Euler de França Belém
Euler de França Belém

Google informa que vai pagar aos jornais e revistas pela publicação de notícias

Mas os primeiros contratos indicam que os valores financeiros serão irrisórios. “Estado de Minas” e “Gazeta” fazem parte do projeto

Pré-consolidação da internet, jornais brasileiros comemoravam tiragens de 500 mil exemplares. Era o paraíso. O Instituto de Verificação de Circulação (IVC) comprovava, de maneira rigorosa, se as publicações estavam fornecendo dados fidedignos. O marketing da “Folha de S. Paulo” apontava sua superioridade em relação aos concorrentes “O Estado de S. Paulo” e “O Globo”. Era uma guerra — com a “Folha” sempre na infantaria das forças desarmadas da notícia. Com a internet, tudo mudou. Para melhor e para pior.

Para melhor, porque no lugar de 500 mil ou 1 milhão de exemplares, os jornais e revistas tiveram seus acessos multiplicados. Quer dizer, o número de leitores saltou de maneira extraordinária. São milhões lendo a “Folha”, “O Estadão”, “O Globo”, o Jornal Opção, entre outros. Todos deveriam estar satisfeitos, até muito satisfeitos. Mas não é bem assim.

Os jornais e as revistas estão em crise — uns mais, outros menos. As revistas da Editora Abril — como “Veja”, “Exame” e “Quatro Rodas” — foram vendidas para um advogado ligado ao Banco Pactual. O advogado já se desfez da “Exame”. Nas mãos dos novos donos, não se sabe exatamente por quê, tanto a “Veja” quanto a “Exame” perderam qualidade. A “Veja” perdeu a “pegada” crítica. Está mais conformista, trocando o jornalismo contundente de antes por “estocadas”. Mas são muito bem acessadas. “Folha”, “O Globo”, “Estadão”, “Zero Hora”, “Correio Braziliense” e “Estado de Minas”, para citar apenas seis, estão em crise — daí as demissões frequentes e massivas.

Por que, se os jornais e revistas são bem-sucedidos em termos de audiência — agora, além de textos, publicam vídeos, debates (integrando mídias) —, estão em crise? Primeiro, porque a assinatura paga pelos leitores, em geral o valor é irrisório, para um produto cuja confecção é cara, é insuficiente para quitar as contas das empresas jornalísticas (poucas não estão penduradas em bancos). Segundo, não conseguiram criar uma forma de obter remuneração adequada para o que produzem. Há também o fato de que os anunciantes, dada a multiplicidade de mídias, pagam cada vez menos aos jornais e revistas, que, ao contrário de blogs, mantêm uma estrutura dispendiosa. Produzir informação de qualidade (e em quantidade) e “nova” — há blogs celebrados que surrupiam informações dos chamados “veículos tradicionais” — não tem custo baixo.

Se os jornais e revistas ganharam mais leitores, e mesmo assim não obtêm recursos financeiros suficientes, o que, realmente, está acontecendo? Tem alguém ganhando e, claro, vampirizando as empresas que contratam centenas e até milhares de trabalhadores e investem na produção de material jornalístico de qualidade. No momento, para manter uma margem mínima de lucro e o produto circulando, as empresas estão demitindo jornalistas qualificados e pagando salários cada vez mais baixos. Observe-se que o Grupo Globo liberou alguns profissionais para fazer anúncios.

Se as empresas que geram jornalismo estão perdendo, algumas estão em recuperação judicial — caso das editoras Três, que publica a revista “IstoÉ”, e Abril, responsável pela “Veja” e “Quatros Rodas” —, o Facebook e o Google estão ganhando, e muito. Ocorre que tanto um quanto o outro não produzem jornalismo, mas se tornaram uma espécie de “gigolôs” dos jornais e revistas. Quer dizer, embora não paguem nada aos jornais, colhem suas informações e repassam para “seus”, digamos, leitores.

Brad Bender: projeto é um avanço ou um novo cavalo de Troia? | Foto: Reprodução

Jornais e revistas trabalham, gastam uma fortuna, mas, na ponta, quem lucra são Facebook e Google.

A França, a Espanha e a Austrália decidiram reagir. Os três países exigem, com uma nova legislação, que o Google pague aos jornais e revistas pelas informações que, sem produzir, divulga e obtém dividendos financeiros. Sob pressão, dada a uma lei de propriedade intelectual, o Google desativou o Google News na terra de Cervantes. Meios de comunicação da França estão processando o Google com base na lei de propriedade intelectual. Em julho, a Austrália vai aprovar um código de conduta com o objetivo de regular as plataformas de tecnologia e forçá-las a pagar pelo conteúdo produzido pela imprensa.

