“O prêmio me motiva a acreditar em mim como pesquisadora”, dizem alunas da UFG após consquista por estudo que expõe a invisibilidade da mulher negra nas COPs
29 maio 2026 às 14h20

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As alunas Maria Tereza Santos Pereira e Gabrielly Pereira Fonseca, ambas do sétimo período do curso de Relações Internacionais na Universidade Federal de Goiás (UFG), receberam o 1º lugar na primeira edição do Prêmio Mônica de Menezes Campos, uma iniciativa do Ministério das Relações Exteriores (MRE) que reconhece a produção intelectual de pesquisadores negros na área de política externa.
A cerimônia de premiação aconteceu no dia 21 de maio, em Brasília, durante o seminário oficial que celebrou os 25 anos do Programa de Ação de Durban.
O reconhecimento, inédito para o Estado de Goiás, marca a entrada da UFG no circuito nacional de pesquisas estratégicas. Criado em 2024, o prêmio é uma ação do Ministério das Relações Exteriores para fortalecer a inclusão e a equidade racial na produção de conhecimento sobre diplomacia. A iniciativa veio no contexto das comemorações do Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra e, consequentemente, tem como objetivo integrar o debate racial ao centro da política externa brasileira.
Em entrevista ao Jornal Opção, a estudante Maria Tereza Santos Pereira descreveu a experiência no Palácio do Itamaraty. “A premiação foi incrível”, começou. “A nossa premiação foi voltada pra pesquisadores negros, pra dar relevância pra essas pesquisas”, explicou.
De acordo com Maria Tereza, o evento contou com autoridades de alto escalão. “A gente contou com a presença do Ministro de Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira. Inclusive, ele entregou o prêmio nas nossas mãos. E também teve a presença da Ministra da Igualdade Racial do Brasil, que é a Raquel Barros. E a Vice-Presidente do Conselho de Igualdade Racial do Brasil, que é a Marina Duarte”, detalhou.

