Por Euler de França Belém
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Governador Marconi cumprimenta o apresentador Sandes Júnior | Foto: Rodrigo Cabral[/caption]
O deputado federal Sandes Júnior, do PP, diz sobre Iris Rezende, pré-candidato do PMDB a prefeito de Goiânia: “Há quem diga que Iris Rezende não quer arriscar e estaria, na verdade, se preparando para disputar o governo do Estado em 2018. Ele aparentemente acredita, segundo alguns de seus aliados, que, sem o governador Marconi Perillo no páreo, na próxima disputa, terá condições de ser eleito governador. O problema pode ser sua idade. Ele terá 85 anos em 2018”.
Registro do deputado federal Sandes Júnior, do PP, sobre o deputado federal Alexandre Baldy, do PSDB: “O deputado me disse que vai disputar a Prefeitura de Anápolis. Ele afirmou que não será mais candidato a deputado federal e assegura que sua vocação é mesmo para o Executivo”.
(Na foto: Ernani de Paula, ex-prefeito de Anápolis, e Alexandre Baldy)
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Foto: reprodução/Facebook[/caption]
O deputado federal Sandes Júnior disse ao Jornal Opção na sexta-feira, 22, que será candidato a prefeito de Goiânia em 2 de outubro deste ano. “As pesquisas qualitativas sugerem que o quadro está indefinido e que meu capital eleitoral é grande na cidade.”
Por que Sandes Júnior, se não está inteiramente satisfeito, permanece no PP? “O PP é meu partido há vários anos. Com 43 deputados federais, tem o quarto maior tempo de televisão, o que será importante para a minha campanha. Mas respeito muito o PRB, que está crescendo; hoje, tem 26 deputados federais. Seus líderes têm uma ação consistente em Brasília.”
Sobre a possibilidade de Roberto Balestra sair do PP, devido a atritos com o presidente do partido, Wilder Morais, Sandes contemporiza: “Não acredito que Balestra, um deputado competente e sério, saia do PP. É líder histórico, um dos fundadores do partido. Wilder Morais está procurando fortalecer o partido em todo o Estado, e isto é positivo”.
Perguntado se acredita que o deputado federal Waldir Delegado Soares (PSDB) vai disputar a Prefeitura de Goiânia, Sandes Júnior é enfático: “Acredito. Ele sempre diz aos deputados e aos jornais que será candidato, só não sei por qual partido”. O deputado sugere que o delegado precisa encontrar uma estratégia para que seu eleitorado cresça. “Ele teve 20% dos votos para deputado federal. Precisa, portanto, aumentar seu capital eleitoral.”
Sobre Giuseppe Vecci: “Acredito piamente que será candidato a prefeito de Goiânia pelo PSDB. Ele é altamente qualificado tecnicamente e começa a tomar gosto pela política”.
Irondes Morais foi prefeito de Inhumas e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Goiás. Aos 71 anos, parece um jovem, talvez devido ao fato de fazer exercícios físicos quatro vezes por semana com personal trainer. Ele continua no PMDB. “Não vou sair, não.”
Instado a avaliar a gestão do prefeito de Inhumas, Dioji Ikeda, do PDT, Irondes Morais diz que “ele trabalha com seriedade”. Na sua opinião, Ikeda é o típico gestor eficiente, que deixa um legado positivo, mas falta certa “liga” com o povo. “Falta carisma ao prefeito e sua rejeição, devido à qualidade de sua gestão, deveria ser menor. Nós, do PMDB, vamos apoiar sua reeleição, que, embora difícil, é perfeitamente possível. Basta que conecte sua imagem de administrador competente à imagem do político.”
Irondes admite que o pré-candidato do PP, Abelardo Vaz, é forte. “Mas, como todos nós sabemos, eleição se decide é na campanha. Não se ganha por antecipação. Durante a campanha, os eleitores vão sopesar o que Dioji fez e está fazendo e vai comparar com o projeto de Abelardo Vaz. Se julgar que Dioji é o concreto e o outro apenas a ‘fantasia’, é possível que decida manter o prefeito no poder.”
O médico João Antônio (PSD) é, segundo Irondes, outro nome forte. “Numa cidade politizada e culta como Inhumas, a mudança de partido pode prejudicar o seu projeto. Mas é provável que, se disputar, parte do PMDB o apoie.”
