Sobrecarga e sofrimento mental afastam 1,5 mil trabalhadores em Goiás e especialistas alertam para subnotificação
02 junho 2026 às 14h59

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Entre 2024 e os primeiros meses de 2026, Goiás registrou 1.509 afastamentos de trabalhadores por transtornos mentais. Os dados fazem parte de um levantamento divulgado pela Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO) e revelam um cenário de sobrecarga no mercado de trabalho, jornadas exaustivas, insegurança profissional, além da falta de redes de apoio estruturadas dentro das empresas para acolher os funcionários em sofrimento psicológico.
O balanço da pasta aponta que o estado teve 685 licenças médicas motivadas por problemas de saúde mental em 2024 e 614 ao longo de 2025. Já nos primeiros meses de 2026, o número de trabalhadores afastados já chega a 210. Segundo o levantamento da SES-GO, os principais diagnósticos que baseiam as ausências médicas no período são quadros de ansiedade, depressão e a síndrome de burnout.
Em entrevista ao Jornal Opção a presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Sistema Único de Saúde no Estado de Goiás (Sindsaúde-GO), Néia Vieira, a sobrecarga de trabalho é uma das principais explicações para o adoecimento dos profissionais. “O que a gente observa é uma sobrecarga de trabalho muito grande. Também vemos condições adversas ou falta de condições de trabalho e uma grande queixa relacionada à falta de segurança. Muitos trabalhadores já foram agredidos durante a realização do seu trabalho”, afirma.
A avaliação é compartilhada pelo psicólogo e conselheiro do Conselho Regional de Psicologia de Goiás, Kássio Kran. Segundo ele, os números funcionam como um alerta para o agravamento do sofrimento psíquico no ambiente profissional. “É um termômetro alarmante que deixa claro a urgência no cuidado em saúde mental. Os dados revelam esgotamento, peso acumulado por carga de trabalho e exigências desmedidas, jornadas extensas, baixos salários, insegurança contratual e até modelos de gestão desumanizados”, destaca.
Apesar dos números elevados, Néia avalia que a situação pode ser ainda mais grave. Segundo ela, muitos casos acabam não sendo oficialmente registrados, o que dificulta dimensionar o problema. “A gente precisa saber se houve redução real dos afastamentos ou se temos um menor número de notificações. Existem situações que chegam ao sindicato em que acidentes e ocorrências relacionados ao trabalho sequer são comunicados oficialmente”, relata.
A psicóloga do Núcleo de Psicologia do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest) Estadual, Elise Alves, compartilha da mesma preocupação. Para ela, os dados disponíveis representam apenas uma parte da realidade enfrentada pelos trabalhadores. “Na verdade, a gente tem poucos números, porque existe uma subnotificação dos transtornos mentais relacionados ao trabalho. Há um número muito maior escondido”, destaca.
Segundo a especialista, o adoecimento mental não pode ser analisado apenas como uma questão individual. Ela defende que empresas e instituições observem também fatores como a organização do trabalho, a precarização dos vínculos empregatícios e a pressão por resultados. “Às vezes, o risco não está na pessoa. O risco está no sistema social. Quando deixamos de individualizar os problemas e passamos a enxergá-los de forma coletiva, o acolhimento também muda”, explica.

Na avaliação de Kran, enfrentar o avanço dos transtornos mentais exige mais do que campanhas de conscientização. Para ele, as empresas precisam investir em mudanças concretas na forma de organizar e gerir o trabalho. “É essencial entender que o trabalho não é só uma fonte de renda. Ele é um espaço de inserção social e construção de identidade. Por isso, as instituições precisam investir em programas que identifiquem riscos, aprimorem a gestão e criem canais efetivos de acolhimento aos trabalhadores”, afirma.
Tanto o sindicato quanto os profissionais da saúde defendem a criação de mecanismos permanentes de prevenção, acompanhamento psicológico e ambientes de trabalho mais saudáveis. Para eles, enfrentar o crescimento dos transtornos mentais exige mais do que ações pontuais: é necessário transformar a forma como o trabalho é organizado e como os trabalhadores são acolhidos quando precisam de ajuda.

Lei estadual e norma federal reforçam proteção à saúde mental dos trabalhadores
O debate sobre saúde mental no ambiente de trabalho ganhou novos instrumentos de proteção nos últimos meses. Em Goiás, a Lei Estadual nº 24.265, publicada em maio deste ano, instituiu a Política Estadual de Atenção à Saúde Mental dos Profissionais da Saúde. A proposta prevê ações de prevenção, acolhimento, acompanhamento psicológico e promoção do bem-estar dos trabalhadores, além da articulação entre diferentes áreas do poder público para implementar medidas de cuidado voltadas aos profissionais.
No âmbito nacional, também avançou a discussão sobre os riscos psicossociais no trabalho. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), do Ministério do Trabalho e Emprego, passou a reforçar a necessidade de empresas e instituições identificarem fatores que podem comprometer a saúde mental dos trabalhadores, como sobrecarga de trabalho, assédio moral, jornadas excessivas, pressão constante por resultados e outras situações capazes de provocar sofrimento psíquico.
Para a psicóloga do Núcleo de Psicologia do Cerest Estadual, Elise Alves, o avanço dessas discussões ajuda a ampliar a compreensão sobre as causas do adoecimento mental. “Às vezes, o risco não está na pessoa. O risco está no sistema social. Quando deixamos de individualizar os problemas e passamos a enxergá-los de forma coletiva, o acolhimento também muda”, afirma.
A presidente do Sindsaúde-GO, Néia Vieira, defende que as mudanças sejam acompanhadas de medidas efetivas nos locais de trabalho. “A gente observa uma sobrecarga de trabalho muito grande. Também vemos condições adversas ou falta de condições de trabalho e uma grande queixa relacionada à falta de segurança”, destaca.
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