Imprensa
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André Forastieri: autor de artigo sobre os donos às vezes cuidam mal de seus cachorros | Foto: Portal dos Jornalistas/Reprodução[/caption]
O homem, mesmo quando não religioso, matou Deus e postou-se como centro do universo. Deus é apenas uma espécie de instrumento que lhe garante a superioridade e, mesmo, impunidade. Num mundo “humanocêntrico”, as demais espécies são descartáveis. “Salvar” a humanidade significa isto mesmo: “salvar” os homens. As demais espécies merecem um rodapé-obituário na história da ciência.
Uma discussão clássica de como e por quê o homem se tornou o deus da Terra pode ser encontrada no livro “Cachorros de Palha” (Record, 255 páginas), do filósofo inglês John Gray. Trata-se de um ensaio brilhante, sem uma gota de pieguice.
O escritor Jonathan Safran Foer escreveu um livro de não-ficção, “Comer Animais” (Rocco, 319 páginas, tradução de Adriana Lisboa), no qual mostra o que acontece nos frigoríficos e granjas. É difícil não usar a palavra “monstruoso”.
Diante de estudos sérios, como os de John Gray e Safran Foer, só resta dizer que o artigo “Seu cachorro é burro e você é porco”, de André Forastieri, é apenas uma diatribre com o objetivo de provocar polêmica. “O que desprezo é esse monte de donos dos cachorros folgados e porcalhões. Se você quer tratar seu bicho como gente, divirta-se na sua patetice. Quer impingir sua prepotência ao resto de nós, o animal é você”, afirma o jornalista, no artigo publicado no portal R-7.
Imediatamente, organizações que defendem os animais, notadamente cachorros, passaram a cobrar que o artigo fosse excluído do portal. O texto, de fato, é pobre, mas há mesmo proprietários de cachorros que são “folgados” e, admito, “porcalhões”. Ademais, trata-se da opinião do autor. Censurá-lo é de uma estultice das mais primárias. Vive-se numa democracia, no Brasil, mas quase sempre tem alguém sugerindo que o Estado porte-se como ditador.
Os que discordam de André Forastieri devem rebatê-lo, até duramente, mas não devem pedir ou exigir a supressão do artigo. “Minha Luta”, de Adolf Hitler, é um livro deplorável, mas, no lugar de proibir sua circulação, é mais saudável que seja lido e criticado. O mal não desaparece porque o Estado, por meio da censura, o “esconde”.
Não há dúvida de que a principal estrela do “Pop” é a personagem Katteca, criação do Britvs. Dotado de um humor fora de série, usando a ficção para ressaltar a complexidade da realidade (agruras e prazeres) e usando a realidade para sublinhar o que há de ficcional (fantástico) em quase tudo, Britvs, com seu indiozinho esperto e atento às coisas do mundo, puxa os leitores, todos os dias, para seus quadrinhos. Pode-se dizer que, às vezes, o editorial do jornal está na fala da personagem.
Katteca nos faz rir de tudo, do que é cômico e do que é trágico. De algum modo, Britvs nos torna mais saudáveis e suaves ao sugerir que é possível rir não apenas do que é cômico. Porém, mesmo gênios espontâneos, como Britvs, precisam de revisão. (O grande poema “A Terra Devastada”, de T. S. Eliot, foi revisado e, aqui e ali, editado pelo poeta e crítico Ezra Pound. Eliot, criterioso com seus poemas e raramente aceitando críticas, acolheu os comentários de Pound e mudou alguma coisa no mais importante poema do século 20.)
Na quinta-feira, 2, ao realçar que o endividamento dos brasileiros é generalizado e que até os ricos, para manter o padrão de vida, recorrem ao penhor da Caixa Econômica Federal, Britvs — que é e não é o Katteca (a personagem às vezes domina o criador, numa espécie de pacto faustiano) — comete alguns erros, não percebidos pela editora do caderno “Magazine”, Rosângela Chaves. Uma mulher, vestida de azul (noutro quadrinho, o vestido já é lilás), diz: “Minha amiga Clô! Você ainda consegue abaster a sua limousine?” Lógico que “abaster” deve ser trocada por abastecer. Na tentativa de capturar o espírito dos emergentes, Britvs faz a senhora rica dizer que esteve no Nordeste, em Paris, na Suíça, em Londres e em “New York” (no Brasil, costuma-se dizer Nova York, ou Nova Iorque; é provável que os novos ricos digam “New York”). Há pelo menos dois problemas nos quadrinhos. Primeiro, Britvs escreve “depois de conhecer, Paris”.
