kateca0001Não há dúvida de que a principal estrela do “Pop” é a personagem Katteca, criação do Britvs. Dotado de um humor fora de série, usando a ficção para ressaltar a complexidade da realidade (agruras e prazeres) e usando a realidade para sublinhar o que há de ficcional (fantástico) em quase tudo, Britvs, com seu indiozinho esperto e atento às coisas do mundo, puxa os leitores, todos os dias, para seus quadrinhos. Pode-se dizer que, às vezes, o editorial do jornal está na fala da personagem.

Katteca nos faz rir de tudo, do que é cômico e do que é trágico. De algum modo, Britvs nos torna mais saudáveis e suaves ao sugerir que é possível rir não apenas do que é cômico. Porém, mesmo gênios espontâneos, como Britvs, precisam de revisão. (O grande poema “A Terra Devastada”, de T. S. Eliot, foi revisado e, aqui e ali, editado pelo poeta e crítico Ezra Pound. Eliot, criterioso com seus poemas e raramente aceitando críticas, acolheu os comentários de Pound e mudou alguma coisa no mais importante poema do século 20.)

Na quinta-feira, 2, ao realçar que o endividamento dos brasileiros é generalizado e que até os ricos, para manter o padrão de vida, recorrem ao penhor da Caixa Econômica Federal, Britvs — que é e não é o Katteca (a personagem às vezes domina o criador, numa espécie de pacto faustiano) — comete alguns erros, não percebidos pela editora do caderno “Magazine”, Rosângela Chaves. Uma mulher, vestida de azul (noutro quadrinho, o vestido já é lilás), diz: “Minha amiga Clô! Você ainda consegue abaster a sua limousine?” Lógico que “abaster” deve ser trocada por abastecer. Na tentativa de capturar o espírito dos emergentes, Britvs faz a senhora rica dizer que esteve no Nordeste, em Paris, na Suíça, em Londres e em “New York” (no Brasil, costuma-se dizer Nova York, ou Nova Iorque; é provável que os novos ricos digam “New York”). Há pelo menos dois problemas nos quadrinhos. Primeiro, Britvs escreve “depois de conhecer, Paris”.

Entre conhecer e Paris não há vírgula. Segundo, ao arrolar a Suíça — e não Zurique ou Berna —, entre Paris, Londres e Nova York, fica-se com a impressão de que o criador considera o país como se fosse uma cidade. Mas talvez a Suíça surja, aí, como uma dissonância e um sinal de que os ricos têm dinheiro fora do país (os brasileiros parecem acreditar que só se deposita dinheiro de corrupção ou narcotráfico na Suíça ou em certos paraísos fiscais). Em seguida, Britvs põe a personagem para dizer: “O que mais amei foi Cancún!” — possivelmente para realçar sua perspectiva de nova rica.

Numa espécie de diálogo — talvez dois monólogos, pois as duas personagens praticamente não se comunicam —, a amiga da nova rica diz: “Aah, que inveja! Mas você é poderosa né, amiga?”. Britvs é o típico autor que tem facilidade para expor a linguagem oral, para transcrevê-la com fidelidade. O “aah” pode parecer, mas talvez não seja erro. Ao acrescentar um “a”, o autor tem a intenção de ressaltar o “ah”. Mas o texto na sequência ficaria mais preciso assim, com o acréscimo de uma vírgula: “Mas você é poderosa, né, amiga?”

O fecho dos quadrinhos é divertido. Depois de dizer que a vida vai bem, com limusine abastecida e viagens para o exterior, a sra. rica corre, com seu cachorrinho bem tosado, para a fila de penhores da Caixa.

Fica um breve comentário: alguns jornalistas e cartunistas têm preconceito de classe contra os ricos, sempre procurando desmerecê-los, avaliando que suas fortunas não foram adquiridas honestamente? É possível. Não é mais adequado combater a pobreza — não os pobres — do que a riqueza? Por que tratar os ricos como “bandidos” e os pobres, como “santos”? São duas reduções que ajudam a compreender a pobreza e a riqueza dos indivíduos e povos? Provavelmente contribuem para aumentar a incompreensão da complexidade do real.