Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Lira Neto lança livro revelador sobre Getúlio Vargas

Publicada em três volumes, com 1.694 páginas, a biografia conta a vida de um político e resgata parte da história do século 20 brasileiro. Uma obra de respeito

A trilogia sobre o presidente Getúlio Vargas talvez possa ser considerada a biografia mais completa de um líder político brasileiro

A trilogia sobre o presidente Getúlio Vargas talvez possa ser considerada a biografia mais completa de um líder político brasileiro

No dia em que envio este comentário, caro leitor, são passados 60 anos do suicídio de Getúlio Vargas. Foi um dos momentos mais dramáticos — e seguramente o mais trágico — da nossa história política contemporânea. Um livro nos permite conhecer os fatos que levaram o presidente que por mais tempo governou o Brasil a matar-se. Permite ainda, além de percorrer os meandros da nascente democracia brasileira do pós-guerra, reconhecer as figuras que até ontem desempenhavam os papéis principais no teatro político do país e observar como ao longo de quase uma década formaram-se, contínua e inexoravelmente, acontecimentos graves, que só poderiam levar a também graves desfechos.

No dizer de um comentarista desse livro, lê-lo é como assistir a uma peça de Shakespeare. Ou ler um romance de “suspense”, digo eu. É um livro que recomendo ao leitor desejoso de conhecer em detalhes origem, meio e fim da tragédia getulina — leitura de que seguramente não se arrependerá. Escreveu-o o jornalista e biógrafo cearense Lira Neto. É o terceiro de sua trilogia sobre Getúlio. Chama-se “Getúlio — Da Volta Pela Con­sagração Popular ao Suicí­dio/1945-1954” (Com­panhia das Letras, 2014).

O leitor seguramente se emocionará com a crescente tensão dos acontecimentos, sua inicial imprevisibilidade, o agravamento progressivo, o anticlímax e o fim. Certamente se indignará com a pequenez de alguns personagens da cúpula política nacional de então, como se admirará da grandeza de outros, e ver-se-á torcendo em vão para que o desfecho não seja aquele que já conhece de sobra. Torcerá por um Getúlio Vargas já de antemão perdido. Lira Neto relata fielmente, com clareza, fluência e admirável precisão a saga getulina. Não há lu­gar para pieguice nem existem e­xa­geros em seu livro. Ele rescende a credibilidade e não apela pa­ra linguagem apaixonada, mesmo porque os acontecimentos, por si sós, já estão repletos de paixão, do começo até o amargo final.

Arrisco-me a uma síntese, até porque, ao contrário do que acontece normalmente, o resumo é mais um convite à leitura completa do livro, para quem tem um mínimo de curiosidade histórica. É, como dissemos, o terceiro livro da biografia, e — já se vê pelo título — começa no final de 1945, com Getúlio deposto, após 15 anos de poder ditatorial, retirado para uma fazenda em São Borja, no Rio Grande do Sul.

O ex-presidente, agora com 63 anos, está deprimido e só. Ele e a mulher, Darcy, que conhece as infidelidades do marido, praticamente não se falam, e ela permanece no Rio de Janeiro, onde também estão os filhos. Getúlio sente mesmo é a falta da filha mais velha, Alzira, a pessoa dele mais próxima, casada com o militar (da Marinha) e futuro senador e diplomata Ernani do Amaral Peixoto.

Lira Neto mostra que o ex-presidente é um potencial suicida. Em quatro oportunidades, pelo menos, ele, Getúlio, deixa entender em seus escritos, que encara o suicídio como algo válido e até necessário para uma saída com honra de uma situação sem saída. Registra esse pensamento em momentos críticos de sua carreira: em 1930, em 1932, em 1942 e em 1945. Prenunciava-se 1954. O Getúlio isolado na coxilha, contudo, não perdeu o faro político nem a astúcia. Conserva também, ver-se-á depois, o prestígio que seu natural carisma, as medidas de alcance popular que tomara na ditadura e uma propaganda martelada durante uma quinzena de anos de poder absoluto lhe haviam conferido.

Nas primeiras eleições após sua deposição (2 de dezembro de 1945), Getúlio já emergiria como uma figura eleitoralmente expressiva, além de astutamente articulada. Não só teria influído grandemente para a eleição de Eurico Gaspar Dutra para presidente, como seria eleito senador por dois Estados (Rio Grande do Sul e São Paulo) e deputado por sete unidades (Bahia, Paraná, Rio de Janeiro, Minas, São Paulo, Rio Grande do Sul e Distrito Federal). A lei eleitoral de então permitia essa prodigalidade, embora exigisse a escolha de um dos mandatos e renúncia aos demais.

A derrota do udenista brigadeiro Eduardo Gomes, um dos maiores opositores a Getúlio, tinha sabor especial. Mas Getúlio foi um parlamentar ausente, sempre em licença, até para evitar as constantes provocações, muitas vezes pesadas, de seus adversários, quando presente no plenário do Senado (por decisão do TSE, seria senador por São Paulo, onde tivera maior votação) e mais pesadas ainda quando ocupava a tribuna. O mais de 1 milhão de votos obtidos pessoalmente por Getúlio nessas primeiras eleições após seu afastamento do poder e o sucesso de suas articulações para a eleição de Dutra já apontavam para o que seria sua consagração nas eleições seguintes, em 3 de outubro 1950. Con­sagração e futura perdição.