Entre conhecer e Paris não há vírgula. Segundo, ao arrolar a Suíça — e não Zurique ou Berna —, entre Paris, Londres e Nova York, fica-se com a impressão de que o criador considera o país como se fosse uma cidade. Mas talvez a Suíça surja, aí, como uma dissonância e um sinal de que os ricos têm dinheiro fora do país (os brasileiros parecem acreditar que só se deposita dinheiro de corrupção ou narcotráfico na Suíça ou em certos paraísos fiscais). Em seguida, Britvs põe a personagem para dizer: “O que mais amei foi Cancún!” — possivelmente para realçar sua perspectiva de nova rica.
Numa espécie de diálogo — talvez dois monólogos, pois as duas personagens praticamente não se comunicam —, a amiga da nova rica diz: “Aah, que inveja! Mas você é poderosa né, amiga?”. Britvs é o típico autor que tem facilidade para expor a linguagem oral, para transcrevê-la com fidelidade. O “aah” pode parecer, mas talvez não seja erro. Ao acrescentar um “a”, o autor tem a intenção de ressaltar o “ah”. Mas o texto na sequência ficaria mais preciso assim, com o acréscimo de uma vírgula: “Mas você é poderosa, né, amiga?”
O fecho dos quadrinhos é divertido. Depois de dizer que a vida vai bem, com limusine abastecida e viagens para o exterior, a sra. rica corre, com seu cachorrinho bem tosado, para a fila de penhores da Caixa.
Fica um breve comentário: alguns jornalistas e cartunistas têm preconceito de classe contra os ricos, sempre procurando desmerecê-los, avaliando que suas fortunas não foram adquiridas honestamente? É possível. Não é mais adequado combater a pobreza — não os pobres — do que a riqueza? Por que tratar os ricos como “bandidos” e os pobres, como “santos”? São duas reduções que ajudam a compreender a pobreza e a riqueza dos indivíduos e povos? Provavelmente contribuem para aumentar a incompreensão da complexidade do real.
Na quinta-feira, 2, o “Pop” publicou uma reportagem precisa sobre a derrota do Goiás para o Emelec por 1 a 0. Raphaela Ferro, mostrando que entende mesmo de futebol, fez um retrato preciso da partida. A repórter frisa que graças ao goleiro Renan a vitória do time equatoriano não foi mais elástica. Há um problema, minúsculo, porque, na verdade, a jornalista está interpretando, e não sugerindo que isto aconteceu exatamente: “Na oportunidade que Mondaini teve, pouco depois, Renan tremeu, mas o atacante mandou para fora”. Vendo o jogo pela TV e sem entrevistar o jogador, como Raphaela pôde perceber que ele tremeu? “O Hoje” publicou reportagem, assinada pelo experimentado Edivaldo Barbosa. Há um problema. O repórter diz que Jordan Plata (o “Pop” escreve Jordan Jaime, como os jornais equatorianos) “fraturou a perna direita” e, em seguida, informa que “quebrou o pé”. O jornal equatoriano “El Comercio” informa que o jogador de 19 anos fraturou o pé direito. O “Pop” diz que ele fraturou “o pé”, como se tivesse apenas um pé. O “Pop” assinala que o gol ocorreu aos 42 minutos do segundo tempo. “O Hoje” garante que o gol foi feito aos 41 minutos. Já o leitor do “Diário da Manhã” ficou a ver navios. O jornal não deu uma linha sobre o jogo e, mesmo, sobre o resultado. Optou por publicar reportagens frias sobre Vila Nova e Atlético, ignorando a principal notícia do dia e sobre o time mais importante do Estado no momento, que está disputando a Copa Sul-Americana.
Jornais começam a especular sobre a possibilidade de o compositor e cantor Bob Dylan ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. O pai da psicanálise, Sigmund Freud, dono de um texto primoroso, também quis ganhar o Nobel de Literatura. Levou o Prêmio Goethe, também importante, mas sem o renome da premiação da Academia Sueca.
