O universo que me perdoe, mas o tempo podia passar mais lento

Vem a vida em sua energia secreta e natural, intraduzível e irrevelada, cozinhando devagar suas transformações de cada dia, em silêncio. Conspirando para fazer o nosso tempo passar mais devagar

André Gomes
Especial para o Jornal Opção

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Ê, tempo que passa rápido! De repente, a gente sente que vai-se a juventude, como o domingo que anoitece. De um segundo ao outro, seu filho bebê acorda um moço ousado, lindo, seguro. Assim, num estalo, você sente a saúde frágil e acusa o pavor de um dia faltar aos seus. Então, você tem a impressão de que já entrou na segunda metade da vida e um medo danado congela suas vísceras.

Um sentimento de temor vem cheio de questões armadas de lanças afiadas, como gárgulas voadores avançando sobre o seu pescoço. Por que a vida passa tão depressa? Por que fazer tantos planos se ninguém sabe o dia de amanhã? E se tudo isso acabar agora?
Daí você se dá conta de que tudo, absolutamente tudo está sempre acabando agora. Você pisca e todos desapareceram, a mesa do almoço no domingo em família, o domingo, a família. O clima ameno dos encontros afetuosos, os sorrisos fáceis, a viagem perfeita. Tudo mergulha na sombra tão rapidamente, e você se sente como a criança brincando sozinha no escuro do desamparo.

De súbito, pessoas voltam para o interior de seus parênteses, a mesa e a sala se tornam vazias, o clima manso e os sorrisos viram lembranças.

Por que injustiça suprema e irrefutável os amigos da gente se vão? Por quê? Sim, é certo que tudo na vida uma hora acaba. Tudo passa. Mas, aqui entre nós, algumas coisas podiam passar mais devagar, né?
Mas aí, diante de todas as nossas perguntas, vem Ela, a vida, acompanhada de sua resposta implacável. A vida e sua vantagem soberana sobre a morte. A vida conspirando nas frestas. A vida renascendo, ressurgindo, fazendo e acontecendo. Vem a vida como resposta única para todas as perguntas. Vem a vida. Venha, vida! Chega mais. Chega aí.

Vem chutando alto, nivelando por cima. Vem e nos empurra para a frente. Vem, renasce com o amor superando a distância, vencendo suas demandas. Vem na cura, na escuta, no esforço doloroso da compreensão e do perdão. Vem a vida na criança que nasce gritando sabedoria. Vem em sua potência e seu escândalo, sua força e sua insistência. Vem no medo, no susto e na coragem impercebida de quem os enfrenta pela simples necessidade de seguir vivendo.

A vida vem na poesia de sua fábrica de encontros e desencontros e lembranças e nostalgias. Vem no riso triste da moça, no empenho das formigas, nas boas intenções, no trabalho honesto, na dignidade de cada um, na negação da estupidez, nos pequenos milagres de todos os dias. Vem no arrebatamento das crianças vivendo a manhã de suas vidas. Vem até na solidão.

Vem a vida em sua energia secreta e natural, intraduzível e irrevelada, cozinhando devagar suas transformações de cada dia, em silêncio. Conspirando para fazer o nosso tempo passar mais devagar.

Exuberante, impávida, vem a vida na negação absoluta da maldade, da opressão, da corda no pescoço. Vem a vida, colossal, arrebentando o solo concreto, as paredes, os pilares, explodindo na liberdade pura e simples de cada um de nós. Liberdade a cada um de nós concedida para ser usada como nos convier, no claustro doce da companhia do ser amado ou no desprendimento de escolher andar só.

E, finalmente, Ela vem na consciência plena do desastre inevitável. Vem na certeza irrefutável de que uma hora tudo isso acaba. E só acaba, ora essa, para ter tempo de recomeçar em seguida, como a segunda-feira depois do domingo. É assim que é. Assim vem a vida. Venha, vida. Manda embora nossos medos e nossas angústias. Vem depressa, mas passa devagar. Faz o tempo andar mais lento e prazenteiro, chuviscando seus segundos sobre os seres de boa vontade. Venha, vida. Chega junto. Vem aí.

André Gomes é escritor e publicitário.

via Revista Bula

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Adalberto De Queiroz

Olá, ANDRÉ. Muito bom texto. Lembrei-me de Antonio Tabucchi, em `O Tempo Envelhece Depressa´. “(…) e quem sabe por que viu a imagem de um menino que, pela mão da mãe, volta de uma feira do interior, a feira acabou, é domingo à noite e o menino carrega um balão amarrado no pulso, segurando-o orgulhoso feito um troféu e de repente, pff, o balão murcha, alguma coisa furou o balão, talvez o espinho de uma sebe? Sentiu-se como aquele menino que de repente se via com um balão vazio nas mãos, como se alguém o tivesse roubado, mas não, o… Leia mais