Euler de França Belém
Euler de França Belém

Velásquez e Werdum foram para o espaço. Jon Jones quer lutar contra Stipe Miocic. Seria uma big luta

Fabrício Werdum desistiu de lutar contra Stipe Miocic porque está machucado e porque o MMA é esporte e negócio

Jon Jones e Steve Miocic BonesStipe-640x480

O UFC não é, evidentemente, a casa da mãe joana dos Estados Unidos. Mas seus rankings são, por vezes, mais suspeitos do que Pinóquio e certos personagens de Machado de Assis. Quando um lutador se machuca, para não perder dinheiro, o empreendimento dirigido por Dana White, como preposto dos irmãos Lorenzo e Frank Fertitta, imediatamente o troca por outro, não necessariamente o mais bem colocado no, digamos, ranking flutuante. Cain Velásquez, o excepcional lutador americano, enfrentaria Fabricio Werdum, também conhecido como “Vai Cavalo” (sem vírgula, aparentemente; Velásquez, dado seu corpanzil, deveria ser nominado de “El Toro”), no UFC 196, em 6 de fevereiro. Machucou-se, porém. Joe Silva foi convidado a escalar Stipe Miocic, ótimo lutador mas pouco empolgante — parece o Ivan Drago do filme “Rocky IV” (sei que é besteira, mas aprecio a série, que, aqui e ali, parece teatro filmado) —, para se apresentar no octógono contra Werdum.

Seria uma boa luta, pois Werdum e Miocic são atletas de alta qualidade — nem têm a pança de alguns pesos pesados —, mas, obviamente, não seria um espetáculo tão estrondoso quanto uma luta entre o brasileiro e Cain Velásquez. Este é o homem de gelo, mas todos gostam de ver suas lutas brutais. Em forma e com a cabeça em ordem é difícil batê-lo. Ressalte-se que tem 33 anos. Para os padrões do UFC, é jovem. Werdum tem 38 anos. Seu problema são as contusões frequentes, que, como assinalam os experts Frederico Oliveira e Rafael Teodoro, devem abreviar sua carreira.

Fabrício Werdum e Cain Velásquez 299ADD9100000578-0-image-a-3_1434273824704

Percebendo que o evento apequenara-se, Werdum certamente não simulou uma contusão, pois sabe que médicos do UFC podem ser convocados para checá-la, e sim admitiu que, mesmo machucado, lutaria contra Cain Velásquez. Entretanto, contra Miocic, que não é melhor do que Cain Velásquez, decidiu que não lutará. Prefere se recuperar para, proximamente, lutar contra o ex-campeão, o lutador que, em duas lutas, massacrou o brasileiro “Velho” Cigano. Vencer Cain Velásquez duas vezes resultaria em bolsas maiores no futuro, com a possibilidade de o empresário de Werdum adquirir maior poder de pressão junto ao UFC. O lutador Josh Barnett criticou Werdum, mas, no íntimo, sabe que o MMA é um esporte, mas é também, às vezes sobretudo, um negócio — grande para o UFC e mediano ou pequeno para os lutadores. Orientado por quem entende do assunto, Werdum está agindo como “negociante”, e apenas parcialmente como atleta (muitos lutam, sim, machucados — assim como jogadores de futebol entram em campo à custa de infiltrações). E não está errado, não. Ele está em fim de carreira e não terá mais do que um ou dois anos pela frente. Depois, se continuar a lutar, se tornará saco de pancadas dos pistoleiros — ops!, lutadores — mais jovens. Na terra dos homens do Oeste não dá para exigir comportamento de homens do Norte. O jogo é bruto, como sabiam os personagens do belíssimo faroeste “O Homem Que Matou o Facínora” (tão brilhantemente examinado pelo crítico literário Davi Arrigucci). Ninguém é santo. Ninguém é demônio. Todos são negociantes e, no octógono, atletas. Estes, se forem apenas atletas, morrem pobres.

Dana White e Joe Silva Dana-e-Joe-Silva-1

(Dana White e Joe Silva, os ases que escalam as lutas do UFC, pensam em esporte e em negócios)

Os homens do Oeste abrem as cortinas para uma história que deveria ter sido contada logo no início deste texto, para tornar a história mais linear. Afinal, jornalistas têm de respeitar a tal pirâmide invertida. Mas, como estamos tratando da falta de lógica da lógica do MMA sob o controle do UFC — os rankings são criações de Dana White e Joe Silva, e por vezes dou razões a eles, pois não raro querem casar lutas que as pessoas querem ver e, claro, dão dinheiro —, não importa tanto assim se o assunto mais interessante ficou por último.

Jon Jones, o maior atleta de MMA do momento, ainda que esteja afastado por motivos não esportivos (seus punhos são melhores do que a cabeça), admite lutar contra Stipe Miocic. E o escrevinhador admite: gostaria mesmo de ver uma luta entre os dois. Por dois motivos pelo menos.

Primeiro, porque seria uma luta e, ao mesmo tempo, um espetáculo inusitados. Stipe Miocic venceria? É provável. Porque Jon Jones, para se tornar um pesado de verdade (não só para uma luta), teria antes de assimilar mais peso dentro do octógono. Quer dizer, terá de treinar e lutar mais vezes como peso pesado. Pode se tornar menos rápido se não “firmar” e “manter” um peso “x”. Já Stipe Miocic é um peso pesado natural — 1,93m e, em média, 108 quilos —, embora pareça mais leve. Tem um físico enxuto. É uma das poucas barrigas de tanquinho entre os pesos pesados.

Segundo, Jon Jones varreu a categoria dos meios pesados. Lá não precisa provar mais nada. Daniel Cormier não é páreo para sua versatilidade. Nenhum outro é. Então, se for bem contra Stipe Miocic, e mesmo se perder, poderá se manter na categoria dos pesos pesados. Aos poucos, com o peso estabilizado — o que deixa o organismo mais resistente —, Jon Jones se tornará campeão entre os mais pesados. Depois de Cain Velásquez, Werdum e Miocic, os três melhores do momento, não resta nomes consistentes, nem entre os mais jovens. Jon Jones reinará, portanto.

O problema é que Jon Jones quer lutar pelo “título real”. “Se fosse pelo cinturão linear, eu aceitaria lutar com certeza”, disse o grande ex-campeão. Título interino, que é o caso, não é com ele. Se eu fosse Joe Silva — felizmente, para o MMA, não sou —, casaria a luta sem pensar.

Agora, se o UFC bancar Alistar Overeem para lutar contra Stipe Miocic, quem ficará machucado será o cérebro dos espetadores e dos telespectadores. É preferível um filme de Cantinflas ou de Oscarito.

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