Bob Dylan merece mesmo ganhar o Nobel de Literatura? Talvez sim, se não estivessem na fila Ferreira Gullar, Philip Roth, Adonis, Joyce Carol Oates, António Lobo Antunes, Don DeLillo, Thomas Pynchon, Richard Ford, Milan Kundera, entre outros.
“Contagem Regressiva — A Nossa Última e Melhor Esperança Para um Futuro na Terra” (Leya, 569 páginas, tradução de Alice Klesc), de Alan Weisman, é um livro inquietante, mas, como sugere o título, esperançoso.
A editora diz que, “para escrever 'Contagem Regressiva', o autor Alan Weisman viajou para mais de 20 países para perguntar a especialistas quais seriam as questões mais importantes a respeito da Terra — e também as mais difíceis —, quantos seres humanos o planeta suportará sem uma desolação? Quão robusto deve ser o ecossistema da Terra para garantir a nossa existência? Podemos identificar quais outras espécies são essenciais para a nossa sobrevivência? Além disso, como podemos realmente chegar a uma população ideal e estável e projetar uma economia que permita uma prosperidade legítima sem crescimento desordenado?”
Segundo release da Leya, “Weisman visitou uma extraordinária variedade de culturas, religiões, nações, tribos e sistemas políticos para descobrir o que, em suas crenças, histórias ou circunstâncias atuais pode indicar que, às vezes, é para benefício próprio limitar o crescimento populacional. O resultado é um relato devastador, urgente e profundamente esperançoso”.
Diógenes Albuquerque, de 26, matou Simone da Silva, 28 anos, e, ferido nas nádegas, foi levado para o Hospital de Urgências de Goiânia. Mesmo algemado, fugiu duas vezes. É uma história que Kafka adoraria transpor para um conto. Na primeira página de sexta-feira, 3, o “Pop” publicou: “Preso foge duas vezes do Hugo e é recuperado”. “Recuperado”, diria Flaubert, não é a palavra precisa, justa.
Patrícia Galvão ficou famosa (depois, desapareceu) porque, além de escrever um romance proletário (“Parque Industrial”), foi mulher de Oswald de Andrade, o mais irreverente dos poetas da Semana de Arte Moderna de 1922. O livro “Pagu — Vida e Obra” (Companhia das Letras, 424 páginas), organizado pelo poeta e crítico Augusto de Campos, ajuda a compreendê-la. É um relançamento.
O livro foi lançado primeiramente pela Editora Brasiliense, em 1982. A Edição da Companhia das Letras é revista e ampliada, incluindo novos textos e dezenas de fotografias e ilustrações.
As empresas de comunicação continuam demitindo. Nos Estados Unidos, seu mais importante jornal, o “New York Times”, fez 100 demissões na redação. No Brasil, o jornal “Lance” afastou 65 funcionários (de todas as áreas), 37 deles no Rio de Janeiro (metade da equipe, segundo o Portal dos Jornalistas). A ESPN Brasil também fez demissões. Há uma crise na imprensa? A redução de custos pouco tem a ver com crise, e sim com a tentativa de elevar a lucratividade das empresas.
Há um livro magnífico chegando às livrarias e que merece amplo debate. Muito bem escrito e pensado, “Césio-137: O Drama Azul — Irradiação em Narrativas” (Fapes/Cânone Editorial, 196 páginas), da antropóloga Suzane de Alencar Vieira, com mestrado pela Unicamp, será lançado na quarta-feira, 8, às 18 horas, na Livraria Nobel, no Shopping Bougainville.
Produto de uma dissertação de mestrado defendida na Unicamp, o livro é apresentado pelos professores-doutores Maria Suely Kofes e Márcio Seligmann-Silva.
