Por Irapuan Costa Junior
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Emilio Botin, dono e presidente do Santander, e a presidente Dilma Rousseff: negócios são mais importantes do que a correção ética?[/caption]
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Sinara Polycarpo Figueiredo e Lula da Silva: o ex-presidente pediu a cabeça da superintendente de investimentos do banco Santander[/caption]
Episódios há em que todos os envolvidos são perdedores. Exemplo: o do comunicado feito pelo banco Santander a seus clientes prime, de que todos tomamos conhecimento. O folheto prevenia os correntistas aplicadores daquilo que todos os analistas de mercado vinham observando: a trajetória eleitoral da presidente Dilma Rousseff e o gráfico das bolsas deslocam-se em direções opostas: Se as possibilidades eleitorais de Dilma caem, as bolsas sobem, puxadas principalmente pelas ações da Petrobrás. Algo claro, racional, indiscutível.
O petismo, de quem hoje a presidente é a segunda expressão (a primeira é ainda Lula), tratou muito mal a petroleira, e vem estiolando a olhos vistos seu patrimônio. Agrava mais a questão o fato de Dilma estar no centro dos acontecimentos mais recentes de prejuízo da companhia, os da refinaria de Pasadena. O que era um fato natural passou a escândalo. Dilma investiu contra a realidade, ao considerar análise “inadmissível, lamentável”. Ao combater canhestramente algo tão claro e concreto, interno a uma empresa privada, Dilma mostrou (uma vez mais) seu caráter autoritário. Diminuiu-se como presidente. Dilma perdeu.
A mesquinhez de Lula, pedindo publicamente a demissão da analista Sinara Polycarpo Figueiredo (“essa moça não entende p... nenhuma de Brasil e de governo Dilma. Manter uma mulher dessa num cargo de chefia, sinceramente... Pode mandar ela embora e dar o bônus dela para mim”, atacou o ex-presidente), é também autoritária, embora não surpreendente. De Lula pode-se sempre esperar uma atitude pior que a anterior. Lula perdeu. Perdeu Emilio Botin, dono e presidente do Santander, ao demitir a funcionária e mais dois subordinados que apenas cumpriram sua função. E perdeu feio, ao enlamear-se na sabujice aos poderosos. Rebaixou-se sem necessidade, por mais alguns favores de governo e mais alguns reais de lucro. Botin, dono de um banco de renome mundial, não precisava curvar tanto a espinha.
O colunista Augusto Nunes, em seu blog na revista “Veja” resumiu o vexame do espanhol: “Emilio Botin mostrou como se preside um grande banco de joelhos”.
A analista Sinara Figueiredo e seus dois colegas despedidos perderam. Perderam os postos de trabalho sem ter cometido nenhuma falta, nenhuma desonestidade. Enfrentarão os dias de desemprego, que, esperamos, não hão de ser muitos. Mas que sempre são de incerteza, de angústia pelos compromissos assumidos e — quem sabe? — pelos familiares que a medida arrasta nessa vicissitude. As primeiras preocupações de quem perde o emprego são sobre como prover a despensa e pagar a escola dos filhos.
Eles, a analista e seus dois colegas, que menos devem no episódio, terão perdido mais que os outros. Até porque aqueles outros perderam algo a que, parece, não têm muito apego. Não é a primeira vez que o presidente do Santander aparece em rumoroso envolvimento com autoridades públicas.
O jornal espanhol “El Mundo”, em 17 de dezembro de 2009 publicou uma reportagem explosiva: o célebre juiz espanhol Baltasar Garzón, responsável pela prisão de Pinochet na Inglaterra, cultivava com Emilio Botin uma amizade fora dos padrões. Garzón, que adorava — e adora — uma manchete de jornal e uma câmera de TV, havia dado uma escorregadela: pediu a Botin, em 2006, por carta, e conseguiu, um patrocínio milionário do Banco Santander para uns cursos que ia ministrar em Nova York, quando ali passava uma temporada. Algo para alimentar sua enorme vaidade. E o que é pior: voltando à sua cadeira de juiz na Audiência Nacional (o tribunal superior espanhol), havia recebido uma ação contra o Santander e a havia arquivado. Sequer se julgara suspeito, o que acabou lhe rendendo um processo interno na corte.
Governo realça massacre no Oriente Médio e esconde ampla violência no Brasil
O governo é pródigo em paradoxos. Mais um vem a público. Numa destrambelhada ação diplomática, a presidente Dilma Rousseff fez o Itamaraty produzir uma nota só 50% certa, ou melhor, 50% errada: condenou Israel, mas se esqueceu de ou não quis condenar os extremistas do Hamas pelos combates na faixa de Gaza, provocando reação dos judeus. Paradoxo. A presidente, na tréplica, classificou de massacre o que ocorre na região. Paradoxo, outra vez. A presidente se esqueceu ou não quis se lembrar do massacre quotidiano que leva cerca de 140 pessoas por dia (a maioria jovens envolvidos com drogas) a serem assassinadas no Brasil, debaixo da omissão governamental. Massacre maior que o da faixa de Gaza. Enquanto o Ministério da Justiça persegue até a histeria as armas do cidadão honesto e chega até a implicar, via do Exército, com as armas dos atletas atiradores, os traficantes continuam trazendo armas para os seus arsenais, junto com as drogas vindas dos países “bolivarianos”. Ninguém os incomoda, enquanto seguem (noutro paradoxo), matando nossos jovens, depois de viciá-los em maconha, cocaína e crack.Ministra Marta não quer respeitar Igreja Católica