Ao perceber que outros países vão seguir o mesmo caminho da França, da Espanha e da Austrália, o Google decidiu antecipar-se e vai pagar, a partir do fim do ano, a publicações brasileiras pelo uso de suas informações. Vai começar com os jornais “Estado de Minas”, dos Diários Associados, e “Gazeta”, do Espírito Santo, e com alguns jornais na Alemanha e na Austrália.

O vice-presidente de Notícias do Google, Brad Bender, divulgou um comunicado: “Hoje, estamos anunciando um programa de licenciamento para pagar às editoras por conteúdo de alta qualidade para uma experiência de notícias lançadas ainda este ano”.

Sydney Sanches, da OAB: “Pode ser um movimento para frear o ímpeto regulatório” | Foto: Reprodução

O Google News e o Discover vão acolher a produção dos jornais. O Portal Imprensa frisa que “o Google também vai pagar pelo acesso gratuito a artigos oferecidos sob pagamento no site do editor”. O site frisa: “O anúncio foi feito depois de inúmeras batalhas em todo o mundo para que a empresa pague as empresas de mídia pelo que publica online”.

“O Globo” sublinha que, “para analistas, a iniciativa do Google tem o objetivo de se antecipar à inevitável regulação do setor, que já avança em países da Europa e na Austrália, e que deve obrigá-lo a remunerar mais amplamente a produção de conteúdo. Valendo-se de conteúdos jornalísticos, plataformas de tecnologia como Google e Facebook alavancaram lucros nos últimos anos sem reparti-los com empresas de mídia, que, por sua vez, amargam prejuízos”.

No Brasil, a iniciativa terá o nome de Painel e “vai remunerar”, informa “O Globo”, “os conteúdos exibidos em uma espécie de prateleira de notícias de cada marca dentro do Google News e do Discover (tela de notícias para smartphones). No entanto, está limitado a esse ambiente. Os conteúdos exibidos nas buscas tradicionais, por exemplo, ficam de fora”.

Então, o que parece uma maravilha à primeira vista, pode se tornar, no fundo, mera ilusão. Os jornais podem acabar ficando com “migalhas” e acabarão liberando ainda mais conteúdo para o Google.  “O Globo” sustenta que “a remuneração, baseada em critérios como audiência e alcance das marcas jornalísticas, é tida por analistas de mídia como muito aquém dos benefícios auferidos pela plataforma. Os valores não foram divulgados, mas, num dos primeiros contratos no Brasil, não permite custear um único editor sênior”.

Ao anunciar sua nova estratégia, para colocar ainda mais os jornais e revistas a seu serviço, o Google apresenta uma ideia falsa embutida numa ideia verdadeira. O que pode confundir tanto leitores quanto proprietários de jornais. De fato, o Google contribui para atrair “mais público para o setor de imprensa”. Entretanto, independentemente do “portal-tudo”, acesso não deixaria de ser alto (a credibilidade da imprensa brasileira está em alta, segundo pesquisa). Em seguida, o Google garante que impulsiona a “capacidade de gerar receita para os veículos de mídia”. A informação não é verdadeira, sobretudo para empresas com grandes estruturas (talvez contribua mais com as menores). Os valores captados, via Google, têm valores baixos e, mesmo em grandes quantidades, não contribuem para manter a imprensa (ajudam veículos que têm poucos contratados e, no geral, reproduzem conteúdo alheio). Ao mesmo tempo, contribuem para aviltar o mercado, pois quase todos anunciantes não querem mais cumprir as tabelas de cada veículo. Por exemplo: um anúncio que na edição impressa vale 10 mil reais sai, em média, por mil reais na edição digital.

O Brasil não tem lei específica, mas certamente terá. “As grandes plataformas têm como estratégia se anteciparem aos problemas já apresentando uma solução. Essa solução pode ser boa. A prática dirá. Mas pode ser um movimento para frear o ímpeto regulatório”, disse o presidente da Comissão Nacional de Direito Autoral da Ordem dos Advogados do Brasil, Sydney Sanches.

Resta saber, portanto, se jornais e revistas vão continuar menos ou mais “escravos” do Google. Talvez a “servidão” fique mais voluntária.

Afinal, ao perdedor, a imprensa, as cascas da batata?

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