Em 2010, o Congregação para a Doutrina da Fé inocentou o religioso e o Vaticano concedeu-lhe o prêmio Evangelizador Moderno
Cordula Schacht, filha do ministro da economia de Adolf Hitler, Hjalmar Schacht, “herdou”, relata o jornal espanhol “ABC”, “os direitos dos escritos de [Joseph] Goebbels do falecido banqueiro suíço François Genoud, um nazista confesso que financiou a defesa jurídica de Adolf Eichmann, considerado como chefe logístico do Holocausto”. Como inventariante da obra de Goebbels, Cordula exige indenização da editora Random House, porque uma de suas biografias do nazista-chefe da propaganda do governo nazista citou seus diários sem autorização. Talvez seja “Joseph Goebbels — Uma biografia” (editada pela Random House), de Peter Longerich, tida como a mais exaustiva e precisa. “Joseph Goebbels — Life and Death” (inédita em português), de Toby Thacker, apontado como um estudo de qualidade, foi editada pela Palgrave USA-Macmillan. A reportagem informa que o livro saiu em 2010 (a de Thacker saiu em 2009, na Inglaterra).
A Justiça de Munique acolheu a reclamação de Cordula, intimou a Random House para apresentar sua defesa, mas ainda não decidiu se a editora terá de pagar alguma quantia em dinheiro à testamenteira. A polêmica sobre direitos autorais, se um livro pode citar trechos de outros livros sem autorização, está esquentando na Alemanha. Porque, se a Justiça decidir a favor de Cordula, isto pode prejudicar a maioria dos estudos históricos.
Cordula quer receber 6.507,87 euros pela citação supostamente indevida dos diários de Goebbels. O assessor jurídico a Random House, Rainer Dresen, afirma que a editora não tem intenção de pagar, possivelmente para não abrir precedente. O advogado frisa que as citações dos diários não configura crime, porém, se a Justiça condenar a editora, está atentando contra as pesquisa historiográficas, que é feita, em larga medida, de citações de outras obras históricas, diários, cartas e outros documentos.
O “Pop” continua a perder seus repórteres mais experientes. Agora, depois de quase 19 anos de redação, sai Carla Borges, uma de suas mais brilhantes profissionais. Ela pediu demissão, em caráter irrevogável.
Carla Borges continua como assessora de imprensa da Associação Goiana do Ministério Público e foi sondada para editar o online de um jornal semanário.
Uma das notícias mais importantes do ano, em termos de livros sobre o Holocausto (e Segunda Guerra Mundial), saiu, meio escondida, na coluna “Babel”, do jornal “O Estado de S. Paulo”, sobre o título de “História — Estudo fundamental”. A nota contém 11 linhas, mas o assunto merecia uma ou duas páginas. A Editora Amarilys vai lançar um portento, em 2015, em volume único: o livro “A Destruição dos Judeus Europeus”, do historiador austríaco Raul Hilberg (1926-2007), estranhamente apontado como “americano” pelo jornal paulista (morou e morreu nos Estados Unidos, mas isto não o transforma em americano).
O cartapácio de Raul Hilberg, publicado em 1961, é a obra-prima sobre o Holocausto, praticamente a matriz de todos os livros publicados posteriormente. Não é possível, a nenhum pesquisador do tema, contornar seu trabalho exaustivo e, impressionante, solitário. Raul Hilberg reuniu uma quantidade de dados surpreendente, num tempo sem internet e Google, e escreveu o livro basilar sobre o Shoah. Se se pode falar com certeza que o nazismo assassinou entre 5,1 milhões e 6 milhões de judeus, nos e fora dos campos de concentração, isto se deve, em larga medida, à pesquisa detalhada, crível e ponderada de Raul Hilberg.
Por ser extremamente cuidadoso com os fatos, e por não ser dado a certas filosofices, Raul Hilberg não tinha muito apreço pela filósofa alemã Hannah Arendt, que às vezes usava sua pesquisa, mas sem citá-la devidamente. Dos fatos, apresentados com rigor e relativa cautela, o historiador arrancou interpretações poderosas. Porém, sem forçá-los indevidamente para sustentar “conclusões prévias”.
O livro de Raul Hilberg talvez possa ser considerado uma espécie de Google da história do Holocausto. Uma verdadeira bíblia. A Amarilys, ótima editora, estará colocando nas livrarias possivelmente o maior lançamento histórico de 2015. Evoé.
[Uma informação curiosa: quando deixou a Europa, para pesquisar e dar aulas nos Estados Unidos, Raul Hilberg ficou impressionado com a tradição dos americanos de se processarem pelos motivos mais fúteis possíveis.]