A ministra Marta Suplicy abespinhou-se porque a Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro relutava em liberar a estátua do Cristo Redentor para uma filmagem dirigida pelo cineasta José Padilha. Numa cena, do episódio “Inútil Paisagem”, constante do filme, o ator Wagner Moura, um dos queridinhos da esquerda “chique”, dá uma banana para o Cristo. À Cúria, não podia agradar uma exploração desrespeitosa ou ideológica da imagem do Cristo, nem uma negação da fé, simbolizada no ato grosseiro do personagem encarnado por Moura. Além da devoção, a Cúria vê a sua responsabilidade, pois é curadora da imagem do Cristo Redentor. Segundo o muito bem informado e sério jornalista Merval Pereira, a ministra lançou ameaças (indiretas ou diretas, não se sabe ao certo) de retirar dos religiosos a tutela da imagem. De transferir esse controle para algum órgão de seu ministério, se a permissão para as filmagens não fosse dada. Algo próprio de quem não respeita a Igreja Católica e o credo religioso de outras pessoas. A esquerda brasileira aprendeu o que o stalinismo ensinou. Nada esqueceu e nada mais aprendeu. Stálin, como seus seguidores, e todo marxista, era ateu. Mais que desprezava, odiava a religião e foi responsável por muitos massacres de religiosos e fiéis. Não cultivam seus admiradores respeito à fé religiosa, à Igreja, à Cúria Metropolitana, aos padres, aos crentes e à simbologia natural da estátua do Cristo Redentor, no cume do Corcovado. Mas aqui não há paradoxo. É apenas a natureza autoritária da “esquerda revolucionária” se manifestando. A Cúria acabou concedendo a permissão para as cenas. E a ministra negou o fato, ainda que contra todas as evidências.O governo de Dilma Rousseff e a vergonha da CPI fraudada
A Petrobrás continua sendo a vítima preferencial do governo da presidente Dilma Rousseff. E o governo deve mesmo ter muito a esconder para fazer o que faz nas Comissões Parlamentares de Inquérito criadas para investigar os rombos na empresa. Em primeiro lugar, tentou abortar a criação das CPI. Não conseguindo, enxertou-as com os mais fiéis correligionários, encarregados de paralisá-las. Estava conseguindo, mas não satisfeito, resolveu fraudar a do Senado, como se fosse uma simples prova de ensino médio, onde se compram, se vendem e se passam, desonestamente, gabaritos com respostas certas. E autoridades graúdas, ministro, diretores da maior empresa brasileira (para não dizer sul-americana), que deveriam ostentar honra e dignidade, além de competência, vergonhosamente, participam das falsificações.
Em cálculos simples, é possível estimar que R$ 127 bilhões por ano são surrupiados do erário
Observe o leitor que só falamos até aqui da Petrobrás, embora o setor elétrico, cuja administração foi entregue ao PMDB, isto é, a Sarney, Renan, Jader Barbalho, Romero Jucá e outros, também movimente recursos bilionários. Os ativos do setor petrolífero chegam a 520 bilhões de reais, e os do setor elétrico, a 150 bilhões de reais. Cinco por cento desses ativos (um montante modesto, para a voracidade dos aproveitadores), daria algo como 35 bilhões de reais. Valor modesto, repetimos, pois só em Pasadena, o TCU aponta 1,5 bilhão de reais e em Abreu e Lima, suspeita-se de 30 bilhões desviados. Mas deixemos barato: fique a terceira parcela em 35 bilhões. A quarta parcela não é menos difícil de ser avaliada, estimada, ou, seja “chutada”, pelos esforçados avaliadores de desvios, nós inclusive. Mas para não deixar tarefa incompleta, sigamos em frente. As empresas financeiras do governo federal (BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Banco da Amazônia e Banco do Nordeste, além de outras menores) movimentam um ativo de 2 trilhões de reais. Se a cifra é astronômica, aqui existem regras mais rígidas, e a fiscalização do Banco Central. O que significa que o roubo é mais difícil. Por outro lado, quando ele ocorre, pode também ser astronômico. Se puxarmos pela memória, vem muita coisa. Muitas empresas “escolhidas” pelo governo Lula para serem exemplos empresariais acabaram explodindo no colo do BNDES, como as do Grupo X, de Eike Batista, e a Marfrig. A Caixa Econômica embarcou no Banco Panamericano, de Silvio Santos (só aqui foram 4 bilhões de reais desviados). No mensalão, um dos canais de desvio passava pelo subterrâneo do Banco do Brasil, via Visanet, administrado pelo finório petista Henrique Pizzolato, hoje descansando numa prisão italiana. E outro tipo de desvio surge aqui, inteiramente de responsabilidade da cúpula do governo federal: financiamentos ditos sociais, na sua origem, mais que permitem, até sugerem o não cumprimento das obrigações, eleitoreiros que são. O Minha Casa, Minha Vida é o exemplo acabado, principalmente nas moradias mais baratas. O que deveria seguir o padrão de inadimplência normal do mercado (inferior a 2%) não o é: neste segmento de habitações quase totalmente subsidiadas, o calote está acima de 20% como demonstrou a revista “Veja” em setembro de 2013. Só esse montante, de difícil recuperação, chega aos 14 bilhões de reais. Se, também aqui modestamente, levarmos em conta apenas o que surgiu nos escândalos, teremos uma quarta parcela de mais de 20 bilhões de reais. Mas fiquemos por aí. A soma das quatro parcelas que nos propusemos a muito grosseiramente estimar, chegaria então a 23+49+35+20= 127 bilhões. É um cálculo estimativo, aproximativo, reconhecemos, pois a corrupção, obviamente, recusa-se a ser medida com maior precisão. Mas não é, convenhamos também, uma estimativa desmedida, diante de tantos escândalos. É considerável esse valor, perante nossos problemas? Dê o leitor a resposta, sabendo que em 2013 os gastos do governo federal foram: Segurança, 66 bilhões, Educação, 65 bilhões, Saúde, 31 bilhões, e Transportes, 19 bilhões. E todo o programa de governo de um presidenciável (Eduardo Campos) prevê um investimento de 125 bilhões de reais.
O esquerdismo preconizado pelo Foro de S.Paulo está na pauta do PT e é prejudicial ao Brasil
O início do fim para os alemães na 2ª Guerra se deu na Batalha de Moscou, ainda em 1941
Coisas que aconteceram nos meus tempos de engenheiro iniciante no Rio de Janeiro
Foi em 1959. Eu estava cursando, no Rio de Janeiro, o último ano de engenharia e consegui emprego numa multinacional italiana. Essa empresa estava substituindo os tradicionais bondes, na Zona Sul do Rio, por ônibus elétricos, uma modernidade de então. Os cariocas, afetadamente, os chamavam pelo nome em inglês, “trolley-bus”, que pronunciavam com o chiado característico na última sílaba: tróleibuxxx.
