foi reforçada na pré-adolescência, quando li as dezenas de livros policiais de Agatha Christie e os livros de Sir Conan Doyle (Sherlock Holmes). Em seguida vieram as aventuras escritas pelo alemão Karl May (admirado por Hitler, descobri surpreso mais tarde) sobre o Velho Oeste — “Winnetou” e “Old Surehand” —, que me transformaram em pele vermelha nas praças do Setor Sul, onde eu morava, e ainda os livros, todos eles, com as aventuras inverossímeis de Tarzan, do inglês Edgar Rice Burroughs, que aqui em casa são volumes da década de 50 com aquele delicioso cheiro de livro velho.

Em seguida, após essa iniciação, eu estava preparado, no início da adolescência, para ler os livros de Maurice Druon (“Os Reis Malditos”). Mais importante: podia ser Eduardo Marciano de “O Encontro Marcado” e sonhar com noites de boêmia literária — acho que com menos de 15 anos eu já havia lido tudo o que Fernando Sabino escrevera até então (a propósito, um goiano, Jesus de Aquino Jayme, fez a versão “caseira” desse livro: “O Cometa de Halley”). Ah, na mesma época li, acredito, todos os livros de Júlio Verne, que eu gostaria imensamente de reler, mas só encontro nas livrarias aqueles mais conhecidos, como “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias”. E ainda da mesma época é também a leitura de “Os Três Mosqueteiros”, de Ale­xandre Dumas, e “Ivanhoé”, de Walter Scott (“Os Três Mos­queteiros” foi um achado: recordo-me bem da emoção da leitura que me impedia de dormir — eu ficava madrugada afora lendo, ofegante e maravilhado, e no dia seguinte, insone, mal conseguia me aguentar na escola). A partir daí já havia sido marcada em brasa em mim a minha danação eterna — a paixão pelas páginas impressas. E os livros estavam ali, bem à mão: tínhamos um cômodo nos fundos de casa onde eles se amontoavam e não eram espanados nem organizados. Então pude ler tudo o que quis; minha mãe, vendo a paixão despertar, não impôs nenhuma leitura e tampouco proibiu outras, por mais impróprias que pudessem ser (creio que essa é a maneira mais apropriada de permitir a um jovem que seu amor pelos livros se fixe). Li sôfrega e desordenadamente o que me caía nas mãos, inclusive (e incrivelmente) enciclopédias. Naquela pequena sala eu vagabundeava e assaltava a sabedoria humana, como Sartre escreveu sobre suas leituras da juventude.

Crédito: Chris Kling

Crédito: Chris Kling

Mas não fui uma criança sisuda; na verdade, brincava muito com a turma da rua. E hoje estremeço de medo retrospectivo só de pensar que sou um sobrevivente (como todos os homens): corríamos velozmente em cima de muros e telhados, pulávamos grades com pontas, mergulhávamos em montes de areia de cima de árvores, onde ficávamos com a cabeça perto de fios de alta tensão, descíamos a rua 102 em carrinhos de rolimã quase até a avenida 83, no velho Setor Sul, rezando para que os freios (uma trava das rodinhas) funcionassem (quando não funcionavam, a solução era pular do carrinho ou virá-lo com o peso do corpo, deixando a pele no asfalto), voávamos com bicicletas, jogávamos pedras pontudas uns nos outros. As meninas ficavam à distância. Elas — um mundo à parte — pareciam sempre cantar a velha cantiga de roda enquanto nós garotos buscávamos incessantemente nos machucar (antigo que sou, pe­guei o tempo das cantigas de ro­da): “nestarua nestarua tem um bosque/quesechama quesechama solidão/dentrodele dentrodele mora um anjo/queroubou queroubou meu coração”. De­pois ladrilhavam a rua compedrinhas compedrinhas de brilhante. As experiências fundadoras da vida, por assim dizer, estavam todas lá (el sentimiento trágico de la vida, diria Unamuno): na­que­las ruas ri, briguei, amei e odiei. Vi nascimentos e conheci a injustiça da morte. Descobri o amor, suas alegrias e dores, e também vivenciei a amizade, com suas traições à espreita. Entendendo pouco ou nada de tudo aquilo, buscava refúgio nos livros, que traduziam o que eu experimentava e supriam mi­nhas deficiências.