Comercializando livros com preços mais baixos, a Amazon contribuiu para a falência de livrarias e crise de editoras nos Estados Unidos, mas reinventou a leitura, com o Kindle, e agora deve mexer com a acomodação das livrarias e editoras brasileiras. Entrega rápida de produtos é um de seus principais trunfos
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Jeff Bezos, o empresário que criou a Amazon, agora é dono do Washington Post e tem uma fortuna de mais de 25 bilhões de dólares[/caption]
Recentemente, adquiri “Um Homem Torturado — Nos Passos de Frei Tito de Alencar” (Civilização Brasileira, 418 páginas), de Leneide Duarte-Plon e Clarisse Meirelles. Pedido no site da Livraria Cultura, o livro demorou mais de um mês para chegar. Entrei em contato por e-mail e recebi a seguinte explicação: “Referente ao pedido 5412340, informamos que houve um atraso no processo logístico ao faturar o item. Porém o item se encontra em posse de nosso prestado que estará efetuado a entrega em breve. Por esse motivo nós lhe devolveremos o valor pago no frete de R$ 6,15” (transcrevo sem corrigir os erros de português). Ressalvo que a Cultura é a livraria que trata o cliente com mais respeito no Brasil e tem um dos maiores acervos, inclusive comercializa livros de editoras menores que não são colocados nas estantes das demais livrarias. A livraria virtual Amazon, recém-instalada no País, promete atender o cliente rapidamente e com preços mais baixos. “A habilidade da Amazon de entregar produtos com eficiência e dentro de prazos precisos lhe deu uma clara vantagem competitiva sobre seus rivais”, afirma o jornalista Brad Stone, no livro “A Loja de Tudo — Jeff Bezos e a Era da Amazon” (Intrínseca, 398 páginas, tradução de Andrea Gottlieb). A empresa, que faturou 62 bilhões de dólares em 2012 — seu 17º ano de operação —, foi financiada, inicialmente, com 10 mil dólares de Bezos. A Amazon é um vírus insidioso que, depois de penetrar no sistema de defesa do mercado, não sai mais, contaminando tudo. Livrarias e editoras brasileiras que fiquem muitas atentas com uma empresa que se considera “missionária”, mas é apontada como “mercenária”. Seus dirigentes não têm pudor algum de destruir concorrentes.
O romance “O Pintassilgo” (Companhia das Letras, 719 páginas, tradução de Sara Grünhagen), de Donna Tartt, custa R$ 36,90 na Amazon (o preço varia durante a semana). Na Livraria Cultura, em São Paulo, e nas livrarias de Goiânia custa R$ 49,50. São R$ 12,60 a menos no site da Amazon (o qual informa, errado, que o livro é de Donna Tartt e de Sara Grünhagen, mas esta não é a autora, e sim a tradutora).
No Brasil, por enquanto, a Amazon é “apenas” uma livraria virtual, mas, nos Estados Unidos, vende quase tudo, como DVDs, músicas, roupas, equipamentos eletrônicos. “Queremos ser o lugar onde uma pessoa encontra e descobre tudo que quer comprar”, afirma Bezos (sobrenome cubano, pronuncia-se “Bei-zos”, e não “Bi-zos”). Sobretudo, é uma empresa guerreira, selvagem, predadora. É uma espécie de Al-Qaeda das livrarias. Onde se instala deixa um rastro de destruição, com livrarias quebradas e funcionários desempregados. Sob sua hegemonia, várias livrarias físicas fecharam as portas nos Estados Unidos. “Durante os anos 1990, a Borders fundou livrarias imensas em shopping centers por todo o território norte-americano e em Cingapura, na Austrália e no Reino Unido, entre outros países, passando de 224,8 milhões de dólares em vendas em 1992 para 3,4 bilhões em 2002. A rede fechou em 2011, demitindo 10.700 funcionários”, afirma Brad Stone. Culpa só da empresa de Bezos? Não. A Borders não soube investir no comércio virtual, perdendo novos e sendo abandonada por velhos consumidores de livros.