Pois bem: a empresa, cujos escritórios principais ficavam em São Paulo, tinha no Rio um departamento técnico, encarregado dos projetos de engenharia e dos contatos necessários para as obras locais, que se resumiam na colocação dos cabos de energia para os ônibus. Não sei se conhecem o sistema: os ônibus funcionam como os bondes, só que não sobre trilhos. Movem-se pela eletricidade que vem dos cabos aéreos estendidos sobre as ruas, e sob os quais os veículos deslizam. Esses cabos eram chumbados nas paredes dos prédios vizinhos, o que às vezes gerava problemas, como vou contar daqui a pouco.
Nossa equipe era pequena: Domenico, um engenheiro italiano já velho, baixo, magro, experiente naquele trabalho, era o chefe do escritório. Eu, quase engenheiro, era seu segundo. Depois havia um espanhol, o Nieto, que era contador, Danilo, o desenhista, Francisco, auxiliar de escritório, além de um encarregado do almoxarifado, um motorista e um porteiro cujos nomes a memória me nega.
E Jandira, a secretária. Ah! A Jandira... Um capricho da natureza. Mulata clara e de cabelos lisos, 1 metro e 90 de pura sensualidade, corpo digno de uma estátua, belo rosto oval e uma dentadura ofuscante de tão branca e perfeita. Uma presença perturbadora naquele ambiente de trabalho. Brasileira, mas filha de um português bigodudo, daqueles tradicionais mesmo, e de uma negra retinta, era um acabado produto de três continentes. Seus pais tinham um pequeno bar no bairro da Saúde, e moravam num “cabeça de porco” em Copacabana.
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Jorgelina[/caption]
Para quem não sabe, este era o nome que se dava aos prédios de muitos e pequenos apartamentos na Zona Sul do Rio. Jandira morava com eles, e estava noiva de outro português, este da elite da colônia: dono de três ou quatro padarias em Copacabana e Ipanema, tinha um carro Chevrolet, um luxo para a época, e morava no Leblon.
O rico portuga era zeloso da noiva, que levava de carro para o trabalho, ao meio-dia, e buscava de volta, às 6 e meia da tarde. Também pudera: Jandira devia ser responsável por muitos torcicolos quando andava por Copacabana, pois todos se voltavam quando ela passava. Com tanta cobiça, melhor escoltá-la sempre.
Nós não deixávamos passar uma piada de português, de que ela também ria, ainda que por educação. De nossa parte, ia uma boa dose de inveja do noivo, pois Jandira, ciente de seus dotes, não deixava nenhuma brecha, nem para um galanteio, para os marmanjos do escritório. Mas tratava muito bem a todos.
Um belo dia veio ao Brasil, para inspecionar os trabalhos, outro engenheiro italiano. Ao contrário de Domenico, era jovem, alto, praticante de esportes de inverno, ex-piloto da Força Aérea Italiana e solteiro. Filho de um dos donos da empresa, além de tudo. Chamava-se Marcelo e lembrava o ator xará, o Mastroiani. Hospedou-se no Hotel Copacabana Palace, hotel à época (e hoje também) muito luxuoso. Nosso escritório – esqueci-me de dizer – ficava na Avenida Princesa Isabel, na saída do Túnel Novo, perto da praia e do Copacabana Pálace.
Marcelo, um boa praça por sinal, ia todas as semanas a São Paulo, ao escritório da empresa, mas ficava mesmo a maior parte do tempo no Rio. Sempre hospedado no Copacabana Pálace, gostava de vir para o escritório e voltar para o hotel a pé. Estava certo: era perto pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana, e pela Avenida Atlântica, um pouco menos, mas a caminhada a beira-mar era agradável.
Dois episódios fizeram com que Marcelo me tomasse como amigo. Certa feita o porteiro do prédio interfonou ao segundo andar, apavorado, dizendo que um homem armado estava subindo as escadas, para matar todo mundo. É um maluco, dizia. Todos correram para os fundos, onde havia uma copa, Marcelo inclusive. Enquanto se trancavam lá, aguardei em minha prancheta. Já conhecia o escândalo dos cariocas, principalmente quando viam uma arma.
O cidadão, de fato, entrou bufando na sala. Eu o conhecia. Era um ex-policial da guarda especial de Getúlio Vargas, dono de um apartamento onde havíamos colocado chumbadores para suporte dos cabos. O empreiteiro, ao tracionar os cabos, para que chegassem no lugar, havia exagerado na tensão, e a parede do apartamento havia desabado. Consegui sossegá-lo, prometendo todos os reparos e uma indenização, embora nem tivesse alçada para isso. Mas Marcelo, como todos os outros, ficou aliviado, quando o policial se retirou. Admirou minha calma, embora dissesse que eu era “mezzo pazzo” (meio louco) por não ter corrido também.
Outro dia, no Aeroporto Santos Dumont, onde havia ido deixá-lo para a viagem a São Paulo, consegui imobilizar, com meus aprendizados de jiu-jitsu, um descuidista que ia levando sua pasta, colocada no chão, enquanto ele marcava a passagem. Não foi nenhum trabalho de Hércules. O malandro era do tipo subnutrido, e estava desarmado. Mas para Marcelo foi um feito, até porque dinheiro e passaporte estavam na maleta. Mas confirmou: eu era “mezzo pazzo”.
Soube muita coisa de sua vida nas idas e vindas para o aeroporto, onde eu o deixava ou buscava, nas viagens a São Paulo. Marcelo detestava a maneira meio amalucada com que o motorista da empresa dirigia e sempre me pedia para tomar o carro e levá-lo ou buscá-lo. Era muito falante e adorava contar suas aventuras amorosas ou esportivas na Europa.
Mas a que ele não contaria, eu descobri por mim mesmo, e não aconteceu na Europa. Os olhos são janelas para a alma, no dizer de Edgar Allan Poe. Nós, os interioranos, mais retraídos, sabemos disso melhor que ninguém, e aprendemos a ler no olhar das pessoas. Os matutos, mestres em fazê-lo, desviam o olhar, se encarados intensamente, pois temem revelar olhando o que estão pensando.