O homem que governara com poderes ditatoriais, ainda na força da juventude, experimentava agora, da maturidade para a velhice, circunstâncias inteiramente diferentes. Fora eleito presidente, sim, com expressiva votação, mas não chegara aos 50% dos votos. Tivera que engolir um vice-presidente que não era de seu agrado nem de sua confiança: João Café Filho. Uma piada da época dizia que Getúlio brigava com a mãe, se ela, prestimosa, lhe oferecia uma xícara, perguntando: “café, filho?”.

Enfrentaria, desde os primeiros dias de governo uma oposição forte, numerosa, composta de parlamentares de boa oratória, intelectualizados, honestos e por isso independentes, co­rajosos, combativos. Além disso, uma imprensa onde pontuavam jornais de ferrenha oposição, como a “Tribuna da Imprensa”, de Carlos La­cerda. Havia ainda a má vontade dos quartéis, onde estava viva a imagem do ditador que havia sido varrido do Palácio do Catete na onda democrática que atingira o Ocidente ao final da Segunda Guerra Mundial. E pior, muito pior, a família e os amigos.

O irmão Benjamim Vargas — o famoso Bejo —, os filhos Maneco e Lutero, o genro Rui da Costa Gama, casado com a filha mais nova, Jandira, e muitos ex-auxiliares da época da ditadura agora desfrutando do novo poder, tinham a boca torta pelo uso do cachimbo governamental sem voz opositora e sem imprensa, no passado ditatorial. Metiam-se em negócios e confusões que logo explodiam nos jornais ou nas tribunas. Pode-se dizer que foram raros os dias tranquilos de Getúlio entre 31 de janeiro de 1951, dia da posse, e 24 de agosto de 1954, dia da morte. Escândalos provocados por parentes ou pessoas próximas, discursos impiedosos de oposição no Co­n­gresso, ataques violentos pelos jornais, conspiratas militares, dificuldades financeiras ou administrativas de governo, tudo muito diferente e mais penoso do que antes. E, afinal, o a­ten­tado contra Carlos Lacerda e a morte do oficial da Aeronáutica que o acompanhava (major Rubem Vaz) a mando do chefe da sua guarda pessoal.

Honesto pessoalmente, comedido, o presidente viu-se acusado de tudo que não cometera. Os militares iriam depô-lo, como era possível então. A reunião ministerial daquele 24 de agosto de 1954 foi o que matou Getúlio. Uma sessão de muitas fraquezas, indignidades e deslealdades para com o chefe. Mas também de algumas — poucas — demonstrações de dignidade e coragem. Dos militares presentes, apenas um não abandonou Getúlio, e corajosamente propôs resistir à deposição pelas armas: o general Aguinaldo Caiado de Castro, chefe do Gabinete Militar, aliás avô do atual secretário estadual da Cultura em Goiás, Aguinaldo Coelho. Os quatro outros ministros militares se acovardaram.

Ao encerrar a reunião, Ge­túlio já havia se matado. O tiro no peito, horas depois, seria um detalhe. Apenas um ponto final num longo capítulo escrito pelo destino. Tudo o que modestamente vai resumido aqui está de modo eloquente e detalhado no livro de Lira Neto.

Fui testemunha periférica dessa época. Vi, ainda garoto, a chegada de Getúlio a Goiânia, na campanha de 1950, sob intensa emulação popular. A cidade em peso foi recebê-lo no aeroporto, Pedro Ludovico à frente. Assisti ao esfacelamento de seu governo, estudante que era no Rio de Janeiro, em 1954. A politização intensa se fazia presente até nas salas de aula, e a maioria dos professores do vetusto Colégio Batista, na Tijuca, onde eu estudava, lacerdistas que eram, não poupavam Getúlio. Vi o Rio de Ja­neiro conflagrado quando a morte do presidente foi anunciada, com massas populares percorrendo as ruas, revoltadas, quebrando o que encontravam pela frente.

O livro e o tempo (que aclara muitas coisas) deixaram-nos contudo, algumas dúvidas, no episódio fatal do atentado a Lacerda. Getúlio teve algum comprometimento? Certa­mente não. Mas nunca se saberá se algum dos seus filhos, ou se Bejo, seu irmão, soube com antecedência do que Gregório Fortunato, o “Anjo Negro”, o chefe da guarda pessoal do presidente, urdia na cozinha do Palácio do Catete. Como nunca se soube ao certo se Carlos Lacerda recebeu mesmo um tiro no pé durante o atentado. Um tiro que atingisse em cheio o pé do jornalista provocaria sequelas permanentes, pois o pistoleiro usava a arma de maior calibre existente na época. O mais provável é que o tiro tenha sido apenas de raspão, e Lacerda tenha exagerado seu ferimento, para ampliar o impacto do atentado. Re­su­mindo o resumo: um livro de respeito, esse de Lira Neto.

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