Imprensa
Uma coisa é certa: se o “Washington Post” tivesse ombudsman entre 1972 e 1974, a maioria das reportagens de Bob Woodward e Carl Bernstein teria sido vetada e o presidente Richard Nixon não teria renunciado em 1974. Quando começou a publicar as reportagens do Caso Watergate, a dupla de jornalistas não tinha segurança integral de que estava no rumo certo e que seus indícios eram consistentes. Mesmo assim, com incentivo do editor Ben Bradlee e da proprietária do jornal, Katharine Graham, seguiram em frente e, pouco a pouco, com acesso a documentos e fontes mais confiáveis, conseguiram estabelecer, de maneira inequívoca, a relação entre o arrombamento do escritório do Partido Democrata, no edifício Watergate, e o presidente Richard Nixon. Em assuntos intricados, como o Caso Watergate e a corrupção sistêmica na Petrobrás, é muito difícil, senão impossível, ter todos os detalhes explicitados, com provas cabais, em uma ou mesmo em várias reportagens. Se os jornais e as revistas forem esperar o detalhamento do chamado Petrolão, a partir da conclusão da Justiça, o caso, além de ser esquecido, jamais será esclarecido integralmente. Ou alguém duvida que sem as denúncias publicadas pela imprensa — numa escalada —, na primeira metade da década de 1990, Fernando Collor teria sofrido impeachment? Sem as várias reportagens de jornais, como “Folha de S. Paulo”, “Estadão” e “O Globo”, e de revistas, como “Veja”, “Época” e “IstoÉ”, o mensalão teria avançado e seus articuladores teriam sido presos? Às vezes a imprensa precisa “puxar” e “esticar” determinadas denúncias, apresentando e costurando pontas, para que a sociedade — incluindo polícias, Ministério Público e Justiça — reaja de maneira exemplar. O jornalismo sugerido pelos ombudsmen é acadêmico e, até, bonitinho. Mas repórteres que são escalados para investigar de fato, para escarafunchar a lama de certos políticos, executivos e empresários, sabem que este tipo de jornalismo róseo não investiga nem denuncia nada. Ombudsmen não são “auxiliares” infalíveis de Deus e suas opiniões são tão questionáveis quanto as de quaisquer outros jornalistas. Não é uma voz neutra, isenta.
As notícias de que 2015 não será um ano dos melhores, acredita-se que será um dos piores, estão levando as empresas de comunicação a demitirem profissionais. A “Folha de S. Paulo” demitiu entre 13 e 15 jornalistas, entre eles Eliane Cantanhêde, colunista de política, e Eduardo Ohata, repórter esportivo (um dos poucos especializados em boxe no Brasil). O mercado jornalístico chegou a comentar que novas demissões serão feitas, mas o jornal não confirmou. A “Gazeta do Povo” fechou sucursais em Foz do Iguaçu e Londrina, no Paraná, e demitiu três jornalistas e um repórter fotográfico na semana passada. Durante o ano, foram 23 desligamentos. Devido à queda da receita, com consequente aumento do déficit, o Grupo Paranaense de Comunicação diz que é vital fazer enxugamentos. O “Diário do Comércio”, de São Paulo, foi extinto. Razão: dívidas (trabalhistas e outras) e o custo de manutenção do jornal impresso. Estuda-se recriar o jornal exclusivamente na internet.