No escritório da empresa eu havia, com essa perspicácia que a vivência cabocla nos dá, percebido uma novidade, nos olhares de Jandira e Marcelo. Se as primeiras focagens de Marcelo sobre Jandira eram as mesmas dos outros homens do escritório, onde brilhava um fogo admiração e cobiça, agora esses olhares eram mais dóceis, digamos assim. E Jandira, que olimpicamente ignorava nossas encaradas, eu por vezes a surpreendia trocando com Marcelo um olhar indefinível. Lânguido, talvez. Tem coisa aí, pensei comigo.
Um dia, Domenico fora a São Paulo, onde se encontrava também Marcelo. Voltariam só no dia seguinte, e eu estava encarregado do escritório. Jandira, como sempre, chegara ao meio-dia, trazida pelo noivo, e fazia seu trabalho de datilografia, sem encarar ninguém. Mas me pareceu um pouco nervosa, olhando constantemente o relógio. Ali pela 1 e meia, chegou até a minha mesa e disse-me que precisava sair. Tinha dentista marcado para as 2 horas e voltaria pelas 4. Brinquei, dizendo que com aquela dentadura nada tinha a fazer no dentista, o que a fez ruborizar-se. Perguntei se queria que chamássemos um táxi, mas dispensou, dizendo que era perto o consultório.
Pela janela, vi quando enveredou pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no seu caminhar felino, sempre acompanhada pelos olhares masculinos. Voltou pelo mesmo caminho, bem depois das 4 horas, com o olhar etéreo de sempre, embora me parecesse naquele dia um pouco mais sonhador. Perguntei se doera muito o tratamento, e a resposta foi um também ruborizado: “Nem um pouco”.
Pelas 5 horas, para minha surpresa, vejo Marcelo caminhando pela Avenida Princesa Isabel, vindo certamente do hotel, ele que julgávamos em São Paulo. Chegou risonho, cumprimentando efusivamente a todos, inclusive a “signorina Jandira”, que respondeu discretamente, desviando o olhar, coisa que eu, nunca separado de minhas raízes matutas, bem percebi. Dediquei-me à minha prancheta até o final do expediente, quando saíram todos os funcionários, inclusive Jandira, levada pelo noivo no seu reluzente Chevrolet. Ficamos só Marcelo, que trauteava alegre uma ária italiana, e eu. Olhei-o e desviou o olhar.
Era a hora de dar o troco do apelido de “mezzo pazzo”.
– “Dottore Marcelo, o senhor veio de São Paulo e não me pediu que fosse, como sempre, buscá-lo no aeroporto”.
Balbuciou uma desculpa qualquer, olhando-me desconfiado.
Emendei: “Dottore, posso ser meio louco, mas não sou nem um pouco burro”.
Apenas sorriu um largo sorriso vitorioso, machista e latino.
Jornalista relata o sanguinolento jogo de poder que durante mais de um século envolveu,
entre outras, as famílias Paranhos, Ayres, Cunha e Sampaio, causando muitas mortes
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Escritor Ivan Sant’Anna narra a história de violência na cidade goiana[/caption]
Se você, leitor goiano, é apreciador de nossa história, não deixe de ler o livro do jornalista Ivan Sant’Anna, “Herança de Sangue – Um Faroeste Brasileiro” (Companhia das Letras – 2012). Foi uma proveitosa recomendação que me fez o desembargador Ney Moura Teles. É uma história precisa, ainda que resumida, da formação social e econômica do município sulino-goiano de Catalão, história abrangente de dois séculos. Vai dos primórdios, quando em 1722 o filho do Anhanguera esteve na região, até 1936, quando o linchamento de um prisioneiro da cadeia local funcionou como uma catarse coletiva, colocando a cidade e o município na modernidade civilizatória.
Catalão era, até então, como o autor evidencia no título de seu livro, um faroeste, regido pela lei das armas. Na passagem para as minas do Rio Vermelho, Bartolomeu Bueno deixou na região um feitor e escravos encarregados de plantio e colheita de mantimentos necessários para a viagem de volta ao litoral. A fertilidade das terras das margens do Paranaíba o teria movido a tomar a providência. Um espanhol da Catalunha, um religioso talvez (seria ele Frei Antônio, um capelão de Bartolomeu Bueno?), teria alguns anos depois, na corrida do ouro, se assentado nas margens do Rio e ali constituído uma fazenda. Daí o nome de Catalão com que ficou conhecido o lugarejo, nome que persistiu com o passar do tempo. Não há certeza, contudo, sobre o nome próprio do espanhol pioneiro. Ivan Sant’Anna não o identifica. Nem o fazem os historiadores goianos, do padre Luís Antônio Silva e Souza ao padre Luiz Palacin Rodriguez.
Ponto obrigatório de passagem para as minas goianas e mato-grossenses, cercado de terras férteis, foi Catalão durante o período áureo um entreposto próspero. Mesmo com a profunda recessão que afetou o centro-oeste brasileiro, com o esgotamento das minas de ouro no fim do século XVIII, Catalão manteve sua economia além da subsistência, enviando gado em pé ou charque para Minas e São Paulo. Sobreviveu assim ao século XIX, até a vinda da Estrada de Ferro, no início da Primeira Guerra Mundial. E experimentou outro ciclo de desenvolvimento, este mais sustentável, que persiste até hoje, pelo século XX afora.
O livro de Sant’Anna relata todo o sanguinolento jogo de poder catalano, que durante mais de um século envolveu entre outras as famílias Paranhos, Ayres, Cunha e Sampaio, causou muitas mortes e carimbou Catalão como uma localidade onde a lei era a do mais forte e do mais armado. A par disso, “Herança de Sangue” faz revelações surpreendentes. A mais espantosa diz respeito ao conhecido escritor Bernardo Guimarães (1825-1884). É sabido que o romancista, cuja obra mais conhecida, talvez por ter sido encenada como uma das lacrimosas telenovelas da Globo, é “A Escrava Isaura”, viveu em Catalão. De fato, ele ali morou por dois períodos, de 1852 a 1855 e de 1861 a 1864. Em ambos, exerceu a função de juiz. Em 1864, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde adquiriu fama como escritor, jornalista e professor. Casou-se com Tereza Maria Gomes em 1867, com quem teve oito filhos. Tereza, mulher culta, chegou a acabar um livro que Bernardo, ao morrer, deixou incompleto.