Como empresário, Bezos é de uma agressividade que espanta capitalistas ortodoxos, como os dirigentes do hipermercado Walmart, que chegaram a processá-lo. Quando o romance “Harry Potter e o Cálice de Fogo” foi lançado, “a Amazon ofereceu 40% de desconto na compra do livro e entrega expressa [mais rápida], para que os consumidores o recebessem no sábado, 8 de julho [de 2000] — dia do lançamento —, pelo mesmo custo da entrega comum. A Amazon perdeu alguns dólares em cada um dos 255 mil pedidos. Mas Bezos se recusou a ver essa ‘jogada’ como qualquer outra coisa que não uma forma de conquistar fidelidade do consumidor”.
No Brasil, a Amazon está comprando livros patrocinados pelas livrarias Cultura e Saraiva por um preço mais elevado e vendendo por preços menores, com prejuízo. Alega que está conquistando e fidelizando clientes. Onde comprar mais barato? Aos poucos, os consumidores, no lugar de consultar outros sites, irão direto ao site da Amazon. A tese de Bezos, segundo Brad Stone, é ter “preços baixos todos os dias”. A palavra do empresário: “Existem dois tipos de vendedores: os que trabalham para descobrir como cobrar mais e os que trabalham para descobrir como cobrar menos, e nós seremos o segundo, ponto final”. Ao executivo Steve Kessel, Bezos recomendou: “Quero que você aja como se sua meta fosse deixar todos aqueles que vendem livros físicos desempregados”. O consumidor aprova suas táticas de vender mais barato a qualquer custo e sua entrega de produtos, em geral, veloz.
Dois “segredos” da Amazon são contratar os melhores profissionais do mercado, pagando-os bem, e exigir agressividade extrema e otimismo realista em tempo integral. Quem hesita, ante metas ambiciosas, é expurgado da empresa, sem dó, piedade ou agradecimento. Bezos considera que a Amazon, mais do que uma livraria, é uma empresa de tecnologia. Tanto que, em 2007, lançou o Kindle, mudando a forma de se ler e ter acesso a livros. Antes disso, no final dos anos 1990, ele vaticinou: “Acredito firmemente que em algum momento a grande maioria dos livros será publicada em formatos eletrônicos”. E sugeriu que era fundamental “dominar o negocio dos e-books”. “Não queremos ser a Kodak”, sublinhou.
Qual o título adequado para Bezos? O empresário aprecia ser qualificado de “rei do comércio eletrônico” e a Amazon é vista como “a loja de tudo” ou “a superloja que domina a internet”.
Por que, exatamente, a Amazon derrotou gigantes como a Barnes & Noble e a Borders? Seus adversários citam a “agressividade”, táticas antes vistas como suicidas — vender com prejuízo, num primeiro momento — e atos que consideram “ilegais”, mas, na prática, típicos do capitalismo, que é predatório em qualquer época e lugar. Eles têm razão, mas não podem ignorar a competência e a disposição de Bezos para criar novas áreas de atuação. “A página da empresa continha milhões de títulos, e não apenas os cerca de 150 mil encontrados nas prateleiras de megalojas da Barnes & Noble. Ao contrário dos varejistas tradicionais, ela devolvia poucos livros não vendidos — muitas vezes menos de 5%. As grandes redes de livrarias regularmente devolviam 40% dos livros que haviam adquirido das editoras e obtinham um ressarcimento total, um acordo único no varejo.”
Paralelamente à batalha contra as livrarias físicas, que perderam terreno, a Amazon passou a cutucar as principais editoras. “A Amazon usou uma abordagem agressiva com as editoras. Ela exigiu ajustes com descontos maiores em compras grandes, períodos mais longos para pagar suas contas e acordos de envio que serviriam para aumentar os descontos da Amazon. As editoras que não aceitavam essas condições eram ameaçadas de ter seus livros retirados do sistema automático de personalização e recomendação do site, o que significava que eles não seriam mais sugeridos aos clientes”, relata Brad Stone. Aí as vendas das editoras caíam, porque a Amazon era e é a maior vendedora de livros dos Estados Unidos. “As editoras ficaram chocadas. A empresa, antes vista como um contraponto bem-recebido pelas redes, agora representava constantemente novas exigências.” Uma delas, a principal, eram preços mais baixos. As livrarias e editoras brasileiras vão sentir o poder de pressão da Amazon aos poucos. Por enquanto, seus dirigentes, interessados num mercado gigante, estão tateando o terreno. Depois, conhecida a área, com o time inteiramente em campo, as pressões vão ser intensas e, até, monopolistas. Os preços mais baixos, com diferenças que impressionam, começam a incomodar sobretudo as livrarias físicas, como Cultura, Saraiva e Fnac (que é mais uma loja de departamentos do que livraria; em Goiás, na área de livros, seu atendimento é o pior, muito atrás da Leitura e da Saraiva). Editoras como Record e Companhia das Letras, gigantes locais, certamente vão “sofrer”, a médio prazo, nas mãos da Amazon. São empresas físicas, com despesas físicas, disputando com uma empresa que, apesar de ter parte de seu empreendimento físico, é, no geral, virtual, com custo de manutenção menor.