Leitores, como Arthur de Lucca e Carlos Wilson, que se consideram ombudsmen assistentes de vários jornais, inclusive do Jornal Opção, perguntam se é lícito publicar fotografias do padre Marcelo Rossi magérrimo. Talvez seja possível responder com uma pergunta: por que não seria lícito publicar uma fotografia do padre mais magro? Li pelo menos quatro reportagens sobre a doença (bulimia) do religioso e, no geral, não eram sensacionalistas. Explicaram o que havia acontecido e esclareceram que está se recuperando. As notícias da doença e da recuperação esconderam outra, talvez mais importante para o público: a confirmação de que o Vaticano investigou e chegou a pensar em punir o padre Marcelo, que estaria se comportando de maneira exibicionista e, assim, prejudicando a seriedade da liturgia católica. Depois de uma investigação exaustiva, o Vaticano concluiu que, longe de conspurcar a liturgia católica, o padre Marcelo trabalha, com sua música, seus livros e suas missas, para atrair católicos recalcitrantes. Muitos católicos migraram para igrejas evangélicas, às vezes mais, digamos, próximas dos problemas reais dos indivíduos. Com sua pregação alegre, até festiva, o padre Marcelo aproxima-se das ações dos evangélicos. O que “agrada” certa ortodoxia. Leia uma resenha do livro sobre o padre Marcelo Rossi: https://jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/biografia-explica-por-que-marcelo-rossi-se-tornou-o-paulo-coelho-da-igreja-e-revela-sua-depressao-60258/
O Jornal Opção criou uma cultura interna que tem dado certo. Não há, na prática, editores. Todos são repórteres, inclusive aquele que é qualificado como editor-chefe. O resultado é que a redação não se tornou burocrática e uma equipe pequena (somos apenas cinco) — com repórteres que também são redatores competentes — é capaz de produzir um jornal com 48 páginas, às vezes um pouco mais. Em Goiás, pelo menos, há uma prática danosa: os melhores repórteres são guindados ao posto de editor e, assim, deixam de escrever, contentando-se com a atividade burocrática. Em “O Popular”, para ficar num exemplo, há editores que não escrevem um texto um pouco mais alentado há anos. Dos proprietários, Herbert de Moraes Ribeiro e Patrícia Moraes (ambos jornalistas criativos e inteligentes), recebemos sempre os melhores conselhos: sejam, ao mesmo tempo, ousados e responsáveis.
Moradores do Setor Bueno, nas proximidades do Parque Vaca Brava, entraram em contato com o Jornal Opção para reclamar que, na semana passada, ficaram dois dias sem acesso à programação da Net. Ao buscarem informações precisas, eram informados de que brevemente, entre as 12 e às 17 horas, um técnico iria resolver os problemas. O técnico não apareceu. O curioso é que Net teria negociado sua dívida bilionária — cerca de 5 bilhões — com o BNDES. A cúpula nacional deveria fazer uma auditoria na sua unidade de Goiânia. Alguma coisa está errada.
O às vezes polêmico site Blue Bus, criado por Júlio Hungria, está saindo do ar. Mas promete voltar, e brevemente. A direção do portal de notícias sobre publicidade e jornalismo divulgou um comunicado: “E chegou o dia em que o nosso querido ônibus azul precisou fazer uma parada. Trocar os pneus, ajustar os faróis, checar o óleo, colocar um ar condicionado, quem sabe? Temporariamente em manutenção, o Blue Bus vai fazer um pit stop. Pedimos aos seus milhares de passageiros que permaneçam em seus lugares, pois, em breve, esperamos religar os motores. Para nossos motoristas, as estradas são sempre infinitas”. Comenta-se no mercado que, apesar de bem-sucedido em termos de audiência, o site estaria com dificuldades financeiras.
O “Pop” publicou uma reportagem sobre a nova expansão do Flamboyant que mais parece material publicitário. O jornal não anotou sequer uma reclamação dos frequentadores do shopping, que tiveram de conviver, durante meses, com piso escorregadio e que às vezes afunda um pouco (em alguns lugares), poeira (colocaram panos que às vezes deixam escapar terra e pedaços de cimento) e, nas proximidades da Livraria Saraiva, cheiro de esgoto. O empreendimento chegou a colocar “pilastras” móveis, mas nenhum órgão público investigou a segurança da intervenção. Num País em que a segurança das pessoas é mais importante do que o lucro dos comerciantes, pelo menos a parte do shopping que sofreu uma intervenção gigantesca teria sido interditada. Outro problema: as escadas rolantes nem sempre funcionam e crianças e pessoas idosas — o elevador está sempre lotado, quando funciona — têm dificuldade para ir de um andar para o outro. Na primeira página, o editor do “Pop” publicou uma chamada como se a expansão já tivesse sido inaugurada. Curiosamente, o “Pop” pressiona mais órgãos públicos do que empreendimentos privados. É certo que um jornal não deve ser o sorriso do governo, mas também não deve ser o sorriso da iniciativa privada e a cárie da sociedade.
[Eliane Cantanhêde: analista de política do Globo News e ex-colunista da "Folha de S. Paulo". Foto do Facebook da jornalista]
A colunista Eliane Cantanhêde está na lista dos 13 (número admitido pelo jornal), 15 ou 25 jornalistas demitidos pela “Folha de S. Paulo” nesta semana. No Facebook, a jornalista comentou, brevemente: “Amigos do FB, aviso geral: amanhã [sexta-feira] eu não escrevo mais a coluna na ‘Folha’. Foi bom enquanto durou”.
