“Muito além do que imaginávamos”, diz oncologista sobre medicamento que promete revolucionar tratamento do câncer de pâncreas
02 junho 2026 às 15h50

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*Em colaboração com o jornalista João Reynol
A luta contra o câncer de pâncreas acaba de ganhar mais um capítulo na história recente. Em entrevista ao Jornal Opção, o oncologista goiano Dr. Danilo Gusmão comentou sobre uma descoberta que pode mudar o futuro de milhares de pacientes. Trata-se de uma nova medicação oral, desenvolvida por um laboratório chamado Revolution Medicines, que promete ampliar a sobrevida e melhorar a qualidade de vida de quem enfrenta essa doença tão desafiadora. O médico apresentou os resultados em um evento, neste domingo, 31, em Chicago, nos Estados Unidos, da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO).
A doença, segundo o especialista, que é médico da Oncoclínica Goiânia, há muito tempo é alvo de pesquisas em diversos centros ao redor do mundo. O câncer de pâncreas, porém, não responde bem a terapias modernas como imunoterapia ou drogas biespecíficas, restando como principal alternativa a quimioterapia tradicional. O problema é que, mesmo eficaz como primeira linha de tratamento, a quimioterapia costuma perder força rapidamente, levando à progressão da doença.
Uma mutação chamada RAS, presente em boa parte dos tumores pancreáticos, tornou-se recentemente um alvo acionável. Subtipos como KRAS G12C e G12D já vinham sendo estudados, mas até então não havia uma droga capaz de atuar de forma ampla contra essas variantes no câncer de pâncreas. A novidade, explica o Gusmão, é que essa nova medicação consegue atacar diferentes subtipos da mutação, trazendo resultados impressionantes.

O estudo Resolute, de fase 3, comparou a droga com a melhor terapia disponível, a quimioterapia, e mostrou ganhos significativos. “Os pacientes viveram, em média, 15 meses em uso dessa medicação, muito mais do que a sobrevida mediana de 2 a 3 meses que víamos com a quimioterapia”, destacou.
Além disso, os pacientes relataram menos efeitos colaterais, o que significa não apenas viver mais, mas viver melhor. Uma das grandes vantagens é a forma de administração, trata-se de um medicamento oral, em cápsula, fácil de tomar e menos tóxico. No braço controle do estudo, os pacientes submetidos à quimioterapia habitual apresentaram mais efeitos adversos do que aqueles que receberam a nova droga. “Foi emocionante, maravilhoso. O mundo inteiro está comentando esse feito”, disse.
O desafio agora é a chegada ao Brasil. A droga ainda precisa passar pela aprovação da Anvisa e também do FDA, nos Estados Unidos. Enquanto isso, existe a possibilidade de acesso compassivo, quando o medicamento é disponibilizado antes da comercialização oficial, mediante autorização especial. “É uma tentativa. Vamos torcer para que consigamos”, afirmou.
O especialista lembra que, por enquanto, o uso da nova medicação está indicado como segunda linha de tratamento, ou seja, após falha da quimioterapia inicial. “A primeira linha ainda é muito eficaz. Mas quando o paciente progride, não há uma segunda linha bem definida. É aí que essa droga entra, trazendo uma esperança absurda de sobrevida”, explicou.
O próximo passo será avaliar se ela pode ser utilizada já na primeira linha, em estudos futuros. O panorama atual do câncer de pâncreas metastático é devastador, apenas cerca de 50% dos pacientes estão vivos após um ano de quimioterapia, e em dois anos esse número cai para 20 a 30%.
Em cinco anos, praticamente nenhum paciente sobrevive. Nesse cenário, a nova medicação representa uma mudança de perspectiva. “Ela trouxe uma sobrevida global de 15 meses, algo muito além do que imaginávamos”, apontou.
Hoje, esse paciente usa essa medicação por 8, 9, 10 meses em média. “Então de 8 meses mais ou menos, 8.2 meses em média. O paciente antes usava uma segunda linha, 2, 3 meses e já progredia. Hoje, esse paciente com essa medicação, ele usa esse remédio por 6, 7 meses. Então, o paciente aumentou, no somatório, se a gente pega a primeira linha mais a segunda linha, aumentou a sobrevida mediana para 15, 20 meses. O paciente vai viver muito mais”, explicou.
Ao ser questionado se o remédio retém o avanço do câncer, ele disse que sim. Ao ser questionado sobre a possibilidade de inclusão futura no SUS, Dr. Gusmão foi realista sobre o assunto. “No futuro bem distante, a gente pode até tentar incluí-lo, sim. Mas tudo depende de orçamento governamental, porque essas drogas chegam ao mercado com preço extremamente elevado. Temos exemplos de drogas com benefícios bem inferiores que custam R$ 80 mil a R$ 100 mil uma caixa. Essa não será barata. Mas esperança a gente sempre tem”, disse.
O entusiasmo do médico é evidente. “Eu estou confiante demais. Eu filmei a plenária na hora em que o apresentador mostrou os dados. Todo mundo aplaudiu de pé. Foi emocionante, fantástico. Ficamos maravilhados com o benefício. Depois eu te mostro o vídeo, pode divulgar”, disse.
“É uma droga nova, é uma droga inovadora, é uma droga que a gente ainda não tem disponível, mas vai ter. Vai ser disponível em um futuro espero que breve. E ela realmente é uma nova esperança para todos os pacientes com câncer de pâncreas”, concluiu.
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