Uma das notícias mais importantes do ano, em termos de livros sobre o Holocausto (e Segunda Guerra Mundial), saiu, meio escondida, na coluna “Babel”, do jornal “O Estado de S. Paulo”, sobre o título de “História — Estudo fundamental”. A nota contém 11 linhas, mas o assunto merecia uma ou duas páginas. A Editora Amarilys vai lançar um portento, em 2015, em volume único: o livro “A Destruição dos Judeus Europeus”, do historiador austríaco Raul Hilberg (1926-2007), estranhamente apontado como “americano” pelo jornal paulista (morou e morreu nos Estados Unidos, mas isto não o transforma em americano).

O cartapácio de Raul Hilberg, publicado em 1961, é a obra-prima sobre o Holocausto, praticamente a matriz de todos os livros publicados posteriormente. Não é possível, a nenhum pesquisador do tema, contornar seu trabalho exaustivo e, impressionante, solitário. Raul Hilberg reuniu uma quantidade de dados surpreendente, num tempo sem internet e Google, e escreveu o livro basilar sobre o Shoah. Se se pode falar com certeza que o nazismo assassinou entre 5,1 milhões e 6 milhões de judeus, nos e fora dos campos de concentração, isto se deve, em larga medida, à pesquisa detalhada, crível e ponderada de Raul Hilberg.

Por ser extremamente cuidadoso com os fatos, e por não ser dado a certas filosofices, Raul Hilberg não tinha muito apreço pela filósofa alemã Hannah Arendt, que às vezes usava sua pesquisa, mas sem citá-la devidamente. Dos fatos, apresentados com rigor e relativa cautela, o historiador arrancou interpretações poderosas. Porém, sem forçá-los indevidamente para sustentar “conclusões prévias”.

O livro de Raul Hilberg talvez possa ser considerado uma espécie de Google da história do Holocausto. Uma verdadeira bíblia. A Amarilys, ótima editora, estará colocando nas livrarias possivelmente o maior lançamento histórico de 2015. Evoé.

[Uma informação curiosa: quando deixou a Europa, para pesquisar e dar aulas nos Estados Unidos, Raul Hilberg ficou impressionado com a tradição dos americanos de se processarem pelos motivos mais fúteis possíveis.]