O jornal “Brasil 247” publicou que Eliane Cantanhêde era a colunista da “Folha” mais alinhada com o PSDB. Não é bem assim. Pelo contrário, muitos chegaram a chamá-la de “petista”. Na verdade, trata-se de uma jornalista objetiva e íntegra, de opiniões às vezes incisivas, possivelmente tenha desagradado, muitas ou algumas vezes, ao petismo e ao tucanato.
Nas redes sociais, notadamente no Facebook, disseram que a presidente Dilma Rousseff pediu a cabeça da repórter. Nada disso aconteceu. A “Folha” alega que fez demissões para cortar custos e aumentar a rentabilidade da empresa. Portanto, o único responsável pela demissão é o jornal da família Frias.
A jornalista permanece no canal Globo News como analista de política, de alta qualidade, por sinal.
[Paulo Franco, superintendente artístico e de programação da Record, e César Filho, jornalista e apresentador. Foto de Edu Moraes/Divulgação Record]
“Em 2015, César Filho estará envolvido em projetos nas áreas de jornalismo e também de entretenimento, dentre eles o comando de um novo reality show de confinamento, inspirado no formato ‘Power Couple’, da Dori Media Group”, informa a Record.
“Na atração, já exibida em Israel e Portugal, dez casais, durante três meses, vão testar o seu amor em diversas provas na disputa por um grande prêmio.”
O princípio fundamental da conduta da força de elite da Marinha dos Estados Unidos, Seals, é: “Eu não divulgo a natureza do meu trabalho, nem busco reconhecimento por minhas ações”. Na prática, não é bem assim. Integrantes da força especial escrevem livros e pelo menos um deles revelou, num livro, como foi a morte de Osama bin Laden, líder máximo da A-Qaeda, no Paquistão, em 2011. Agora, o jornal inglês “Daily Mail” e um blog especializado em operações militares dos EUA divulgaram o nome e a fotografia do militar que matou o terrorista saudita.
Depois de 16 anos nas Forças Armadas americanas, Robert O’Neill (foto) decidiu assumir, publicamente, que foi o militar que matou Bin Laden. O jornal e o blog furaram o canal de televisão Fox, que vai exibir uma entrevista com o militar dividida em duas partes. A cúpula do canal sugere que, apesar da antecipação do nome do militar, vai revelar “detalhes nunca divulgados antes”. Quer dizer, seu “furo” será mais amplo e sedimentado.
Robert O’Neil é um militar condecorado, com duas estrelas de prata e quatro de bronze. Como outros membros dos Seals, é uma especialista em ações especiais, que envolvem, se necessário, “assassinatos”, como o de Bin Laden. O pai de Rob (como é conhecido), Tom O’Neil , disse que a família não teme os supostos longos tentáculos da Al-Qaeda. “As pessoas estão perguntando se nós estamos preocupados que o Isis [Estado Islâmico, em atuação na Síria e no Iraque] virá a nós porque Rob está” tornando público que matou Bin Laden. “Eu digo que vou pintar um grande alvo na porta da frente [de sua casa] e dizer ‘venham e nos peguem’”, sublinhou Tom O’Neil.
Quanto Robert O’Neil recebeu para falar ao canal Fox? Não se sabe. Não se sabe nem mesmo se recebeu alguma coisa. Mas nos Estados Unidos, e em vários outros países, entrevistas deste porte custam pequenas fortunas às redes de televisão. Posteriormente, as histórias são transformadas em livros, documentários (vendidos no formato de DVS) e filmes. É um negócio lucrativo, tanto do ponto de vista da audiência quanto financeiro.
Desde já, Robert O’Neil é apontado como um “herói nacional”.
[Eduardo Ohata, jornalista especializado em boxe, está na lista dos demitidos da "Folha"./Foto de seu Facebook]
O Portal Imprensa informa que a “Folha de S. Paulo” demitiu 15 jornalistas na terça-feira, 5, e deve fazer novas demissões nesta semana. O grupo Folha da Manhã, que edita a “Folha”, disse que aos profissionais que “problemas financeiros” são o motivo do passaralho. Acreditava-se, até poucos dias, que a situação da “Folha” era sólida.