Instado a examinar o quadro de Goiânia, Irondes sugere que, se sair do PSDB, Waldir Soares pode se tornar um candidato ainda mais forte e perigoso para todos os outros postulantes. “Há uma liga entre o delegado e os eleitores. Há uma fé em que pode resolver as coisas. É óbvio que candidatos-justiceiros, quando chegam ao poder — que tem limites legais, porque se vive num país democrático —, costuma decepcionar. Não sei se é ou se será o caso. Luiz Bittencourt, dado o seu preparo, tem condições técnicas de ser um prefeito eficiente. A Giuseppe Vecci falta sobretudo carisma e sintonia com as pessoas. Se mudar o perfil, tornando-se mais político, ainda que mantendo seu lado técnico — que é um de seus pontos positivos —, Vecci, com o apoio da estrutura do governo e o prestígio do governador Marconi Perillo, pode crescer. Ressalte-se que os eleitores de Goiânia têm uma comportamento em geral oposicionista.”
Aliado de Iris Rezende de longa data, Irondes sublinha que se trata de uma “força da natureza”. “A vitalidade política de Iris é imensa e sempre surpreende seus aliados. Ele não desiste nunca, é abnegado e tem ampla sintonia com as ruas. Ele é um ‘personagem’ de Goiânia. As pessoas param para cumprimentá-lo e, mesmo fora de períodos eleitorais, Iris atende a todos com cordialidade. Assim como o governador Marconi Perillo, Iris é um dos poucos políticos que, embora faça gestões eminentemente técnicas — com extremo rigor na aplicação dos recursos públicos, tornando-os até mais ‘elásticos’ —, sempre sai consagrado politicamente. Ele não é um tecnoburocrata, do estilo José Serra, mas, embora seja antes de tudo um político, aprecia gestões mais técnicas do que políticas”.
Depois da peroração, o repórter do Jornal Opção insiste: “Mas Iris Rezende será candidato a prefeito de Goiânia?” Irondes pensa um pouco, ri com leveza, e afirma: “Iris não me disse, com todas as letras, que será candidato. Mas, sim, acredito que vai disputar a Prefeitura de Goiânia. Nós, do PMDB, achamos que vai e deve ser candidato. Até para fortalecer o partido para o pleito de 2018. A chance de Iris ser eleito é alta, pois ele tem identidade com a cidade”.
Sobre a disputa pela presidência do PMDB estadual, Irondes é mais lacônico. “Como se sabe, eu apoio o candidato indicado por Iris Rezende. Mas admito que o deputado federal Daniel Vilela é mesmo um nome forte.”
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Prefeito Juraci Martins (PP): liderança consolidada em Rio Verde | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção[/caption]
O prefeito de Rio Verde, Juraci Martins (PP), consolida-se como um verdadeiro líder político. Os três principais pré-candidatos a prefeito do município — Paulo do Vale (PMDB), Heuler Cruvinel (PSD) e Lissauer Vieira (Rede, a caminho do PP) — foram, politicamente, criados por suas duas gestões.
Paulo do Vale era um médico conceituado na cidade, mas sem projetos políticos imediatos. Bastou uma passagem pela Secretaria da Saúde, na gestão de Juraci Martins, para tomar gosto pela política. Agora, comporta-se muito mais como político como um agente do setor de saúde.
Heuler Cruvinel era um menino rico de Rio Verde — mimado pelos pais afortunados e pelos amigos. Juraci Martins o bancou para deputado federal e, contra a expectativa de muitos, foi eleito. Está no segundo mandato.
Lissauer Vieira era produtor rural, apontado como dos mais competentes, e Juraci Martins trouxe-o para o seu lado. Em 2014, contribuiu, de maneira decisiva, com a eleição do jovem para deputado estadual.
Resultado da força do líder Juraci Martins: os três candidatos mais importantes são suas crias eleitorais.
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Deputado estadual Lissauer Vieira | Foto: Renan Accioly / Jornal Opção[/caption]
O deputado Lissauer Vieira participa da vida política, como parlamentar eleito, há apenas um ano. Mas segmentos organizados de Rio Verde sugerem que nasceu para ser político. Não porque seja populista e prometa o impossível. Os que eles percebem é que o deputado estadual apresenta suas ideias com clareza, sensibilidade e sinceridade. Noutras palavras, tem credibilidade.
