Euler de França Belém
Euler de França Belém

Biografia revela que Goiás quase virou o Amapá de Sarney

O ex-presidente foi convidado para disputar mandato de senador por Goiás. O escritor ganhou crítica de Millôr Fernandes e elogio de Lévi-Strauss

Texto publicado pelo Jornal Opção em 2011

“Sarney — A Biografia” é uma hagiografia, mas com histórias muito boas do e sobre o longevo político maranhense José Sarney

Europeus e norte-americanos têm o hábito de titular livros mais ou menos assim: “Lênin — Uma Biografia”. No Brasil, o livro ganhou outro título: “Lênin — A Biografia Definitiva” (a tradução inteira é uma calamidade), quando seu autor, Robert Service, explica que ainda há arquivos fechados com possíveis novidades sobre o autor. A palavra “definitiva” é uma excrescência que não há nas edições inglesa e americana. “Sarney — A Biografia” (Leya, 622 páginas — deveria ser “Uma Biografia”, o artigo “A” sugere versão oficial), da jornalista Regina Echeverria, contém alguns problemas. Como havia previsto, na edição de 13 de março, trata-se de uma hagiografia (a crítica da revista “Veja” aponta para este campo). Num tom panegírico, mas que contém uma crítica não percebida pelo autor, o diplomata e excelente pesquisador Alberto da Costa e Silva escreve no prefácio: “Se o leitor se deixar encantar pelo adágio da prosa, pensará que quem lhe escande as palavras é o próprio Sarney”. O texto às vezes parece mais autobiografia — um livro sobre Sarney escrito pelo próprio Sarney, mas assinado por Regina Echeverria (ótima biógrafa de Elis Regina). Portanto, mais do que autorizada, é uma biografia consentida. Na terça-feira, 22, na reportagem “Livro de Sarney ‘maquia’ escândalos”, o jornal “O Estado de S. Paulo” mostra que a autora se fiou no que disse o presidente do Senado, José Sarney, e acabou publicando informações “falsas” ou “insuficientes”. Apesar disso, o livro é descartável? É um bom livro ruim, ou seja, é uma obra mediana, com grandes histórias, como a de Antônio Carlos Magalhães obtendo concessões de rádios e a do ditador paraguaio Alfredo Stroessner sugerindo que Sarney, e não ele, era ditador. Destaco algumas histórias e a relação de Sarney com Iris Rezende (“Íris”, no livro). Outros goianos citados: Emival Caiado, Bernardo Élis (sem o acento; o escritor votou em Sarney para a Academia Brasileira de Letras), Siron Franco, Delúbio Soares, Afonso Félix de Sousa, Demóstenes Torres e Maguito Vilela.

José Sarney, na juventude, numa praia do Maranhão | Foto: Reprodução

Candidatos a presidente, em 1984, Tancredo Neves chegou em Goiânia acompanhado de seu vice, José Sarney. O relato de Sarney: “Quando desembarquei em Goiânia, fui chamado pelo governador Iris Rezende. Segundo ele, o ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel, havia telefonado para avisar que a polícia tinha descoberto um plano para me assassinar durante o comício. Aconselhou-me a não subir ao palanque, mas é claro que subi”.

José Sarney com o primeiro general da ditadura, Castello Branco | Foto: Reprodução

Embora aceito como “moderado” pelos militares, especialmente pelos grupos mais próximos do presidente Ernesto Geisel, Tancredo era apontado como “fraco” pelos radicais. Os comunistas, com ele eleito, estariam no centro do poder no país — o que era uma leitura equivocada do “forte” Tancredo. “Com a ajuda de Iris Rezende, Tancredo e Sarney tentaram — sem sucesso, para não atiçar a linha dura — evitar a presença de bandeiras vermelhas com a foice e o martelo no comício”, conta Regina Echeverria.

José Sarney com o segundo general da ditadura, Costa e Silva; ao lado, a jovem Roseana Sarney | Foto: Reprodução

Ao deixar a Presidência da República, Sarney, meio depressivo, havia decidido que, para manter poder e evitar ataques, deveria retornar à política. Segundo Regina Echeverria, ele “examinou as várias ofertas — incluindo a do governador Iris Rezende, que o convidou a concorrer por Goiás —, resolvendo-se pelo Amapá, ex-território elevado à condição de Estado pela Constituição de 1988”.

José Sarney com o terceiro general da ditadura, Emilio Garrastazy Médici | Foto: Reprodução

Stroessner “transforma” Sarney em ditador

Uma das mais saborosas histórias tem a ver com o ditador paraguaio Alfredo Stroessner. O relato de José Sarney: “Eu mandei que preparassem uma sala, porque eu queria ter uma conversa a sós com o presidente. Na minha doce ilusão, eu comecei a argumentar sobre os esforços de redemocratização da América Latina. A minha ideia era tentar dizer a ele que ele deveria começar a abertura no Paraguai e que os nossos países deveriam acertar os passos. Mas depois de eu falar, falar, ele virou e disse: ‘Presidente, a democracia no Paraguai é a melhor da América. Eu obtive 92% dos votos na última eleição’.