Entre outros, foram demitidos: Flávia Marreiro, ex-correspondente do jornal em Caracas, Eduardo Ohata (jornalista brasileiro que mais entende de boxe, ao lado de Wilson Baldini Jr., do “Estadão”), de “Esportes”; Ana Krepp, de "Cotidiano"; Lívia Scatena, de "Gastronomia"; Euclides Santos Mendes, editor do "Painel do Leitor"; Samy Charanek, pauteiro de "Cotidiano"; Gislaine Gutierre, "Ilustrada"; e Thiago Guimarães, coordenador adjunto da Agência Folha.
O chefe de reportagem do caderno “Poder”, Cláudio Augusto, foi transferido para “Cotidiano”.
A ex-primeira-dama confirma o esquema corrupto de PC Farias, fala de sua morte e discute para foi o dinheiro arrecadado pelo tesoureiro
Na “Carta a Edward Warrington”, de 16 de janeiro de 1787, o presidente Thomas Jefferson (1743-1826), escreveu: “Se dependesse de decisão minha termos um governo sem jornais ou jornais sem um governo, não hesitaria um momento em preferir a segunda alternativa”. Franklin Martins e Rui Falcão, mais petistas do que jornalistas, divergem de Jefferson, avaliado, quem sabe, como démodé. A dupla e seus aliados, usando como pretexto uma reportagem da “Veja” — que revela, baseada em depoimento do doleiro Alberto Youssef, que a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula da Silva sabiam dos malfeitos no Petrobrás —, querem regular a mídia. Um parêntese: só o mais néscio dos nefelibatas pode acreditar que uma presidente da República, que recebe informações da Polícia Federal, da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e de fontes variadas, não sabe, às vezes não detalhadamente, o que ocorre numa multinacional estatal gigante como a Petrobrás. Quem leu a matéria atenta e cautelosamente deve ter percebido que não é excessiva e, se diz que os petistas-chefes sabiam dos esquemas corruptos, não acrescenta que estavam ou estão envolvidos. Não há indícios de que Dilma Rousseff e Lula da Silva estejam envolvidos em falcatruas. Ao concentrar fogo na “Veja”, a militância petista escondeu que o jornal “Folha de S. Paulo” confirmou que, de fato, o doleiro havia dito que os dois petistas sabiam das práticas de bas-fond na Petrobrás. A “deixa” da “Veja” serviu para azeitar o projeto-vingança contra a imprensa que rejeita a tutela petista. Dilma Rousseff — que tende a ser mais moderada — rejeitava, na maior parte do primeiro mandato, e com isso contrariava os reds petistas, a regulação da mídia. Agora, irritada com a “Veja” e, na verdade, com a imprensa em geral — que, efetivamente, torceu pela vitória de Aécio Neves —, a presidente disse que vai mandar para o Congresso Nacional um projeto de regulação econômica da mídia. “Eu não vou regulamentar a mídia no sentido de interferir na liberdade de expressão. Eu vivi sob a ditadura e, por viver sob a ditadura, eu sei o imenso valor da liberdade de imprensa”, desconversou a presidente. Em tese, o projeto não visa censurar jornais e revistas e controlar sua linha editorial. Em tese. O petismo e a presidente sugerem que estão “preocupados” com oligopólios e monopólios, tipo Grupo Globo e, em Goiás, o Grupo Jaime Câmara. Na mesma cidade, os grupos não poderiam ter televisão, rádio e jornal, além de produtos jornalísticos na internet. Parece uma boa ideia e os pacóvios das províncias parecem aprová-la. Porém, do grego Aristóteles ao italiano Nicolau Maquiavel e ao britânico Thomas Hobbes, sabe-se que ideias que parecem positivas costumam às vezes esconder ou embutir ideias negativas. Grandes grupos de comunicação, monopolistas ou não, conseguiram descolar-se do controle do Estado e isto não agrada aqueles que avaliam que o Estado não é uma coisa pública, mas sim praticamente privada, de um partido político. Como conquistaram uma certa independência, por ter vínculos comerciais fortes com o mercado — quanto mais anúncios particulares na “Veja”, na “Época”, na “Folha”, no “Estadão”, em “O Globo”, e em quaisquer outros veículos, mais autonomia —, algumas publicações deixaram, há algum tempo, de ser o sorriso do poder e se tornaram, às vezes não vagamente, o sorriso da sociedade. Aos “controladores” do Estado, que o privatizaram politicamente, tal liberdade não agrada. O combate aos ditos “monopólios”, que agrada alguns veículos de comunicação dos Estados menos aquinhoados com recursos federais — fala-se numa atraente e ilusória regionalização da distribuição das verbas do governo de Dilma Rousseff —, além de acadêmicos das escolas de Comunicação do País, esconde, na verdade, um combate frontal àqueles veículos e empresas que escaparam aos tentáculos de polvo gigante do poder.