Pré-candidato a prefeito de Rio Verde, Lissauer Vieira chegou depois dos candidatos do PMDB, Paulo do Vale, e do PSD, Heuler Cruvinel. Mas rapidamente galvanizou o debate político e os eleitores já prestam atenção no seu nome e nas suas ideias. O jovem político, de pouco mais de 30 anos, mas já experimentado na iniciativa privada, é, no momento, o pré-candidato mais observado. Fica-se com a impressão de que os eleitores não estão muito totalmente na polarização entre Paulo do Vale e Heuler Cruvinel.
A tendência é que Lissauer Vieira faça uma campanha mais propositiva, sem ataques pessoais, e que Paulo do Vale e Heuler Cruvinel se engalfinhem, em termos figurados, com ataques brutais. O peemedebista e o pessedista não se toleram. Heuler Cruvinel é apontado como o principal articulador da “queda” de Paulo do Vale da Secretaria de Saúde da Prefeitura de Rio Verde. Se ficar fora da guerra, Lissauer Vieira pode acabar conquistado o eleitorado.
Nem é preciso fazer pesquisa. Quem anda uma hora na região noroeste de Goiânia percebe certa conflagração do eleitorado.
Parte quer, de qualquer maneira, seguir com o pré-candidato do PMDB a prefeito, Iris Rezende. Os eleitores dizem que o “velhinho” sabe administrar e “prestigia” os bairros menos nobres.
A outra parte, e significativa, aposta na candidatura do deputado federal Waldir Delegado Soares. Acredita-se, numa das mais populosas regiões da capital, que, se eleito, o delegado vai pôr ordem na casa, quer dizer, “vai resolver” o problema da segurança pública.
Quem esperava um Fábio Sousa “nervoso” e “agressivo” surpreende-se. Ele está “tranquilo” e “cordial”, como de hábito. O deputado federal não vai disputar as prévias do PSDB para ungir o candidato a prefeito de Goiânia, alegando que há cartas marcadas — o deputado federal Giuseppe Vecci já estaria definido no momento em que se apresentou como pré-candidato —, mas não desistiu de disputar as eleições. O parlamentar, atuante no Câmara dos Deputados, estuda, com seus aliados, a possibilidade de sair do partido. Porque quer ter chance, um dia, de disputar um mandato majoritário. No PSDB, acredita, não terá chance alguma. Alguns partidos já o sondaram formal e informalmente e já lhe ofereceram legenda para disputar a Prefeitura de Goiânia. De qualquer modo, ele deve esperar até o fim de março, ou um pouco antes, para tomar uma decisão. Seus aliados lembram que obteve 30 mil na capital na eleição de 2014.
Se quiser mesmo disputar a prefeitura, este ano, Fábio Sousa sairá. Mas o deputado aprecia a ação do PSDB em nível nacional. Na sua opinião, esboçada para aliados, o partido tem as melhores cabeças nacionalmente — com um pensamento definido sobre o Brasil — e tem presença forte no Congresso. A filiação a um partido menor e menos articulado reduziria a força do deputado no Parlamento.
Aliados de Fábio Sousa consideram o PR um partido com força política. O deputado mantém relacionamento cordial com a deputada Magda Mofatto, que deverá ser candidata ao Senado em 2018. O partido não tem um nome forte para a disputa na capital. O nome poderia ser o de Fábio Sousa. Mas um aliado do parlamentar é enfático: “O deputado nunca conversou sobre candidatura com Magda”.
O presidente do PRB de Goiás, Ricardo Quirino, manteve uma longa conversa com o deputado federal Sandes Júnior na quinta-feira, 21. “Sandes descartou, ao menos no momento, qualquer possibilidade de se filiar ao nosso partido. Ele me disse que será candidato a prefeito de Goiânia pelo PP.”
Ricardo Quirino disse que o PRB mantém as portas abertas para o deputado federal — que está mesmo insatisfeito com o PP, ou com setores do partido (na eleição passada, ficou como suplente por falta de suporte partidário).
O PRB, segundo Ricardo Quirino, vai conversar com os pré-candidatos a prefeito em Aparecida de Goiânia. “Lá, nós temos o vereador Cláudio Nascimento. Ele vai à reeleição. Hoje, estamos na base do prefeito Maguito Vilela e é possível que o partido apoie o seu candidato a prefeito.” Mas o líder partidário frisa que “o quadro permanece indefinido”.
