Traficantes de letras usam drone para lançarem livros dentro de escola, mas alunos não entendem nada

Alguém sugeriu despejar tequila enrustida, colocar fogo naquela coleção medonha ali mesmo e aproveitar o calor da ignorância para derreter alguns marshmallows

Eberth Vêncio
Especial para o Jornal Opção

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À primeira vista, ninguém en­tendeu nada quando aquele pequeno veículo aéreo não tripulado desceu dos céus carregando um pacote suspeito. Quem avisou que tinha um he­licopterozinho engraçado plainando sobre o pátio da escola foi o zelador que, ao contrário daquela legião de quinhentos imaturos em busca de sucesso na vida, não possuía ainda um smartphone com o qual pudesse se manter minimamente conectado ao virtual mundo moderno. Ele gostava mes­mo era de conversar com a garotada, enquanto varria a sujeira que jogavam no chão. “Por que não jo­gam fora notas de 100 reais?”, sonhava lá com seus botões. Por­tan­to, frequentemente, era pego falando sozinho pelos cantos, tido e havido como um homem simplório e muito tolo.

Antes que o tal drone pousasse na quadra de esportes onde ninguém praticava esportes porque tinha que estudar bastante até ficar bitolado o suficiente para o mercado de trabalho, as hipóteses a respeito do conteúdo do pacote misterioso pipocavam. Espionagem dos colégios concorrentes? Esta era a possibilidade que mais incomodava os donos daquele antro didático que tinha um elevado índice de aprovação nos vestibulares e na bolsa de valores. “Uma bomba de chocolate de fabricação caseira?”, arriscou uma aluna gordinha, ao que foi imediatamente bullyingada por mim nesta crônica e humilhada pelos demais convivas, todos nós legítimos fila-da-putas.

Uma câmera oculta, uma pegadinha de mau gosto daquele programa dominical de TV cuja busca frenética pela audiência superava todos os limites da insensatez? O mero tráfico de drogas? Sim, porque alguém tinha lido no jornal — uau! pasmem! — que os traficantes estavam cada vez mais abusados ao utilizarem aqueles moderníssimos artefatos de guerra — os quais tinham sido originariamente concebidos pelos militares tão somente para bisbilhotar, espionar, despejar bombas sobre outros soldados, mulheres e crianças — para introduzir nos presídios drogas, CDs de música popular da pior qualidade, telefones celulares e cascalho para pagar a mesada dos carcereiros.

Quando o inusitado aeromodelo largou o pacote no piso e voou em disparada pelo céu de brigadeiro, a moçada avançou sobre ele, todos curiosos em conhecer o real propósito da invasão de privacidade. O embrulho foi aberto sem a devida precaução que os invólucros não-identificados exigem, e todos ficaram relativamente decepcionados, pois dentro dele havia, nada mais, nada menos, que livros, não livros ordinários, livros quaisquer, mas uma coleção portentosa confeccionada em capa dura feita de couro de burro, composta de clássicos da literatura nacional e mundial.

Grande parte da pálida e abastada matilha escafedeu-se ao notar que a encomenda surpresa não passava de uma pilha de livros usados, todos eles volumosos, uns calhamaços somando certamente mais de 300 páginas cada um, sem ilustrações e, ainda por cima, com as letras miudinhas. Enfim, um porre de leitura que ninguém ali merecia e nem tinha o menor saco para ler, uma espécie de presente de grego em pleno século 21, um suplício aos preguiçosos, um castigo para qualquer jovem antenado aos mais recentes avanços tecnológicos proporcionados pela frivolidade, individualismo e imediatismo das redes sociais, por exemplo.

Adolescentes, vocês sabem, são animaizinhos gozadores, irreverentes e autoconfiantes ao extremo. Alguém sugeriu despejar tequila enrustida, meter fogo naquela coleção medonha ali mesmo e aproveitar o calor da ignorância para derreter alguns marshmallows. Outro mancebo tapado notou que os livros de capa dura de couro de burro eram ferramentas perfeitas para serem utilizadas, senão como peso para evitar que as portas abertas batessem com o vento, como armas brancas para a prática do bullying agressivo, da simples coerção, da ameaça per se, instrumento para baixar o sarrafo nos mais fracos valendo-se da rigidez e do peso daquela literatura ilegível nada palatável. Quer dizer, ao invés de desferirem socos e pontapés, os brutos castigariam suas vítimas, por exemplo, com lambadas de “Ulisses” no lombo.

Um imbecil semi-domesticado, dentre tantos que ali queimavam o dinheiro dos pais, pensou que “A Divina Comédia Humana” de Dante Alighieri, fosse um antigo almanaque de anedotas do Ary Toledo, mas foi advertido pelo equívoco por uma jovenzinha muito tímida que preferiu não se identificar nem para mim, nem para ninguém, a transpirar dúvidas existenciais gravíssimas pelos poros, a qual teria comentado que preferia se empoleirar naquela obra que mais parecia um tijolo de ideias para, então, bater as asas da imaginação e fugir voando daquela escola, daquela casa, daquela vida. Não restava dúvida que se tratava de uma mocinha muito problemática. Só não era mais problemática que a família, célula da sociedade que descuidou dela desde o início.

Os mais comedidos fuçaram na­que­­la bibliografia intrusa, a fim de des­cartar houvesse ali no meio, em­ba­­­ralhado, algum exemplar da Bíblia, pois não poderiam se arriscar em de­ma­sia, ao ponto de incendiarem um li­vro sagrado e serem condenados a quei­marem no inferno, se é que existia mesmo um lugar pior do que aquela escola e o mundo ao seu redor.

Um moleque debochado (há sempre pretensos comediantes a divertirem as turmas) reivindicou para si a posse daquele pequeno amontoado de livros, com o qual poderia facilmente improvisar uma plataforma e enfileirar as colegiais desinibidas, como se fosse uma fila de vacinação, para fornicar com elas, em pé, às pressas, às escondidas, dentro das toaletes, mãozinhas espalmadas contra os azulejos, longe da vigília dos bedéis, a repetirem, de certa forma, os moleques da roça de outros tempos que faziam amor com éguas, bezerras, cabritas e outros bichos que possuíssem uma vagina. Grosseria minha escrever assim, meninas?! Grosso mesmo é que muitos tenham todas as condições socioeconômico para se tornarem seres humanos razoavelmente decentes, para grassarem por esse mundo-de-nem-deus como cidadãos bitolados, incultos e individualistas.

Enfim, a turba de adestrados não se ateve muito ao monte de clássicas inutilidades da literatura universal que foram abandonadas ali mesmo no meio da quadra. O zelador, que de tão desprezado pelas tribos estudantis até parecia um autista, ficou pesaroso em largar aquela enjeitada preciosidade ao sol e ao relento. Então, amarrou os livros na garupa da bicicleta e os levou para casa onde a cadelinha da família acabara de parir sete cachorrinhos muito fofos. Com todo aquele papel caído do céu, ele proveria um assoalho quentinho e duradouro para que os bichinhos esquentassem ali as suas carcaças, mamassem, urinassem, evacuassem e escapulissem vivos, conforme tinha acontecido com ele mesmo.

Eberth Vêncio é escritor e médico.

via Revista Bula

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