A Editora Rocco publicou no Brasil os livros de Patrick Modiano “Ronda da Noite” (tradução de Herbert Daniel, 111 páginas) “Dora Bruder” (tradução de Márcia Cavalcanti Ribas Vieira, 113 páginas), “Do Mais Longe do Esquecimento” (tradução de Maria Helena Franco Martins, 118 páginas), “Uma Rua de Roma”, “Vila Triste” (tradução de Angela Melim, 145 páginas) e “Meninos Valentes” (tradução de Angela Melim, 157 páginas) e a Cosac Naify lançou “Filomena Firmeza” (Flávia Varella, 95 páginas). A Rocco vai relançar, em dezembro, “Ronda da Noite” (uma pesada história sobre colaboracionismo, delação e corrupção dos franceses durante a ocupação nazista na França), “Uma Rua de Roma” (deve ser “Na Rua das Lojas Escuras”, que li numa tradução de Ana Luísa Faria e Miguel Serras Pereira; a edição é da Relógio d’Água. É a história de um homem que tenta recuperar sua memória e reconstruir sua história. É um romance belíssimo) e “Dora Bruder” (romance belo e doloroso sobre uma vítima do nazismo na França; como há escassos dados sobre sua história, exceto que era jovem e rebelde, o narrador imagina, mas não de maneira esclarecedora, e sim elíptica, uma vida para a judia Dora Bruder). “Uma Rua de Roma” ganhou o prêmio Goncourt em 1978. Merecidamente.
A Rocco revela, em seu site, que os livros vão ganhar novo projeto gráfico. O anterior é acanhado. Desde que Patrick Modiano ganhou o Nobel de Literatura, seus livros (esgotados na Rocco e livrarias) desapareceram dos sebos. Gastei 152 reais para comprar sete obras. Hoje, quando “Filomina Firmeza” é o único fácil de encontrar, não se acha nenhum volume por menos de 150 reais. Antes, adquiri pelo menos dois exemplares por 4 e 4,5 reais. O valor do frete foi maior.
Horace Engdahl, da Academia Sueca, afirma que Patrick Modiano é “um Proust de nosso tempo”. Talvez seja um Proust minimalista e mais próximo do autor de “Em Busca do Tempo Perdido” devido à sua obsessão com a memória. Seus romances são pequenos, com pouco mais de 100 páginas. Sua prosa é rápida, feita de parágrafos curtos e sem concessões ao leitor, que, para absorvê-la da melhor maneira possível — e não se sabe se a percepção é completa —, precisa ler com atenção redobrada, como se fosse um leitor-participante. As lacunas — a literatura de Patrick Modiano é pródiga em lacunas — têm de ser preenchidas pela imaginação do leitor. Fica-se com a impressão de que se está andando ao lado das personagens (os narradores são as figuras centrais), numa espécie de ziguezague permanente. De algum modo, ficamos tão confusos com certa falsa de lógica da vida, no momento em que está ocorrendo ou sendo contada, quanto as personagens. O narrador de “Do Mais Longe do Esquecimento” anda com Jacqueline por Paris e Londres, parece apaixonado pela bela mulher, porém mal sabe quem ela é. Jacqueline, personagem moderna (é uma mulher livre) e enigmática, desaparece-e-aparece-e-desaparece. Sua obsessão? Ir para Maiorca, na Espanha. O motivo? Seria alguma segurança? Nem o narrador sabe direito.
Portanto, há um quê de Henry James (quiçá a ambiguidade) e de Marcel Proust (a memória como vital para recuperar a essência e, também, as filigranas da vida, da história), mas a forma de relatar a história, até como se o autor (ou o narrador) não estivesse contando nada de muito interessante e como se nada estivesse acontecendo, é diferente da dos autores de “As Asas da Pomba” e de “Em Busca do Tempo Perdido”. Enquanto James e Proust são adeptos de uma prosa mais arrastada, Patrick Modiano prefere uma prosa veloz e sintética.
