Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Quando começa a derrocada de Hitler

O início do fim para os alemães na 2ª Guerra se deu na Batalha de Moscou, ainda em 1941

Livro reabre os debates sobre o ponto de inflexão da 2ª Guerra Mundial

Livro reabre os debates sobre o ponto de inflexão da 2ª Guerra Mundial

Se a Primeira Guerra Mun­dial é ainda objeto de estudos, discussões e interpretações, como bem mostram aqui no jornal os artigos da coluna Carta da Europa, de Edgar Welzel, imagine-se por quanto tempo ainda dará a Segunda Guerra vez a discussões. O livro “A Batalha de Moscou” (tradução brasileira de Paulo Castanheira, Editora Contexto, 2013), do jornalista (por mais de 30 anos na “Newsweek”) Andrew Nagorski, tem dois méritos: em primeiro lugar reabre os debates sobre o ponto de inflexão da guerra, aquele em que os exércitos de Hitler, tidos como imbatíveis, perderam a iniciativa das batalhas.

A maioria dos historiadores dá como reversão das vitórias do Eixo a Batalha de Stalingrado, que terminou em fevereiro de 1943, ou a batalha de Kursk, finalizada em julho do mesmo ano. Nagorski diz, com todas as letras, que os nazistas começaram sua derrocada na Batalha de Moscou, que durou de setembro de 1941 a abril de 1942. O mês mais trágico da batalha, para os invasores, teria sido outubro de 1941, quando os alemães foram paralisados, nos subúrbios da capital soviética, pela combinação do inverno excepcionalmente rigoroso com a determinação suicida do Exército Vermelho. Em segundo lugar, o jornalista apresenta novas cenas, ou reforça cenas conhecidas, dos acontecimentos subsequentes à detonação da Operação Barbaroxa, como denominou o Estado Maior Alemão a invasão da URSS. Nagorski pesquisou para isso novos documentos, percorreu os locais onde a luta foi mais intensa e entrevistou sobreviventes.

Comecemos então pela justificativa de que seria a Batalha de Moscou a porta do inferno para os alemães. O autor alega, e não de todo sem razão, que foram as perdas alemãs em Moscou, quando Hitler não conseguiu tomar a capital soviética, que impediram o sucesso da ofensiva da primavera de 1942, redundando nos desastres de Stalingrado e Kursk, e abrindo para os soviéticos o caminho de Berlin. Os alemães teriam sacrificado, segundo o autor, mais de 600 mil soldados (mortos e feridos) na Batalha de Moscou e perdido grande quantidade de material de guerra. Os invadidos tiveram perdas imensamente maiores (quase 2 milhões de baixas). A capacidade de recrutamento alemã à época era muito limitada, dado à população germânica, relativamente pequena se comparada ao colosso soviético: 70 milhões contra 180 milhões. E os parceiros do Eixo só contribuíram modestamente para a Operação Barbaroxa: italianos, húngaros, finlandeses, romenos e espanhóis somavam umas poucas divisões.

Isto significava que embora morressem ou ficassem feridos três ou quatro vezes mais russos e seus parceiros do que alemães e seus aliados, era muito mais fácil para os russos preencherem seus claros. Foi o que fez Stalin, tão logo se recompôs da perplexidade inicial com a invasão. Só tropas siberianas frescas que conseguiu mobilizar e armar em 1942, somavam 1 milhão de homens. Para a batalha de Stalingrado, o ditador soviético mobilizou secretamente outro milhão de soldados (nem o marechal Zhukov, comandante do Exército Vermelho, sabia dessas reservas, revela o historiador americano Walther Kerr). Em outras palavras, Stalin tinha 2 milhões de homens para fazer a reposição dos que perdia em frente a sua capital, mas os alemães, em guerra desde 1939, com a mobilização praticamente esgotada, não tinham como fazer um recompletamento de 600 mil integrantes para a Wermacht. Esses claros fariam falta a partir de 1942, em que pese a superioridade em material e preparo da máquina de guerra alemã.

Nagorski chama a atenção para a magnitude dessa perda da Wermacht. Em Stalingrado, invasores e invadidos perderam um terço do que perderam em Moscou: 300 mil baixas alemãs, 700 mil soviéticas. Em Kursk, a perda maior foi material. O parque de blindados alemães da frente oriental foi dizimado pelos tanques soviéticos Stalin T-34, superiores em blindagem aos Panzer e Panther. Os nazistas perderam 800 tanques e canhões de assalto, que a Alemanha não tinha como repor. Os soviéticos perderam o dobro, que puderam substituir pelos que fabricavam e pelos que os americanos lhes forneceriam, dentro do projeto de ajuda “lend-lease”. Fica aberta a discussão: quem mudou o sentido da guerra: Moscou ou Stalingrado?

