Por Euler de França Belém
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R$ 236 bi para o campo (justo), só 3,5% disso aos pequenos (injusto), nada para a cidade (injustíssimo)
Nilson Gomes
As últimas semanas clarearam a opção do governo federal por conter a geração de empregos nas cidades. É o Plano Tiririca, pior do que tá, fica.
Criou o Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte) com R$ 15 bilhões e 900 milhões para o País inteiro. Com ressalva: vetou as condicionantes sobre a atuação da Receita.
Ou seja, o comerciante que estiver devendo não consegue financiamento. Como estão todos com a água no nariz e a corda no pescoço, será difícil tirar o dinheiro.
Pior ainda: o empreendedor ficou tão moído que necessita é de Auxílio Emergencial sacado na boca do caixa, não de escutar negativa de gerente engravatado.
Pior dos piores: o dinheiro é do próprio banco, o governo garante 85% do valor. Se já é quase impossível sair da agência com solução, imagine esperar aval do Tesouro...
Agora, apresentou o Plano Safra 2020/2021, R$ 236 bilhões e 300 milhões para o País, meros 7,6% para Goiás.
Nada está tão péssimo que não possa afundar mais: à agricultura familiar sobraram 3,5% dos 7,6%.
Parece aritmética da Dilma: não são 3,5% dos 100%, ou seja, dos 236 bi; são 3,5% de 18 bi, que representam 7,6%.
Em resumo: a agricultura familiar gera 80% dos empregos e ficou com 20 vezes menos dinheiro.
Meio alqueire de morango demanda mais mão de obra que 200 alqueires de soja.
Uma estufa de tomate-cereja tem mais trabalhadores que fazenda com mil bois. Mande os dois tipos de empregadores ao banco e veja quem sai rindo. (Na verdade, ambos voltam às lágrimas, pois quem entra em banco chorando sai desesperado.)
Ainda sobre o linguajar da ex-presidente, os 100% dos agropecuaristas, os tais 236 bi, são troco de pinga para o que o governo paga de juros ao sistema financeiro. Quatro bancos lucraram R$ 85 bilhões e 500 milhões em 2019. Só quatro e só de lucro...
Portanto, desmentindo a música e a Dilma, quem trabalha não tem razão, quem trabalha no campo tem menos razão ainda, quem trabalha no campo com meia dúzia de vaquinhas e uma rocinha aí é que não tem razão de jeito nenhum, muito menos social, e...
É, existe como piorar: se você não tem sequer o sítio para criar galinha e plantar mandioca.
Faltam projetos para agricultura urbana. Tanto lote vazio em Goiânia, férteis como tudo nesta terra em que se plantando tudo dá...
A proposta: a Prefeitura fazer convênio com a Secretaria de Estado e o Ministério da Agricultura, e a Faeg, e semear a cidade.
Tem quintal em casa? Cabe uma horta.
Condomínio está todo cimentado? Arranca uma parte para termos verdura fresca e aumentar a permeabilidade, que evita enxurradas e destruição.
Varanda no apartamento? Cabe uma hortinha.
Não tem nem varanda? Um balde com planta no canto da sala. Um arranjo na parede com cheiro verde. A floreira no batente da janela. Pimenteira onde bate sol.
Em todo prédio público deveria ter horta, obrigado por lei, portaria, algum desses documentos inúteis — burocracia tem de servir para alguma coisa.
No pós-pandemia, a agricultura urbana será essencial para evitar doenças como ansiedade, síndrome do pânico e depressão.
Melhora a qualidade da alimentação — aliás, Goiânia tem tanta especulação imobiliária que pode possuir a maior lavoura comunitária do mundo.
Cereais, frutas e verduras fresquinhos, saudáveis, veganos, orgânicos.
Melhora o ar. O aroma é outro.
Quanto dos 236 bi ou dos 18 bi vai para agricultura urbana? Nadica de nada, nada vezes nada.
Mas está na hora da universalização de esse assunto entrar em pauta.
Nilson Gomes, jornalista, é colaborador do Jornal Opção.
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