De certa maneira, os livros, para usar um lugar-comum, me salvaram. Fizeram-me deixar para trás preconceitos, dúvidas, anseios (claro que outros tantos ficaram em mim, esta metamorfose ambulante). A Alice de Lewis Carroll talvez explique melhor o que quero dizer (em “Através do Espelho”, livro que, ainda bem, só viria a ler depois de adulto, o que me permitiu entender ao menos algumas de suas várias camadas): “Fran­camente, isto é horrível!” Humpty Dumpty gritou, lançando-se numa fúria repentina. “Andou escutando atrás das portas… e atrás das árvores… e pelas chaminés… ou não poderia saber disso!” “Não andei, verdade!” Alice disse muito gentilmente. “Está num livro”. Pois eu tam­bém, Alice, li tudo num livro.
Havia em casa uma espécie de ritual de passagem de livros mais infantis para aqueles que achávamos mais “adultos”. Começá­vamos lendo Monteiro Lobato, passávamos para romances policiais, depois líamos Júlio Verne, Karl May, Maurice Druon, Walter Scott, gente desse tipo. E havia a expectativa de encontrar os livros que não tínhamos, sentimento que os jovens de hoje não conhecem graças à internet e aos aplicativos. Meu pai, por exemplo, sempre me contava sobre o prazer que tivera lendo “Winnetou”, daí porque passou anos — não conhecíamos, como escrevi, as facilidades atuais — procurando o livro para mim. Quando o encontrou, uma edição em três volumes da Editora Globo, dedicou-o assim: “Marcelo, quando eu era jovem (faz tanto tempo!), a leitura deste livro me emocionou. Agora, quero que as aventuras do Mão de Ferro emocionem outro jovem — você”. (Bem, também já faz tanto tempo que fui jovem, meu pai, mas nunca é tarde para admitir: a leitura me emocionou naquela época e ainda hoje me comove — nela reencontro o cacique Winnetou, seu amigo Mão de Ferro, o jovem que fui e aquele pai que passou anos buscando essa coisa simples para dar ao filho, um livro, sabendo que desse encanto nunca se escapa.)

Retorno a esses livros muitas vezes: sempre estou às voltas com Tarzan e civilizações perdidas no meio da África, Poirot e mortes à primeira vista insolúveis em trens luxuosos, viagens de submarinos e balões. Curiosa­mente, os olhos do adulto não se decepcionam com personagens pouco complexas e tramas exageradas, não há aquele sentimento de decepção comum nas nossas visitas ao passado, como ocorre quando vemos casas antigas em que moramos, as quais sempre nos parecem então diminuídas — isso porque as deficiências que o adulto nota nos livros relidos são superadas por lembranças das sensações que a criança teve.

Diferentemente do que ocorria há dez nos, o mundo me excede. Não sei quanto a vocês, leitores amigos, mas me sinto agredido diariamente por barulhos infernais de toda sorte de aparelhos e veículos, pelo medo constante de assaltos, pela ansiedade que tomou conta de nossas vidas de forma perene. Sim, as aflições cotidianas me esmagam. E também sei que mudei muito — essa é a nossa sina comum. Claro, já não passo horas esfolando os dedos em jogos de futebol no asfalto ou sentado, o mundo à espera, com amigos em calçadas poeirentas. Mas ainda tenho o consolo de poder buscar os livros da infância: leio-os e sou de novo um menino espantado. Leio-os novamente e percebo por que, mesmo não sabendo o motivo que me levou a ler, sei por que nunca parei. Leio-os e mudo o mundo conforme minhas vontades e caprichos: moro de novo no Setor Sul, não trabalho doze horas por dia, meu único compromisso do dia é jogar bola descalço no asfalto com os amigos e meu paraíso particular é um estante com livros ainda não lidos, autores desconhecidos e sentimentos que viverei pela primeira vez. Leio-os e a vida, este emaranhado de caminhos inesperados, esta teia de enganos, volta a ser de novo minha, somente minha, absolutamente minha.

Marcelo Franco é promotor de Justiça.

 

via Revista Bula

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