Em Anápolis, cidade que tem o terceiro maior eleitorado do Estado, o PRB não tem vereador. Mas quer ampliar sua força política local. “Nós estamos conversando, como é típico da democracia, com o prefeito João Gomes e com os outros pré-candidatos. Estamos totalmente abertos ao diálogo.”
Em Rio Verde, frisa Ricardo Quirino, “o PRB vai apoiar o candidato do PSD, Heuler Cruvinel”. Ele afirma que o PRB sairá mais forte das eleições municipais.
Inquirido se avalia que Iris Rezende será candidato, Ricardo Quirino diz que ainda não se sabe qual será a conduta precisa do líder do PMDB. “Como é conhecido, pode declarar-se candidato em cima da hora. E há uma expectativa de que será candidato, tanto entre os peemedebistas quanto em parte da oposição.”
Sobre o delegado Waldir Soares: “Ele sempre deu declarações fortes de que seria candidato”.
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Raul Hilberg, Carlos Lacerda e Svetlana Alexievich: as grandes apostas das editoras neste ano. O 2º como personagem[/caption]
As editoras já definiram alguns de seus lançamentos para 2016. A maior aposta da Intrínseca é “A Ditadura Acabada”, do jornalista e pesquisador Elio Gaspari. Trata-se do quinto volume da série Ilusões Armadas. O editor deveria convencê-lo a escrever um sexto volume a respeito dos arquivos implacáveis de Golbery do Couto e Silva. É provável que o autor dirá que os arquivos foram usados fartamente, e é verdade. Mas sempre escapa detalhes interessantes que não seriam adequados para os cinco livros escritos. A obra sai em junho.
Um dos grandes lançamentos será “Vozes de Chernobil”, da jornalista Svetlana Alexievich. Sairá pela Companhia das Letras em março. No segundo semestres, a editora publicará “O Rosto Pouco Feminino da Guerra”. A autora usa o jornalismo para contar grandes e trágicas histórias, indo além do jornalismo factual (quase datilografia), mas sem deformá-las. Quase tudo parece ficção, mas é tudo real. O real às vezes é tão espantoso que parece ficção. É provável que Svetlana Alexievich esteja próxima, ainda que não seja uma discípula, do escritor e jornalista russo Vassili Grossman, cujos “Vida e Destino” (uma das obras fundamentais do século 20) e “A Estrada” saíram no Brasil pela Alfaguara, com tradução notável de Irineu Franco Perpétuo.
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Elio Gaspari e Mário Magalhães: o primeiro vasculha o fim do governo de Ernesto Geisel e o governo de João Figueiredo e o segundo esmiúça os últimos 13 anos de vida de Carlos Lacerda, com documentos que nunca foram publicados em livro[/caption]
O jornalista Mário Magalhães, autor de uma extraordinária biografia de Carlos Marighella, lança no final deste ano, pela Companhia das Letras, um livro (ainda sem título definido) sobre os últimos 13 anos de vida do jornalista, escritor e político Carlos Lacerda. Pega de 1964 a 1977. Não é, portanto, uma biografia de toda a vida. No seu blog, no UOL, ele anotou: “Escrever sobre Lacerda é desejo antigo, mas eu me impunha uma condição: haver novidades para publicar. Há mais de 15 anos coleciono informações e papéis sobre meu novo personagem, porém ainda não eram suficientes. O cenário mudou, com o acesso a milhares de páginas de documentos, sigilosos na origem, produzidos por governos e agências do Brasil e do exterior. Todos sobre Carlos Lacerda e figuras vinculadas a ele”.
Da escritora da moda, a italiana Elena Ferrante (autora do best seller transnacional “A Amiga Genial”, publicado no Brasil pela Globo, no selo Biblioteca Azul, e traduzido por Maurício Santana Dias), sai em fevereiro “A História de um Novo Nome”. Não se sabe quem é de fato a autora, mas os jornais publicam reportagens seguidas tentando decifrar o mistério.
O grande lançamento da Record será a biografia “Roberto Carlos em Detalhes”, de Paulo César de Araújo. O autor reescreveu e atualizou o livro que havia sido censurado pela Justiça a pedido do cantor.