A primeira grande guerra da Amazon foi com as divisões europeias da Random House, da Hachette e da Bloomsbury. A empresa de Bezos decidiu boicotá-las. O executivo Randy Miller admite: “Fiz tudo que pude para acabar com o desempenho delas”. “Ele aumentou o valor de alguns livros do catálogo para o preço integral e os retirou do mecanismo de recomendações do site; em alguns casos, como no dos guias de viagem, ele passou a promover títulos semelhantes de concorrentes”, conta Brad Stone.
A “briga de facas”, no dizer de Sloan Harris, com a Macmillan deixou o mercado estupefato com a virulência da Amazon. Como a Macmillan não aceitou os termos do negócio de e-books, Bezos mandou retirar o anúncio de seus livros do site. A Amazon só cedeu, algumas vezes, sob pressão, sobretudo quanto processada judicialmente (na Europa — Alemanha e Franca — enfrenta uma verdadeira batalha jurídica com editoras e livrarias). A própria empresa processou editoras e a Apple, acusando-as de estarem “envolvidas numa conspiração ilegal para fixar os preços dos e-books”. Porém, antes do acordo com a Apple, algumas editoras já atrasavam a entrega de livros para a Amazon.
O jogo era e é brutal, sem meias medidas. “As sessões de persuasão da Amazon às editoras eram seguidas por ameaças. Editoras que não digitalizassem um parcela aceitável de seus catálogos ou não o fizessem rápido o bastante eram informadas de que corriam o risco de perder sua posição de destaque nos resultados de busca do site e nas recomendações da companha para os clientes”, assinala Brad Stone. A Amazon passou até a publicar best sellers para tentar reduzir o poder das editoras.
Com os livros digitais, a Amazon partiu, de vez, para cima das editoras. Sem nenhuma pesquisa, apostando puramente na intuição, Bezos definiu um preço — 9,99 dólares — para os livros digitais e lançamentos. As editoras estrilaram e as livrarias não puderam, de imediato, competir em igualdade de condições. “Os consumidores são inteligentes, e achamos que eles esperariam e mereceriam livros digitais com preços inferiores aos dos livros físicos”, diz Steve Kessel.
Chegada do Kindle
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Livro mostra que Jeff Bezos, o chefão, faz investimentos que darão prejuízo mas pensando
em fidelizar o consumidor[/caption]
Bezos, para quem o Céu é o limite, quer sempre mais (investe até em pesquisa espacial e comprou, há pouco, o “Washington Post”, o jornal que contribuiu, de maneira decisiva, para a renúncia do presidente Richard Nixon, dos Estados Unidos, em 1974), e investe pesado em tecnologia, sem receio de a empresa ter de lidar com prejuízos.
Em novembro de 2007, depois de investir milhões de dólares e contratando cientistas das melhores universidades e de empresas de criação tecnológica, Bezos apresentou o Kindle. Brad Stone frisa que “a concorrência foi pega de surpresa pelo sucesso do Kindle”, que facilitava a leitura dos livros digitais. A livraria Barnes & Noble avaliou que seria um fracasso e deu-se mal. “A inovação tecnológica causou problemas terríveis à companhia e à indústria como um todo. Ninguém foi mais afetado do que as editoras”, destaca Brad Stone.
As livrarias foram brutalmente atingidas. Em 2007, enquanto a rede gigante de livrarias Barnes & Noble faturou 5,4 bilhões, a Amazon faturou 14,8 bilhões.