José Sarney com o quarto general da ditadura, Ernesto Geisel | Foto: Reprodução

“Fiquei meio perplexo, com a sensação de que, na visão de Stroessner, eu era o ditador, e então percebi como o poder entorpece os homens. Terminei a conversa dizendo: ‘Presidente Stroessner, medite sobre a democracia. Este é o momento do Paraguai ingressar na tendência da América e voltar a um regime democrático, sem máculas. Faça isso e sua presença entrará para a história. Ninguém aceita o regime do Paraguai’.

“Stroessner me olhou e disse: — Presidente Sarney, o Brasil não é melhor do que o Paraguai.

“Retruquei: — Lamento sua análise, mas o senhor poderá pagar caro pela sua intransigência.

“Um ano depois, o Brasil teve que dar asilo ao ditador.”

José Sarney com o quinto general da ditadura, João Baptista Figueiredo | Foto: Reprodução

Concessão de rádios e a esperteza de ACM

“Um dos integrantes do grupo de Getúlio Bittencourt [chefe da Secretaria Especial de Comunicação da Administração Federal do governo Sarney] era Antônio Martins, presidente da Radiobrás. Martins ia diariamente ao Palácio [do Planalto], onde descobriu que Luís Viana Filho, senador e ex-governador baiano, obtinha do presidente amigo sucessivas concessões de rádios em seu Estado.

José Sarney, depois de 21 anos agarrado com a ditadura, abraça a democracia, quer dizer, Tancredo Neves | Foto: Reprodução

Subordinado do ministro das Comunicações, o também baiano Antônio Carlos Magalhães, Martins conhecia bem as intenções do chefe nessa área, por isso decidiu alertá-lo. De acordo com o relato de Martins à autora, travou-se então o seguinte diálogo:

— O senhor tem de tomar cuidado com Luís Viana porque ele está pegando rádios direto, daqui a pouco vai lhe faltar.

— Deixa ele tirar.

José Sarney e Antônio Carlos Magalhães: esquema para arranjar rádios para os aliados políticos | Foto: Reprodução

— Mas não há o risco de acabarem as concessões?

— Não, duplicam as minhas.

— Como assim?

— Toda vez que o Sarney consegue uma para ele, no pedido eu concedo duas para alguém meu, para mim, mas por meio de outras pessoas. Então eu quero que ele peça muito. Eu não preciso pedir, eu só mando dois por um sempre, então você pode fazer suas contas aí, quando ele estiver com 10 eu estarei com 20.” (Trecho da biografia, página 375)

José Sarney e Iris Rezende, que foi ministro de seu governo | Foto: Reprodução

Millôr critica e Lévi-Strauss elogia escritor

José Sarney é, além de político habilidoso — sobrevive, num meio tempestuoso, há mais de 50 anos, transitando da esquerda para a direita, desta para o centro e, com os petistas Lula da Silva e Dilma Rousseff, reaproximou-se da esquerda —, escritor premiado com uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Sua obra é mais elogiada fora do Brasil. Entre seus críticos patropis estão Paulo Francis, Millôr Fernandes e Diogo Mainardi. Millôr disse, ferinamente, que, quando Sarney escreve, a língua portuguesa “grita — de dor”.

Millôr Fernandes: o crítico mais corrosivo de José Sarney | Foto: Reprodução

Quando Sarney lançou o romance “O Dono do Mar”, Millôr jabeou: “Sir Ney não se emenda”. “Sarney escreve obras extraordinárias. Quem as larga uma vez não consegue mais pegar”, divertiu-se Millôr. Regina Echeverria é delicada e não transcreve os petardos mais virulentos, como o citado acima. “Discute o sexo dos fantasmas e vai a pique”, atacou Diogo Mainardi, da “Veja”.

Paulo Francis, ao contar que a revista “Senhor” publicou um conto de Sarney, não foi nada doce: “O que posso dizer de mais caridoso sobre a qualidade do conto é nada”.

O antropólogo Claude Lévi-Strauss destoou dos críticos brasileiros (os acadêmicos não levam Sarney a sério, talvez entendendo-o como um sub-Josué Montello): “… o que mais me impressionou foi a arte com que Sarney mostra como um modo de vida tradicional e indissociavelmente ligado às crenças se afirma numa continuidade entre o mundo terrestre (melhor dizendo, marítimo, neste caso) e o além”.

Claude Lévi-Strauss: apreciador da literatura de Sarney | Foto: Reprodução

O escritor francês Jean-Christophe Rufin é condescendente a respeito do romance “Saraminda”: “Sob a pena de José Sarney, a história tropical da França entra, alta e em cores, no realismo fantástico latino-americano”.