A literatura de Patrick Modiano é de alta qualidade e a Academia Sueca acertou ao conceder-lhe o Prêmio Nobel de Literatura de 2014.
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O Nordeste deu ao Brasil seu maior sociólogo, o pernambucano Gilberto Freyre, autor do clássico “Casa Grande & Senzala”; dois de seus principais prosadores, o alagoano Graciliano Ramos, autor de “Vidas Secas” e “São Bernardo, e a cearense Raquel de Queiroz, autora de “O Quinze” e “Memorial de Maria Moura”; dois de seus poetas mais sofisticados, os pernambucanos Manuel Bandeira, criador de “Estrela da Vida Inteira/Poesia Completa”, e João Cabral de Melo Neto, autor de “Educação Pela Pedra” e “Morte e Vida Severina”; um dos mais gabaritados historiadores, o pernambucano Evaldo Cabral de Mello, autor de “O Brasil Holandês” e “O Negócio do Brasil”, e um biógrafo excepcional, o jornalista cearense Lira Neto, autor da celebrada trilogia biográfica sobre o presidente Getúlio Vargas. Podem ser incluídos na lista os poetas Sousândrade, do Maranhão, Castro Alves e Pedro Kilkerry, da Bahia, e Jorge de Lima, de Alagoas, e o romancista José Lins do Rego, da Paraíba.
O Nordeste é pobre, há imensas zonas de atraso — assim como no riquíssimo Estado de São Paulo há grandes ilhas de pobreza (os Estados Unidos têm 46 milhões de pobres — 15% da população). Portanto, quando o escritor Diogo Mainardi, ex-colunista da revista “Veja”, afirma que o Nordeste é uma região “retrógrada” e “bovina”, porque contribuiu para a reeleição da presidente Dilma Rousseff, a crítica peca pelo excesso. Primeiro, votar na petista não é necessariamente um ato retrógrado. Segundo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, não incluídos como “retrógrados” e “bovinos”, também foram decisivos para a vitória da política que está no poder.
No “Manhattan Connection”, programa da Globo News, exibido no domingo, 26, Diogo Mainardi disse sobre o Nordeste: “É uma região atrasada, pouco educada, pouco instruída” e, por isso, “tem uma grande dificuldade para se modernizar na linguagem. A imprensa livre só existe na metade do Brasil para baixo. Tudo que representa a modernidade tá do outro lado”. Puro papo. Os maiores ditadores brasileiros, Getúlio Vargas, Costa e Silva e Emílio Garrastazu Médici, eram todos do Sul do País. O inconsistente Tiririca foi reeleito deputado federal por São Paulo. As diatribes do escritor têm a ver com o clima exacerbado da campanha e com o fato de que adora polêmicas.
Porém, transformar o que disse Diogo Mainardi numa questão de Estado é mesmo falta do que fazer. O atacante Hulk, da seleção brasileira, contestou o escritor e disse que ele “não demonstra conhecimento” da “importância” da região para o país. “Infelizmente, o Mainardi demonstra ignorância e arrogância quando critica o Nordeste.” O jogador, mais do que políticos e intelectuais, fez o certo: respondeu prontamente ao ex-colunista da “Veja”. Os nordestinos e seus defensores devem fazer o mesmo: conceder entrevistas e publicar artigos criticando a opinião de Diogo Mainardi.
O deputado Silvio Costa, do PSC de Pernambuco, talvez para fazer média com seu Estado e o Nordeste, praticamente exigiu que o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Alves (PMDB), mande um ofício à Globo News para que esta exija que Diogo Mainardi se retrate. Se o escritor não aceitar a exigência de retratação, Silvio Costa recomenda que a Câmara processe-o judicialmente.
A Justiça é o fórum adequado para se resolver pendengas que têm importância. No caso, o deputado Silvio Costa deveria pedir espaço num grande jornal e expor suas opiniões contrárias às de Diogo Mainardi. Poderia ligar para o editor do “Manhattan Connection”, sem nenhuma “pressão” do Legislativo ou judicial, e pedir alguns minutos para defender o Nordeste, mas admitindo, logicamente, que as pessoas têm direito à opinião — dura ou frágil, certa ou errada — sobre quaisquer assuntos.