A Editora Amarilys promete pôr nas livrarias um clássico incontornável da literatura histórica: “A Destruição dos Judeus Europeus”, do brilhante historiador austríaco Raul Hilberg. É base de todos os livros sérios sobre o Holocausto.
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Lula da Silva e Chico Buarque: o político e o compositor-escritor são críticos dos
Estados Unidos, mas estão copiando a tradição contenciosa dos americanos[/caption]
Organizações criminosas matam jornalistas em várias partes do mundo, inclusive no Brasil. Há políticos e empresários que, irritados com as reportagens publicadas, chegam a agredir fisicamente repórteres. Há duas formas legítimas e legais de se revolver pendências entre publicadores de denúncias e denunciados.
Primeiro, com diplomacia, com os dois lados guardando a ira nas gavetas cerebrais. Um direito de resposta adequado, mesmo sem a mediação da Justiça, é uma das saídas. Muitas vezes, ouvindo atentamente pessoas que se sentiram “atingidas” pelo jornal, percebi que, mais do que processar, queriam expor suas versões de maneira mais ampla possível.
Segundo, há outra instância civilizada: a Justiça. Quando não há acordo possível entre as partes, o recurso é o Judiciário. Eu, como todo jornalista, não gosto de ser processado. Mas entendo que é a instância democrática. Busca-se na figura do juiz, não a imparcialidade total — que é ficção —, mas um elemento relativamente neutro à pendenga e que, por isso, poderá avaliá-la com propriedade e, daí, proferir uma sentença justa. A Justiça às comete injustiças, mas no geral acerta mais do que erra.
Quando chegou aos Estados Unidos, o historiador austríaco Raul Hilberg (1926-2007), autor do seminal “A Destruição dos Judeus Europeus” — o primeiro livro mais amplo e documentadíssimo sobre a quantidade de judeus que foram assassinados nos campos de extermínio criados pelo nazismo de Adolf Hitler —, ficou surpreso com o contencioso judicial dos norte-americanos. No país de William Faulkner, por qualquer motivo move-se um processo. Na Europa, há mais diálogo e ponderação entre as partes.
O Brasil, que importa até racismo (disfarçado de antirracismo), importou a praga americana dos processos com motivações pífias. Em alguns casos, a razão nem é esclarecer os fatos, e sim intimidar repórteres e fontes. Mas, insistamos, a ação judicial é civilizada, mesmo que os interesses não sejam lá muito legítimos.
O compositor e escritor Chico Buarque foi chamado de “ladrão” pelo jornalista e antiquário João Pedrosa. Este, numa carta pública, admitiu que extrapolou e pediu desculpas. O artista não aceitou-as e decidiu processá-lo. A carta é uma retratação e, apresentada à Justiça, será útil, quem sabe, como atenuante. Chico Buarque é esquerdista, da linha festiva, mas não é larápio. O processo oferece a oportunidade para João Pedrosa provar o que ele roubou. Ou fará uma retratação mais precisa do que a carta.
Outro processador-mor, é o ex-presidente Lula da Silva, um esquerdista, apesar da retórica, moderado. Ao final das investigações e ações da Operação Lava Jato, será possível concluir que os supostos negócios de Lula têm mais a ver com tráfico de influência? Ainda não se sabe. Mas o petista-chefe decidiu processar jornalistas por atacado.
Será que, orientado por advogados gabaritadados e sabendo que, ao final, seu nome não irá inteiramente para a lama, Lula da Silva quer, desde já, intimidar os jornalistas investigativos mais atuantes? Pode ser que isto seja verdade, mas os processos são legítimos e vão oferecer uma oportunidade para os repórteres apresentarem suas provas, contundentes ou não.
“Comecei a processar jornalistas. Quando processo jornal, o dono do jornal se livra do processo jogando a culpa no jornalista. Então, eu falei: vou começar a processar jornalista para ver se a gente recupera a dignidade da categoria e as pessoas verem que quando escrevem alguma coisa prejudicando alguém aquilo tem consequência. Contratei o Nilo Batista [advogado]. Daqui pra frente vou processar todo mundo, criminalmente, civil, sei lá. Pra ver se a gente consegue colocar um pouco de ordem na casa”, afirma Lula. O texto é meio Lula, meio advogado.