A sóbria imagem do escritor, cuja foto, na formalidade das gravatas, encontramos nas enciclopédias, nada tem a ver com o Bernardo Guimarães de Catalão. Menos ainda a imagem de patrono da Cadeira número 5 da Academia Brasileira de Letras. Do Bernardo Guimarães catalano só restaram traços, nas poesias pornográficas e impublicáveis, feitas pelo escritor, mesmo residindo no Rio de Janeiro ou em Ouro Preto. O Bernardo Guimarães que a cidade goiana conheceu era um boêmio inveterado, amador de pescarias e acampamentos de beira de rio. Em ambos os afazeres era um resistente cachaceiro, seresteiro amante de uma viola e dançador de catira. Pouco trabalhava, embora levasse talento a qualquer coisa que fizesse, fosse um artigo para jornal (escrevia às vezes para o jornal “Atualidade”, do Rio de Janeiro), uma sentença ou um simples despacho. Desleixando-se cada vez mais, vivia em um casarão em mau estado, desmobiliado. Por isso, dormia no chão, forrado com o que houvesse à mão: palhas ou papéis. Poucas vezes tomava banho e jamais aparava cabelo e barba, sempre desgrenhados. Suas roupas eram sujas e amarfanhadas. Com ele dormia a amásia, a mulata Jequitirana, que no dizer de Sant’Anna era “feia, caolha, que mascava fumo o tempo todo”.
Imagino que o leitor, como eu, jamais teria, não lesse o livro, essa imagem, a real, ainda que temporária, do famoso escritor. Salvou-o Couto Magalhães, presidente de Goiás, que seu amigo, não suportava vê-lo desgastar-se naquela devassidão, e em conluio com o chefe político catalano Antônio Paranhos, conseguiu levá-lo para o Rio de Janeiro em 1864, e segurá-lo por lá, em condições de vida mais higiênicas, saudáveis e condignas. Foi a vivência em Catalão que gerou dois romances, ao menos, de Bernardo Guimarães: “A Voz do Pajé”, de 1860 e “O Índio Afonso”, de 1872, este inspirado num facínora famoso de Catalão. “A Escrava Isaura”, de 1875, pode ter sido o terceiro.
Winchester 44, a “justiça” da cidade
Esclareço agora, lendo o livro de Sant’Anna, algo que me intrigava na meninice: porque chamavam em Goiás a carabina Winchester calibre 44 de “justiça de Catalão”. Essa carabina foi uma das armas que conquistaram o oeste norte-americano, ao lado do revólver Colt 45. Arma inovadora, foi exportada dos EUA para o mundo todo, principalmente na passagem do século XIX para o século XX, e era abundante em todas as cidades, povoados ou fazendas de Goiás, principalmente em Catalão, onde teve muita serventia, como substituta expedita de júris e juízes. A ocupação de espaços vazios e a geração de riquezas no setor primário pelos pioneiros, seja na lavra de minerais, no plantio de roças, na criação de animais ou na demarcação de terras, bem como a participação na criação e desenvolvimento de cidades deram-se, em qualquer lugar do mundo, em meio a lutas e combates. Imperou, seja no faroeste americano, no Nordeste brasileiro ou em nosso Centro-Oeste, o poder do mais forte, constantemente desafiado por outro forte. É essa luta, que foi muito acesa no microcosmo catalano, que Sant’Anna relata em seu livro. Ali não faltam xerifes nem bandidos. Aparecem também caubóis e suas namoradas, embora os mocinhos sejam poucos. É uma história real de faroeste, sem tirar nem pôr. Em meio a episódios ora edificantes, ora deprimentes, mas quase sempre sangrentos, de disputas individuais ou familiares, com descrições de comportamentos regidos pelos códigos não escritos de machismo e valentia, Sant’Anna vai registrando a história de Catalão. O faz também descrevendo os personagens: os chefes políticos, os comerciantes, os componentes da incipiente organização pública ou religiosa, inteiramente subjugados pelos chefes locais, os coronéis. Ou os jagunços, a soldo desses chefes ou operadores autônomos, em geral salteadores de estrada. O livro foca nos quatro acontecimentos mais rumorosos da história da cidade e do município, conhecidos como os Quatro Fogos. Como Primeiro Fogo ficou conhecido um tiroteio entre as famílias Ayres e Paranhos, ocorrido em dezembro de 1892, entre os entrincheirados nas casas das duas famílias, praticamente uma em frente à outra. Cinco anos depois, outro combate a tiros estremeceria a cidade, em dezembro de 1897. Era o Segundo Fogo, opondo os Paranhos aos Ayres e Andrade. Morreria na ocasião o patriarca, ex-senador Antônio Paranhos, e vários outros valentes notórios da cidade, na própria batalha ou na sequência de vinganças. O Terceiro Fogo, ocorrido em fevereiro de 1916, não foi entre famílias, mas entre habitantes da cidade e ferroviários que construíam a Estrada de Ferro que adentrava Goiás. O assassinato de uma prostituta popular na cidade, por um foguista desordeiro e bom de tiro, quando trabalhadores aproveitavam uma folga em Catalão, foi o estopim. Como os estradeiros eram na maioria “peões de trecho”, turbulentos que só andavam armados, cultores de uma solidariedade baseada na valentia, não aceitariam passivamente a prisão de um dos seus. Além disso eram muitos, quase uma centena. Policiais e cidadãos, avalentoados também, resolveram tocaiar o trem que conduzia os ferroviários de volta ao acampamento, o que resultou num terrível tiroteio e muitas mortes. O Quarto Fogo viria em setembro de 1924, com a morte do chefe político “coronel” Salomão de Paiva por membros da família Sampaio, gerando outros assassinatos em seguida, como sempre acontecia nas guerras entre famílias. A história de Catalão daria um bom “western” de John Ford.