As novidades, ou meias novidades de Nagorski, são muitas, mas três nos chamam particularmente a atenção: 1) Como estiveram os alemães perto de tomar Moscou. 2) A crueldade de Stalin para com os próprios soldados. 3) A trajetória do traidor russo, general Vlassov. Comecemos com os alemães chegando a um passo do Kremlin. A invasão alemã de 22 de junho de 1941 colheu Stalin tão de surpresa que por quase dois dias ele se imobilizou, recusando-se a acreditar, enquanto os exércitos de Hitler destruíam aviões no solo e blindados imóveis. As tropas alemãs penetravam profundamente em solo soviético e capturavam mais de 1 milhão de soldados despreparados e pouco armados.

Não fosse o atraso de algumas semanas, por terem os alemães invadido os Balcãs para socorrer Mussolini, eles teriam eliminado um de seus mais severos obstáculos para a tomada de Moscou: o inverno. Não fosse também uma ordem equivocada de Hitler, relutantemente obedecida pelo general Heinz Guderian e seus Panzers, Moscou teria sido alcançada antes do inverno e da reorganização do Exército Vermelho frente à capital. Guderian, à frente de sua divisão blindada, avançava célere para Moscou, quando, a 27 de julho, vitorioso em Smolensk, a 350 quilometros da capital, recebeu ordem de infletir para o sul, em direção a Kiev. Hitler desprezava o enorme golpe psicológico (nacional e internacional) que seria a tomada de Moscou, e ordenava, por razões econômicas, que se ocupassem a Ucrânia e o Cáucaso.

Stálin matava até seus próprios soldados

Enquanto isso, o desespero crescia em Moscou, que já se julgava perdida. Os alemães haviam chegado até o subúrbio moscovita de Khimki, a meia hora de automóvel do Kremlin. Nos dois meses e meio seguintes, culminando no pânico do dia 16 de outubro de 1941, ninguém, no mundo inteiro apostaria que Moscou resistiria. Neste dia, grande número de autoridades soviéticas havia se retirado para Kuybishev, que seria a nova capital. Até a NKVD preparava sua retirada e queimava seus documentos na Lubianka. Para Kuybishev também haviam sido deslocados os embaixadores estrangeiros. O povo saqueava o comércio e estendia bandeiras brancas nas janelas. Stalin, contudo, resolveu permanecer e defender a capital. Salvou-a, com sua cruel determinação, ajudado pelos erros de Hitler.

No que consistiu a crueldade de Stalin para com seus soldados: desde o início da sua reação, Stalin nunca admitiu recuos ou rendições. Nem quando havia apenas um fuzil para cada dez combatentes.

Os soldados eram obrigados a avançar, desarmados, tomando as armas dos que caiam ou do inimigo. Soldados alemães relataram que às vezes seus ninhos de metralhadoras eram tomados por homens desarmados, pois não tinham tempo de recarreatgar as armas para matar mais. Era uma carnificina. Ninguém recuava, pois Stalin havia criado as “unidades de bloqueio” que nada mais eram do que soldados metralhadores na retaguarda, encarregados de matar no ato quem não avançasse ou recuasse. Sua Diretriz de Guerra nº 270 dizia que quem fosse feito prisioneiro seria tratado como traidor e sua família enviada para um campo de concentração.

De fato, prisioneiros soviéticos dos alemães geralmente eram fuzilados quando libertados. Mesmo após o fim da guerra, milhares foram repatriados apenas para serem fuzilados ao desembarcarem nas estações de sua pátria. Soldados feridos sem gravidade, eram suspeitos de automutilação e fuzilados, embora muitas vezes tivessem sido feridos pelos alemães quando combatiam valorosamente. A única possibilidade de um soldado soviético era combater contra os alemães, mesmo que de mãos limpas. Nenhuma tropa nessa guerra, nem as impiedosas SS alemãs, tratou assim seus soldados.

Finalmente, falemos do general Andrei Vlassov. A historiografia soviética da Segunda Guerra eliminou-o de seus registros. Foi um dos generais mais destacados na defesa de Moscou, e um dos preferidos de Stalin. Não se soube exatamente porque, mas resolveu passar para o lado alemão e combater, com uma divisão de rebelados russos, seus antigos chefes. Nagorski faz um breve resumo biográfico dele. Ao fim da guerra, inexplicavelmente, Vlassov entregou-se aos soviéticos. Conhecendo Stalin como conhecia, deveria ter se suicidado. Stalin relatou a um chocado Churchill que mandou fuzilar os soldados de Vlassov, e levar para Moscou o general e seus oficiais. Ordenou que fossem torturados até a morte, nos porões da NKVD. Demorariam uma semana para morrer.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.