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Nestor Cerveró e José Carlos Bumlai: o que eles dirão, até o final dos processos, sobre Lula? O primeiro não quer proteger o ex-presidente[/caption]
“Antigamente, os jornais tinham dono, você falava com o dono. Hoje você tem preposto, você tentava resolver alguma coisa, hoje os donos não falam mais nada, hoje é executivo. A politização da imprensa chegou a tal ordem. Admito que tenham um lado, que publiquem editoriais, o que quiserem. A única coisa que não admito é mentira na informação, é mentira.
Daqui pra frente vou processar. Tem muito processo a dar com pau. Vamos cada vez mais, não tem outro jeito. Eu não gostaria que fosse assim”, acrescenta Lula. O que terão a dizer, até o final dos processos, Nestor Cerveró e José Carlos Bumlai, supostos amigos do ex-presidente.
O problema é que processos às vezes é um tiro pela culatra. O autor da ação sempre acredita que vai ganhar, mas pode perder. A Justiça pode entender que ao menos algumas das informações contra Lula da Silva não são invenções e foram extraídas de documentos colhidos ou formulados pelo Ministério Público e que, aos poucos, estão chegando à Justiça. Todo processo que o ex-presidente perder soará como uma espécie de condenação para o público.
O personagem Katteca é uma criação de Britvs, o grande “editorialista” de “O Popular”. Se há alguém que dá identidade ao jornal é a criação de Britvz. Ele diz coisas que a gente gostaria de dizer, mas não diz, nos seus quadrinhos diários, que deveriam ser publicados na primeira página.
Na edição de quinta-feira, 21, Katteca esteve impagável. O jogador goiano Wendell, autor do gol mais bonito de 2015, se tornou o xodó dos jornais, revistas, emissoras de televisão e rádio. É o Cauã Reymond do futebol, mais celebrado do que Eric, que o Palmeiras comprou do Goiás. O que Katteca critica é o excesso de exposição.
No início, Katteca, travestido de repórter, informa: “Wendell acordou!”. O jogador está deitado numa cama e é fotografado e filmado. Em seguida, “Wendell tá escovando os dentes!”.
Microfones aparecem de todos os lados. “Wendell tá almoçando!” No fim do quadrinho, Wendell corre para o banheiro, com ar aflito, e, de repente, os repórteres saem correndo. Um deles e Katteca apertam o nariz. Até a Escola de Frankfurt aprovaria a graça inteligente do indiozinho.
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Reprodução[/caption]
O gravador é útil, mas também é uma praga. Por isso recomendo aos repórteres que o usem apenas se estiverem preparando reportagens investigativas, que envolvam denúncias e é preciso “comprometer” as fontes. As gravações têm o hábito de tornar as fontes mais ponderadas, verdadeiras e, às vezes, menos dadas a ficcionalizar os fatos.
Porém, para reportagens mais leves, o gravador atrapalha (e até intimida) e seu uso frequente e abusivo impede, por vezes, o repórter de observar o entrevistado, de verificar as expressões faciais ao comentar um fato, a registrar o ambiente. O gravador mais distancia do que aproxima entrevistado e entrevistador. O resultado é que algumas reportagens são meras transcrições do que o jornalista gravou. Quase uma datilografia de relativo luxo. Por vezes, o repórter não elimina sequer os vícios da linguagem oral.
Sugiro, portanto, menos gravador e mais observação. Os olhos do repórter e sua memória (é preciso treiná-la, mesmo sob o domínio do mundo digital; o cérebro ainda é o mais poderoso computador de um indivíduo) são “gravadores” excepcionais.
A Biografia do Criador do Snoopy” (Seoman, 588 páginas, tradução de Denis de Brong Mattar e José Julio do Espírito Santo), de David Michaelis, é um livro magistral. Uma radiografia matizada do múltiplo e contraditório gênio.
O jornalismo online de “O Popular” é no mínimo descuidado. Ao noticiar a derrota de Matt Mitrione para Travis Browne, lutadores pesos-pesados do UFC, um repórter escreveu que “Fulano de Tal” havia perdido a luta.
O Fulano de Tal — lembra as reportagens policiais dos velhos tempos — é Matt Mitrione, que, além de perder a luta, saiu com um olho inchado, muito inchado. Depois que os leitores notaram, o jornal retificou o erro.