Sobram provas da exploração escravagista: salário confiscado pela ditadura, familiares retidos na ilha, proibições ditatoriais de movimentação e relacionamento estendidas aqui para o Brasil, retenção de passaportes, vigilância pelos policiais cubanos
Pioneiros sempre têm muito a contar. Eli Brasiliense, por exemplo, em seu romance “Chão Vermelho”, fala da Goiânia que viu brotar da argila do Cerrado, na primeira metade do século passado. Mas sempre é pouco.
Muitos desses pioneiros — a maioria — não contam o que viram e viveram, e se perde a história rica, às vezes dramática, às vezes cômica, mas sempre épica, de seu tempo.
Gostaria que meu pai tivesse escrito um livro, ele que viveu desde o primeiro dia a saga de Goiânia, até seu falecimento, em 1982. Getulista empedernido, foi amigo incondicional de Pedro Ludovico, embora da geração seguinte, e por isso amigo também dos filhos do velho cacique.
Na construção de Goiânia, foi um dos primeiros funcionários selecionados por Pedro Ludovico, na antiga capital, para a mudança. Sempre foi um membro de carteirinha do PSD, e ocupou nos governos dos Ludovico cargos de confiança, embora nunca tivesse se arriscado em eleições. “Não tenho jeito para pedir votos”, dizia. Era verdade. Nunca o vi pedir nada a ninguém, ele que viveu toda uma existência modesta, e que, com seus vencimentos de funcionário público, somados aos de minha mãe, professora, educou os filhos — e educou bem. A mim mesmo, fez questão de enviar ao Rio de Janeiro para fazer o curso que escolhi — Engenharia. Só hoje posso avaliar o sacrifício de meus pais para que a mesada chegasse religiosamente, como chegou, nos sete anos que passei estudando na então chamada, merecidamente, de Cidade Maravilhosa.
Quando os Ludovico foram derrotados por Jerônimo Coimbra Bueno em 1947, no fim do Estado Novo, meu pai foi demitido do cargo de delegado (os cargos policiais de chefia eram de livre nomeação do governador), como o foram todos os amigos de Pedro Ludovico.
Mas ele tinha a filosofia do personagem Ripol, de Vianna Moog, no livro “Uma Jangada para Ulysses”: “Never complain, never explain”. Não se amofinou nem por um momento. Juntou as economias da família, comprou um carro e foi ser “chofer de praça” como se chamavam os motoristas de táxi de então. Durante os anos do governo Coimbra Bueno dirigiu seu “carro de praça”, vendeu fios de cobre (conseguiu uma representação da fábrica Pirelli) sem uma queixa, uma recriminação sequer, embora trabalhasse febrilmente na eleição seguinte, a de 1950, para que Pedro Ludovico voltasse vitorioso para o governo de Goiás, e Getúlio Vargas para a Presidência do Brasil.
Convidado por Pedro Ludovico, foi ser comandante da Guarda Civil, como se chamava a polícia fardada da época, em que não havia Polícia Militar.
Sua infância, na antiga capital, não foi fácil. Minha avó paterna, Luiza, que residia na cidade de Goiás, era uma bela moça da família Sardinha da Costa, descendente de portugueses imigrados para a região de Paraúna, onde tinham léguas de sesmaria doadas pela coroa portuguesa à época do Brasil Colônia. Deu ela o que se chamava um “mau passo”, e para o qual não havia perdão numa cidade de Goiás supermoralista. Enamorada de um jovem engenheiro que viera do Rio de Janeiro a Goiás fazer uns serviços de cartografia, viu-se só, grávida e solteira, quando Benedito Netto de Velasco, o engenheiro, viajou inopinadamente para o Rio, e não mais voltou a Goiás. Imagine-se o escândalo, naquele ano de 1911, na pequena e preconceituosa capital. Basta dizer que minha avó encerrou ali sua carreira amorosa, e cuidou de educar o filho único, desprezada pela família e pela comunidade onde vivia. Imagine-se a dificuldade com que mãe e filho sobreviveram. Isso acabou por fortalecer o caráter de meu pai, que sempre na vida cuidou de ser o mais trabalhador e honesto, em qualquer função que exercesse, e uni-lo à minha avó por quem teve a maior afeição e a quem dedicou o maior desvelo até o dia de sua morte, o único dia em que o vi verdadeiramente abatido.
Por outro lado, jamais perdoou o pai. Conviveu e fez amizade com o irmão deste, o brilhante político Domingos Velasco, que foi o pioneiro do socialismo no Brasil (fundador do Partido Socialista Brasileiro em 1947). Nunca aceitou sequer conhecer o pai, Benedito Velasco. Domingos Velasco era um advogado destacado, deputado federal por quatro mandatos e senador por um mandato, por Goiás. Aproximou-se de meu pai, certamente constrangido pelo comportamento do irmão, que condenava. Ele recebeu com naturalidade a amizade do tio.
Quando Domingos Velasco disse a meu pai que o irmão desejava conhecer o filho, agora já adulto, e que jamais vira, meu pai foi categórico: “Impossível. Passou a época disso acontecer”. Anos mais tarde, quando um Benedito (que era bastante rico) talvez arrependido, já velho, perto do fim, pediu ao irmão que comunicasse a meu pai que pretendia contemplá-lo no testamento, teve a resposta: “Diga a ele que se o fizesse, estaria me fazendo um favor. Se não o fizer, serão dois favores. Que não o faça, pois ficaremos assim melhor os dois”. E mais não disse, nem lhe foi perguntado.
Meu pai ocupou vários cargos na Segurança Pública, desde aqueles anos de 1930, em que se mudou para Goiânia, cidade existente mais no papel e tinta do arquiteto Atílio Correa Lima do que nos tijolos e cimento do interventor Pedro Ludovico. Foi agente de polícia (detetive, à época), delegado, respondeu pela Chefatura de Polícia (hoje Secretaria de Segurança), diretor da Penitenciária Estadual (agora Cepaigo ou Penitenciária Coronel Odenir Guimarães) e por longos anos pelo Serviço de Trânsito (hoje Detran), por onde se aposentou.
Teria muitas histórias a contar ou a pôr no papel. Como a de quando Goiânia (início dos anos 1940) tinha apenas um ladrão, o “Boca Larga”, bastante conhecido. Dos crimes que chocaram o Estado, como o “Crime da Camionete Azul”, quando um assassinato foi cometido e a vítima desfigurada para ser tomada pelo criminoso, que pretendia se apossar dum grande seguro de vida em benefício de um parente cúmplice. Ou da morte dos bancários do hoje extinto Banco da Lavoura, em um assalto praticado por um membro — descobriu-se depois — de uma das famílias mais tradicionais e ricas de Goiás.