Ao final das guerras entre o capitalismo supersônico da Amazon e o capitalismo retardatário de editoras e livrarias, quem for competente, especialmente se não ficar criando e fortalecendo a figura do bicho-papão, vai sobreviver. A excelente Cultura, a mais qualificada livraria do País, dificilmente sucumbirá.
Do ponto de vista dos consumidores, dos leitores, o Kindle foi uma revolução. “O Kindle 2” pode “facilmente ser considerado o dispositivo que revolucionou o ramo de publicação e modificou a forma como as pessoas do mundo inteiro leem livros. A Amazon tinha 90% do mercado de leitura digital.” Caiu, em 2012, para 60%.
Rio Amazonas
Bezos não aprecia estabelecer vínculos pessoais com seus profissionais, mas procura motivá-los para render o máximo possível. Grita, berra e demite a rodo. Funcionários que erram com frequência são demitidos porque o empresário avalia que continuarão errando. Ele sustenta a tese de que seus funcionários estão na Amazon para contribuir para o seu desenvolvimento e expansão — não para aprender, não para estagiar. Uma empresa de ponta, altamente competitiva, não é um centro de filantropia. O critério para conquistar os melhores profissionais do mercado? Pagar bem. Ele detesta “bonzinhos” e “medíocres”. Quando está se repetindo, quando não está criando, tira um período sabático e volta revigorado. Ele praticamente obriga seus melhores executivos a lerem e a ficarem atentos aos bons livros.
O nome Amazon naturalmente tem a ver com o Brasil. “No ano de 1994, Bezos procurou no dicionário todas as palavras que começavam com a letra A e teve uma epifania ao chegar à palavra ‘Amazon’. O maior rio da Terra; a maior livraria da Terra.” O site entrou no ar em julho de 1995. Bezos tem uma fortuna avaliada em 25 bilhões de dólares. A empresa faz 20 anos em 2015.
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Kim Phuc, vietnamita de 9 anos, corre, queimada por Napalm: a foto chocou e comoveu o mundo e ajudou a pôr um fim à Guerra do Vietnã[/caption]
Leitores perguntam, com certa insistência, se aprovo a divulgação de vídeos escandalosos e de vídeos que chamam de “sádicos”.
Entre os escandalosos estão os que expõem pessoas nuas, famosas ou não, ou, às vezes, mantendo relações sexuais.
Se o próprio indivíduo expõe os vídeos, não faço nenhum reparo. É seu direito. Porém, se o vídeo foi “roubado” e é exibido contra a vontade da pessoa, aí oponho-me à sua divulgação. Trata-se, a vulgarização, de um crime.
No caso dos vídeos que os leitores denominam de “sádicos” — as imagens de um tigre matando um jovem e de um terrorista decapitando um jornalista —, nada tenho contra a divulgação.
O vídeo do tigre, comecei a ver e, rapidamente, desisti. Sugiro, portanto, que as pessoas façam suas escolhas, como fiz a minha, mas não proponho qualquer censura. Um alerta — “este vídeo contém cenas fortes” — talvez seja apropriado. A ressalva é que um aviso deste tipo serve mais como incentivo.
O vídeo de um jornalista sendo decapitado, por lamentável e chocante que seja, é informação, um fato. É importante, mesmo para quem não queira vê-lo, saber o que os terroristas do Estado Islâmico fazem com inocentes. É possível sugerir que sua divulgação maciça contribui para que seja aceita a violência americana no Iraque, e não apenas contra terroristas. Quando militares dos Estados Unidos atacam esconderijos terroristas, no Iraque ou em outros países, eventualmente centenas de inocentes também morrem. A maioria não está envolvida diretamente na guerra, embora muitos sejam usados como “escudos” por terroristas.
A foto da menina vietnamita Kim Phuc, de 9 anos, correndo nua e queimada, na Guerra do Vietnã (militares americanos jogaram napalm), contribuiu, em larga medida, para que o mundo condenasse a ação dos Estados Unidos e para acelerar o fim da batalha. A foto é chocante, permanece explosiva, mas quem pode sublinhar que sua publicação não foi relevante?
Veja vídeo com cenas de jornalistas que foram decapitados:
https://www.youtube.com/watch?v=9soEUzx-Q5A