Maurice Druon leu um Sarney que os brasileiros não leram: “‘Saraminda’ é, eu creio, o melhor romance de José Sarney”. Fica-se a pensar sobre o pior. No México, o grande poeta Octavio Paz saudou Sarney. João Gaspar Simões, “o homem que pela primeira vez publicou Fernando Pessoa”, prefaciou a edição de seus poemas em Portugal.

O que concluir a respeito da crítica interna, negativa (a positiva é de amigos da ABL), e da externa, positiva? Que, em tradução, Sarney melhora 100%, sobretudo quando o tradutor, como Gregory Rabassa, é qualificado. É como Paulo Coelho: bem traduzido, em inglês e francês, aproxima-se de Somerset Maugham.

Para um escritor que se reputa “importante”, Sarney não demonstra bom gosto literário. A biografia não faz uma referência a Laurence Sterne, Goethe, Tolstói, Dostoiévski, Tchekhov, Flaubert, Henry James, Proust, Virginia Woolf, James Joyce, Thomas Mann, Graciliano Ramos, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Clarice Lispector, Saul Bellow e Philip Roth. Apenas dois filósofos são citados, Sartre e Voltaire. Montaigne, tão caro aos políticos, não merece nenhuma referência. (Euler de França Belém)

Livro de Sarney ‘maquia’ escândalos

Leandro Colon

De O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA — A biografia autorizada do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), lançada nessa terça-feira, 22, em Brasília, contém erros de informação e omite dados sobre a crise que atingiu a Casa e o próprio senador em 2009. Escrito pela jornalista Regina Echeverria, Sarney, a biografia aborda o escândalo sob a ótica do parlamentar, que na obra se diz vítima de perseguição política.

O livro exalta a contratação da Fundação Getúlio Vargas, a pedido de Sarney, para fazer uma reforma administrativa no Senado. Mas deixa de informar o valor pago – R$ 500 mil em dois anos — e o fato de que a reforma não saiu do papel. Em outro trecho, a autora escreve que Sarney “determinou” a demissão de todos os 136 diretores da Casa, sem citar que elas não se efetivaram.

A biografia também menciona uma decisão do senador de anular todos os atos secretos, revelados pelo Estado em 10 de junho de 2009, sem citar que, logo depois, a diretoria-geral revalidou esses boletins, inclusive os que tratavam de apadrinhados de Sarney. Ainda sobre esse episódio, ao elencar os pedidos de processo contra o senador, a obra afirma que “o Conselho de Ética estava politizado e não era isento”. Quando comenta a censura imposta pela Justiça ao Estado, há 600 dias proibido de noticiar investigação da Polícia Federal sobre o empresário Fernando Sarney, a biografia diz que o senador nunca defendeu esse tipo de iniciativa. “José Sarney, que é contra a censura e nunca a exerceu em sua vida pública, credita a ação contra o jornal aos advogados do filho Fernando.”

No livro, Sarney acusa o ex-senador e hoje governador Tião Viana (PT-AC) de entregar ao Estado um dossiê com informações contra ele. Esse dossiê nunca foi entregue ao jornal. Nas reportagens sobre o período, o Estado também revelou, como desdobramento das investigações, que Viana usou dinheiro público para quitar uma conta de R$ 14 mil de telefone celular da Casa em poder de sua filha. As reportagens sobre Sarney e outros senadores foram feitas com base em documentos sigilosos e públicos obtidos por meio de investigações próprias dos repórteres.

O livro atribui à FGV a descoberta dos atos secretos e diz que a entidade fez um “levantamento preliminar” desses boletins. A fundação nunca teve acesso a esses documentos: a FGV soube que algumas medidas não eram divulgadas pela Casa, mas não a quantidade de atos nem do que eles tratavam. Na época, o Estado descobriu que os atos começaram a ser inseridos no sistema de publicação interna para que fossem legalizados secretamente. A reportagem soube da manobra, identificou mais de 300 atos no sistema e revelou, com exclusividade, o conteúdo deles.

Em 2010, a Justiça transformou servidores em réus num processo sobre os atos secretos – incluindo o ex-diretor Agaciel Maia, que foi ao lançamento da biografia. O livro não menciona esse fato e diz que o senador prometeu “punição severa” aos funcionários. Sarney aplicou uma suspensão a Agaciel, contrariando parecer da sindicância que recomendava demissão.

Ao falar sobre a Fundação José Sarney, a obra não menciona auditoria da Controladoria-Geral da União que confirmou fraudes no patrocínio de R$ 1,3 milhão da Petrobrás. A auditoria foi feita após o Estado revelar desvio de R$ 500 mil. A reportagem não é citada no livro, nem o fato de o Tribunal de Contas da União (TCU) ter aberto processo para investigar a fundação. Na biografia, a autora escreve que “Sarney enumerou e justificou cada uma das acusações de nepotismo”. O senador, no entanto, nunca explicou a exoneração de um neto via ato secreto para que não fosse descoberto seu emprego no gabinete do senador Epitácio Cafeteira (PTB-MA). [Reportagem transcrita do jornal “O Estado de S. Paulo”, de 22 de março de 2011]

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