Lembro-me da aflição de minha mãe, no início dos anos 1940, quando houve um motim na Penitenciária Estadual, e meu pai, então diretor, entrou sozinho no pátio do estabelecimento, para negociar com os detentos, entre os quais os mais cruentos assassinos. Conseguiu acalmá-los e terminar a revolta. Carlos Lacerda, governador da Guanabara (Rio de Janeiro), faria a mesma coisa, em 1961.
Quais as palavras trocadas entre o diretor e os presos? Esses diálogos estão perdidos para sempre.
Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), meu pai foi encarregado das campanhas de apoio ao esforço de retaguarda. Lembro-me vagamente da campanha da borracha, quando coletavam-se pneus usados para serem reciclados nos Estados Unidos e da campanha da sucata, com a mesma finalidade. Era a época do racionamento de combustível, gasolina principalmente, e também caiu nas mãos de meu pai a distribuição das cotas e a fiscalização do seu uso. Foi a única vez que eu soube de uma insinuação quanto à sua honestidade, uma agressão à sua reputação, de que zelava cuidadosamente. As consequências quase foram funestas.
Existiam duas empresas que exploravam o transporte coletivo em Goiás, e o proprietário de uma delas, Pilade Baiocchi, tradicional descendente de imigrantes italianos no Estado, sentindo-se prejudicado, discutiu com meu pai. No aceso da discussão, acusou-o de beneficiar o concorrente, e pior, levar vantagem com isso. Soube depois que meu pai chegou a “coçar” o coldre do revólver, e possivelmente Pilade teria feito o mesmo. “Deveria lhe dar um tiro” — teria dito meu pai. “Mas há ainda uma instância antes disso, que é a Justiça. Se ela não resolver, esteja certo de que voltaremos a tratar do assunto.” Feita a denúncia de injúria, convocadas as testemunhas, a Justiça, que então era rápida, enviou Pilade para uma temporada na cadeia, mesmo tendo se retratado. Tempos depois, amigos que eram antes, reaproximaram-se. Esses e muitos fatos, que hoje sabemos por alto, sem as precisões devidas, ou de que nem tomamos ciência, perdem-se na poeira do tempo, vão-se com a memória daqueles pioneiros que vão nos deixando.
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“A Vida Secreta de Fidel”, além de confirmar fatos descritos por oposicionistas, faz revelações sobre a vida luxuosa de Fidel Castro, que
tem ilha particular e iate[/caption]
Foi publicado na França, no dia 28 de maio, o livro “A Vida Secreta de Fidel” (Paralela, 224 páginas, tradução de Júlia da Rosa Simões), escrito por Juan Reinaldo Sánchez e pelo jornalista francês Axel Gyldén. Sánchez foi, durante 17 anos, o principal guarda-costas de Fidel. Gyldén é um jornalista do “L’Express”, que escreveu em 2007 sobre o Brasil o livro “Le Roman de Rio” (não foi traduzido; a edição francesa pode ser encomendada no portal da Livraria Cultura, no link http://bit.ly/1knq5Qq ).
Sánchez, caído em desgraça por ter um irmão que se asilou em Miami (Fidel achou que ele soube da fuga e não a impediu), foi destituído e preso por dois anos. Conseguiu fugir de Cuba e conta “segredos” da vida oculta do ex-ditador. Um deles se refere à vida luxuosa levada por Fidel, inteiramente às escondidas dos miseráveis cubanos, que sofriam — e sofrem — falta de tudo. Um dos segredos mais bem guardados até hoje é o da existência da luxuosa ilha de Fidel, Cayo Piedra. Cayo Piedra fica próxima à costa de Cuba, em frente à Playa Girón (onde desembarcaram os rebeldes mandados por John Kennedy, em 1961).
Local de um antigo farol, demolido nos anos 1960 para as obras determinadas pelo “Líder Máximo” para seu conforto, a ilha comporta uma luxuosa casa para uso exclusivo de Fidel, uma casa de hóspedes, aquartelamento de sua segurança, piscinas, casa de força, abrigos subterrâneos, um viveiro de golfinhos (!), porto e outras construções. Era nos seus arredores que Fidel praticava seu esporte preferido, a caça submarina. O que fazia com grande séquito, como fazia Luis XV, quando caçava nas florestas de Versailles, conta Sánchez.
Embora dispondo de uma casa de hóspedes, para que os cubanos não soubessem de seu luxo, para que não vazassem notícias, Fidel poucos convidados levou a Cayo Piedra, fora de seu círculo mais íntimo. As exceções foram Gabriel García Márquez e o dirigente comunista alemão Erich Honecker.
Para seus deslocamentos para Cayo Piedra, Fidel usava seu iate, não menos luxuoso, o Aquarama II, sucessor do Aquarama I, tomado de familiares de Fulgencio Batista, quando este fugiu de Cuba, e do Tuxpan, também luxuoso, e de cuja existência poucos cubanos souberam.
Outra revelação de Sánchez diz respeito às várias casas de propriedade de Fidel por toda a ilha: são duas dezenas, onde moram a mulher de Fidel desde 1961, Dalia Soto Del Valle, seus filhos, amantes, ou casas que simplesmente serviam de pousada aleatória para o ditador, sempre temendo um atentado.
Revela o ex-guarda-costas a existência de um sósia de Fidel, Silvino Álvarez. A função de Silvino era enganar os cubanos, quando Fidel adoecia. Como o ditador não queria perder a imagem de sempre forte e saudável, fazia Silvino circular por Havana em seu carro Mercedes-Benz, quando enfermo, para que os pobres cubanos não soubessem que o “Líder Máximo” estava acamado.