“Teve também a presença de vários diplomatas dentro do auditório. Então assim, foi incrível estar ali dentro, receber essa premiação. Até porque a gente estuda muito dentro do curso de Relações Internacionais. Foi demais”, completou a estudante.
Pesquisa analisa racismo ambiental e discursos de Alckmin e Marina Silva na COP29
A pesquisa vencedora trouxe um tema de debate cada vez mais necessário. “As pesquisas que foram premiadas tinham que ser obrigatoriamente no campo da política externa. Era um critério que os pesquisadores fossem pessoas negras, pretas ou pardas”, acrescentou.
Sobre o conteúdo do artigo, a aluna explicou que “a pesquisa foi uma análise de discurso tanto do Geraldo Alckmin, que é o Vice-Presidente do Brasil, quanto da Marina Silva, que é a Ministra do Meio Ambiente, na 29ª Conferência das Partes, que ocorreu no Azerbaijão em 2024.”
Ela ainda detalhou o conceito central do trabalho. “O nosso artigo buscou trazer um panorama do racismo ambiental no Brasil, principalmente na figura da mulher negra. Então, a gente buscou dados que mostram que mulheres negras, principalmente aquelas que moram nas periferias do Brasil, são mais impactadas pelos desastres ambientais”, disse.
“Isso é exatamente o que o racismo ambiental traz à tona, que é o fato de que essa população é historicamente jogada ali aos entornos da sociedade, e, consequentemente, elas vão ser impactadas de forma muito mais brutal pelas mudanças climáticas do que outros grupos sociais, do que outras parcelas da sociedade”, concluiu Maria Tereza.
Burocracia representativa e a insuficiência de uma única voz negra
As estudantes aprofundaram a análise com base em teorias consagradas. “A gente tentou mostrar, a partir das teorias da burocracia representativa, que não existe uma representatividade dessas mulheres negras. A Marina Silva é uma mulher negra, só que a presença dela, segundo a teoria da burocracia representativa, não seria suficiente”, afirmou Maria Tereza.
“Então, principalmente considerando que o Brasil é signatário do Acordo de Paris, de 2015, que é um acordo que tenta mudar a lógica de como a gente pensa a conferência ambiental, de como a gente pensa a representatividade. Ele faz essa mudança do bottom-up, que é como se quem está embaixo, quem é mais impactado, tem que ter maior presença e maior espaço para a fala”, completou a pesquisadora.
Para a trajetória acadêmica das jovens, a vitória representa um divisor de águas. “Em relação à nossa carreira, eu acho que foi grandioso para a gente, como pesquisadoras, principalmente pelo fato de que, como eu disse, a gente estuda o Ministério de Relações Exteriores, a gente sabe da importância que é receber um prêmio desse”, refletiu Maria Tereza.
“E, principalmente, porque o nosso artigo vai ser publicado na Fundação Alexandre de Gusmão. Então, a gente vai ter o artigo publicado, a gente tem o prêmio e a gente conseguiu consolidar os nossos nomes dentro da área de relações internacionais”, comemorou.
“Então, isso é muito gratificante para a gente e é muito gratificante também, eu acredito, para a comunidade da Universidade Federal de Goiás”.
Ao abordar a realidade da carreira diplomática brasileira, Maria Tereza foi direta. “A carreira diplomática no Brasil é historicamente sub-representada”, afirmou. “A gente tem esse tipo de análise crítica dentro do curso, em disciplinas, que vão analisar a política externa do Brasil, como ela é feita. O Itamaraty é o principal órgão que vai cuidar das relações do Brasil no exterior e ele é composto, historicamente a gente tem o dado disso, de pessoas brancas que alcançam essa carreira”, explicou.
“É um curso muito difícil, é uma preparação muito extensa, muito conteúdo. Então, a gente teve uma melhora de acesso a essa carreira. Principalmente no início do século XX, nos anos 2000, a gente tem a criação de cotas, a gente tem cursos feitos especialmente para pessoas negras para que elas possam estudar e ingressar nessa carreira, mas ela ainda é muito fechada naquele núcleo de pessoas brancas, elitizadas, que conseguem, de fato, ter tempo para estudar e alcançar essa carreira”, destacou.
Ela ainda contextualizou a homenagem que dá nome ao prêmio. “Ele vem para celebrar a Mônica de Menezes, que foi a primeira mulher negra a ingressar na carreira. Ela ingressou, se eu não me engano, em 1969. Então, isso é muito perto do nosso tempo atual e pensar que a primeira mulher negra a alcançar esse posto, enfim, eu acho que já diz muito”, concluiu.
“Acredito que eu também posso ser capaz”, diz Gabrielly
Em seu depoimento ao Jornal Opção, a estudante Gabrielly Pereira Fonseca trouxe um relato emocionado sobre o impacto pessoal da conquista. “A gente teve a oportunidade de conhecer o Ministério das Relações Exteriores, conhecer os diplomatas, conhecer a própria filha da Mônica de Menezes. Foi incrível”, contou.
Quando questionada sobre o significado do prêmio, Gabrielly foi direta. “Eu acredito que esse prêmio significa para mim uma verdadeira conquista. Eu que sou de uma região periférica de Goiânia, e graças ao estudo, que é um poder gigante, que é estudar, e poder alcançar esses lugares através do estudo é realmente muito gratificante”, desabafou.

“E assim como Mônica de Menezes que provou ser capaz, eu acredito que eu também posso ser. Então, esse prêmio, ele me motiva a acreditar em mim como pesquisadora, acreditar que o que eu escrevo é relevante e que impacta vidas”, completou.
Futuro na academia e recado para novas pesquisadoras
Sobre os planos profissionais, Gabrielly demonstrou entusiasmo com a vida acadêmica. “No meu futuro, eu me vejo continuando nessa trajetória como uma pesquisadora”, afirmou. Ela também deixou um incentivo importante. “O edital para o segundo prêmio Mônica de Menezes está perto. Então, eu incentivo bastante que mais meninas de Goiás se inscrevam nesse prêmio e tenham a oportunidade de ir lá também”, convocou.
Gabrielly comparou ainda a realidade do Itamaraty com o ambiente da UFG. “De fato, a carreira diplomática, ela ainda é uma carreira muito branca, muito elitizada. Ainda existe essa lacuna muito grande de representatividade dentro do Ministério das Relações Exteriores e é algo que nós estamos tentando mudar”, analisou.
“E com relação a UFG como um todo, eu acredito que o perfil dos pesquisadores esteja muito, muito, muito diferente. Então, nós temos uma comunidade muito diversa, principalmente dentro da Faculdade de Ciências Sociais, o curso de Relações Internacionais como um todo. Então, tem mais espaços para pesquisas pós-coloniais, decoloniais, que estejam pensando a América Latina, a população negra, uma população que foi escravizada. A gente tem muito mais espaço e abertura para falar sobre isso dentro da UFG”, concluiu Gabrielly.
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