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Fidel Castro: alquebrado, com quase 90 anos, o veterano ditador leva uma vida de potentado capitalista, apesar da pregação socialista... para os outros[/caption]
Sánchez acompanhou Fidel em quase todas suas viagens, em Cuba e no exterior (inclusive no Brasil, para a posse do ex-presidente Fernando Collor), nos anos em que esteve a seu serviço. Dinheiro nunca foi problema nesses deslocamentos, até porque Sánchez portava uma maleta abastecida com dólares (cerca de 250.000) para as despesas do ditador. Fidel só consumia (e o fazia diariamente) o caro uísque Chivas Regall, que tinha sempre à mão, e só se deslocava em luxuosos carros Mercedes-Benz 500 blindados.
Mas não é só a vida luxuosa de Fidel, seus familiares e próximos que Sánchez revela. O livro ilumina o julgamento stalinista do general Arnaldo Ochoa, fuzilado por ordem de Fidel, juntamente com outros graúdos do comunismo cubano. Cuba necessitava desesperadamente de divisas, depois de cortado o subsídio soviético que sustentava a depauperada economia da ilha. Segundo Sánchez, foi de Fidel a ideia de se associar ao cartel de Medelín, chefiado por Pablo Escobar, e traficar via Cuba para os EUA grandes quantidades de cocaína e maconha. Havia nessa operação um subproduto: Fidel achava que contribuía para o enfraquecimento moral da nação norte-americana, no que, aliás, não estava de todo errado.
Sánchez testemunhou pelo menos em uma ocasião um grande traficante americano veraneando com a família em Cuba, diretamente autorizado por Fidel. Quando a CIA, que havia detectado a rota do tráfico, se aprestava a fazer uma denúncia internacional, Fidel foi avisado pela inteligência cubana, alertada por seus agentes na Flórida (o serviço secreto cubano era tido como excelente, superado apenas pela americana CIA, pelo SDECE francês, pelo MI-5 britânico e pelo Mossad israelense).
Fidel não perdeu tempo e matou dois coelhos de uma só cajadada. O general Ochoa havia se tornado um grande herói nacional, o que incomodava sobremaneira Fidel. Combatente de Sierra Maestra, lutara no Congo com Che Guevara, na Venezuela, na Etiópia, na Nicarágua e em Angola, sempre a mando de Fidel. Além de ser popular, Ochoa cometera outro pecado capital. Em Angola, no campo de batalha, onde conhecia a situação, desobedecera a ordens de Fidel, que resolvera orientar as operações, embora estivesse a milhares de quilômetros das tropas, e, claro, não tivesse o conhecimento local. Ditador algum tolera ser desobedecido, mesmo que esteja errado. Sánchez havia ouvido algumas conversas entre Fidel e Raúl com críticas à ascensão e à independência de Ochoa. Foi então que se montou o espetacular julgamento (de Ochoa e do ministro do Interior, José Abrantes). Ao fim do julgamento, Ochoa surgiu como o grande culpado do tráfico de drogas, e foi rapidamente fuzilado. (Abrantes, condenado a longa pena de prisão, morreu dois anos depois, em condições suspeitas, na sua cela.)
Fidel dava ordens diariamente ao juiz fantoche que presidia a corte, para que tudo saísse a contento. E Fidel saiu do julgamento como o homem que não tolerava desvios, ficando ainda livre da sombra de Ochoa.
Raúl Castro é alcoólatra, relata Sánchez. O problema parece ter surgido logo após a vitória da revolução, quando Raúl, por exigência de Fidel, supervisionou a carnificina dos fuzilamentos, e mesmo participou de alguns. Agravou-se o problema depois da execução de Ochoa, de quem Raúl era amicíssimo. Raúl moderou com a vodka a pedido e mesmo exortação de Fidel, a quem nunca negou absolutamente nada. Há muito mais no livro de Sánchez, que acaba de ser traduzido pela Paralela, selo da Companhia das Letras. É um caso raro, porque livros críticos à ditadura dos siameses Fidel e Raúl são escassos no Brasil. Os admiradores de Fidel e do regime cubano dirão que se trata de mentiras, e obviamente vão ignorar até mesmo as fotografias com que Sánchez ilustra o livro. E nosso dinheiro ainda vai para Cuba, graças aos muitos stalinistas do governo.
Resposta da presidente Dilma Rousseff aos críticos da gastança em obras para a Copa, tentando fazer crer que essas obras serão úteis para nós, e “esquecendo” os superfaturamentos: “Os turistas não têm como levar na mala os estádios, os aeroportos e as obras de mobilidade urbana”. De fato não têm. E se tivessem, não o fariam. Estádios seriam para eles de pouca serventia; aeroportos, seus países têm melhores; e obras de mobilidade urbana dignas do nome não encontrariam por aqui, por mais que procurassem.
“Todo poder aos sovietes” — foi o brado de Lênin que anunciou o Outubro Vermelho, o de 1917, nascedouro do comunismo soviético, o fato histórico mais malfazejo para a humanidade que se conhece. Faz mal até hoje, principalmente na América Latina. O decreto 8.243/2014, de Dilma Rousseff, tem o mesmo grito. Ao tentar emendar a Constituição e implantar por decreto a “democracia direta”, que não é democracia, pois visa estabelecer uma nova versão da “ditadura do proletariado”, e nem é direta, pois passa, necessariamente, pelos “movimentos sociais” dominados por petistas, o governo ignora a História, a própria Constituição e o bom senso. Os males do petismo poderiam ter chegado ao fim no mensalão, com o impeachment de Lula. Bastava um empurrão, e Lula sabia disso. Tanto que enviou Márcio Thomaz Bastos a Fernando Henrique Cardoso para pedir clemência à oposição — e a obteve. Fernando Henrique, em quem Lula, a despeito disso, não se cansa de bater, é o nosso Kerensky.
Surge vaga no Tribunal de Contas da União, com a aposentadoria do ministro José Jorge. Há candidatos (fortes) se movimentando: o louco manso Aldo Rebelo e o mais petista dos filiados ao PSDB, o governador alagoano Teotônio Vilela Filho. Que Deus nos guarde.
O relatório do Mapa da Violência, do Instituto Sangari, revela que Santa Catarina é o Estado menos violento do Brasil. Detalhe: trata-se da unidade de Federação em que as pessoas de bem mais se armam
A democracia não é a seiva de que se nutrem o PT e outros partidos brasileiros com raízes bem plantadas no marxismo


